Momentos económicos… e não só

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The Economic Adjustment Program for Portugal – Second Review (parte 2)

Ainda apenas da leitura do sumário executivo da avaliação feita pela Comissão Europeia, há uma pergunta que seria interessante, a meu ver, ser respondida com uma análise cuidada nos próximos meses:

– tendo havido um corte “temporário, mas duradouro” nos salários da função pública (e equiparados), qual tem de ser o crescimento económico do país, que por via de receitas fiscais adicionais, permita repor os níveis salariais sem colocar em causa os objectivos estabelecidos para o défice público?

Esta pergunta surge por provavelmente não ser possível reduzir ou limitar o crescimento das outras componentes da despesa pública para abrir espaço orçamental para que o corte salarial seja invertido. Assim, terá que ser por aumento das receitas fiscais decorrentes de maior crescimento económico que se poderá vir a ter essa possibilidade. Saber quanto é relevante, até porque quando houver maior crescimento económico, qualquer folga orçamental que surja terá que escolher entre três grandes vias:

– redução da dívida pública, acumulando excedentes orçamentais

– redução da carga fiscal sobre toda a população

– reposição dos níveis salariais da função pública.

Que opções serão tomadas? para cada nível de crescimento económico que venha a ser alcançado que escolhas serão realizadas entre estas três alternativas (pelo menos)?


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The Economic Adjustment Program for Portugal – Second Review (parte 1)

Apesar de já ter sido publicado há algumas semanas, creio que ainda assim é útil fazer uma leitura cuidada do relatório da Comissão Europeia e do Relatório do FMI sobre a segunda revisão trimestral do programa de ajustamento contido no Memorando de Entendimento, para ver o progresso realizado mas também em que medida esse mesmo programa se vai ajustando em cada revisão.

Apesar de se manter em grande medida a estrutura, há algumas coisas novas e é preciso uma comparação cuidada para ir encontrando as diferenças. Irei procurar fazer esse esforço durante os próximos dias, nos temas que mais me interessam. Fica a sugestão de para outras áreas se fazer o mesmo exercício, similar ao de “encontre as 7 diferenças” tão comum nos jornais.

Antes de entrar nessa comparação, parece-me útil fazer o destaque de várias considerações das avaliações realizadas.

O sumário executivo do relatório da Comissão Europeia coloca desde logo as preocupações base resultantes do segundo trimestre do programa de ajustamento:

– uma maior contracção económica em 2012 – que traduz certamente as informações que foram dadas pelo Ministério das Finanças, dado que a descrição corresponde ao que têm sido as declarações do Ministro Vitor Gaspar

– pressão sobre a execução orçamental, por desvios de monta face às previsões – adopção de receitas adicionais, e derrapagens da despesa pública – reconhece-se que a utilização dos fundos de pensões foi a forma de se respeitar o objectivo do défice pública, com o custo de futuros pagamentos de pensões aos beneficiários desses fundos. [comentário: veremos ainda que confusões irão estar nos orçamentos futuros associados com esses pagamentos e essas pensões; basicamente teremos o estado como gestor de fundos de pensões de bancários a aplicar regras mais generosas do que as que aplica aos pensionistas pelos quais é responsável. No momento actual, esta situação parece aceitável para todos, mas conforme se for desvanecendo a pressão dos dias de hoje e a memórias das dificuldades actuais, surgirão provavelmente tensões com esta situação.]

– um objectivo orçamental de 4,5% do PIB, respeitando o que está estabelecido no programa de ajustamento

– empenho do Governo na realização de reformas na forma de controle orçamental, para evitar derrapagens futuras da despesa pública [comentário: este é um objectivo que está presente desde o início, e é consensual até ao momento em que novas regras comecem a ser aplicadas limitando de facto a capacidade de fazer despesa por parte das entidades públicas; resta saber se essas novas regras prejudicarão também o normal funcionamento das instituições públicas e o serviço por elas prestado à população. ]

– neste processo de ajustamento do processo de controle orçamental, surgem mencionados dois pontos importantes: os atrasos nos pagamentos a fornecedores do Estado, e refocar da actividade nos objectivos centrais da intervenção pública.

– o programa de reformas coloca à prova a capacidade administrativa do Estado, incluindo a sua capacidade técnica [comentário: que não saiu certamente reforçada nem fácil de reforçar com a redução salarial ocorrida – não são vão ser tempos de maior exigência técnica, como não vai haver capacidade de recrutar pessoas com qualificação e competência elevadas]


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Portugal: Second Review Under the Extended Arrangement

foi publicado o texto da segunda revisão feita pelo Fundo Monetário Internacional: aqui

o da Comissão Europeia: aqui (obrigado Helena)

e também no site da esame, organizado por partes

para ler e comentar nos próximos dias


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preços dos medicamentos com as novas margens

Por curiosidade, fui ver quais os valores das novas margens e dos preços dos medicamentos depois do Decreto Lei 112/2011. No caso “antes” do decreto-lei, a margem era definida como percentual do preço de venda ao público (PVP), sendo agora uma margem sobre o preço de venda ao armazenista (PVA), pelo que tal tem que ser acomodado na comparação das margens.

A primeira conclusão é a de que para preços baixos dos medicamentos, o impacto é essencialmente nulo, e só a partir de certo valor se começa a sentir uma redução do preço.

Os três gráficos seguintes mostram a comparação de preços entre “antes” e “depois”, no primeiro, e depois a margem face ao PVA de cada um sistemas para farmácias, primeiro, e grossistas depois. A preocupação de impacto praticamente zero ao utente nos preços mais baixos parece ter estado presente.


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e sairam diplomas induzidos pela troika

Na perspectiva de ir acompanhando o que vai sendo publicado como medidas de resposta ao Memorando de Entendimento, hoje saíram as duas seguintes, correspondendo a resoluções do Conselho de Ministros de há dois meses:

Decreto-Lei 112/2011 – preços de medicamentos e margens na distribuição

Decreto-Lei 113/2011 – taxas moderadoras

Como principais novidades:

a) a introdução de margens regressivas na remuneração da distribuição, e com fixação de um valor fixo por dispensa no escalão mais elevado.

b) ter como países de comparação Itália, Espanha e Eslovénia. A inclusão de apenas países do euro é de saudar, por evitar a instabilidade cambial que estaria presente se fossem usados preços de outras áreas.

c) resta saber se as avaliações anuais dos preços vão ser realizadas ou se sucede como no passado recente

d) as taxas moderadoras seguem o que já tinha sido anunciado, resta agora conhecer os valores. De resto, apenas de uma leitura rápida, no essencial parecem manter-se as isenções de taxas moderadoras, com pequenos ajustamentos.

Nos próximos dias, havendo tempo, dedicarei algum tempo mais a ver estes diplomas. Mas está cumprida uma parte do programa da troika no campo da saúde.

 

(post gémeo com Estado Vigil)


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produtividade por hora, horários de trabalho, etc… e tal

A discussão sobre mais meia hora de trabalho, sobre menos feriados, sobre menos “pontes”, reduções de salários tem de alguma forma dominado as atenções nos últimos tempos, sobretudo neste período de discussão do orçamento do estado e de avaliação do progresso registado no Memorando de Entendimento. Tudo isto ao mesmo tempo que uma medida a seu tempo emblemática, a descida da TSU, desapareceu do mapa político.

Para procurar perceber melhor a relevância de mais ou menos dias de trabalho, decidi procurar alguma informação adicional, com comparações com outros países, Irlanda e Grécia, por estarem como nós sob um programa de apoio financeiro internacional, a Alemanha e a França por serem referenciais do euro, Inglaterra e Suécia por serem da União Europeia mas não da zona euro, e a Espanha por ser o nosso principal parceiro comercial e país vizinho. Coloquei também a Polónia nos países de comparação, por ser um país onde várias empresas nacionais têm investido com sucesso.

Usei para o efeito os dados da Penn World Table  (Alan Heston, Robert Summers and Bettina Aten, Penn World Table Version 7.0, Center for International Comparisons of Production, Income and Prices at the University of Pennsylvania, May 2011.) O ponto de partida foi o PIB per capita, ajustada de power de compra.

Como seria de esperar, encontramos a quase estagnação de Portugal na última década, uma rápida aproximação da Polónia nessa mesma última década, o salto da Irlanda a partir da criação do mercado único em 1992. Por aqui, Portugal estava entre os países com menor PIB per capita e afastou-se recentemente dos restantes. Se estamos mais pobres em termos relativos, não podemos aspirar a ter os mesmos padrões de consumo sem produzirmos mais. Este gráfico e estas considerações resumem o ponto de partida, que me parece ser hoje aceite e consensual.

A partir daqui, a minha dúvida é saber se trabalhamos pouco (isto é, poucos dias e poucas horas por ano) ou se trabalhamos mal (isto é, baixa produtividade por hora trabalhada). Para isso, as Penn World Tables têm um indicador de PIB por hora trabalhada (preços constantes de 2005, ajustada de paridade de poder de compra). A figura seguinte tem esse indicador para o mesmo conjunto de países.

Como seria de esperar Portugal continua na cauda dos países de comparação, sendo notável aqui o facto de a Alemanha e a França terem a maior “produtividade por hora trabalhada”, mesmo não tendo o PIB per capita mais elevado deste conjunto de países. Portugal destaca-se por ser o país onde este “indicador de produtividade por hora trabalhada” menos cresceu.

Para confirmar essa impressão, a figura seguinte apresenta um índice deste indicador de produtividade por hora trabalhada.

Desde 1980 até 2009, último ano de dados disponíveis nesta base de dados, Portugal esteve até cerca de 200o a crescer a valores intermédios, mas desde o início deste milénio que passou a ser o país (deste conjunto) com menor crescimento do PIB por hora trabalhada.  A Irlanda, por seu lado, apresenta um bom desempenho sempre, mas com destaque para o período posterior a 1995. A Grécia está essencialmente similar a Portugal, cresceu menos na década de 90 do século passado mas mais do que Portugal desde então. A Alemanha manteve uma trajectória segura de crescimento durante este período de 30 anos.

Como Portugal parece ter passado por dois períodos distintos, uma forma de os evidenciar melhor é calcular o índice de crescimento de 1992 em diante (mercado único europeu) e de 1999 em diante (o projecto do euro como moeda única).

Quando olhamos apenas para o período depois de 1992, a evolução de Portugal não foi muito diferente da da França e da Alemanha, e foi melhor que a da Espanha. Todos os outros países cresceram mais do que Portugal desde 1992 no indicador de PIB por hora trabalhada. Como a França, Espanha e Alemanha tinham um valor de partida bastante mais elevado, para taxas de crescimento não muito diferentes, o gap em valor absoluto entre Portugal e esses países aumentou.

A situação torna-se porém muito diferente quando olhamos a última década, em que Portugal tem logo na primeira redução uma diminuição do PIB por hora trabalhada, só voltando a crescimento positivo a partir de 2005. Ou seja, o crescimento real do PIB verificado em vários anos surgiu de um aumento do número de horas trabalhadas. A Alemanha tem um bom comportamento mas não excepcional, quando comparado com outros países da União Europeia.

A posição relativa face à Alemanha é apresentada na próxima figura.

Daqui retira-se que desde há duas décadas que temos face à Alemanha uma situação curiosa – o nosso produto por hora trabalhada vai sendo uma fracção cada vez menor do valor da Alemanha –  se em 1988 uma hora de trabalho em Portugal produzia cerca de 54% do que se conseguia na Alemanha, em 2003 esse valor era cerca de 44%. Mas em termos de PIB per capita, passamos de 55% do valor alemão em 1988 para um valor máximo de 64% em 2005. Estes dois indicadores dão assim informações quase contrárias – o que parecia ser uma evolução positiva em termos de PIB per capita, foi na verdade uma evolução desastrosa em termos de produção por hora trabalhada.

Juntando estas várias peças, a minha conclusão preliminar é que aumentar horários e dias de trabalho permitirá, eventualmente, uma maior produção, pelo menos em alguns sectores. MAS, e este MAS é um aspecto crucial, o fundamento do problema continuará sem ser resolvido, e por isso voltará a emergir ao fim de pouco tempo – o produto por hora trabalhada tem que mudar, tem que crescer. E a mudança para mais meia hora de trabalho, e a redução de feriados e pontes poderão dar alguma folga mas não mudam por si esta produtividade por hora trabalhada. Há, por isso, que reconhecer a necessidade de ganhar espaço para respirar, mas ter já e explicitar já e convencer já toda a sociedade da importância do aumento da produtividade por hora trabalhada. Este indicador deveria passar a ser monitorizado com maior proximidade como factor de alerta para problemas.


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para conhecer as visões de Poul Thomsen

A visão de Poul Thomsen sobre o ajustamento da Islândia: http://blog-imfdirect.imf.org/2011/10/26/how-iceland-recovered-from-its-near-death-experience/


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farmácias e o Memorando de Entendimento

Surgiram recentemente alertas de que haverá farmácias com sérias dificuldades financeiras e em risco de encerramento. Por outro lado, já este ano foi publicado um relatório pelo Tribunal de Contas segundo o qual haveria ainda espaço para redução de preços nas farmácias (utilizando para análise de equilíbrio um modelo apresentado no anexo 8 do relatório do consultor).

O Memorando de Entendimento, por seu lado, preconiza uma alteração na forma de remuneração das farmácias, e uma poupança na actividade de distribuição e dispensa de medicamentos de pelo menos 50 milhões de euros. Essa poupança é para ser obtida, preferencialmente, por uma alteração da estrutura de margens que ficam para a distribuição, ou caso seja necessário por uma contribuição que pode ir até à diminuição de 3 pontos percentuais na margem.

Olhando para a forma actual de cálculo das margens das farmácias é de esperar que a actual redução de despesa com medicamentos se traduza automaticamente em menor margem em valor absolutos. Uma aproximação razoável num contexto de baixa sensibilidade da procura de medicamentos face ao seu preço é pensar que uma redução percentual do preço tem um impacto próximo de uma redução percentual da margem de distribuição. Por exemplo, uma redução de 10% das vendas tem um impacto similar, aproximadamente, a uma redução de 10% da margem. Estando a margem em 20% do PVP, essa redução são 2 pontos percentuais. Ou seja, ter uma redução dos preços dos medicamentos em 10% é similar a ter uma passagem da margem de distribuição de 20% para 18%.

De acordo com os valores de evolução agregada, há assim um impacto da evolução recente de decréscimo das vendas de medicamentos na rentabilidade das farmácias. De Janeiro a Setembro de 2011 as vendas totais em PVP desceram cerca de 8% face a Janeiro – Setembro de 2010. Admitindo que os custos de funcionamento das farmácias não são muito diferentes, este efeito preço será aproximadamente equivalente a uma redução de margem de 20% para 18,4% aplicado ao anterior volume de vendas. Sendo importante, não parece ser justificativo de uma falência generalizada das farmácias portuguesas, embora aconselhe algum cuidado com a redefinição das margens que venha a ser feita. Este valor médio também nada nos diz sobre a distribuição dos impactos, e que poderão ser mais significativos nalgumas farmácias face a outras.

A preocupação com os efeitos da saída de farmácias do mercado encontra-se presente no Memorando de Entendimento quando se refere que o mecanismo excepcional de obtenção de poupanças na distribuição via redução de 3% nas margens, se for necessário, não deverá esquecer de salvaguardar a rentabilidade mínima das pequenas farmácias de localização mais remota.

Ora, neste avaliar da situação não se poderá também deixar de olhar para o que possam ter sido decisões de investimento erradas por parte das farmácias. De acordo com uma notícia recente, uma farmácia teria tido como valor de trespasse 4 vezes o seu volume de vendas anual, sendo que se a farmácia fica com 20% desse volume de vendas, mais coisa menos coisa, então levaria 20 anos a que actividade normal pagasse o trespasse (ou que houvesse a expectativa de poder vender mais tarde por valor não muito diferente, em termos reais). Os encargos financeiros deste tipo de aquisição, num contexto de subida de juros em geral, e de redução do volume de vendas, em média, leva naturalmente a dificuldades nessa farmácia, mas não se deverá imputar a responsabilidade dessa dificuldade ao ajustamento da despesa com medicamentos.

Ressalvando esses casos, convirá ter em atenção para o futuro que a redução da despesa pública em medicamentos se continuar a ser sobretudo feita pelo lado da despesa em ambulatório, levará ainda a menores margens, em euros, para as farmácias, dado que ainda não se está sequer perto do objectivo de 1,25% do PIB (que só será verificado em 2012, aliás).


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decompondo a evolução da despesa pública com medicamentos

Hoje é um post um pouco mais técnico, quem estiver com pressa pode saltar para as figuras que resumem o essencial.

A despesa pública em medicamentos em ambulatório é dada pela soma de todos os medicamentos, indexados por i, de: s_i x q_i x p_i em que s_i é a taxa de comparticipação do medicamento , p_i  é o preço do medicamento  e q_i  é a quantidade vendida do medicamento.

A redução da despesa pública pode estar a ocorrer por redução em qualquer um destes elementos ou por passagem do consumo de medicamentos com valores elevados de comparticipação ou de preço para medicamentos em que esses valores são baixos.

A informação publicamente disponível no sítio de internet do Infarmed não permite uma resposta produto a produto, mas é possível uma aproximação em termos agregados.

Para tornar a visualização mais simples, tome-se como ponto de referência Janeiro de 2009.

Avalia-se:

a) a evolução da taxa de comparticipação média, aproximada pelo rácio encargos do SNS sobre valor em PVP do mercado em ambulatório (enão apenas mercado do SNS, para capturar o efeito de passagem de consumo para outros medicamentos fora do âmbito do SNS).

b) a evolução do preço; o preço é aproximado pelo preço médio por embalagem, calculado como valor em PVP de mercado em ambulatório dividido pelo número total de embalagens.

c) a evolução da quantidade, que é aproximada pelo número total de embalagens.

Globalmente, desde Outubro de 2010, a evolução recente está assente numa ligeira redução do preço médio (nos últimos meses), de uma redução da “quantidade” face a 2009, mas que tem permanecido estável no último ano, e sobretudo uma redução da taxa de comparticipação implícita, revertendo uma tendência do ano de 2009 em que aumentou de forma importante o consumo de medicamentos mais comparticipados pelo SNS.

Uma separação adicional é entre genéricos e não genéricos, em que a componente de não genéricos é calculada por diferença entre o mercado total em PVP (embalagens) e as vendas referentes a genéricos em PVP (embalagens).

O que se denomina de “não genéricos” é, por isso, mais abrangente do que as vendas de medicamentos cobertas pelo Serviço Nacional de Saúde.

Adopta-se igualmente a perspectiva de índice de base 2009 =100 para comparar a evolução livre dos valores de partida de cada variável.

Da decomposição realizada, torna-se evidente que o principal ajustamento de preços tem vindo a ocorrer pelo decréscimo do preço dos medicamentos genéricos, quase 30% em média no último ano, quase 40% cumulativamente desde Janeiro de 2009.

Nos medicamentos não genéricos houve mesmo um ligeiro aumento de preços em média, durante a maior parte do tempo desde Janeiro de 2009, reflectindo certamente efeitos de alteração da estrutura de prescrição e consumo de medicamentos. Só no último mês de dados se regista uma diminuição do preço médio nos “não genéricos”.

Olhando para as quantidades,

Observa-se um crescimento do consumo de genéricos, sobretudo a partir do Outono de 2010, em que houve uma alteração importante no nível de consumo. As oscilações mensais desde então ocultam uma leve tendência crescente.

Para ter em conta padrões de sazonalidade e antecipações/adiamentos de compra de medicamentos à volta de medidas de política, tomo como indicador a soma da despesa em medicamentos de 12 meses consecutivos em que o último é o último mês para o qual há dados. Fica uma espécie de despesa anual rolante. Fazendo a taxa de crescimento dessa “despesa anual rolante” em Setembro de 2011 face a Setembro de 2010, tem-se um decréscimo de 19,51% nos encargos do SNS mas apenas um decréscimo de 7,85 do volume de vendas total. Para a comparação de Setembro de 2010 com Setembro de 2009, o crescimento dos encargos do SNS era +12,4%, mas o mercado total estava a baixar 1,37%.

Aparenta assim ter ocorrido uma inversão clara da evolução dos encargos do SNS, alicerçada em parte numa diminuição do preço médio dos genéricos (mesmo depois de ajustamentos de composição no consumo), e em parte (subtancial) na reversão da tendência de maior comparticipação do Estado – os utentes voltaram a suportar uma parte maior das despesas com medicamentos.

O ajustamento teve o seu início no Outono de 2010, por isso bastante antes da introdução dos objectivos da Troika. Resta saber se os próximos números dos meses futuros trarão mais novidades, ou a continuação destas tendências.


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medicamentos e memorando de entendimento

A medida do Memorando de Entendimento referente à despesa pública com medicamentos tem gerado alguma discussão, já que a exigência de que seja atingido um valor 1,25% do PIB em 2012 e 1% do PIB em 2013 é uma exigência forte.

Parte da discussão centrou-se sobre que despesa pública em medicamentos estaria incluída, uma vez que o Memorando de Entendimento faz uma referência a valores médios da OCDE, que usualmente incluem apenas a despesa de medicamentos em ambulatório.

Foi já esclarecido que o objectivo está estabelecido em termos de despesa pública total em medicamentos, expresso de forma clara pelo Secretário de Estado Manuel Teixeira na abertura da conferência anual do Infarmed, realizada a 10 de Outubro de 2011.

Utilizando os dados publicamente disponíveis no sítio de internet do Infarmed, tome-se para cada mês o valor da soma de despesa em medicamentos dos 12 meses anteriores, e divida-se por uma medida do PIB obtida com ponderação do número de meses já decorridos do ano e do ano anterior (por isso, livre também ela de sazonalidade), tem-se uma noção da evolução recente do indicador face ao objectivo. O valor do PIB nominal de 2011 é estimado usando a previsão de crescimento real (negativo) segundo o Governo e da taxa de inflação segundo a previsão do INE (sendo as previsões respectivamente de -1,9% para o crescimento real, e 3,5% para a inflação).

Pelos valores calculados, vê-se claramente que apesar da evolução no sentido de redução da despesa pública com medicamentos nos meses mais recentes ainda se está longe do objectivo traçado.

Constata-se também que tem sido a despesa pública em ambulatório a fazer o ajustamento de descida e que o processo se iniciou há cerca de um ano, antes do Memorando de Entendimento.

Amanhã continuarei a análise dos números e que se consegue identificar como estando na base da descida da despesa pública em medicamentos.

Nota: em alternativa aos dados do Infarmed, podia ter usado os dados da Conta Satélite da Saúde publicada pelo INE. Não o fiz porque sendo dados anuais não permitem um acompanhamento mais em cima da evolução real, e os dados do Infarmed são em princípio fiáveis (apesar de no caso das despesas hospitalares dependerem de reporte dos hospitais, e de nem todos os hospitais estarem incluídos em todos os meses – o valor obtido deve ser visto como um limite inferior ao verdadeiro rácio despesa pública em medicamentos face ao PIB).