Momentos económicos… e não só

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de uma entrevista do “chefe da troika”

3 comentários

surgiu um titulo “As 10 medidas que a troika ainda quer aplicar em Portugal”, e que sendo um sumário provável da avaliação que agora terminou, vale a pena olhar e até agrupar por temas:

1. Nem todas as empresas podem aumentar salários

2. Devem evitar-se mecanismos que aumentem salários de forma automática.

Sendo a primeira uma constatação provavelmente óbvia, as implicações que tem podem ser menos perceptíveis quanto à preocupação que é expressa. Uma empresa em dificuldades financeiras não terá a capacidade de aumentar salários, e se for obrigada a fazê-lo poderá acabar por encerrar. Obrigar uma empresa a aumentar salários quando tem dificuldades em vender o que produz pode apenas acelerar o desemprego. Mas como se obriga uma empresa a aumentar salários? bom, é aqui que entra o papel do Governo com as portarias de extensão de acordos sobre salários, que não tem em consideração a condição económica real de cada empresa. É natural que surja o contra-argumento de que essas extensões pretendem garantir a todos os trabalhadores numa indústria as mesmas condições salariais. O problema é que não garante o emprego. É nesta escolha entre emprego para mais pessoas, mesmo com salários diferenciados, ou salários e mais elevados para alguns e desemprego para outros. Para se conhecer melhor este trade-off, é importante que sejam dados números sobre o impacto destas regras do mercado de trabalho sobre as desigualdades, em particular no contributo (ou não) para maior desigualdade quando se consideram os desempregados e menor desigualdade entre os que conseguem manter emprego. Não sei se era esta a implicação exacta da afirmação do chefe da missão da troika, mas vai no mesmo sentido, e encontra-se expressa na segunda.

3. Direccionar verbas para áreas de maior relevância.

4. Desalavancar a economia mas sem estrangular as empresas.

Estes dois aspectos estão fortemente ligados. E implicam uma visão clara – quem tem a capacidade para saber onde investir? e saber onde investir significa escolher empresas e projectos com o objectivo de obter retorno. Só com esse retorno do investimento será possível a prazo reduzir o endividamento das empresas. Isto é, direccionar bem verbas agora é um compromisso com o crescimento, mas será preciso lidar com a restrição imposta pela necessidade de redução do endividamento privado. Tradicionalmente, em Portugal tem sido os bancos a fazer o encontro entre poupanças e oportunidades de investimento. Nas actuais condições do sistema financeiro, será desejável que se encontrem outras formas de fazer esse encontro. Aliás, se muitas vezes se acusa os bancos de pagarem baixas taxas de juro nos depósitos e cobrarem elevadas taxas nos empréstimos (com o aumento dos famosos spreads), então provavelmente é o momento de procurar criar e consolidar formas alternativas de as empresas encontrarem financiamentos e os aforradores encontrarem aplicações para os seus fundos. A intervenção do Governo deverá ser mais no sentido de fomentar os mecanismos de encontro entre as partes do que dirigismo central com atribuição de fundos públicos.

5. Cumprir défice só se for possível.

9. Sem mais austeridade

Aqui entra novamente a difícil distinção de passar para a opinião pública entre indicadores estruturais ajustados dos mecanismos de estabilização automáticos e os valores observados, que reflectem quer os aspectos estruturais quer os aspectos conjunturais. Para além do problema económico subjacente, há um problema de comunicação – como fazer a distinção nessa comunicação entre aspectos estruturais e aspectos conjunturais e para pelo menos duas audiências distintas – população residente em Portugal e investidores internacionais (sejam financeiros sejam de produção em Portugal).

 

6. Manutenção do diálogo político.

A estabilidade do percurso seguido é essencial para que haja investimento estrangeiro, seja concessão de crédito, seja tomada de dívida pública portuguesa, seja investimento em instalações produtivas em Portugal. Até agora, Portugal tem-se mantido dentro de parâmetros que asseguram confiança em que se será mantido um quadro estável.

7. Cortes na energia levaram a bom porto.

8. Estudo sobre PPP vai ajudar Governo.

No comments sobre estes dois. São situações muito complicadas, onde os contratos assumidos são normalmente leoninos, mas não deixam de ser contratos. Mais importante do que renegociar termos contratuais agora, é assegurar que renegociações futuras a pedido dos concessionários e empresas com rendas ditas excessivas são vantajosas do ponto de vista do estado, e convém definir desde já o que é vantajoso do ponto de vista do estado.

10. É preciso confiar e ser-se confiável.

Este é o aspecto de mais fácil erosão e mais difícil construção.  A visão geral de que em Portugal não se faz nada até ao fim só se altera levando até ao fim. Não serão as condições ideais. Provavelmente. Mas o valor da reputação é algo de intangível, mas que não pode ser desperdiçado. Se nalgum aspecto Portugal se tem mostrado diferente da Grécia é no grau de execução. E ganhar confiança não é só perante os mercados financeiros internacionais. Esse será talvez o aspecto que mais está na mente de todos nesta altura. Só que a prazo é preciso que essa mesma confiança exista na população portuguesa e nos investidores directos estrangeiros. Se se está sempre pendente de uma decisão governamental que pode ser facilmente alterada, só se farão projectos de curto prazo e de retorno rápido, mesmo que baixo. O que é menos interessante que investimentos de longo prazo. E se se quer apostar na inovação e na criatividade, esses são investimentos que demoram anos a produzir efeitos.

Desconhecida's avatar

Autor: Pedro Pita Barros, professor na Nova SBE

Professor de Economia da Universidade Nova de Lisboa.

3 thoughts on “de uma entrevista do “chefe da troika”

  1. António Parente's avatar

    Caro Pedro Pita Barros

    O seu post coloca-me a questão da neutralidade da análise económica, enquanto ciência, e a componente ideológica que lhe está subjacente. Quando refere questões de natureza laboral, o Pedro Pita Barros defende a flexibilidade. Não tem em conta que a legislação laboral também é um contrato social em que o Estado arbitra as relações entre empresas e trabalhadores. Alterar um contrato deste tipo, seja a favor das empresas ou trabalhadores, pode provocar rupturas na forma como as empresas ou trabalhadores organizam as suas vidas se forem feitas de forma abrupta e desajustada.

    Dois exemplos: 1) Francisco Louçã, primeiro-ministro, toma posse e no dia seguinte publica uma lei em que todos os trabalhadores temporários passam a efectivos e são proibidos os despedimentos; 2) As mudanças actuais na legislação laboral que procurando acabar com uma segmentaçao criam outra: pessoas que na fase final da sua vida laboral são apanhadas por um tsunami legislativo ao mesmo tempo que lhes reduzem os apoios sociais, baseando-se numa falsa convicção que existem empregos disponíveis e não há quem os queira ocupar, e que não têm hipótese de se reajustar às mudanças de mercado caindo numa situação de pobreza.

    Quando fala das relações empresas/Estado – no caso das PPP – aí afirma “contratos não deixam de ser contratos” e mostra-se avesso a alterações remento-as apenas para renegociações futuras. Aqui estou de acordo consigo.

    Parece esquecer, e perdoar-me-à se estiver a ser injusto, que na área laboral se gera um sentimento de ressentimento e desencanto que perdurará por muitos anos e poderá afectar a saúde da nossa democracia. A Grécia não está assim tão longe.

    Não comento os outros aspectos do seu post para que o comentário não fique demasiado extenso.

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  2. Pedro Pita Barros, professor na Nova SBE's avatar

    Caro António,
    Obrigado pelo seu comentário. Procurei ser ideologicamente neutro.
    O elemento central é saber se os resultados de negociações salariais numa empresa podem ou devem ser impostos a outras empresas, e se assim se fizer qual o risco que se corre, que leva a uma questão habitual de trocar menos emprego por mais salário para quem fica empregado. Colocando sob a forma de pergunta a minha preocupação: as portarias de extensão de acordos salariais com sindicatos geram algum efeito negativo em termos de emprego?

    Se a resposta for sim, então a questão seguinte é: será que o aumento do salário para os que ficam empregados compensa o aumento de desemprego?

    Claro que se a resposta for não, não há problema com o que tem sido o papel destas extensões de acordos laborais.

    O outro aspecto que menciona, distinto mas igualmente relevante, é de como gerir transições quando se alteram regimes, e neste campo se o seu alerta é que não temos mecanismos nem tido grande preocupação com a sua criação que atenuem os custos desse tipo de transições, concordo inteiramente.

    No caso das PPP, se fosse possível renegociar unilateralmente impondo novas condições contratuais, essa seria uma opção a seguir. A minha dúvida é se tal é possível. Se os contratos de PPP estiverem feitos com uma redacção tal que digam que qualquer iniciativa de renegociação por parte do estado não pode resultar em menor remuneração para a parte privada, então em vez de perder tempo a renegociar agora, é preparar melhor o futuro, controlando activamente a PPP, preparando renegociações a pedido da empresa, etc… A alternativa de o estado “rasgar” os contratos que faz deve ser evitada. Já basta quando o faz com os contratos implícitos com a população, como no caso do valor das pensões.

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  3. marco's avatar

    Caro Pedro Pita de Barros

    Poderia me indicar em que país as políticas recomendadas pelo FMI resultou em sucesso? No Brasil, sempre associamos o FMI com recessão e empobrecimento.

    Uma outra questão que vejo com perplexidade é o endividamento público exagerado. Não seria interessante lutar para que o endividamento público, se existisse, tivesse que se dar em moeda nacional ou seja com moeda que o país pudesse emitir para tornar a dívida enquadrável? Claro, para os países do EURO isso é impossível, o que deveria implicar na impossibilidade de endividamento público ou monetização automática pelo Banco Central europeu. Parece-me óbvio que os banqueiros representam a grande ameaça à uma economia de mercado que é , de fato, o que nos interessa. O que está dificil de perceber é que esquemas como PPPs ou coisas que o valham, pelo menos no Brasil, retratam simplesmente uma estratégia dos bancos. Aqui no Brasil, as privatizaçoes e concessões todas têm uma característica em comum: garantir uma rentabilidade real de 11% ao ano, ou seja, transformaram atividades de governo em empréstimos garantidos. Como brasileiro, quero anular os contratos – contrato ruim , devemos jogar no lixo – que os governos fizeram nos últimos vinte anos.

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