Momentos económicos… e não só

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Turismo médico (vs. turismo de saúde) (4)

Retomando a discussão sobre turismo médico, ainda no lado da procura, há no trabalho de Neil Lunt um aspecto particularmente motivador para Portugal – a importância que tem tido em vários países a população da Diáspora. São pessoas com uma ligação ao país, mas que se encontram a residir noutro, e que por diferentes motivos poderão querer ser tratadas em “turismo médico”. Diferentes populações poderão ter aqui diferentes motivos.

Os portugueses ou descendentes de portugueses em países como os Estados Unidos poderão ter como principal factor de decisão o preço.

Os que vivem e trabalham em Africa poderão ter como factor decisivo a falta de serviços disponíveis no país onde se encontram.

Os que residem em países europeus do Norte poderão ter como principal argumento a proximidade cultural, o “voltar a casa” para realizar os tratamentos.

A Diáspora poderá ter na verdade múltiplas razões e motivações, e não é claro que interlocutores existem para cada uma destas populações, nem qual o verdadeiro potencial de turismo médico em cada uma delas.


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Turismo médico (vs. turismo de saúde) (3)

Entrando agora em comentários sobre as ideias de turismo médico e da apresentação do Neil Lunt sobre o assunto na conferência do health cluster portugal, há um importante ponto de partida para qualquer discussão sobre turismo médico – qual a definição do que é um consumidor?

Aqui, a definição mais comum parece ser bastante limitada – pessoas doentes, dispostas a viajar e a pagar directamente os cuidados de recebidos (o que na gíria de economia da saúde se designa por out-of-pocket).

Ora, o número global de “consumidores de turismo médico” que irá preencher estas condições irá ser limitado. De uma forma geral, para os procedimentos médicos mais sofisticados, para as intervenções clínicas de maior envergadura, as pessoas em geral pretendem ter uma protecção financeira em caso de doença, pretendem ter um seguro, seja privado ou público.

Esta característica altera de forma substancial a “procura” de turismo médico: passa a haver um novo participante, o “terceiro pagador”, a entidade que assume a responsabilidade das despesas de saúde quando e se forem necessárias, na extensão que tiver sido acordada; a existência deste “terceiro pagador” altera também as condições em que cada doente fará a escolha entre ser tratado no seu país de origem ou procurar tratamento num outro país; e levanta, por fim, a questão de quem é o decisor chave, o doente, ou o “terceiro pagador” se tiver possibilidade de se negar a pagar fora do contexto que tiver sido explicitamente acordado?

No relatório da OCDE, são identificados vários tipos de “turistas” por motivos clínicos, para além da definição de “doente, disposto a viajar e disposto a pagar directamente”:

– visitantes temporários de um país, que têm o azar de ficar doentes; são pessoas que em viagens de lazer ou negócios ficam doentes; não serão “turistas médicos” no sentido do turismo médico que tem vindo a ser discutido. Nem serão uma procura especialmente expressiva, não serão factor de crescimento ou de desenvolvimento de um sistema de saúde virado para a prestação de serviços em turismo médico.

– residentes num país de nacionais de outro país – também este outro não será exactamente o que se pretende denominar com “turismo médico” – claro que podem criar uma pressão de procura para os sistemas de saúde de cada país, com especial acuidade nalgumas regiões, ou procurando tratamentos que não são disponibilizados nos seus países de origem, mas uma vez mais não são o “turismo médico” como ele tem vindo a ser entendido.

– cuidados transfronteiriços – com a partilha de equipamentos de saúde, não são também eles “turismo médico”; são e devem ser pensados em termos locais;

– doentes colectivos – são os doentes que resultam de “outsourcing” de tratamento por parte dos “terceiros pagadores” que os cobrem; não têm uma decisão individual no sentido em que não pagam directamente (out-of-pocket) os cuidados, mas há uma organização, uma entidade, que os organiza nesse sentido. Este tipo de doente pode corresponder a uma parte relevante do “turismo médico”. A meu ver será aliás nestes doentes que se concentrará uma fatia, senão mesmo a fatia mais interessante, do movimento europeu de “turismo médico”.

Os elementos chave da definição da procura, de acordo com o relatório da OCDE, são “tratamentos a baixo custo”, “custos de transporte baixos” e “informação prestada pela internet”.

Mas há outras questões a serem respondidas: em que medida esta é uma “procura desviada” ou uma “nova procura”? É crucial perceber os aspectos dinâmicos e as implicações das decisões empresariais tomadas. Situações em que muitos procuram satisfazer sobretudo uma “procura desviada” resulta normalmente em sobre-investimento sem que haja um fluxo de doentes correspondente. Por procura desviada entendo procura de cuidados de saúde que seriam prestados de qualquer modo, sendo que o “turismo médico” o que faz é alterar o âmbito geográfico da decisão de onde se realizar o tratamento.


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Turismo médico (vs. turismo de saúde) (2)

A apresentação de Neil Lunt na conferência do health cluster portugal sobre turismo médico tem como ponto de chegada o tratamento do que Neil considera serem três mitos: o mito do crescimento exponencial do turismo médico; o mito de que o turismo médico é um mercado global; e o mito de a intervenção pública (governamental) poder ser útil.

Relativamente a estes três mitos, no primeiro deles, a conclusão é que não existe um crescimento exponencial, não há qualquer dado que o permita confirmar, e as expectativas de crescimento apontadas há menos de meia dúzia de anos não se concretizaram.

O segundo mito é avaliado de outra forma. Não sendo uma característica universal – nem todo o turismo médico será um mercado global, é plausível que tal ocorra para alguns tipos de cuidados. Mas alerta para que este não será um campo neutro para todos os que nele pretendem estar. Há vantagens de alguns intervenientes que poderão ser difíceis de combater (mas que por outro lado dão a esses mesmos intervenientes oportunidades mais amplas).

Quanto ao terceiro mito, remete para os mitos 1 e 2 para argumentar que não é fácil perceber qual a intervenção pública (em termos de políticas adoptadas) que é mais razoável, nem que problema justifica essa intervenção.

Tendo esta caracterização geral da intervenção do Neil Lunt, pode-se agora passar à sua discussão e às implicações que tem para Portugal.

(continua…)


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Turismo médico (vs. turismo de saúde) (1)

No mês passado, o health cluster portugal promoveu uma conferência onde foi discutido com detalhe o projecto de fazer de Portugal um destino de turismo de saúde. É mais correcto, na verdade, utilizar-se o termo turismo médico, apesar de se estar a generalizar a designação de turismo de saúde. A questão da definição não é inócua, uma vez que turismo de saúde engloba também o turismo destinado aos SPAs e termas, por exemplo, e tem por isso uma característica eminentemente individual, enquanto o turismo médico é direccionado para a resolução de problemas clínicos.

Nessa conferência, Neil Lunt, que fez recentemente um trabalho de revisão do tema para a OCDE, trazia uma palavra de cautela, procurando chamar a atenção para vários “buracos” nas discussões correntes sobre turismo médico.

Desde logo, as previsões de procura global – a recomendação de Lunt é a de cautela na utilização de números que são avançados, uma vez que não existe uma recolha sistemática e sistematizada da utilização de turismo médico. As previsões surgem “do nada” e são repetidas até se tornarem aceites, mas sendo que frequentemente se resumem a uma única fonte não confirmada.

Também resulta do seu trabalho e da apresentação realizada, a necessidade de compreender bem o lado da procura de turismo médico antes de se iniciar um projecto de oferta de serviços de turismo médico.

Uma das principais ideias resultantes da análise feita é a importância a ser dada a “facilitadores” de encontro entre procura e oferta – o papel das redes, da informação sobre prestadores, sobre organização das viagens e alojamento, verificação da qualidade dos cuidados prestados, apoio nos períodos pós-intervenção médica, tratamento de questões legais que surjam.

Pensar na forma como a “procura” e a “oferta” se encontram no caso dos serviços de turismo médico tem que ser feito ao nível do país de origem e do país de destino.

(continua…)

 


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na semana passada, a convite da Marta Reis do “i”

tive a possibilidade de ler e comentar um livro do FMI sobre as reformas em sistemas de saúde. Na sequência houve uma troca de impressões via facebook, e deixo tudo aqui disponível, o artigo original da Marta, e depois a troca de correspondência.

FMI aposta em seguros de saúde para travar despesa

Por Marta F. Reis, publicado em 13 Dez 2012 – 11:58

Delegar gestão, mudar financiamento com seguros e privatizações são as pistas do FMI

Não é uma receita do FMI para refundar a saúde em Portugal, mas são propostas concretas com base em experiências internacionais bem conseguidas. Num livro publicado este Verão, os técnicos do Fundo Monetário Internacional fazem sugestões para a reforma dos sistemas de saúde de diferentes economias avançadas, entre as quais a portuguesa. O reforço do papel regional e local na gestão da saúde, o financiamento com uma componente de seguro e as privatizações são algumas direcções.

i convidou o economista Pedro Pita Barros, da Universidade Nova de Lisboa, para analisar as sugestões contidas no livro “The Economics of Public Health Care Reform in Advanced and Emerging Economies” (sem tradução em português). Para o especialista em economia da saúde, mais que as potenciais reformas apontadas pelo FMI, algumas conclusões dos peritos são importantes para o debate em curso no país e que deverá ganhar forma ao longo de 2013. Por um lado, diz, fica claro que não existe qualquer experiência de refundação pela qual o país se possa guiar, pelo menos em termos de financiamento: “Não houve qualquer país que tivesse feito uma mudança radical nas últimas duas décadas: passar de um serviço nacional de saúde para uma componente de seguro privado ou social; mudar para serviço nacional de saúde se tinha um sistema de seguro de saúde privado ou social; nem de privatização ou nacionalização radical – não há registo de qualquer delas ter sido tentada e do efeito”, avisa o economista.

Por outro lado, e após avaliarem experiências dos EUA, na Europa e também na Ásia, os peritos do FMI concluem que não existe um nível óptimo de participação do sector privado num sistema público de saúde, um debate que tem sido comum em Portugal. “O papel do sector privado depende das preferências de cada país e das restrições existentes”, conclui Pita Barros, lembrando que o próprio FMI reconhece limitações na gestão privada: mesmo que possam ser mais eficientes, nem sempre significam um menor custo para a população. “O sector privado tende a fornecer cuidados a mais, aproveitando as assimetrias de informação e a possibilidade de ter mais lucros dessa forma.”

POTENCIAIS REFORMAS Pedro Pita Barros começa por destacar que, entre as reformas apontadas pelo FMI como potencialmente benéficas para Portugal, as que teriam um maior impacto – avaliado de forma estatística tendo em conta a experiência noutros países e comparações da OCDE – relacionam-se com decisões no sector público e não tanto com o desenvolvimento do sector privado.

A medida com maior impacto na estabilidade financeira do SNS, de acordo com a metodologia do FMI, seria um reforço das decisões a nível regional, com uma maior delegação de decisões relacionadas, por exemplo, com a remuneração de profissionais. Nesta área houve alguns sinais opostos no último ano: os contratos individuais de trabalho, por exemplo, passaram a obedecer às tabelas da função pública mesmo nas contratações nos hospitais-empresas, até aqui autónomos nos valores que ofereciam.

Na gestão financeira o controlo também apertou: hoje qualquer despesa superior a 100 mil euros está dependente de autorização das Finanças. “A publicação do Plano Nacional de Saúde e a ideia de actuação regional dentro desse plano parece ser onde no actual sistema de saúde português é realizável pensar em avançar nesta linha proposta pelo FMI.”

Incluir no financiamento do SNS uma componente via prémios de seguro seria a segunda medida com maior impacto no futuro crescimento da despesa em saúde, a variável que o fundo coloca no centro da sua análise. Neste momento, o financiamento é assegurado quase na íntegra a partir do Orçamento do Estado, com 1,7% de contributo das taxas moderadoras. Pita Barros é reticente: “O mais próximo que poderíamos ter era as ARS actuarem como seguradoras públicas e aceitarem entre os seus beneficiários população residente noutras áreas fora da sua delimitação”, explica.

“A mudança para um sistema de seguro seria de facto o desmantelamento do SNS. Teriam de ser organizadas as contribuições para esse sistema: ou redução de impostos ou transferências do OE para o pagamento desses seguros. Se não houvesse redução e as pessoas fossem obrigadas a comprar um seguro além do que já pagam, então seria equivalente a novos impostos.” A ideia deste tipo de partilha de custos através de seguros, diz Pita Barros, tem sido rejeitada em Portugal. Paulo Macedo também tem afastado mudanças de fundo no financiamento, embora fontes do sector digam que modelos como o belga ou o holandês deverão ser debatidos face ao previsível aumento da despesa pública em saúde.

Aqui o FMI vai mais longe: os seguros podem ter diferentes prémios e coberturas, podendo haver ofertas além do pacote assegurado pelo sistema público ou eventuais falhas deste. Também aqui Pita Barros tem algumas reservas. “Se as ‘falhas’ do sector público são por ineficiência, então deviam ser corrigidas, mas se as falhas existem por concepção do sistema – por exemplo, permitir seguro de saúde adicional, para cobrir taxas moderadoras que tenham o papel de conter abusos na utilização, podem aumentar a despesa”, explica, alertando para o facto de as propostas do FMI resultarem de uma análise estatística poder fazer com que não tenham em conta todas estas nuances, além de não se avaliar que efeito teriam se fossem todas implementadas ao mesmo tempo.

Em quarto lugar surgem as privatizações nos cuidados primários e agudos, área em que tem havido movimentações da tutela. Segundo a proposta do livro, não se trata de estabelecer parcerias público-privadas mas de promover a entrada e a saída de prestadores no sistema. “A aplicação em Portugal teria de significar a privatização da prestação do SNS (centros de saúde e hospitais), aceitando-se depois que poderiam falhar e fechar se não tivessem resultados positivos”, explicou o economista. “O mais próximo que temos disto é o sistema de convenções gerido pela ADSE.”

Leia também:

Comentários

[J.O.] Caro Professor, por favor, é capaz de me explicar o que acrescenta este artigo e o FMI (doc. que não li) ao que já todos sabemos! Façamos o debate sim, mas de mente aberta… há muitas áreas reformáveis ro SNS e muitas delas há muito estão identificadas, o que tem faltado é vontade politica para as executar. Faço a justiça de reconhecer que o senhor conhece algumas delas e eu também…Abraço.

[PPB] Caro [J.O], para se compreender bem o artigo é necessário ler um pouco mais do livro do FMI – fizeram uma revisão das reformas dos vários países, uns emergentes outros desenvolvidos, e a partir daí elaboraram uma metodologia estatística de análise de impacto de cada tipo de reforma.

Com essa análise estatística estabelecem um valor de impacto esperado de cada medida, agrupam as medidas por categorias, e somam os impactos das medidas de cada categoria para depois dizerem que esta ou aquela têm mais impacto.

Cada medida tem uma graduação, e as medidas de impacto são passagens de graduação. O desafio da Marta Reis com este artigo é o da discussão das medidas que aparecem com mais impacto no livro do FMI e sua aplicação a Portugal.

Só que não basta ver o que tem mais impacto no livro, é preciso perceber o que é o ponto de partida de Portugal em cada uma das medidas, e também verificar se não há contradições fundamentais entre uma medida que se diz no relatório ter impacto importante mas depois não ser aplicável no contexto de um país.

A minha contribuição foi uma espécie de reality-check dessas medidas à situação portuguesa. E discussão do que pode ou não ser aplicável com impacto relevante. De qualquer modo, a ideia de que nos repetimos vezes sem fim não deixa de ter alguma aplicação. Mesmo o memorando da troika retoma muitas coisas do relatório da comissão para a sustentabilidade financeira do SNS e que altura (2006/2007) foi criar pó no fundo das gavetas do MS, antes de sair em fasciculos numa televisão, e depois voltou para a gaveta, passado o momento mediático.

A pergunta face ao livro é: tem o FMI a receita mágica que nos vem trazer durante a discussão da refundação do estado social e essa receita está neste livro? a minha resposta é não, apesar de algumas das ideias do livro serem interessantes (longa resposta para pergunta curta, abraço)

[JO] Muito obrigado, pela clareza da resposta, aliás, como é seu hábito.  Tal como havia dito não li o livro e, portanto, a minha reflexão tinha essa lacuna de base! Fiquei agora bem mais esclarecido com a sua explicação. Assim mesmo, confesso que não me parece que o artigo, tal como está escrito, dê resposta à intenção que lhe está subjacente. Porém, o que releva desta nossa reflexão é a ultima parte do seu comentário, a saber: “A pergunta face ao livro é: tem o FMI a receita mágica que nos vem trazer durante a discussão da refundação do estado social e essa receita está neste livro? a minha resposta é não, apesar de algumas das ideias do livro serem interessantes”

Já agora, sempre lhe manifesto uma das razões mais profundas para o meu primeiro comentário , que penso também perfilha – hoje em dia parece que que é proibido pensar livremente, há uma premissa base que contamina/manieta todos os pensamentos – a troika! Eu não vou por aí!!!… Renovo cumprimentos.


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sobre o valor da protecção contra despesas incertas em cuidados de saúde

ontem coloquei uma pergunta via questionário online para ter uma ideia do que seriam as respostas.

A questão colocada foi “De acordo com uma tabela de preços do Serviço Nacional de Saúde, um transplante hepático tem um preço de 92 988,56 euros, um transplante renal 26 263,38 euros e um procedimento na retina um preço de 1632,70.

Tomando estes valores por referência e sabendo que em Portugal há cerca de 2 transplantes hepáticos, 5 transplantes renais e 32 procedimentos na retina por cada 100,000 habitantes, quanto está disposto a pagar no início de cada ano (em impostos ou em prémios de seguro) para não ter que pagar o preço indicado acima caso venha a precisar de um destes procedimentos?”

Eram dados alguns valores de referência para escolha, mas também foi dada a opção de inserir um valor diferente por quem o quisesse fazer dessa forma.

Se as intervenções de 2010 dos três procedimentos indicados fossem valorizadas ao preço indicado, seriam neles gastos cerca de 37 milhões de euros (nota: o custo real poderá ser diferente, mas não há forma de o saber rapidamente).

Para este mesmo número de procedimentos, o valor médio que os inquiridos se manifestaram dispostos a pagar foi cerca de 40 euros por ano (retirando casos muito elevados, em que muito elevado foi considerado 3 desvios padrão acima da média de todos os valores). O que para cerca de 10 milhões de habitantes, dará um valor de protecção financeira superior a 400 milhões de euros. Mesmo que este valor esteja sobreavaliado por este inquérito informal, a diferença para o custo real dá uma ideia de que o valor presente na protecção financeira é elevado e não deve ser negligenciado – e as discussões baseadas no utilizador – pagador fazem esse erro em geral, pois ignoram, eventualmente por desconhecimento ou menor cuidado, esse valor da protecção financeira.

As figuras seguintes ilustram os resultados das respostas recebidas até à tarde de 15 de Dezembro 2013, e não considerando valores extremos (ver acima).

A primeira figura apresenta uma versão continua da distribuição dos valores respondidos (a linha vermelha corresponde ao valor esperado da despesa associada com os três procedimentos), enquanto a segunda apresenta o histograma discreto desses mesmos valores. De seguida reproduzem-se os comentários recebidos.
densidade

respostas

Comentários recebidos, que transcrevo tal qual foram recebidos.

1) em razão do alto custo, os transplantes devem ser inteiramente pagos pelo Estado.

2) A minha resposta tem a ver com o facto de ter um seguro de saúde Médis para dois titulares em que pago anualmente cerca de 3000 euros.
3) Um exercício excelente, limitado a 3 situações, o que até torna mais evidente o raciocínio.
4) Posso ter lido a pergunta anterior com pouca atenção, mas dá a entender(pelo menos a mim deu-me) que era quanto a pessoa estaria disposta a pagar pela saúde anualmente (quase uma ideia “bismarckiana”) e não propriamente por aqueles procedimentos apenas, visto que neste caso a minha resposta (200e) é descabida.
5) Deixo apenas um comentário relativamente às taxas moderadoras. Actualmente o SNS está a trabalhar para pessoas isentas de taxas moderadoras, que correspondem a quase 50% da população em Portugal. Os não isentos recorrem muitíssimo menos à consulta. Os não isentos estão no limite do seu esforço financeiro pelo que suportar 20, 30 ou 40 euros em taxas moderadoras após uma consulta num centro de saúde (5 euros da consulta mais 20 ou 30 de exames precritos pelo médico) pode tornar-se inviável. Já alguns isentos recorrem sem dar valor ao serviço que lhes é prestado. Se vão hoje ao Centro de Saúde pedir receita de um medicamento da sua medicação prolongada, não levam necessariamente também de outro medicamento que esteja a acabar. No dia seguinte passam lá outra vez. Se pagassem 3 euros como os não isentos seguramente o filme seria diferente.
6) Em Portugal há escandalosamente poucos referendos e há decisões sobre questões essenciais não cobertas pelos programa eleitorais ( e algumas até mesmo mesmo quando são cobertas, deveriam ser decididas caso a caso e não em pacote) deixadas ao livre arbítrio de gente com agenda escondidas. Muitas das alterações na Saúde e na Educação que estão em cima da mesa fazem parte desse conjunto de questões.


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demasiada actividade nos dias que correm,

não deixam tempo para muitas coisas que se gostaria de fazer, assim, numa versão minimalista, e como há ciclos destas coisas, aí vem mais um ciclo de discussão do principio do utilizador-pagador na saúde; para não ser apenas conversa geral e que até parece erudita, deixo o desafio de 2 min de resposta a uma pergunta:

https://novasbe.qualtrics.com/SE/?SID=SV_51hLiXpD6jfqFeZ

com o pedido de divulgação por email (basta copiar o link) a quem quiserem.


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Memorando – quinta revisão (3)

O Memorando de Entendimento volta a referir a necessidade de acelerar a resolução da situação da ADSE, no seguimento das versões anteriores do Memorando. Na quarta revisão era dito que seria avaliado o progresso na quinta revisão, mas essa avaliação não produziu até ao momento qualquer decisão clara, tendo apenas sido adiado para o terceiro trimestre de 2012 a resolução. Entretanto, o terceiro trimestre terminou há quase um mês e continua a não existir qualquer novidade nesse campo. No orçamento do estado para 2013 há uma redução das transferências para a ADSE, mas não se refere qualquer alteração fundamental no seu funcionamento. Esta não é, porém, uma questão para o Ministério da Saúde resolver cabendo antes ao Ministério das Finanças tomar uma decisão.

No campo do medicamento, os compromissos com a troika parecem entrar agora numa certa velocidade de cruzeiro, mantendo-se a ideia que já vinha da primeira revisão, há um ano atrás, de legislação que baixe o preço dos medicamentos quando estes perdem a patente. Também continuam presentes a revisão anual dos preços dos medicamentos e dos países de referência para essa revisão e o objectivo de 1% para a despesa pública com medicamentos.

A obrigatoriedade de baixar preços no momento de perda de patente está aparentemente a ter alguma dificuldade em passar à prática. É uma medida que poderá contudo gerar alguns efeitos inesperados. Em particular, se a empresa detentora do medicamento original for obrigada a baixar o preço de forma substancial quando termina o período de protecção de patente, irá essencialmente estar a competir com os medicamentos genéricos, em lugar de manter um preço elevado para quem dê valor à marca, deixando aos medicamentos genéricos sobretudo os doentes mais sensíveis ao argumento do preço. Se tiver que colocar o preço bastante mais baixo, então poderá querer competir directamente com os medicamentos genéricos e poderá fazê-lo baixando o preço do medicamento original ainda durante o período de patente, como forma de sinalizar desde logo um posicionamento agressivo no mercado, por um lado, e ao mesmo tempo condiciona as decisões das empresas de genéricos quanto à entrada. Este último aspecto será sobretudo preocupante se for mantida alguma regra de que o preço do genérico tem que ser inferior ao preço do medicamento original numa certa percentagem. É que mesmo sendo o preço de referência para este facto o preço do medicamento original antes da perda da protecção da patente, então a empresa produtora do medicamento de marca poderá ter interesse em perder margem no último ano mas afastar a concorrência de genéricos (que deixam de estar interessados por haver um preço muito baixo). A prazo poderá eventualmente ocorrer uma situação de menor concorrência no mercado dos medicamentos que perderam patente. No entanto, o preço médio no mercado poderá ser mais baixo desta forma, e na verdade os preços dentro de grupos homogéneos (medicamento original mais respectivos genéricos) deveria convergir no tempo para preços similares. Há, aqui, um tema para maior  conhecimento futuro, uma necessidade de aprofundamento da forma como esta medida poderá influenciar o funcionamento do mercado, além do impacto inicial de descida de preços.


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Memorando – quinta revisão (2)

O segundo ponto que é mantido no Memorando de Entendimento é da receita de taxas moderadoras (mais 150 milhões de euros em 2012 e adicionais 50 milhões de euros em 2013).

Como já referi no livro sobre o primeiro ano da troika (ver o link na barra lateral para quem estiver interessado), este é um objectivo que em si mesmo é complicado e até contraditório com outros objectivos da troika e com decisões do Governo.

Grosso modo, estes valores de receitas de taxas moderadoras resultariam se face ao aumento verificado em 2012 (em linhas gerais uma duplicação do valor das principais taxas moderadoras) a procura de serviços se mantivesse constante. Mas o objectivo das taxas moderadoras é induzir uma melhor utilização dos serviços, tal como escrito no próprio memorando de entendimento como. Ora, se esse objectivo for alcançado, por exemplo com as pessoas a irem mais aos cuidados de saúde primários em vez de irem à urgência hospitalar, então a receita de taxa moderadora é menor.

Temos ainda que juntar a este efeito as isenções, que aumentaram, embora de acordo com os últimos números divulgados não tanto como tinha sido previsto. Se aumentam as isenções, reduz-se a receita respectiva a elas.

Para os que pagam taxa moderadora, se a sua utilização for mesmo moderadora no sentido de não recorrerem a serviços de saúde sem ser realmente necessário, então também essa receita deixa de estar presente (o que é bom para o Serviço Nacional de Saúde, em termos de custos evitados com situações que não justificam esse uso).

Juntando todos estes efeitos, só com mais taxas moderadoras (sobre mais serviços) se poderá ter um efeito de expansão da receita, mas é duvidoso que o aprovado no início de 2012 consiga ter esse efeito.

Por outro lado, o actual momento social e político desaconselha tomada de medidas que possam ser vistas como apertar e dificultar ainda mais a vida e a rede de apoio pública das pessoas.

Esta parte do Memorando deverá ser medida cuidadosamente em todos os seus efeitos, e focar mais nos aspectos de uso racional do Serviço Nacional de Saúde, eventual auto-restrição excessiva no sentido das pessoas não recorrerem quando o devem fazer por causa da taxa moderadora, do que propriamente no objectivo da receita. Seria útil que também o objectivo de utilização racional fosse de alguma forma quantificado. Mesmo que não seja introduzido no texto do memorando, pelo menos na avaliação que se faz do memorando deveria estar presente, e não ser apenas uma questão de mais ou menos receita. Aliás, mostrar o sucesso nessa área será provavelmente a melhor forma de compreender porque não se alcançou a receita prevista (se não for alcançada, claro).


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Memorando – quinta revisão (1)

Bom, vou procurar fazer uma apreciação da quinta revisão do Memorando de Entendimento no que diz respeito à parte da saúde, ao que no Memorando de Entendimento vem na sequência do subtítulo “Health Care System”.

A impressão da primeira leitura é que não há alterações fundamentais, mas alguma coisa mudou, com adiamento de alguns pontos e de introdução de precisão adicional noutros. Os elementos novos não parecem ser muitos.

Os objectivos continuam a ser organizados em três grandes itens:

1) uso mais racional dos serviços e controlo da despesa

2) redução da despesa pública com medicamentos

3) poupanças adicionais nos custos hospitalares e eliminação do problema dos pagamentos atrasados e consequente dívida gerada.

A quantificação do objectivo de despesa pública com medicamentos mantém o “cerca de 1% do PIB” em 2013 nesta parte, mas no ponto 3.45 é dito exactamente “1% do PIB”, o que deixa alguma ambiguidade no ar. O acordo com a APIFARMA (tratado noutro texto a propósito do Orçamento do Estado 2013) permite pensar no processo pelo qual este objectivo da troika será nominalmente alcançado. Mas dadas as tendências de crescimento da despesa com medicamentos em ambiente hospitalar, é de esperar um depois de terminado o objectivo de 2013, se observe novo aumento da despesa pública com medicamentos. O mecanismo de protocolo não é uma garantia de controlo futuro da despesa, apenas garante estes dois anos. Há, por isso, que perceber que mecanismos serão colocados em prática para se conseguir alcançar esse controlo da despesa, ou pelo menos crescimento controlado.

Um dos instrumentos, utilização de mecanismos de avaliação económica, está já em uso há alguns anos, e tem sido criticado por limitar a entrada de medicamentos inovadores. Aspecto que tem sido rebatido com o argumento que muitos medicamentos não são verdadeiramente inovadores. Há aqui claramente a necessidade de fazer uma avaliação do que tem sido essa experiência, em termos de contributo para contenção orçamental e em termos de efeito sobre a saúde dos doentes e sobre as oportunidades de tratamento perdidas.

Outro instrumento é a aplicação e utilização generalizada de orientações de prática clínica que incorporem os aspectos de custos nessa decisão. Só que a dificuldade de fazer essa discussão no que se refere aos medicamentos em ambiente hospitalar esteve bem patente no alarme e exaltação que surgiram com o recente parecer do Conselho Nacional de Ética para as Ciências da Vida. Talvez um ponto de partida seja a mera identificação das situações em que a aplicação de medicamentos não se traduz em qualquer benefício para o doente, pois mais do que tratar ou não tratar os doentes, há uma questão do valor adicional em termos terapêuticos. A incorporação dos elementos de custo deve ser feita a um nível de orientação (que não é lei, e à qual pode haver desvios justificados), e não ao nível de cada doente – não é face a um doente concreto que se terá de decidir se o preço compensa o benefício ou não, e sim numa apreciação genérica sobre as propriedades terapêuticas e custos do medicamento nas situações clínicas em que o mesmo possa ser usado.

Para este caminho, da chamada utilização racional do medicamento – que não é contestada em geral – o Memorando de Entendimento nada diz nem nada obriga, pelo que nos cabe escolher o que fazer. Neste campo, o desafio é olhar para lá do objectivo de despesa em 2013.