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rtp, tabu e histeria

10 comentários

Com toda a agitação que houve depois da entrevista de António Borges sobre a solução para a RTP, pensei num primeiro momento reflectir sobre o tema, mas depois era tanto o barulho que achei melhor deixar para outra altura, quando fossem conhecidos mais detalhes técnicos sobre a proposta e as alternativas que foram consideradas. O que se fará com a RTP tem muito de económico mas também de político.

Acabei por decidir escrever alguma coisa desde já, uma vez que o primeiro-ministro falou sobre o  assunto, referindo não haverem tabus e ser desejável não ter histeria nas discussões. Curiosamente, foi exactamente essa a sensação com que estava – uma certa histeria, muito focada no processo mas também na rejeição imediata da ideia, sendo que não houve uma discussão generalizada séria sobre os méritos da solução sugerida face a alternativas, e também das desvantagens, claro.

Sobre o processo político, de quem deverá anunciar o quê e em que momento, não me pronuncio.

Olhemos apenas para a ideia de solução. A ideia de concessão é desafiadora. Parece uma solução boa à primeira vista, talvez porque ainda não tinha sido proposta. Ou parece uma solução má porque não é aquela em que cada um tinha pensado ou que ideologicamente prefere. As posições públicas não andaram muito longe de uma destas duas.

Mas exploremos com cuidado o que significa concessão da RTP a privados. Ainda antes de saber quem ganha e quem perde financeiramente com esta solução, a primeira pergunta deve ser “qual o objectivo da actividade concessionada” ou mesmo “qual é a actividade concessionada”. Do que foi possível perceber, o objectivo será “assegurar o serviço público de televisão”. Do qual nasce desde logo a inevitável questão “o que é o serviço público de televisão?”.

Ora, aqui há uma profunda incapacidade de definir de forma precisa e completa o que será o “serviço público de televisão”. Basta relembrar  a tentativa feita há um ano, com toda a contestação que levantou, para se perceber a dificuldade de saber o que é. Ora, na ausência de um objectivo concreto, a definição de um contrato de concessão será especialmente complicado. Pensemos em quem estaria disposto a assinar um contrato que diga apenas “terá que cumprir o serviço público de televisão a troco de 150 milhões de euros”. Quem paga irá exigir mais em termos do que acha ser serviço público, quem presta irá argumentar que já faz mais do que suficiente. O Estado terá o interesse em ir redefinindo o que é serviço público, alargando o conceito, sobretudo depois do contrato assinado. O privado que tome a concessão quererá limitar essa redefinição, alegando que tudo o que faz é serviço público. Claro que a entidade privada que tomar a concessão estará disposta a fazer tudo o que seja considerado serviço público desde que paga para isso, mas se há adições ao conceito terá que haver acréscimo ao pagamento, e lá se vai a certeza do valor da despesa com o serviço público.

Conclusão, o contrato de concessão terá de ser mais preciso. Mas há dúvidas de que se consiga escrever um contrato que consiga especificar todas as dimensões relevantes do que é serviço público de televisão e antecipar a sua evolução para a duração da concessão. É o que em teoria económica se chama contrato incompleto, e que neste caso tem dimensões de difícil definição para serem incluídas num contrato. É necessário que essas dimensões possam ser observadas de forma a que um juiz ou entidade possam dirimir conflitos de interpretação entre as partes. É pouco provável que essa indefinição possa ser resolvida, o que sugere pouca adequação do modelo de concessão dados os objectivos de assegurar o serviço público de televisão.

Mas suponhamos, por um momento, que era possível resumir o serviço público de televisão à condição de não ter mais do 6 minutos de publicidade por hora. (se o leitor quiser, adicione outras condições similares em termos de verificação quantitativa – número de minutos falados em português por semana, número de programas de debate ou de música, etc…)

Ora, se estes valores forem especificados, então porque não considerar a alternativa de um concurso em que qualquer televisão assegure essas condições a troco do pagamento especificado. Ou seja, se for possível especificar, então o concurso deveria ser para essas condições, eventualmente até separadas, e não para uma concessão mais geral.

Ou seja, se o objecto “serviço público de televisão” é vago e dificilmente concretizável para poder pertencer a um contrato sem ambiguidades sobre o seu significado e custos associados, então a solução de concessão parece inferior à operação directa (que é aqui a versão de integração vertical entre as duas partes – contratante e contratado). Mas se for facilmente concretizável em medidas quantificáveis, então a solução concessão parece inferior a uma solução em que não há televisão pública e sim contratação a uma das estações da prestação dos serviços que levam a essas medidas quantificáveis.

A discussão sem tabus significa correr o espectro completo de opções, vendo as vantagens e desvantagens de cada uma delas – existem passos metodológicos de escolha pública para ajudar na estruturação deste tipo de decisões.

No caso da concessão da RTP, como proposta, apenas olhando para o que significa “serviço público de televisão” e o que é a sua caracteristica em termos de objecto contratável, parece sugerir que será sempre dominada por outra opção, nuns casos televisão pública, noutros casos televisões privadas contratáveis.

Como a discussão é sem tabus e sem histerias, posso estar completamente enganado e ter-me esquecido de algum factor essencial. Cá estarei para o reconhecer se for caso disso, sem histeria.

 

ps. propositadamente não quis discutir o que deve ser incluído no serviço público de televisão, pois interessa focar nas características do que é mais do que o conteúdo especifico que cada um queira dar.

Desconhecida's avatar

Autor: Pedro Pita Barros, professor na Nova SBE

Professor de Economia da Universidade Nova de Lisboa.

10 thoughts on “rtp, tabu e histeria

  1. Francisco Velez Roxo's avatar

    Caro Pedro
    Hoje e sempre, neste nosso belo Pais, tudo se diz e pouco se sabe em profundidade ( sempre com o medo da “analysis paralysis” ou “paralysis of analysis” que em politica significa mediaticamente:medo!!).Sendo o tema que tratas altamente complexo e vivendo o Pais um Tempo de Emergência”, a tua analise ” destabuada” aponta para a simplicidade de raciocínio e tomada de decisão metodologicamente serena e tecnicamente arrumada.E eu concordo que assim deve ser.
    Apenas acrescento a pergunta: porque nunca se analisam e decidem estes assuntos em função das boas praticas internacionais, citando por exemplo o caso BBC (e outros) e se e sistemático e menos mediaticos na dificil área das escolhas Publicas?
    As tantas tudo parece que se arruma entre actuações ” one man show” e ” cortinas de fumo”.Ou má preparação do processo de analise e decisão.O D.Sebastiao do audiovisual em Portugal também e ainda se chama “servico publico de televisão ” quer-me parecer:))
    Francisco

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  2. Desconhecida's avatar

    Caro Pedro,
    Trabalhei na RTP durante dois anos em que muito se discutiu o serviço público (como sempre…). Segundo a lei, o serviço público é uma “atitude”, ou seja, uma forma de fazer televisão, tal como aparece no preâmbulo. Depois é concretizado numa lista de “acções”. Concordo contigo que a lista de acções devia ser paga pelo Estado ao operador que pedisse menos dinheiro ou que “entregasse” mais audiência (eu sempre defendi que é condição essencial do serviço público a existência de público!).
    Quanto à atitude, o caso é mais puro na essência mas mais difícil de definir ou concretizar. A minha experiência é que “cabe tudo” e normalmente os “controladores” são um conjunto de “intelectuais” com enormes conflitos de interesse.
    A RTP ficou a meio da ponte. Como precisa da receita publicitária, concorre agressivamente no mercado (veja-se os leilões de direitos de futebol: se os privados concorrem, qual o papel da RTP? Estabelecer um valor mais elevado?), nem sempre com a tal “atitude”. Se tirarmos a publicidade, temos o problema do canal 2: audiência residual de classe média-alta e alta paga com dinheiro que faz bem mais falta aos desempregados.
    O Francisco fala da BBC. É um bom exemplo de serviço com público e sem publicidade, mas é preciso perceber que custa “balúrdios” (no meu tempo, era mais de 5 vezes o custo da RTP “per capita”).
    Se calhar porque sou céptico das boas intenções, não vejo boa solução à vista. Defendo assim a venda pura e simples da empresa. O Estado poderia depois leiloar conteúdos específicos importantes (cinema português, modalidades desportivas amadoras, o que fosse considerado importante). E depois teria um regulador a sério de Comunicação Social (um exemplo: as televisões devem abster-se de mostrar conteúdos sensíveis antes das 22 horas, como imagens com sangue. Pois não há dia que o jornal das 20h não tenha uma pessoa a esvair-se em sangue ou uma operação cirúrgica colorida).
    Tenho a certeza que esta solução não seria pior que o status quo, e custaria uma taxa de audiovisual bem menor.

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  3. Pedro Pita Barros, professor na Nova SBE's avatar

    Outros dois comentários recebidos por email ou facebook ou outra via electrónica:

    “Olá Pedro, Admitindo que de facto o serviço publico consegue ficar bem determinado, a tua opção é a pior para o Estado (i.e: nós!) e serve os interesses instalados (os 2 privados). Isto porque, na leitura que fiz, tal parece implicar: 1) fecho da RTP com os custos inerentes e desemprego qb e 2) mercado publicitario a dividir só pelos 2 privados. Por isso, concordando na generalidade, preferiria a manutenção da RTP com a concessao atribuida a um novo operador. …é que nós (Tugas) estamos cada vez mais pobres e precisamos de ver decisoes que invertam isso e nao o contrario…Um saudoso abraço”

    “Não há muito para inventar sobre o que é o SP Televisão. Basta ir à BBC e fazer um copy paste da missão da empresa. Abr.” e aqui está um pedaço de texto do site da BBC:
    “The BBC exists to serve the public, and its mission is to inform, educate and entertain. The BBC Trust is the governing body of the BBC, and we make sure the BBC delivers that mission.

    Led by the Chairman Lord Patten, and consisting of 12 Trustees, the Trust is the guardian of licence fee revenue and of the public interest in the BBC.

    The Trust is separate from the Executive Board which is led by the Director-General. The Executive Board is responsible for the operational delivery of BBC services and the direction of BBC editorial and creative output in line with the framework set by the Trust.

    Our job is to get the best out of the BBC for licence fee payers.

    We set the strategic objectives for the BBC. We have challenged the BBC to:

    increase the distinctiveness and quality of output;
    improve the value for money provided to licence fee payers;
    set new standards of openness and transparency; and
    do more to serve all audiences.
    We issue a service licence to every BBC service stating what we expect it to deliver and how much it can spend. We set the BBC’s editorial guidelines and protect the BBC’s independence. We monitor performance to ensure that the BBC provides value for money while staying true to its public purposes.

    Here you can find out more about us, the decisions we have made and the way that we govern the BBC. Let us know if you have any feedback and comments.”

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  4. Pedro Pita Barros, professor na Nova SBE's avatar

    Uma rápida reacção:
    – a situação da BBC reflecte a dificuldade de estabelecer o que é serviço público em termos que possam ser colocados num contrato; a utilização da figura de “trust” (curadores) é a forma encontrada para ultrapassar esse problema.
    – no caso de ser possível em Portugal chegar a uma definição de serviço público que tivesse as características de objectividade e capacidade de medição necessárias para ser incluída num contrato, então a solução não seria fechar a RTP, e sim privatizar completamente – se alguém comprasse ficariam três operadores (a menos que fosse uma das outras televisões a comprar, mas aí deveria ser feito um escrutínio adequado), e se ninguém comprasse ficariam apenas dois.

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  5. anunes's avatar

    Fico sempre confuso com estas discussões baseadas em principios “economicistas” (como se diz agora por aí).
    Se o serviço Público tem de ser pago ao operador (seja ele o novo concessionário da RTP, ou os actuais concorrentes da SIC e da TVI) devemos partir do principio que essa entidade apenas aceitará o encargo se fôr adequadamente remunerado para tal.
    Não percebo nada de televisão, mas parece uma actividade pouco “dada” a economias de escala (se tiro um programa do ar para entrar com serviço Publico, deixo de ter receita de publicidade, e se tiro o serviço Público do ar para ter publicidade, deixo de ter contribuição do Estado).
    Como a partir da escala minima para operar não parecem haver grandes ganhos de escala, e como o Estado terá sempre de pagar o valor correcto pelo serviço em causa, das duas uma:
    1) Ou a carga horária do serviço público é negligenciável, face aos custos fixos da operação de uma TV, o que justificaria a opção concessão em vez da manutenção do canal público;
    2) Ou o valor relativo da contribuição do Estado para essa operadora será bastante significativo, quando comparado com os custos fixos da mesma, o que retira o argumenta da concessão.
    Em suma, ou no final o serviço público se torna numa anedota, ou o Estado pouco ou nada ganhará comparado com a alternativa de manter um canal público (desde que bem gerido e com custos controlados, o que não parece compatível, aí sim, com a manutenção de 2 canais, mais os “cabos”).
    Isto em “economês” básico que todos entendem.
    Mas, felizmente, na vida e numa sociedade evoluida, haverá ainda muito mais do que $$$$.

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  6. Helena Lopes's avatar

    Caro Dr. Pedro Pita Barros,
    Gostei muito do modo como analisou a questão das concessões e das suas alternativas.
    Pessoalmente, não me oponho a ideia da concessão do canal público. Mas confesso que me sinto enganada como contribuinte, no que diz respeito à duração eventual destas concessões (falou-se em 15 anos, não sei se já existe informação mais concreta), pois qualquer definição datada de 2012 de um serviço público de televisão, num sector em que a tecnologia tem evoluído tanto nos últimos anos (media), num prazo de 15 anos deverá ser completamente obsoleta. O mesmo se passa com o valor real deste serviço- o custo da tecnologia tem vindo a diminuir, e muito provavelmente o interesse pelo meio televisivo daqui a 15 anos poderá desvalorizar, e lá nos confrontaremos com o mesmo dilema das PPP e dos CMECs, em que ficamos presos a contratos claramente sobrevalorizados aos quais não podemos fugir.
    Fiquei muito curiosa com a figura do curador que refere existir na BBC. Mas a nossa experiência com os provedores tem sido tão má que duvido neste país que alguma vez essa figura, a existir possa exercer competentemente as funções designadas.
    Uma outra questão, ao verificar-se a manutenção da contribuição audiovisual, ao extinguir-se um canal publico (rtp2), não estará o contribuinte a pagar o dobro dos impostos (a mesma taxa, por metade da oferta de serviço)?

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  7. Pedro Pita Barros, professor na Nova SBE's avatar

    @Helena, obrigado pelo seu comentário e só para não ter tabus, os curadores poderiam até ser ingleses, por exemplo alguém com experiência de ter sido curador na BBC – devemos estar abertos ao exterior também nestes aspectos.

    Quanto à questão que coloca, se a extinção do canal 2 significar que os seus conteúdos transitarão para o canal 1 à custa de programas “ditos comerciais” (directamente concorrentes com os das televisões privadas), então teria exactamente a mesma oferta de “serviço público”. Se a extinção significar que desaparecem, então para a mesma taxa tem-se realmente menor serviço.

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  8. Jorge Correia's avatar

    Caro Professor,
    Gostei do raciocínio mas quero dar dois argumentos que são fundamentais para discutir o futuro da RTP:

    1. Qual é a vantagem de “concessionar” um serviço em que o Estado paga?

    2. O Estado/Nação está disponível para perder um instrumento fulcral na defesa da lingua, da cultura e mesmo da protecção civil?

    3. A democracia enquanto espaço de debate público beneficia ou é prejudicada com a saida da RTP da esfera do controlo público para o empresarial?

    4. Uma empresa romena ou iraniana pode ganhar a concessão?

    5. A Liberdade de Imprensa faz parte desta equação?

    Não quero só fazer perguntas, Posso dar a minha opinião com o viés natural de quem trabalha na Rádio Pública desde 1993:

    1. O Serviço Público deve manter-se no controlo e propriedade do Estado (não do Governo)

    2. O controlo do Serviço Público deve ser cada vez mais alargado aos cidadãos, seja no estabelecimento extricto e descritivo das suas funções seja através da sua verificação pelo parlamento, conselhos de opinião, provedores, contibuintes.

    3. O Conceito de Serviço Público deve ser o mais alargado e pluralista que se consiga

    4. O financiamento deveria ser exclusivamente público

    5. Confesso que me sinto muito mais confortável e livre numa empresa que tem tantos olhos sobre ela.

    6. Imprensa. rádio e televisões públicas e privadas são complementares

    7. O “meu” conceito de serviço público é o da RDP. Radiodifusão Porrtuguesa agora na marca RTP. Pode melhorar-se? Claro. Sempre.

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    • Pedro Pita Barros, professor na Nova SBE's avatar

      Olá Jorge,
      Ainda antes de saber se há vantagem em concessionar o serviço público da RTP, há que saber se o serviço público tem as
      características técnicas que permitem que seja concessionado. Caso em que a solução da concessão deixa de fazer sentido.
      A meu ver, essas condições não estão preenchidas nas definições habituais de serviço público que têm sido apresentadas.

      Claro que podemos dizer que não há serviço público de televisão, ou que este é devidamente prestado pelo livre funcionamento do mercado, caso em
      que a privatização dos canais actualmente públicos seria a solução imediata, lógica e consequente.

      De outro modo, uma solução tipo BBC, com escrutínio permanente e orçamento a ser cumprido, será a melhor solução, ficando
      para discutir se um ou dois canais, em que moldes, papel do online, etc…

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