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De Unidades Locais de Saúde Universitárias a Centros Clínicos Universitários?

Foi disponibilizado recentemente o relatório final da comissão técnica independente sobre as unidades locais de saúde (ULS) universitárias.

A principal conclusão não é inesperada: a recomendação para a “transformação” das atuais ULS de “cariz universitário” (as que têm uma ligação a uma faculdade de medicina) em Centros Clínicos Universitários (CCU).

Mais importante que a designação é saber se estas ULS têm necessidade de um modelo de governação e de um modelo de financiamento distinto.

A proposta (recomendação) feita pela Comissão dá uma resposta afirmativa, e apresenta, no documento, as bases da proposta.

O ponto de partida é a exigência de organizar de forma coordenada três grupos de atividades: i) clínica; ii) formação básica e avançada; iii) investigação e inovação.

Como foram identificados mecanismos de governação e de financiamento distintos, surge a proposta do novo modelo organizativo dos CCU (Centros Clinicos Universitários).

Esta proposta, tendo do meu ponto de vista uma apreciação positiva, merece alguns comentários, sobretudo ligados a detalhes operacionais.

Por ordem cronológica de apresentação no documento:

A tutela partilhada entre Saúde e Educação (suponho que será Ministério do Ensino Superior e Ciência, se vier no futuro a ser feita a separação que já existiu) faz sentido, naturalmente. Adicionalmente ao que é dito, há vantagem em definir uma unidade operacional ou comissão conjunta que possa dar uma continuidade de acompanhamento dentro dos Ministérios relevantes.

    Quando se refere a colaboração institucional com entidades externas, a operacionalização que venha a ocorrer deverá acomodar de forma separada, e até com instrumentos diferentes, dois tipos de colaboração: a) a difusão interna, em Portugal, de novos conhecimentos científicos e de prática; b) a participação na fronteira de geração de conhecimento internacional, com destaque para as colaborações a nivel da União Europeia. 

    São duas atividades de natureza muito diferente, ambas úteis e necessárias ao desenvolvimento dos CCU, e irão precisar de quadros diferentes para os vinculos institucionais colaborativos que são mencionados.

    Sobre a existência de um Conselho Nacional dos Centros Clinicos Universitários, não ficou clara a sua necessidade. Em concreto, o que será discutido e acordado neste conselho que não seja ou não possa ser discutido em algum outro conselho ou organismo que já exista?

    A sugestão de uma governação com”duas camadas” surge como adequada, bem como a sugestão de ter cruzamento de vogais executivos entre o braço de atividade clinica (ULS) e o braço de atividade universitária (a faculdade de medicina), garantindo a representação permanente de cada um dos lados no orgão executivo do outro. 

    A reciprocidade invocada é importante para a coordenação. Será provavelmente útil reforçar essa ligação tendo elementos técnicos de apoio que sejam comuns aos dois orgãos executivos para assegurar que há permanente atualização, de forma automática, sobre as decisões tomadas em cada um dos braços do CCU. 

    É explicitado que o “vogal executivo indicado pela Escola ou Faculdade de Medicina assumirá o pelouro das atividades pedagógicas, cientificas e de inovação no âmbito do Centro Clínico Universitário”. Tal garante ao braco universitário a condução desse aspecto. Embora não fosse um detalhe que me ocorresse, é uma boa solução para o objectivo pretendido.

    Nas recomendações referentes aos recursos humanos, gostaria de ter visto mais detalhe no que se refere à circulação de profissionais entre a área clínica e a área académica. Em particular, creio ser relevante que essas regras também permitam passar de uma área de um CCU para outra área de outro CCU. A mobilidade profissional deverá ser favorecida pelo modelo adoptado. Um outro aspecto relacionado é como serão interligadas e participantes as três diferentes culturas envolvidas, hospitalar, cuidados de saúde primários e académica. 

    A consideração de provas públicas para progressão profissional no âmbito dos CCU fornece um meio de escrutínio científico e profissional importante.

    Gostaria de ter visto uma lógica mais desenvolvida para o ciclo de vida profissional. É referido que são permitidos “ajustes conforme as necessidades institucionais e os interesses e competências dos profissionais”. 

    Seria útil conhecer o que deve ser entendido como o percurso típico de equilibrio entre as atividades clínicas e as atividades académicas, ao longo da vida profissional. Pressuponho que não seja o mesmo tipo de equilibrio ao longo de toda a carreira profissional no CCU.

    É dito que os CCU “deverão contribuir para a equidade contratual”. Esta parte parece-me complicada de assegurar se não houver grande clareza sobre o que se pretende em cada uma das carreiras, clínica e docente. É normal que haja auto-seleção dos profissionais de acordo com as suas capacidades e preferências. 

    A pressão salarial numa e noutra carreira é natural que dependa de quantos profissionais queiram estar numa carreira face aos lugares nela disponíveis (seja pela negociação direta de condiçoes salariais, seja pela disponibilidade de lugares a serem preenchidos, seja qualquer outro factor de atratividade da carreira, o que fará parte do “salário implícito”).

    É importante a consideração de tempo protegido enquanto “oportunidade” colocada à disposição e não como “direito”.

    É prevista (recomendada) flexibilidade no tipo de envolvimento dos profissionais, permitindo que cada CCU possa desenvolver uma filosofia interna própria, decorrente das suas tradições e das suas ambições no espaço nacional e no espaço europeu. Em particular, esta flexibilidade pode permitir situações como períodos sabáticos para atualização de conhecimentos ou para maior inserção na prática clinica (consoante o ponto de partida do profissional de saúde) e para o acolhimento temporário de pessoas de outras ULS (CCU ou não).

    No capítulo do financiamento, há também pontos a destacar.

    A recomendação de os CCU promoverem “a sua própria sustentabilidade, garantindo um nivel de financiamento alinhado às necessidades reais”. Sendo salutar como princípio é difícil perceber como pode ser concretizado. 

      As actividades principais, clinica e académica, têm os preços e os volumes determinados por entidades externas ao CCU: não pode aumentar o preço dos serviços que presta, não pode estabelecer livremente propinas no braço académico, não pode rejeitar tratar doentes em caso de necessidade, não escolhe o número de alunos. 

      Os rendimentos de propriedade intelectual que existam, ou venham a existir, não serão, suspeito, a principal fonte de receitas do CCU. De certo modo, este aspecto é reconhecido quando se discute o aprofundamento do modelo de financiamento por capitação afastada, elemento que vejo como essencial neste contexto dos CCU. 

      A discussão será essencialmente técnica. Para a definição da capitação ajustada é necessário definir qual a população servida para cada conjunto de serviços organizados por diferenciação e complexidade de acordo com a rede de referenciação. 

      Sendo as unidades clínicas dos CCU um misto de cuidados de proximidade (a componente de cuidados de saúde primários da ULS parte do CCU) e de cuidados muito diferenciados, incluindo referenciação de doentes de elevada complexidade de outras us, o número de pessoas abrangido (o “capita” ) será diferente.

      E aqui há duas soluções: ou a capitação ajustada é “fatiada” por tipo de serviços para acomodar redes de referenciação ou tem de existir um sistema de preços internos dentro do SNS. Um exemplo simples ajuda a ilustrar a minha preocupação. Tomemos duas zonas, A e B, que têm populações nA e nB

        Estas populações têm necessidade de dois grandes grupos de cuidados de saúde, 1 e 2, em que o “custo per capita” é c1 > c2 (ou seja, o tipo 1 tem cuidados mais diferenciados e de custo mais elevado). 

        A zona A é servida por um CCU que tem capacidade para tratar ambos os tipos de necessidade. A zona B é servida por uma ULS que tem capacidade de satisfazer as necessidades de tipo 2 e referência as necessidades de tipo 1 para o CCU. 

        Assim, o CCU terá despesas globais (nA + nB) c1 + nA c2, enquanto a ULS terá despesas c2 nB

        O total de despesas per capita na zona A é (c1 + c2), igual ao total da despesa per capita na zona B (a despesa total depende da população de cada zona).

        A versão de financiamento por capitação ajustada tomando por base a população de cada região significa que o CCU deverá receber, para ter “financiamento equilibrado”, per capita (c1 (nA +nB) + c2 nA) /nA = (c1+c2) + c1 nB/nA

        Na versão de capitação “fatiada” recebe c1 per capital para uma população abrangida pelos serviços 1 que disponibiliza dada por (nA +nB)  e recebe c2 per capita pelos serviços 2 que disponibiliza à população nA

        Matematicamente, o volume global de receitas é o mesmo, apenas a forma de as apresentar difere. 

        Numa segunda opção do modelo de financiamento, cada entidade recebe por capitação a despesa esperada da sua população da área de abrangência e paga pelos serviços que usar, para a sua população de abrangência, de outra unidade. 

        Ou seja, o CCU recebe (c1+c2) nA, sendo (c1+c2) o valor da capitação enquanto a ULS (na zona B) recebe na (c1+c2) nB. E quando a população da zona B recorre ao CCU para os serviços de saúde de tipo 1 tem de pagar um “preço interno ao SNS” de p = c1 dando receita total c1nA como transferência da ULS para o CCU.

        Em termos matemáticos as receitas globais de cada entidade são iguais às do modelo de financiamento por capitação ajustada (” fatiada”). Contudo, há uma diferença importante: se a ULS puder direcionar os seus doentes com necessidades tipo 1 para diferentes CCU em lugar de ter uma referenciação obrigatória para um único CCU. 

        O que a recomendação da CTI me parece sugerir é a adoção da capitação ajustada como base, e ter “preços internos ao SNS” caso haja fluxo de doentes, que deveria contudo ser residual porque esses pagamentos seriam aplicados apenas a transferências para fora da referenciação definida. 

        Se a capitação ajustada tiver como base as despesas de base histórica de cada unidade face à população da sua área de abrangência, então há implicitamente uma aproximação ao modelo de capitação ajustada (“fatiada”). 

        A sugestão de um fundo centralizado de compensação é importante para compensar desequilíbrios acentuados entre o cu nos custos de tratar doentes de muita elevada complexidade (e custo). As regras de definição dos fluxos (contribuições e recebimentos de cada CCU) deverão ser estabelecidas de forma a preservar incentivos para a procura a eficiência de funcionamento e para evitar a seleção de casos (ou seja, evitar a tentação de afastar os doentes mais complexos, ainda que de forma implícita)

        A preocupação com o financiamento específico das atividades de “Ensino, Investigação e de Inovação” é adequada, embora haja sempre alguma flexibilidade na gestão de verbas dentro do CCU. 

          É provável que seja de completar os requisitos de transparência na utilização de recursos em atividades académicas e em atividades assistenciais com algum mecanismo de auditoria (até eventualmente aleatório).

          Um aspecto que não resulta claro sobre a diversidade de fontes de financiamento é se todas elas deverão estar dentro do perímetro orçamental público, ou não. Ter financiamento canalizado por entidades ligadas ao CCU mas que não estão dentro do perímetro orçamental público é algo que será aceite? Tem a vantagem de maior flexibilidade de gestão, tem a desvantagem de um menor escrutínio sobre o uso dessas verbas.

          É recomendado, e bem, que se tenha uma visão plurianual. Aqui, creio que até se justifica um maior detalhe. Deverá ser clara uma visão executiva de orçamento e sua gestão a 3 ou a 5 anos, e uma visão estratégica de 10 anos. A primeira, visão de gestão, deverá atualizada anualmente para o horizonte dos três anos seguintes, a segunda atualizada a cada três anos para os dez anos seguintes (e com uma intervenção importante da primeira “camada” de governação e não apenas da comissão executa, ou seja, dar um papel claro ao Conselho de Administração não executivo).

          Na componente de monitorização, adiciono apenas que se deverá automatizar o mais possivel a recolha de informação de rotina para esse fim e a criação de relatórios. A informação é recolhida diretamente tratada por quem monitoriza em lugar dos CCU terem de elaborar e aprovar internamente relatórios antes de serem enviados. Poupa-se tempo e tentações de “embelezar”a informação prestada.

          Finalmente, embora a CTI tenha uma preferência por manter os atuais Centros Académicos Clínicos, creio que seria mais simples os atuais Centros Académicos Clínicos desaparecerem enquanto tal na sua formulação atual e ser desenvolvido, se for sentida a sua falta, um novo formato de colaboração envolvendo os CCU. 

            É usual em Portugal ter-se resistência a fazer desaparecer organismos. Neste caso, a necessidade de evolução justifica extinguir e criar de novo se for necessário e ajustado ao novo contexto, mais do que adaptar e “torcer” o que foi pensado fora da existência de CCU, para ter maior capacidade de evitar duplicações geradoras de confusão. É importante usar o que se aprendeu com a criação e funcionamento dos Centros Académicos Clínicos. Não há que ficar presos à sua existência.

            Globalmente, a CTI produziu uma recomendação clara, alinhada com o espirito que presidiu à sua criação. A recomendação é baseada numa justificação apresentada em detalhe e com linhas orientadoras explicitadas. Podendo haver ajustes decorrentes de alguma discussão pública que se gere entretanto, está estabelecido o caminho para uma decisão política fundamentada.

              Por curiosidade, segue-se um resumo do documento da CTI-ULS, obtido por instrumento de inteligência artificial (sem cortes ou correções face ao que saiu). Como nota, depois de ler o resumo automático, considero haver vantagem em que se leia o documento original na integra. O relatório inclui também depoimentos de várias pessoas, individualmente ou em representação de entidades, que foram ouvidas no processo. Se só tiverem possibilidade de ler uma, sugiro a de Alexandre Lourenço. 

              Resumo do Relatório Final da Comissão Técnica Independente sobre as ULS Universitárias (obtido por aplicação de ferramenta de inteligência artificial)

              O relatório analisa a transformação das Unidades Locais de Saúde (ULS) universitárias em Centros Clínicos Universitários (CCU), destacando a necessidade de uma reformulação estrutural para alinhar melhor a prestação de cuidados de saúde com o ensino e a investigação. Esta mudança tem como objetivo modernizar o Serviço Nacional de Saúde (SNS), aproximando-o de modelos internacionais que promovem a integração entre assistência clínica, formação médica e inovação científica.

              A atual estrutura estatutária das ULS universitárias não reflete adequadamente a complexidade da sua missão, limitando a captação de financiamento, o desenvolvimento de programas inovadores e a inserção em redes internacionais de investigação. A falta de um quadro jurídico específico compromete a capacidade dessas unidades em consolidar uma identidade institucional forte e funcional.

              A transição para Centros Clínicos Universitários busca consolidar um modelo mais eficiente e inovador, onde a prática clínica se articule diretamente com o ensino e a investigação. O relatório destaca a necessidade de um regime jurídico diferenciado, que permita uma estrutura de governação robusta e adaptável, facilitando o acesso a recursos e promovendo a cooperação entre hospitais, universidades, centros de investigação e a indústria biomédica.

              A criação dos CCU exigirá uma nova estrutura de governação, que integre uma gestão estratégica eficiente e sustentável, garantindo transparência e responsabilidade na alocação de recursos. Além disso, a reorganização deverá prever modelos flexíveis de financiamento, considerando a complexidade dos serviços prestados e incentivando parcerias público-privadas.

              Em termos de impacto, espera-se que esta reforma posicione Portugal de forma mais competitiva no cenário global da medicina e das ciências da saúde, promovendo um ambiente mais favorável para o desenvolvimento de tecnologias médicas e para a formação de profissionais altamente qualificados. Além disso, a integração da assistência com a investigação e a inovação deverá permitir melhorias na qualidade dos cuidados de saúde e ganhos operacionais significativos para o SNS.A implementação da reforma deverá ser acompanhada por sistemas de monitorização contínua, com indicadores de qualidade e eficiência, assegurando que os novos Centros Clínicos Universitários cumpram sua missão de excelência no ensino, na assistência e na investigação.

              (imagem criada com ferramenta de inteligência artificial)


              1 Comentário

              Noticias da semana que passou (2) – demissões e nomeações, com destaque para a ULS Amadora-Sintra

              Na última semana, o ULS Amadora Sintra esteve no foco mediático (dia 03/02 – dificuldades nos serviços de urgência, dia 05/02 reunião do conselho de administração da ULS Amadora Sintra com a Ministra da Saúde, dia 06/02 conselho de administração apresenta demissão que é aceite).

              Há assim mais uma mudança de um conselho de administração de uma ULS, o que vai levar a um acentuar da discussão em torno das substituições que têm ocorrido no sector público da saúde.

               A mudança de conselhos de administração de hospitais, Unidades Locais de Saúde (ULS) na atual configuração do Serviço Nacional de Saúde (SNS), não é uma novidade deste governo. Os dados, recolhidos há cerca de 5 anos, sobre nomeações de conselhos de administração de hospitais do SNS, por Alexandre Lourenço, e disponíveis na sua dissertação de doutoramento, terminam em 2020 e referem-se à década 2010-2020, mas suspeito que não se tenham alterado muito: em 2016 houve 17 nomeações, em 2017 atingiriam o valor de 21 novas nomeações de administrações, em 2018 foram 11, em 2019 foram 16,e em 2020 foram 15 nomeações. Assim, as 11 novas administrações nomeadas em 2024 pelo novo Governo (acreditando no que tem sido uma contagem feita na comunicação social) não são um valor fora do habitual. Porém, mais importante do que saber se o número de mudanças é uma mudança radical face ao passado (e quantitativamente, não se distingue) é saber se o atual momento propícia. ou é adequado a, fazer essas mudanças.

              A substituição de uma administração após pouco tempo torna mais vulnerável essa decisão à acusação de ser por motivos partidários. Essa acusação em si mesma não é nova. Numa busca rápida pelo passado, em 2011 o PS acusava o PSD de fazer nomeações de natureza política para os conselhos de administração dos hospitais, em 2007 era o Bloco de Esquerda que acusava o PS, em 2023 o PSD acusava o PS, em 2018 em entrevista Correia de Campos, antigo ministro da Saúde por duas vezes, indicava que, talvez, cerca de 1/3 dos gestores hospitalares eram escolhidos politicamente (entrevista a 23/09/2018).

              Há uma característica que torna o atual momento diferente. A criação das novas ULS no início de 2024 deu lugar a nomeações das respetivas administrações nessa altura (o que deve ter correspondido a várias centenas de pessoas nomeadas), estando algumas delas a ser agora substituídas após pouco tempo em funções, e por um governo diferente do existente em finais de 2023. 

              Se houve, com a criação das 31 novas ULS, muitas mudanças de equipas dirigentes, é de esperar que um ano de funcionamento não seja suficiente para que tenham conseguido estabilizar o funcionamento regular dessas novas organizações. A substituição de um conselho de administração tendo por justificação insuficiente desempenho tem por isso uma exigência grande: como distinguir o que resulta da capacidade de gestão do que resulta da transformação imposta com a constituição da ULS? Naturalmente, nas mudanças que ocorram nas 8 ULS que existiam, torna-se mais simples avaliar se é o desempenho da gestão o motivo da mudança.

              Adiciona-se a este contexto a visão, expressa por um deputado PSD, de sintonia “com a tutela”, o que naturalmente abre a possibilidade de nomeações por motivos políticos, e implicitamente, a posição de dever ser quem for titular da pasta do Ministério da Saúde a fazer essas nomeações de forma direta.

              Há, a meu ver, dois erros sucessivos nesta posição. Primeiro, os cargos de gestão das ULS são inerentemente técnicos. O que se pretende é capacidade de gestão das unidades, e não capacidade política de falar “com a tutela”. A gestão das ULS é, naturalmente, enquadrada pelas políticas gerais para a área da saúde, sendo estas definidas pelo Ministério da Saúde, e os gestores devem encontrar, na sua atividade específica, a forma de seguir essas políticas gerais. Não os torna em agentes políticos (se fossem atores políticos, então talvez devessem ser eleitos pelas populações das respetivas ULS?). O segundo erro que vejo é considerar que deve ser quem estiver à frente do Ministério da Saúde a fazer essas nomeações quando se tem uma Direção-Executiva do Serviço Nacional de Saúde (DE-SNS). Um conselho de administração sente-se responsabilizado perante quem o nomeia. Assim, sempre que uma equipa dirigente de um ULS discordar de alguma decisão da DE-SNS irá ter a tentação, e possivelmente a prática, de se ir “queixar” e procurar reverter essa decisão junto de quem a nomeou. Subverte-se inevitavelmente a capacidade da DE-SNS ser executiva. Vai-se repetir com as ULS e a DE-SNS o que anteriormente sucedia com as Administrações Regionais de Saúde e os grandes hospitais de cada região, e coloca-se novamente o topo do Ministério da Saúde a tratar da micro gestão das ULS? 

              Dentro deste contexto geral, colocou-se nos últimos dias a demissão, e consequente substituição, do conselho de administração da ULS Amadora-Sintra, que tem dentro de si o Hospital Fernando Fonseca. A discussão que se tem gerado à sua volta é um exemplo do que facilmente pode suceder de modo mais sistemático nos próximos tempos. 

              Teria sido certamente melhor para a população servida pela ULS que não estivesse neste momento a ocorrer uma mudança da equipa de gestão. Tanto mais que a ULS de Amadora-Sintra tem o hospital subdimensionado para a população que serve na sua zona de abrangência, sendo uma população de considerável diversidade e complexidade nas questões de saúde, e o novo hospital de Sintra, que deverá vir trazer algum alívio da pressão existente, já se encontra construído, mas ainda não está em funcionamento.

              A adicionar à pressão assistencial, encontra-se a tensão interna no hospital, que obviamente em nada ajuda a conseguir dar uma resposta adequada à população. Não é para mim claro que a saída do conselho de administração do hospital tenha qualquer efeito automático na resolução das tensões internas (pelo menos, as que têm sido relatadas na comunicação social). 

              Os problemas de gestão interna, e de recrutamento para colmatar saídas simultâneas de médicos, deveriam ter sido antecipados e se necessário deveria ter sido procurada ajuda em soluções, ainda que fossem temporárias e de transição, no contexto da rede do SNS na zona de Lisboa.

              É uma situação clara onde uma intervenção da DE-SNS poderia ajudar a gestão de uma ULS a encontrar soluções e transições envolvendo outras ULS próximas. Aqui, antes de um envolvimento direto da Ministra da Saúde, deveria ter surgido uma atuação da DE-SNS. O provável é a entrada em funções de uma nova equipa de gestão atrasar a resolução de alguns dos problemas que estiveram na origem da saída do anterior conselho de administração, dado que terão de “aprender” o que se passa.

              Focando um pouco mais no que tem sido apontado como motivo imediato do agravamento rápido da capacidade de resposta nas urgências (o ponto mais visível de efeitos sobre a população): a reintegração de dois médicos, que levou à demissão e saída de uma dezena de médicos (conhecida desde novembro de 2024). Nem a reintegração desses dois médicos nem a saída da outra dezena surgiu de surpresa nos últimos quinze dias.

              Cabia à gestão do hospital procurar uma solução para evitar uma rotura da capacidade assistencial (em novembro ativou um plano de contingência, e nas escolhas para formação o hospital apresenta-se como tendo uma boa capacidade de atração e tem atraído números substanciais de internos). Aparentemente, os esforços desenvolvidos pela equipa de gestão não tiveram os resultados desejados. E é aqui que se deve colocar a pergunta de qual a etapa seguinte. Nos últimos dias tem-se colocado a atenção na relação entre o conselho de administração da ULS e a Ministra da Saúde.

              Pergunto-me se é a este nível que a etapa seguinte da procura de soluções deve ser colocada.

              Dentro da área de Lisboa não haveria possibilidade de ter soluções temporárias de colaboração de outros profissionais de saúde, sob a forma de cooperação institucional entre ULS ou de forma individual? Não houve a possibilidade de reorganização de trabalho dentro da ULS que conseguisse acomodar a reintegração dos dois médicos sem gerar saídas? Não haveria aqui espaço para um DE-SNS procurar ajudar, seja na parte de profissionais de saúde seja até em formas de aliviar a pressão assistencial sobre o hospital? Desconheço os detalhes concretos, mas o que se vai conhecendo sugere uma questão de gestão, e não uma questão de política geral a ser decidida pelo Ministério da Saúde (a atual equipa de gestão sai com o argumento de não querer dificultar a procura pela tutela de soluções).

              Como a “solução” vai passar pela nomeação de uma nova equipa de gestão, é um bom momento para dar um sinal institucional diferente do que realizar uma nomeação por “alinhamento político” (que não será certamente assumido como tal).

              A minha preferência é que a nomeação fosse feita pelo Diretor-Executivo do SNS, para ser claro perante quem o conselho de administração responde, e colocando essa responsabilidade no patamar técnico e não no patamar de “alinhamento político”. Como muito provavelmente não vai suceder dessa forma dadas as decisões recentes sobre as competências da DE-SNS, esta nomeação, e todas as que se venham a realizar com nomeação direta por parte do Governo, deverá estar acompanhada de uma carta de compromisso, onde constem os grandes objetivos de gestão que são assumidos pelo conselho de administração que entra, e que constituirão o ponto de referência para aferir o desempenho da equipa de gestão que entra em funções.

              A DE-SNS deverá ser parte integrante da criação dessa carta de compromisso, publicamente conhecida, e nela deverá ficar claro a responsabilidade técnica dos compromissos assumidos perante a DE-SNS. A habitual publicação dos percursos profissionais das pessoas nomeadas e o terem sido propostas aprovadas pela CReSAP não é suficiente.

              O atual momento exige um maior grau de compromisso dos decisores políticos com o que é o trabalho técnico das nomeações que fazem (e é um aspecto que deveria estar presente em todo o sector público, não é particular da área da saúde).

              Será também adequado que futuras saídas de conselhos de administração tenham uma justificação clara e detalhada, mesmo que fique reservada para a relação entre quem sai e quem decidiu essa saída (que, como referi acima, preferia que fosse a DE-SNS e com base em motivos estritamente técnicos, que não incluem “alinhamento com a tutela”). A clareza e lealdade mútuas nessas decisões de saída são também um elemento importante para atrair quem queira exercer estas funções com uma visão eminentemente técnica. E do ponto de vista do cidadão de qualquer ULS, será provavelmente preferível que o conselho de administração esteja mais preocupado com a sua saúde do que com satisfazer as vontades “da tutela”, isto é, ter mais preocupação com a saúde da população do que em agradar a quem estiver à frente do Ministério da Saúde.

              (image created with AI tool)


              1 Comentário

              Noticias da semana que passou

              Da semana passada, o sector da saúde continua a ser noticia, pela componente política e de políticas de saúde, mas também por evoluções que se vão conhecendo.


              Destaco três noticias dos últimos sete dias que passaram relativamente despercebidas no meio do “ruído” geral do sector.

              A primeira, a expansão segura da hospitalização domiciliária, em que os doentes passam a fase final do episódio de internamento hospitalar em sua casa. Do ponto de vista do abente é reconhecidamente melhor fazer a recuperação final em casa, com acompanhamento dos serviços hospitalares, pois é mais cómodo e até evita o risco de contrair infeções hospitalares. Do ponto de vista do hospital, é uma forma de ter capacidade de tratamento por internamento flexível, dado que o número de doentes que consegue ter em internamento aumenta ou diminui consoantes as necessidades e as oportunidades para a hospitalização domiciliária. Exige capacidade de organização e gestão e financeiramente é facilmente compensador para o orçamento hospitalar, e logo, para o orçamento da Unidade Local de Saúde (ULS) em que insere. É um bom exemplo de evolução dos serviços prestados pelo Serviço Nacional de Saúde, e que faz o seu caminho de forma sólida e longe dos holofotes da exposição politica (talvez também por isso tem sido um caminho seguro?).


              A segunda “noticia”, que não surge enquanto tal nos meios de comunicação social, é a concretização do esperado valor muito baixo dos pagamentos em atraso das entidades do Serviço Nacional de Saúde, em Dezembro de 2024, segundo os valores divulgados pela Direção Geral do orçamento: cerca de 13 Milhões de euros, ou seja essencialmente próximos de zero. Cabe agora à gestão das ULS garantir que em 2025 o problema dos pagamentos em atraso não se volta a repetir, cabe à Direção-Executiva do Serviço Nacional de Saúde (DE-SNS) acompanhar e fomentar as medidas de gestão que evitem o crescer dos pagamentos em atraso, cabe à Administração Central do Sistema de Saúde (ACSS) garantir que a DE-SNS se preocupa com o assunto e acompanha as vis nos seus esforços de gestão. Cabe ao Ministério da Saúde (Secretaria de Estado da Gestão da Saúde) assegurar e monitorizar que ACSS e DE-SNS cumprem as suas funções junto da gestão das unidades locais de saúde neste aspeto concreto (e infelizmente recorrente) da gestão do Serviço Nacional de Saúde. Daqui a um mês se verá qual o sinal transmitido pela evolução dos pagamentos em atraso.


              Terceira “noticia” , a publicação pela OCDE de um trabalho de análise sobre a escolha de profissões de saúde por parte das novas gerações. São focadas as intenções de carreira dos jovens com 15 anos, o que permita antecipar o que se poderá passar daqui a uma década (e atuar entretanto, se for considerado que tal é necessário e passível de ter algum resultado). Face a 2018, há, no conjunto da OCDE, um menor interesse nas profissões de saúde (e um crescimento do interesse em profissões ligadas às tecnologias de informação e comunicado). Em Portugal, a situação é ligeiramente melhor em 2022 do que em 2018, nas intenções de carreira na área da saúde. O que poderá ser uma pressão forte é a procura externa de profissionais de saúde. Face a um menor interesse nestas profissões em paises como os Estados Unidos, o Canadá, a Bélgica, a Irlanda, a Franç.a, a Suécia e a Dinamarca, conjugada com o crescimento das necessidades, a mobilidade internacional de profissionais de saúde será provavelmente impulsionada pela procura de profissionais de saúde por parte destes países no mercado internacional (e Portugal tem ads tradicionalmente um pais de origem de profissi mais de saúde para estes fluxos de mobilidade internacional) É importante saber se o decréscimo de “treme em paises europeus se deve à COVID-19 e ao esforço que foi visivelmente feito pelos profissionais nesse periodo, e se o desinteresse é conjuntural ou estrutural (permanente). A situação reportada é similar para medicina e enfermagem. Em Portugal, é desejável saber mais, e de forma antecipada, sobre as intenções de carreira, na dupla componente de área de formação e potencial mobilidade internacional, para as profissões de saúde. O trabalho da OCDE seria mais informativo se contivesse informação e análise detalhada sobre a mobilidade internacional de profissionais de saúde e o que determina essa mesma mobilidade (que elementos de “procura”e de”oferta” têm sido relevantes e qual a sua evolução previsível na próxima década).


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              Evento de apresentação: Public Health ImpACT

              Decorreu a 07 de Janeiro (20257 a apresentação do centro de conhecimento ImpACT da Escola Nacional de Saúde Pública, que tem como elemento agregador fundamental a investigação desenvolvida e o conhecimento produzido sobre as politicas públicas na área da saúde, desde a sua definição à sua avaliação.

              O programa de trabalhos dessa manhã de apresentação, descrita oficialmente aqui, incluiu intervenções que deram uma visão da diversidade do trabalho realizado.

              Deixo aqui o meu resumo das várias sessões, que reflete as minhas preferências naturalmente.

              Notas finais da “Apresentação do Public Health Impact – Desenhar, acompanhar e avaliar, centro de conhecimento em saúde pública, com investigação orientada para a ação, incluindo políticas públicas”

              Na abertura, por Rui Santana, foi referido que a ENSP tem uma tradição de intervenção na sociedade. Há a permanente procura de novos mecanismos de organização dessa intervenção, atualmente menos baseados em áreas disciplinares e mais orientados para grupos com competências diversificadas. O Centro de Conhecimento / Knowledge Center irá ser um desses novos mecanismos.

              Chris Millett, Estilos de vida, numa perspetiva de saúde global

              O novo centro de investigação é criado com uma orientação para soluções. Orientar para soluções necessita de um quadro de valores na definição do que é a solução adequada. É diferente de documentar e aumentar o conhecimento. O passo de passar da análise de conhecimento para a solução e a recomendação tem que tornar claros todos os passos. Mudar políticas é feita num quadro de valores que tem de ser enunciado. O “jogo político” (na influência sobre as políticas adoptadas) é parte do percurso. É crucial evitar conflitos de interesses. Parte do que se aprendeu é que as entidades afetadas reagem às políticas adoptadas. 

              A principal pergunta que surge é: como incluir no desenho, acompanhamento e avaliação de políticas públicas o ajustamento esperado das entidades e agentes?

              A palavra chave desta intervenção é: isenção.

              André Peralta-Santos, Estilos de vida, numa perspetiva de saúde global

              Discutiu como o KC pode ter intervenção, mencionando a questão da formação técnica e da modelação de políticas de saúde. Na construção das políticas, é relevante incluir discussões estruturadas para apoiar o desenvolvimento de políticas.

              Na avaliação de políticas de saúde, há vários desafios: na forma de comprar conhecimento pela administração pública, na capacidade de diferenciação de núcleos académicos, na criação de conhecimento não solicitado pela administração pública, na alteração de cultura de partilha de dados pela Administração Pública. 

              A principal pergunta que emerge desta intervenção é: Como conciliar o tempo da ação com o tempo da análise?

              A palavra chave desta intervenção é: tempo

              Joana Alves, Desafios da avaliação económica, da mais-valia clínica à sustentabilidade

              Falou-se da importância de reconhecer a existência de perspetivas diferentes, com um exemplo da determinação de custos. Foi dado o exemplo do cálculo de custos indiretos atribuíveis à obesidade em Portugal e de xustos diretos com hospitalizações associadas à obesidade na população adulta. Outra linha de análise tem sido sobre os custos e consequências da insegurança alimentar.

              A realização de estudos de custo-efectividade, incluindo revisões sistemáticas, é uma das principais atividades desta linha de atividade do centro.

              A pergunta central decorrente desta intervenção é: como transformar o conhecimento gerado em políticas públicas? 

              A palavra chave desta intervenção é: mensuração

              Pedro Laires, Desafios da avaliação económica, da mais-valia clínica à sustentabilidade

              Foi apresentada o desenvolvimento de atividades baseadas na prática.Houve a preocupação de discutir os desafios das terapias avançadas, que têm um custo inicial muito elevado, mas ganhos de saúde ao longo do tempo.  A existência de beneficios dispersos no tempo, com custos concentrados no momento atual leva à procura de mecanismos diferentes.

              Foram focadas duas abordagens: i) evidência focada na doença (melhor o conhecimento de epidemiologia básica, carga e custo da doença), que obriga a condições de base que são um “bem público” (no sentido de todos poderem beneficiar dessa base); ii) evidência focada no produto. Ensaios clinicos, estudos de custo-efectividade, estudos de outcomes research (base da reavaliação).

              A pergunta central emergente é: se a avaliação de tecnologias em saúde surge como “campo de batalha”, como ter espaço para criar evidência que é aceite por todos os intervenientes, com base na qual objetivos e valores podem construir políticas de saúde? 

              A palavra chave desta intervenção é: evidência

              Julian Perelman, Integração de cuidados num sistema fragmentado

              Foi dada a perspetiva da economia da saúde sobre a organização e os efeitos de intervenções nos serviços de saúde. Foi destacada a participação de economistas num assunto multidisciplinar. Foi dado como exemplo a avaliação da criação das USF, com pagamento baseado no desempenho, que melhorou os indicadores incentivados no curto prazo. Outro exemplo é a contribuição para um novo sistema de pagamento na área da saúde mental, com pagamento abrangente por doente, com ajustamento de risco, baseado no valor. É um exemplo da passagem da teoria à prática. 

              A pergunta que surge desta intervenção é: como estabelecer o âmbito da avaliação a ser feita, em que contexto e com que objetivo? 

              A palavra chave desta intervenção é: comportamento

              Ricardo Mestre, Integração de cuidados num sistema fragmentado

              Foi referido que a avaliação contribui para a boa governação e para o fortalecimento do processo democrático. Um dos temas de futuro apontados foi a reorganização do Serviço Nacional de Saúde realizada em 2022/2023.

              A pergunta que surge desta intervenção é: qual o equilibrio entre avaliações internas (do decisor político) e avaliações externas, atendendo à capacidade de ter dados, à capacidade técnica, à imparcialidade, à capacidade de dedicação, e à capacidade de ter tempo para realização (incluindo a capacidade de aceitar o escrutínio público)? 

              A palavra chave que emerge desta intervenção: puzzle

              Resulta do conjunto destas intervenções, 7 questões genéricas para a intervenção do KC, que a prática revelará quais as respostas que conseguirá dar:

              1.         Como realizar a navegação política (politics) das políticas de saúde (policies)?

              2.         Como gerir a relação eventualmente confidencial na discussão de algumas políticas (qualquer que seja a entidade, pública ou privada)?

              3.         Como gerir a diferença entre opinião (perito) e defesa de uma posição (advocacia)?

              4.         Como decidir a intervenção em termos de avaliação ex-ante, antes da política ser adoptada, avaliação ex-post, o que aconteceu na sequência da política, e avaliação em movimento (o que se sabe enquanto a politica vai sendo levada à prática)?

              5.         Como usar a vantagem da Universidade, ter o tempo de pensamento, para contribuir para desenhar, acompanhar e avaliar as políticas públicas – valores, metodologias, ter capacidade de agir em tempo curto?

              6.         Como construir o “puzzle” do acompanhamento e das avaliações parcelares?

              7.         Como passar dos “lamentos” às “soluções”?

              As várias intervenções forneceram respostas a algumas destas questões. 

              resumo, numa longa frase, desta manhã: intervir em políticas públicas implica independência e imparcialidade (evitar conflitos de interesses), sem descurar um equilibrio entre o tempo rápido da ação e o tempo mais lento do pensamento, usando um stock de conhecimento acumulado, gerado de forma a ser aceite por todos os agentes relevantes, considerar explicitamente os comportamentos de individuos e de grupos, prevendo antes, conhecendo depois para desenhar, acompanhar e avaliar.

              (imagem gerada por instrumentos de IA)


              1 Comentário

              Ainda a DE-SNS, em reformulação

              A semana passada na área da saúde ficou marcada pela substituição forçada do Diretor-Executivo do Serviço Nacional de Saúde (SNS), que será acompanhada, segundo as notícias públicas, por uma redefinição do papel institucional da DE-SNS (Direção-Executiva do Serviço Nacional de Saúde). Tal como argumentei (ver aqui), era desde o início antecipável essa reformulação. 

              Esta turbulência na DE-SNS abriu espaço para posições a favor da sua extinção (ver aqui uma discussão recente, bem como os comentários recebidos). Contudo, está longe de ser evidente a vantagem da extinção do DE-SNS, mesmo que ainda não tenha sido completamente claro o papel que irá assumir no SNS.

              É por isso útil relembrar pontos essenciais para uma decisão quanto à forma como a DE-SNS deverá contribuir para um melhor funcionamento do SNS.

              O ponto de partida para essa reflexão deverá ser, a meu ver, o documento produzido pelo Health Cluster Portugal em 2021, que explica os principais elementos de racionalidade para a criação da figura da Direção-Executiva do SNS (denominada Instituto SNS no reflexão do Health Cluster Portugal). 

              Esta entidade deverá ter como missão: 1) gestão do SNS, 2) otimização do percurso do doente, e, 3) articulação com envolvente. Destas três funções, apenas as duas primeiras estão presentes na DE-SNS.

              Assim, contrariamente ao que alguns possam pensar, não foi uma posição criada para uma pessoa, e que com a saída do primeiro Diretor-Executivo, deixaria de haver razão para a DE-SNS existir. Esta é uma perspetiva redutora e simplista. Fernando Araújo estava a desenvolver um bom trabalho (as críticas que se podem apontar não impedem um saldo globalmente positivo do tempo que passou à frente do DE-SNS). Contudo, a existência da DE-SNS não é condicional a uma só pessoa ter capacidade para cumprir esse papel. Não é pela saída de uma pessoa que uma instituição deve ser desmantelada. Este argumento é por isso fraco.

              Há uma lógica de coordenação da rede de unidades do SNS que continua a estar presente.

              O segundo argumento baseia-se na duplicação de tarefas dentro da administração pública que a DE-SNS significa e no esvaziamento da liberdade de decisão do poder político. Este argumento tem subjacente uma clara visão de “comando e controlo” como forma de gestão do SNS do Ministro da Saúde. Esta perspetiva foi explicitada por Correia de Campos em entrevista ao jornal Público (ver aqui), em que expressa a preferência por uma condução do dia-a-dia do SNS pelo Ministro da Saúde tendo como interlocutores as entretanto extintas Administrações Regionais de Saúde, os grandes hospitais, e mantendo em pleno a decisão de nomear diretamente as administrações das unidades do SNS.

              Em contrapartida, o modelo DE-SNS para a gestão do SNS faz com que o Ministro da Saúde tenha apenas um interlocutor, a DE-SNS, que por sua vez coordena, com algum “comando e controlo”, as unidades do SNS (agora organizadas em ULS).

              É uma forma de organização diferente, que liberta o Ministério da Saúde para pensar as políticas de saúde de uma forma mais geral, e sem ter necessidade de responder por cada dia de urgência fechada (e se houver muitos serviços fechados, a responsabilidade recai sobre o Diretor Executivo, que responde perante o responsável político), ou um outro qualquer aspeto desses, deixando de lado a microgestão do SNS a partir do Ministério da Saúde.

              Sendo assim, a pergunta natural é como se deve organizar os órgãos de cúpula do Serviço Nacional de Saúde. Uma “velha” discussão sobre a organização do SNS é a separação entre a função de “pagador” – gestão das verbas recebidas via Orçamento do Estado – e a função de “prestador” – a gestão das unidades de prestação de cuidados de saúde. A relação entre estas duas funções deverá garantir que os dinheiros públicos são bem utilizados, através de contratos internos ao SNS (já existentes, sob a figura de contratos programa).

              A DE-SNS, neste modelo, tem o papel de “negociar” com a ACSS os orçamentos das diferentes unidades do SNS sob a sua alçada. A ACSS terá o papel de financiador/pagador realizando a monitorização da utilização do orçamento e dos resultados alcançados. 

              O Ministério da Saúde tem o papel de definição da política geral de saúde, incluindo sector público e sector privado (com e sem fins lucrativos). Neste quadro, a SPMS (Serviços Partilhados do Ministério da Saúde) deverá ficar sob a coordenação da DE-SNS, sendo esta entidade a interlocutora com a ACSS para assegurar o financiamento da SPMS.

              A DE-SNS para realizar a sua coordenação de forma eficaz junto das ULS necessita de ter “instrumentos” que façam a diferença e não possam ser ultrapassados por relações diretas das ULS com a ACSS ou mesmo com o Ministério da Saúde. Ou seja, o orçamento das ULS é negociado com a DE-SNS e a nomeação dos dirigentes das ULS deverá ser feita pela DE-SNS (o que tem a vantagem, para o bom funcionamento do SNS, de ser menos permeável à influência política para nomeações de dirigentes)..

              A definição de instrumentos de financiamento do SNS, como os valores da capitação ajustada e índices de desempenho e de qualidade, deverão ser responsabilidade da entidade pagadora, a ACSS.

              A DE-SNS deverá produzir, neste processo, um orçamento do Serviço Nacional de Saúde, que espelhe as opções de funcionamento do SNS e de cumprimento das políticas de saúde globalmente definidas pelo Ministério da Saúde. 

              Essencialmente, o que é necessário é encontrar a formulação que substitua a “articulação” entre duas ou mais entidades, como estava previsto no contexto dos estatutos da DE-SNS, por uma responsabilidade clara de cada uma das entidades.

              O principal desafio para a nova equipa da DE-SNS é conseguir definir o tom certo de coordenação e liderança do processo de funcionamento de todas as ULS, sendo que a coordenação entre unidades intra-ULS tem de ser conseguida ao nível da gestão de cada ULS e a coordenação inter-ULS poderá necessitar de intervenção explicita da DE-SNS (o que para algumas situações poderá requerer “músculo” técnico e “músculo” político).

              Outro desafio é a continuação do processo de simplificação burocrática iniciado pela primeira DE-SNS. Um terceiro desafio está associado à definição de novos modelos de trabalho, incluindo as novas oportunidades trazidas pela transformação digital e pelo aproveitamento de competências alargadas para as profissões de saúde (enfermeiros, farmacêuticos, psicólogos, fisioterapeutas, nutricionistas, etc) e de eventualmente antecipar novas profissões na área da saúde.

              Para isso, é necessário que a DE-SNS tenha a autoridade de gestão que resulta da capacidade de estabelecer orçamentos e direcionar verbas intra-SNS (depois de negociada a verba global com a ACSS) e de nomear dirigentes.

              Um outro ponto de clarificação é as relações com prestadores fora do SNS a que as unidades do SNS desejem recorrer. Neste caso, a oportunidade de utilização (disponibilidade e preço) poderá ser estabelecida por negociação centralizada por parte da ACSS, e o uso decidido por cada ULS e paga a partir do respetivo orçamento.

              É também aqui aplicável o comentário recebido num post anterior, de que vale a pena reproduzir parte, pois corresponde a um bom sumário de uma tensão fundamental que está presente e que diferentes modelos gerem de forma distinta: “Finalmente, a importância da autonomia do SNS, como Instituto Público Especial, também uma “velha aspiração”, muito dependente de 2 fatores: (a) a cultura política predominante que tende a equacionar “o poder real do Ministério da Saúde” com a sua capacidade de intervenção direta na gestão do SNS e (b) a capacidade da DE-SNS de configurar e desenvolver as competências requeridas para liderar as transformações necessárias. Em relação a estes 2 aspetos, não é necessária uma argúcia extraordinária para ver exatamente onde estamos.” N

              Em termos gráficos simplificados, na figura da esquerda encontra-se a situação atual, em que a “articulação” está é definida pelos círculos de cor azul. No lado direito, é representada uma alternativa com relações estabelecidas de forma mais clara. Qualquer que venha a ser o arranjo final definido será desejável estar mais próximo da figura da direita do que da esquerda. 


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              Conferência “Portugal que temos e o Portugal que queremos ter”

              Na sexta-feira, 17/01/2025, tive o prazer de participar numa das sessões da conferência dos 160 anos do DN (parabéns DN!)


              O alinhamento do dia leva-me a fazer um pouco de resumo das duas sessões, a que acrescento alguns pontos adicionais que não houve tempo de introduzir.

              O ínicio da tarde da conferência tinha:

              As perspetivas para a economia portuguesa

              Pedro Reis, Ministro da Economia

              14h20 – As opções estratégicas da economia portuguesa

              António Mendonça, Bastonário da Ordem dos Economistas

              Isabel Ucha, CEO da Euronext Lisbon

              João Moreira Rato, Presidente do Instituto Português de Corporate Governance

              Pedro Pita Barros, Professor da Nova Business School

              Moderação por Nuno Vinha, Diretor Adjunto do Diário de Notícias

              As perspetivas para a economia portuguesa

              As perspetivas para a economia portuguesa inserem-se num contexto internacional marcado por desafios e oportunidades. A confiança em políticas que fomentem o crescimento ganha força devido ao controlo da inflação, enquanto a Comissão Europeia, ao implementar o relatório Draghi, reforça a ideia de um novo ciclo que impulsione a economia europeia. Há aqui uma perspetiva positiva.

              Prevê-se (deseja-se) a criação ou o crescimento de clusters estratégicos em setores como defesa, espaço, energia, indústria farmacêutica e logística, além de iniciativas relacionadas com a reindustrialização europeia. No entanto, há grande incerteza decorrente do conflito na Ucrânia, que representa um ponto de interrogação para 2025, considerado um ano de transição que poderá marcar uma evolução positiva ou negativa.

              Portugal encontra-se numa posição estratégica para aproveitar estas dinâmicas globais. A aposta no Plano de Recuperação e Resiliência (PRR) surge como uma base essencial para preparar o país para um futuro mais otimista em 2026. O país tem sido reconhecido como um destino de políticas favoráveis ao investimento, mas enfrenta o desafio de reduzir tanto a carga fiscal como a burocrática para aumentar a atratividade para investidores estrangeiros. Além disso, o papel das grandes economias europeias, como Alemanha e França, é crucial neste contexto, dado o impacto da sua trajetória em áreas como a independência energética, a digitalização e as mudanças políticas.

              A reindustrialização e a transição para uma economia verde são vistas como pilares centrais do crescimento sustentável. Esta visão inclui a promoção de tecnologias avançadas, mas com a cautela de evitar investimentos em tecnologias que ainda não estejam suficientemente maduras. A ideia de clusterização por blocos económicos, com enfoque na autonomia estratégica e integração europeia, surge como um caminho promissor. A verticalização das indústrias, a criação de projetos de grande dimensão e a atração de centros de competência europeus são considerados essenciais para a competitividade do país.

              A simplificação dos processos administrativos é outro elemento-chave abordado. Iniciativas como a substituição de verificações manuais por verificações automáticas e a adoção de mecanismos pós-verificação visam desburocratizar o funcionamento do Estado. Esta abordagem foca-se na desmaterialização e na redução das obrigações de reporte, criando um ambiente mais ágil para as empresas e facilitando a execução de novos projetos.

              Assim, do Ministro da Economia, há, como se poderia esperar, uma perspetiva positiva para alguns sectores, embora me pareça que teria sido igualmente útil saber que sectores poderão perder posicionamento relativo, pois não acredito que seja possível crescer significativamente em todas as áreas de atividade económica ao mesmo tempo (até porque algumas delas irão competir pelos mesmos recursos humanos).

              As opções estratégicas da economia portuguesa

              Esta sessão tem um título muito aberto, fazendo com que a discussão se disperse por vários aspetos, de acordo com a formação e a experiência profissional de cada um dos intervenientes. 

              Sem preocupação de identificar quem introduziu que tema, porque várias observações são suficientemente consensuais para receberem concordância de vários, da maioria ou nalguns casos, até de todos os intervenientes.

              Foi referido que a dimensão do capital humano é crítica, o que será um dos pontos unânimes. A incapacidade de reter profissionais altamente qualificados, devido a condições salariais e de carreira pouco competitivas, reflete-se como uma limitação estrutural. É necessário criar condições atrativas para estas profissões, investindo em serviços de valor acrescentado e aprendendo com modelos de sucesso, como o irlandês. A automatização industrial, que aproxima cada vez mais a indústria do setor de serviços, é vista como um fator que redefine a produtividade, exigindo mais robótica e inovação. Aqui, a meu reparo pessoal é fazer mais sentido tornar Portugal um local interessante para ter as empresas com as posições que requerem elevadas qualificações, qualquer que seja a nacionalidade da pessoa. É mais exigente, e provavelmente mais duradouro.

              O papel da inteligência artificial é destacado como uma área de potencial estratégico. Portugal tem oportunidades para se posicionar como um polo de inovação nesta área, investindo em infraestruturas como centros de dados e na melhoria da qualidade dos dados da administração pública. A simplificação regulatória e o fomento à inovação tecnológica podem tornar o país mais competitivo a nível global. No entanto, para isso, é necessário alinhar as políticas fiscais e regulamentares, garantindo uma paridade entre impostos para estrangeiros e portugueses, além de flexibilizar a legislação educacional para promover a formação de talentos.

              No campo financeiro, enfatizou-se a importância de uma reforma fiscal que permita uma melhor canalização das poupanças para investimentos produtivos. Atualmente, grande parte das poupanças portuguesas está alocada em instrumentos de baixo risco e baixa remuneração, o que limita o seu impacto no crescimento económico. É fundamental explorar alternativas como mecanismos privados de acumulação de fundos para a reforma, incentivando uma maior diversificação e rentabilidade dos investimentos.

              Em última análise, reflete-se sobre o papel de Portugal no panorama europeu e global, destacando a necessidade de pensar estrategicamente o futuro do país. Esta reflexão exige, a meu ver, uma abordagem diferente na noção de resiliência associada ao PRR (mais dinheiro), deve-se ter uma ideia de resiliência como capacidade de antecipar choques (vários foram apontados como possíveis face à evolução geopolítica mundial), absorver impactos, aprender com a experiência e ajustar-se rapidamente às mudanças. 

              Comentário geral e algumas coisas mais

              Curiosamente, a conversa acabou por não tocar num ponto que politicamente tem vindo a emergir: a escolha entre política industrial focada em sectores (ou até em empresas que sejam campeões nacionais) e política industrial focada sobretudo criação de condições estruturais para o crescimento dos sectores que melhor os aproveitem.  Para conseguir perceber melhor as opções e as escolhas a fazer deve-se começar por explicitar quais são os objectivos que se tem para a política industrial.

              Coloquemos como objectivo central a melhoria das condições de vida, o que inclui o crescimento económico medido pelo aumento do PIB, mas também a procura da sustentabilidade ambiental, maior equidade na distribuição de rendimento e riqueza, e maior qualidade de vida.  E se o crescimento económico é objetivo, então o crescimento da produtividade é um elemento central para o desejado crescimento económico, com aumento de salários e de riqueza. O foco deve estar em olhar para opções estratégicas que tenham a capacidade de aumentar a produtividade da economia portuguesa na próxima década.

              Aumentar a produtividade média da economia decorre de conseguir aumentar a produtividade das empresas (através de investimento e de inovação), de fazer crescer as empresas de maior produtividade em cada sector, transformar ou fazer sair de atividade as empresas de menor produtividade, e aceitar que sectores económicos de maior produtividade crescem e sectores de menor produtividade encolhem. Não se pode desligar a evolução da produtividade da dinâmica empresarial.

              Em geral, nos últimos tempos, quando se fala de opções estratégicas, remete-se para a escolha de sectores que se deve apoiar, em termos de políticas públicas, de alguma forma. O “alguma forma” pode ser dar apoios diretos ou indiretos ou pode ser remover obstáculos ao crescimento da produtividade.

              Olhando para os obstáculos principais, consegue-se também perceber as motivações das várias das propostas que surgem com regularidade, sobre a necessidade de facilitar e induzir o investimento em inovação, mudanças no mercado de trabalho e falta de escala de muitas empresas portuguesas.

              Então o que podem ser opções estratégicas? 

              Tenho uma clara opção por criar primeiro condições estruturais, e depois remover barreiras que possam existir em alguns sectores. Estar a escolher sectores pode correr mal, até porque essa escolha é feita num contexto onde muitos outros países têm empresas dinâmicas, e/ou intervenções de muito maior dimensão do que possível fazer a partir de Portugal.

              Três “opções estratégicas” que me parecem centrais são:

              Infraestrutura digital: assegurar o seu desenvolvimento de modo a que possa ser aproveitada por todas as empresas, incluindo as PME mais pequenas, e que favoreça o seu aumento de dimensão. Usar a Alemanha como ponto de referência para a criação de programas específicos ajudam pequenas e médias empresas (PME) a adotar tecnologias digitais, fornecendo financiamento, formação e acesso a redes de inovação é um bom ponto de partida.

              Uma segunda grande opção estratégica é deixar de proteger o status quo e aceitar que o crescimento da produtividade decorre também da dinâmica empresarial, da criação de novas empresas e desaparecimento de outras. As políticas públicas devem ajudar às transições – colocar rapidamente disponíveis os ativos produtivos das empresas que fecham para que outras os possam usar – a preocupação com o fecho de empresas tem de incluir, além do que sucede aos trabalhadores, como se coloca a uso rapidamente os ativos produtivos dessas empresas, facilitar a passagem de trabalhadores de uns sectores para outros através da formação de novas competências. 

              A escolha de setores de atividade estratégicos é sempre tentadora, e se há bons motivos para argumentar que deve ser feita, também se encontram bons motivos para argumentar porque é dificil ser bem feita (como saber o que resultará no futuro de forma segura, com objetividade suficiente para ultrapassar entusiasmos do momento?).  A minha sugestão é que essas escolhas sejam feitas com base nas áreas onde a investigação cientifica portuguesa se tenha conseguido destacar mais.

              Embora seja frequente falar-se na maior ligação das universidades às empresas, ou das empresas às universidades, a opção estratégica deverá ser a de mudar a forma dos mecanismos financeiros usados: dar apoio às empresas, com discriminação positiva para pequenas e médias empresas (mas não as demasiado pequenas), para comprarem serviços de desenvolvimento tecnológico às universidades – pelo fluxo do dinheiro, tornar claro que as universidades têm de criar inovação para dar resposta às solicitações das empresas, que por sua vez devem ter como objetivo produtos e serviços que possam ser colocados no mercado europeu, pelo menos. Na verdade, o que importa é criar mecanismos financeiros que levem às empresas identificarem oportunidades de inovação, de produto ou de processo, que levam às universidades, que ganham se responderem aos desafios vindos das empresas. A inovação virá da universidade, mas a identificação da necessidade é trazida pela empresa. Ou seja, deixar de proteger o status quo também no formato dos mecanismos usados, e ter a ambição de procurar outros mecanismos que possam ser mais eficazes.

              A forma pela qual se regem os apoios públicos é também ela uma opção estratégica até certo ponto. Que áreas de atividade económica se irão desenvolver mais decorrerá da capacidade de identificar oportunidades de forma descentralizada, por parte de cada empresa, e não da vontade de uma burocracia mais, ou menos, iluminada quanto aos sectores de atividade que serão campeões nacionais no futuro.

              A terceira opção estratégica é pensar sempre à escala europeia, pelo menos. Qualquer apoio, sectorial ou a empresas, que seja dado através das políticas públicas deverá favorecer as empresas que tenham capacidade demonstrada ou a ambição clara e o potencial de a concretizar de serem internacionais. É essencial que as vantagens de dimensão do mercado europeu sejam usadas para garantir maior produtividade. Desenvolver projetos, empresas ou mesmo sectores de atividade que apenas têm viabilidade financeira de longo prazo se mantiverem uma situação protegida em Portugal deverão ser preteridos.

              Não sendo propriamente uma opção estratégica, há uma preocupação adicional a ter em qualquer típo de política industrial que seja adoptada: assegurar a transparência e o escrutínio público da aplicação dos fundos públicos disponibilizados.

              Uma escolha direta de setores preferenciais tem dois problemas de partida: a) saber quais são esses setores de sucesso futuro, em que a determinação burocrática poderá ser pior do que a tentativa e erro de ideias de forma descentralizada; b) outros países vão tentar fazer o mesmo, e como assegurar então que se consegue ter sucesso se todos estiverem a procura fazer o mesmo. Para que uma escolha de setores específicos possa ter resultados positivos, e não apenas “afundar” riqueza do país via despesa pública, é necessário garantir transparência e escrutínio público em todas as fases dessa escolha, é necessário evitar “teimosia de longo prazo” (continuar a insistir quando a informação que se recebe e o conhecimento que se constrói aconselham o contrário), e é necessário mostrar o retorno económico e social dos investimentos públicos realizados.

              Estas ideias podem ser usadas para criar uma lista de verificação para avaliar propostas de opções estratégicas na economia portuguesa:

              1. A proposta de opção estratégica, seja a nível das infraestruturas, das empresas ou sectorial, tem potencial para melhorar a produtividade média da economia através da inovação e/ou digitalização? 
              2. A proposta de opção estratégica tem, a médio prazo, capacidade para criar ou aumentar a escala europeia ou mundial de empresas de base portuguesa?
              3. A proposta de opção estratégia favorece o alinhamento do meio cientifico e académico com as atividades económicas, no sentido que as universidades e os centros de investigação têm mais interesse em fornecer soluções para desafios identificados pelas empresas, seja no médio prazo através da investigação fundamental, seja no curto prazo, através de investigação aplicada?
              4. A proposta opção estratégica é susceptível de incluir medidas de requalificação e transição dos trabalhadores para setores de mais elevada produtividade, facilitando a adaptação a novos trabalhos com novas competências?
              5. A proposta de opção estratégia, se beneficiar de apoio de fundos públicos, tem mecanismos de transparência e responsabilização, assegurando que as decisões de financiamento público são transparentes, sujeitas a escrutínio e associadas a retornos económicos e sociais mensuráveis?

              As respostas podem ser positivas, neutras ou negativas. Se uma proposta de  “opção estratégica” (o que quer que seja incluído nesse termo) falhar em dois ou mais destes critérios (tiver duas ou mais respostas negativas), deverá ser reformulada ou abandonada.

              Deixo a cada um o “divertimento” de aplicar estas cinco perguntas à sua “opção estratégica” preferida.


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              Observatório da dívida dos hospitais EPE, segundo a execução orçamental (nº 82, janeiro de 2025)

              Em dezembro de 2024 tornou-se conhecido o valor da habitual transferência extraordinária para as entidades do SNS (agora as Unidades Locais de Saúde, anteriormente os hospitais EPE) regularizarem as dívidas vencidas (que incluem os pagamentos em atraso, ou seja 90 dias de atraso adicionais aos 90 dias que definem o que é a dívida vencida). 

              O valor de cerca de 975 milhões de euros aproxima-se, em larga medida, do valor esperado da dívida vencida até ao final do ano (os números finais de 2024 ainda não se encontram no domínio público), sendo superior ao valor dos pagamentos em atraso conhecidos. Em novembro de 2024, o último valor conhecido à data de escrita, os pagamentos em atraso tiveram uma magnitude de 554,5 milhões de euros, com um ritmo médio mensal de crescimento de cerca de 55 milhões de euros (embora em aceleração).

              Será de esperar que em janeiro de 2025 o valor dos pagamentos em atraso seja residual, uma vez que a transferência realizada deverá permitir eliminar quer o stock de pagamentos em atraso quer o fluxo provável adicional a partir da dívida vencida (que se não for paga passará a pagamentos em atraso).

              Deste ponto de vista, a transferência definida em dezembro de 2024 tem o potencial de (quase) “zerar” os pagamentos em atraso.

              Em contraponto a esta visão positiva do efeito, imediato, há a tradição de transferências passadas, de elevada magnitude, não terem conseguido, nos últimos 13 anos (desde que há dados fiáveis e regulares), resolver o problema. Em anos recentes, os pagamentos em atraso no final do ano, após a transferência extraordinária, aproximaram-se de zero, e os orçamentos iniciais do SNS tiveram reforços generosos das verbas iniciais.

              Mesmo no ano de 2024, o ritmo de crescimento dos pagamentos em atraso foi em média de 55 milhões de euros por mês, sem efeito aparente resultante da mudança de Governo ou de mudança da Direção-Executiva do SNS (sensivelmente pouco mais de um mês depois da entrada em vigor do novo Governo). 

              Assim, embora o Governo tenha criado condições que surgem adequadas para acabar com o problema dos pagamentos em atraso, é natural que permaneça alguma dúvida sobre se tal será o caso. Apesar de só no futuro se vir a conhecer o resultado deste esforço, também aparenta ser razoável esperar que futuras decisões sobre continuação, ou até substituição antecipada, de equipas de gestão das ULS possa vir a estar ligada à evolução dos respetivos pagamentos em atraso, como indicador da respetiva capacidade de gestão, num quadro inicial de orçamento “adequado” e baixo volume de dívida vencida e de pagamento em atraso, um renovar do problema dos pagamentos em atraso numa ULS terá de ser muito claramente explicado. O facto de se “limpar” dívidas passadas deverá permitir um pagamento atempado regular, o que se deverá materializar em preços mais baixos de fornecedores (que deixaram de precisar de incluir no preço o custo financeiro de receber as verbas devidas com grande atraso).

              Neste contexto, é de esperar que em 2025 haja algures no Ministério da Saúde ou no SNS uma equipa com a missão de acompanhar a gestão financeira das ULS (seja na Direção-Executiva do SNS, seja na Secretaria de Estado da Gestão da Saúde, ou mesmo com ambas, com alguma redundância, que poderá ser útil nesta fase).

              As duas figuras seguintes ilustram o ciclo de crescimento dos pagamentos em atraso, seguido de regularizações extraordinárias, seguidas de novo crescimento. A segunda figura contém as estimativas de crescimento médio mensal, com um valor de 55 milhões de euros na última fase de tendência, que é similar os meses anteriores à pandemia.


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              pacto para a saúde e a DE-SNS, numa entrevista de Adalberto Campos Fernandes

              Adalberto Campos Fernandes, ministro da saúde de 2015 a 2018, deu a 8 de janeiro (2025), uma entrevista ao Jornal público em que coloca várias questões (e propostas de resposta) relevantes.

              Primeiro, a necessidade de repensar o que significa o Serviço Nacional de Saúde (SNS) assegurar o acesso a cuidados de saúde na combinação de prestação direta própria (pública, via SNS) e de contratação (e/ou aquisição) de serviços ao sector privado (com ou sem fins lucrativos). Não há referência à revisão de papel do SNS enquanto mecanismo garante de proteção financeira. permanecendo por isso sem contestação a ideia do SNS financiado por impostos como instrumento central de proteção financeira, aliás como estabelecido na Constituição da República Portuguesa. E a revisão desta combinação é vista como levando diversos anos a concretizar, indo além de uma legislatura de 4 anos. Relativamente a este ponto, embora entendendo que seja natural a proposta avançada de um pacto político para a saúde como forma de dar estabilidade à “reforma” de vários anos, creio que se pode pensar numa alternativa- encarar a transformação necessária como um processo permanente de aprendizagem e ajustamento do SNS. É uma forma de reconhecer que qualquer reforma pensada hoje estará provavelmente desatualizada quando terminar a sua implementação. Daí que surge como mais interessante, a meu ver, a noção de aprendizagem e ajustamento regular (pensado em permanência no que deve ser), numa lógica de construção de um sistema de saúde e de um serviço Nacional de Saúde resilientes. Importa por isso fazer uma definição de mecanismos de ajuste contínuo do SNS (por exemplo, um departamento de estudos e de aprendizagem permanente na ACES, ou na DE-SNS, de no próprio ministério da Saúde) em vez de um pacto para a saúde. Claro que as duas ideias não são mutuamente exclusivas.

              O segundo grande tema do artigo é o papel da DE-SNS – Direção Executiva do SNS (incluindo a possibilidade da sua extinção). Ora, quanto à DE-SNS, partilho a visão expressa em documento elaborado há poucos anos pelo Health Cluster Portugal, onde se detalha um papel claro de organização e e de gestão para a DE-SNS. O problema atual da DE-SNS não está propriamente na sua existência. Está na ambiguidade de relacionamento que existe dentro do sector público da saúde, com funções repartidas entre ACSS, DE-SNS, SPMS e Ministério da Saúde (por exemplo, as negociações salariais e de condições de trabalho com os sindicatos das profissões de Saúde). As múltiplas “articulações” a estabelecer entre entidades, e as várias consultas, nos processos de decisão, de umas entidades a outras tendem a criar ambiguidade de responsabilidade de decisão e maias morosidade na decisão. É como se uma empresa de grande dimensão se decidisse separar em várias, ficando uma com o CEO (e COO (Chief operating officer)), outra com o CFO (Chief financial officer), outra com o CIO (Chief information officer), etc. Há uma clara necessidade de estabelecer processos de decisão mais escorreitos e sem dúvidas sobre que decisões pertencem a que entidade. Também julgo central que a DE-SNS assuma a realização de explicitar que caminho se pretende seguir na organização das unidades de prestação de cuidados de saúde do SNS, criando os documentos que sirvam de guia estratégico para as Unidades Locais de Saúde (afinal estas são a unidade fundamental em termos da prestação de cuidados de saúde), tendo em conta a sua autonomia de gestão. Precisam de ter um quadro orientador para a definição das suas estratégias próprias. O estabelecer a estratégia global, dentro da visão que seja estabelecida pelo Ministério da Saúde, e a sua comunicação efectiva às ULS deverá ter primazia, na atuação da DE-SNS, face à micro gestão das ULS. Um exemplo dessa micro gestão é ser a DE-SNS a controlar (ou a definir diretamente/ escolas de urgência hospitalar (tarefa que deverá ser realizada por cada ULS). Assim, antes de avançar para uma decisão de extinção da DE-SNS, será de lhe dar o quadro de atuação adequado. As dúvidas levantadas por Adalberto Campos Fernandes têm toda a razão de ser, e é necessário haver uma (re)definição de responsabilidades, incluindo a de condução (explicitação e comunicação) de uma estrátégia para a rede de unidades de prestação de cuidados de saúde que faz parte do SNS. 

              (imagem criada com recurso a instrumentos de IA)


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              avaliação das medidas previstas na saúde – o GT-PETS e o seu primeiro relatório 

              O grupo de trabalho – plano de emergência e transformação na saúde (GT-PETS) tornou público o seu primeiro relatório, depois de alguns dias (horas?) de circulação informal. Nem sempre é claro se este tipo de acompanhamento deve ser feito sob os holofotes da discussão pública. Claro que a partir do momento em que é constituído um grupo de trabalho com essa missão explícita, torna-se inevitável que os relatórios produzidos venham a ser tornados públicos (e não fiquem apenas a circular de forma informal). Se o acompanhamento fosse realizado por uma equipa interna do Ministério da Saúde, não haveria necessariamente a exposição pública que é esperada com um grupo de trabalho externo nomeado para o efeito.
              A disponibilização pública do relatório do GT-PETS é útil como instrumento de discussão técnica (e não apenas política), dado que este grupo de trabalho deverá fazer o “acompanhamento e seguimento da implementação e desenvolvimento” do PETS. Será por isso o primeiro de vários. É um relatório positivo, no sentido de ter uma estrutura clara, e de ter uma interpretação objetiva, na maior parte das considerações apresentadas, dos dados recolhidos e analisados.
              Sendo este o primeiro relatório, é legitimo esperar que os próximos relatórios tenham a capacidade de serem mais precisos nas definições e nos indicadores, na sua definição, recolha e interpretação. Em concreto, alguns termos deverão ser tornados precisos. Por exemplo, cumprimento “regular” (dos tempos de resposta) significa cumprimento em 80% dos casos, em 50% dos casos ou outro valor? Em algumas das medidas analisadas, a ambiguidade estava na própria medida. Como exemplo, “aproximação do SNS ao cidadão através da Linha SNS24”, não cumprir seria não haver qualquer chamada por iniciativa SNS24? É que sendo referido o número de “chamadas aos doentes” que foram feitas, sem se saber o que se esperava no momento de início da medida, permite qualquer conclusão. Ou seja, para os indicadores das várias áreas, estes deveriam ser claramente descritos e definidos, bem como os valores de referência para avaliar do sucesso (até em termos de evolução, ter vários valores de referência para poder-se concluir por falta de sucesso, algum sucesso, muito sucesso terá, a meu ver, algum interesse). Alguns dos indicadores usados na apreciação pelo GT são claros, como o número de cirurgias não oncológicas fora do TMRG. Outros são difíceis de perceber como calcular. Na medida “C.1 – Separação das especialidades de ginecologia e de obstetrícia, b) minimizar ocorrências de atendimento de utentes com necessidades ginecológicas por profissionais especialistas em Obstetrícia”, minimizar significa 0 (zero) ou um valor pequeno (qual?), e “necessidades ginecológicas” é algo que se encontra bem definido e medido? Esta é uma dificuldade do PETS, e o GT tem como comentário “Esta medida não está implementada e será de difícil implementação”, sendo provavelmente lícito adicionar que será de complicada medição (os custos de avaliar de forma precisa o tipo de “necessidade” envolvida provavelmente não justificam os benefícios que seriam retirados do conhecimento obtido).
              Noutras medidas, a ambiguidade na escrita da medida original no PETS exige um pouco mais de análise. Não basta ter um indicador numérico. Um exemplo é a “Medida A2: Criação de Centros de Atendimento Clínico para situações agudas de menor
              complexidade e urgência clínica”, em que se considera concluída por terem sido criados dois CAC – Centros de Atendimento Clínico, em Lisboa e no Porto, com atendimentos realizados. Contudo, não se sabendo quantos se pretendia criar, e que efeitos se pretendiam alcançar, não é tão simples dizer que foi realmente concluída com sucesso. Abrir mais pontos de atendimento gera normalmente mais utilização. O importante desta medida não é saber se teve atividade, e sim saber se desviou atividade de outras unidades, nomeadamente diminuindo a pressão nas urgências hospitalares próximas. O esforço de análise envolve análise estatística adicional. Adicionalmente, de um ponto de vista de gestão do sistema de saúde, será relevante saber, num relatório futuro, se os custos de abertura destes CAC são compensados pelos benefícios deles retirados (isto é, quais seriam os custos para o SNS se estes CAC não tivessem sido abertos, numa perspetiva de gestão do SNS).
              Há igualmente situações em que a informação obtida e cruzada deixa necessidades de clarificação, reconhecidas, e bem, pelo GT, como sucede com referência à “Medida A3: Implementação da consulta do dia seguinte nos Cuidados de Saúde Primários para
              situações agudas de menor complexidade e urgência”.
              Por seu lado, as fontes dos dados deverão ser referidas, quer estejam em domínio público, ou não.
              O cumprimento do prazo de elaboração do relatório do GT determinou, provavelmente, que não tenha sido recolhida toda a informação pretendida, e é de reconhecer como positiva a decisão de apresentar o relatório identificando as limitações a serem resolvidas, espera-se, em futuras edições. Embora mencionada apenas brevemente, há aparentemente um apoio profissional (da IQVIA) na criação dos instrumentos de acompanhamento. É adequado que o GT tenha apoio técnico e logístico na recolha e processamento da informação necessária, e que daí resulte eventualmente um documento técnico separado, libertando o relatório de acompanhamento para a interpretação dos indicadores e para a produção dos indicadores. É importante que seja conhecido o processo de recolha e de tratamento de dados, para que possa haver replicabilidade do trabalho realizado, e avaliação da qualidade do processo. Porém o relatório de acompanhamento deverá centrar-se no essencial, e os elementos que permitam a avaliação externa da qualidade técnica do relatório de acompanhamento podem ficar detalhados em documento complementar.
              Globalmente, é interessante perceber em que medida a informação do portal da transparência do SNS é passível de ser usada nestes relatórios de acompanhamento (procurarei voltar a este aspeto no futuro próximo), e se as séries estatísticas que estão a ser recolhidas para este acompanhamento passarão a ser parte do catálogo deste portal da transparência do SNS.
              O primeiro relatório do GT-PETS é um documento útil, pela informação que contém e pela honestidade, em geral, das apreciações e das recomendações produzidas, e será certamente melhorado em próximas versões.


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              a propósito de “oportunismo de saúde”

              Foi recentemente aprovada uma alteração às regras de acesso de migrantes aos serviços de saúde do SNS (noticia aqui, por exemplo). A discussão que tem estado à volta do tema tem sido desordenada e desorganizada, em parte por falta de informação, em parte por falta de sistematização, revelada pela má utilização de conceitos. Se propositadamente ou se por ignorância, não sei.

              Há três pontos centrais a clarificar : a) de que problema se fala? b) que informação há sobre esse problema em Portugal? c) que exemplos de outros países nos podem ajudar? Só depois de responder a estas perguntas é razoável colocar opções de medidas (incluindo não fazer nada) para definição de objetivos pretendidos, discussão e decisão.

              a) de que problema se fala?

              Aparentemente, pelo discurso público mais sonoro, a preocupação será com a utilização abusiva do Serviço Nacional de Saúde por estrangeiros. Coloco estrangeiros propositadamente. Pretende-se evitar que pessoas de outros países, de nacionalidade que não é a portuguesa, venham ao Serviço Nacional de Saúde aproveitar serviços gratuitos de elevado custo, por vezes com grande elaboração e preparação dessa visita.

              Se é esse o problema, é muito diferente da utilização do Serviço Nacional de Saúde por residentes que não tenham nacionalidade portuguesa, estejam em situação legal ou não, por turistas que por motivos acidentais necessitam de recorrer a cuidados de saúde, ou por “turistas de saúde”. Por “turismo de saúde” deve-se entender uma atividade organizada, e paga ao sistema de saúde, de pessoas de um país recorrerem a prestadores de cuidados de saúde noutro país. Para uma clarificação do conceito veja-se como introdução este texto de Neil Lunt, este livro sobre o tema, as iniciativas do Health Cluster Portugal para fazer de Portugal um destino de turismo de saúde (com financiamento de programas comunitários), e até no Serviço Nacional de Saúde se procurou estar ativo (notícia com mais de uma década, relativa a um hospital grande de Portugal). Nenhuma destas últimas três situações é, de acordo com o que me parece estar na discussão público, o alvo das medidas propostas.

              É então preciso focar a atenção no “uso abusivo”, o que se chamar de “oportunismo de saúde” (uma vez que a expressão “turismo de saúde” significa algo completamente diferente).

              b) que evidência existe sobre “oportunismo de saúde”?

              As informações sobre utilização dos serviços de saúde por residentes de outras nacionalidades, qualquer que seja o seu estatuto legal em Portugal (propositado, ou por falta de capacidade dos serviços públicos portugueses de o regularizarem) não respondem a essa pergunta. Até porque o “oportunismo de saúde” poderá ser feito de forma completamente legal à luz das regras existentes (o célebre caso de acesso a medicamentos de preço muito elevado não é uma situação de um residente não nacional em situação irregular…). O que é preciso conhecer é que situações de tratamento de custo muito elevado, associadas com pessoas não residentes em Portugal, e correspondendo a casos programados (e não fortuitos, de acidente), existem. A informação de atendimentos em serviços de urgência do Serviço Nacional de Saúde (como parece ser o caso da informação que está a ser recolhida, a atender a esta noticia) é irrelevante para essa caracterização. Mais relevante será saber o valor do tratamento de problemas crónicos de custo elevado, ou programados (como eventualmente partos), associados com não residentes em Portugal e que vão continuar a ser não residentes.

              A falta de clareza sobre o problema que se quer discutir faz com que se usem os dados (eventualmente) disponíveis, e não a informação que é relevante para o problema. É uma versão da célebre anedota sobre procurar as chaves onde há luz e não onde foram perdidas (versão banda desenhada, para mais informação basta usar o google com “streetlight effect”).

              Conclusão a retirar: sem clareza quanto ao que se identifica como problema vai-se estar a procurar informação que não é relevante, e com isso distorce-se a discussão e até se muda o problema (significa que provavelmente a “solução” não será adequada para o verdadeiro problema, e terá apenas efeitos negativos sobre quem não se pretendia atingir).

              c) O que sabemos sobre restrições no acesso a cuidados de saúde por parte de residentes não nacionais, em situação irregular, aqueles a que presumivelmente se quer cobrar o uso do Serviço Nacional de Saúde?

              Este tipo de medida foi introduzido em 2012 em Espanha (Real Decreto-ley 16/2012), excluindo migrantes não documentados do acesso a cuidados de saúde, e a decisão foi posteriormente revogada.

              Uma análise desta medida, realizada por L. Peralta-Gallego, J. Gené-Badia, P. Gallo, em Effects of undocumented immigrants exclusion from health care coverage in Spain, Health Policy, 122 (2018) 1155–1160, está disponível aqui. Outra análise realizada em Barcelona revelou que os migrantes não documentados , por falta de acesso a serviços de saúde, tiveram menos uso de cuidados de saúde primários mas mais situações de doença contagiosa (ver aqui: Lancet Planetary Health), o que sugere a importância de manter o acesso a todos os residentes, mesmo que sejam migrantes sem documentação. Uma análise sobre os efeitos decorrentes desta medida na saúde dos migrantes indica que houve um aumento importante da mortalidade entre estes migrantes não documentados (A. Juanmarti Mestres, G. López Casasnovas, J. Vall Castelló, 2021, The deadly effects of losing health insurance, European Economic Review, 131, ver aqui). Há também informação sobre um maior uso dos serviços de urgência por falta de acesso a outros serviços.

              A política foi alterada em 2018, seis anos depois, alargando a cobertura do serviço nacional de saúde espanhol a todos os residentes, incluindo migrantes sem documentação (ver Real Decreto-Ley 7/2018, e aqui). Atualmente, os migrantes sem documentos têm direito aos mesmos benefícios que os residentes depois de estarem em Espanha durante 90 dias ou através de um relatório dos serviços sociais. Ou seja, o apelo imediato que a medida teve em 2012 não sobreviveu a um escrutínio mais amplo da sociedade espanhola, embora tenha levado 6 anos a ser revertida.

              Para informação sobre a situação em vários países europeus, sugiro uma consulta aqui (UHC Watch – WHO Barcelona Office for Health Systems Financing).

              Daqui resulta que há o risco de se adoptarem medidas que não resolvem o problema que aparentemente se diz querer resolver, e que terão efeitos negativos sobre quem não se pretende atingir. Ou seja, é uma medida sem ou com muito poucos benefícios (face ao objetivo pretendido) mas com custos (que podem ser elevados) que não estão a ser tidos em conta.

              Será interessante saber se as medidas propostas sobrevivem a uma avaliação prévia de impacto legislativo (sugiro a leitura de um documento da Assembleia da República, elaborado em 2024, avaliação prévia de impacto legislativo pelo Parlamento, das Metodologias de Avaliação de Impacto Normativo do Ministério da Justiça sobre produção legislativa, dos Guias de Avaliação de Impacto Legislativo para se ter uma ideia do que se deve fazer, elaborados PlanAPP, um departamento público de apoio à definição de políticas públicas, e o manual de Carlos Blanco de Morais, Guia de Avaliação de Impacto Normativo).

              Chegando aqui a pergunta natural é que soluções alternativas devem ser colocadas como opção de resolução do problema. Para isso, é preciso primeiro conhecer as características reais do problema que se quer resolver. Até porque as declarações públicas de “indignação” com abuso por parte de alguns não residentes não coincidem com as pessoas a quem as medidas propostas se destinam, pelo menos de acordo com o que tem sido relatado (algo que já foi notado, ver aqui).

              Se estivermos a falar de partos de pessoas não residentes, e que depois sairão do país, é natural que se procure uma solução diferente de pessoas que procuram residir em Portugal ou terem a nacionalidade portuguesa para usufruirem de medicamentos de muito elevado custo. Sem ter a informação sobre a preocupação base, a discussão utilizando outros dados será certamente distorcida, as decisões tomadas provavelmente erradas. Por exemplo, pedir comprovativos de residência a migrantes em situação irregular, que os terão de apresentar posteriormente se tratados por um problema urgente, não resolve a primeira situação (vai-se conseguir impedir a saída do país de mulheres que tenham vindo ter filhos no SNS, como se refere que sucede?) nem a segunda situação (para tratamentos continuados de muito elevado custo, valerá a pena a despesa e o tempo de ser residente ou nacional, com situação regularizada). Apenas se cairá na situação que houve em Espanha durante 6 anos (ver acima).