Momentos económicos… e não só

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pastel de nata no dinheirovivo.pt

a semana passada poderia ficar conhecida como a semana do pastel de nata do Álvaro, mas mais do que ideia lançada, é reveladora a reacção observada, como tento argumentar no dinheirovivo.pt desta semana:

Pastel de nata

16/01/2012 | 00:00 | Dinheiro Vivo

Esta semana que passou teve como ponto alto mediático o pastel de nata. Ganhou esse destaque por via do Ministro da Economia, da sugestão da sua exportação via cadeia de franchising. O ruído mediático que se seguiu, aproveitado em diversos comentários políticos é sintomático de uma atitude geral portuguesa.

Por um lado, vai-se usando a retórica da necessidade da inovação e de pensar “out-of-the-box”, no sentido de explorar caminhos inesperados. Mas quando alguém sugere algo nessa direção, a reação é adversa, não se aceita explorar novas ideias para verificar se fazem ou não sentido. Com uma certa preguiça mental, descarta-se imediatamente a nova ideia, se possível com uma dose de humor corrosivo para acentuar a rejeição.

Pensemos, porém, um pouco mais na ideia do pastel de nata e na sua exportação. Existem curiosamente algumas tentativas de fazer essa exportação. De o fabricar e vender noutros países, embora com sucesso limitado. Melhor nuns casos, pior noutros.

Um exemplo de sucesso limitado ocorreu num país asiático, de grande população e baixo-médio rendimento. Três problemas se colocaram na venda em cadeia de lojas de pastel de nata. Primeiro, conseguir posicionar o produto no segmento premium. Para o efeito, a sua confecção tem que ser adequada. Segundo, gerar o reconhecimento do produto como sendo europeu. Infelizmente, o reconhecimento de ser um produto português era basicamente irrelevante no país em causa. Terceiro, assegurar as condições de produção. Neste último caso, as necessidades de precisão no tempo e temperatura exigiam uma qualidade de mão de obra que não existia ou era demasiado onerosa.

Face aos custos de produção envolvidos, nomeadamente em termos de produto rejeitado por não preencher as condições de qualidade de um produto premium, a sua produção acabou por ser descontinuada.

Se este esforço e esta experiência estivessem inseridas numa rede mais vasta, poderia ter surgido a ideia de solicitar à engenharia portuguesa, às universidades, o desenvolvimento de tecnologia que permitisse ultrapassar as limitações de mão de obra local.

Será destas situações, de procura de soluções, que os empresários poderão estimular inovação que seja útil. Mas o primeiro passo é mesmo aceitar explorar ideias, mesmo que à primeira vista a reação seja de estranheza.

Independentemente da ideia do pastel de nata já ter sido tentada e não ter vingado de modo generalizado, não deixa de ser preocupante a reação gerada. Exigir que cada ideia tenha a visão e a profundidade de um produto revolucionário é a forma segura de nada desenvolver.

 

Rápida lista de alguns links sobre as reacções ao pastel de nata

dinheirovivo.pt

rtp

aventar

e numa busca via google

aquiaqui, aqui e aqui  e muitos mais comentários haverá certamente.


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no dinheirovivo.pt, como é habitual à segunda-feira

Decidi esta semana fugir aos temas quentes, Jerónimo Martins, Maçonaria, EDP, e voltar ao tema do crescimento económico; por duas razões, porque é o verdadeiro problema da economia portuguesa, e porque se tem que procurar formas diferentes de actuação, pública e privada,

o texto original do dinheirovivo aqui, e a sua reprodução já de seguida:

Para ajudar a encontrar o caminho para o crescimento da economia

Uma primeira pergunta

09/01/2012 | 01:09 | Dinheiro Vivo

Todas as previsões indicam que 2012 será um ano de recessão em Portugal – menor actividade económica. O desemprego atingiu valores elevados, nunca antes vistos na economia portuguesa.

A grande questão que se coloca é como pode Portugal retomar um caminho de crescimento económico. Se há aspecto consensual na sociedade portuguesa neste momento é a necessidade desse crescimento económico. Só que o crescimento económica não resulta automaticamente de se afirmar a sua importância. Nem é possível a um Governo determinar ou decretar esse crescimento.

A definição do papel do Estado, como entendido pela sociedade, é, agora, um dos factores cruciais. Não basta ao Governo redefinir o que acha ser o papel do Estado, é necessário que a sociedade o assuma também.

Tornou-se claro, nos últimos dois anos, que a evolução da economia portuguesa da última década não poderá ser invertida com projetos de investimento público de elevada envergadura. Há várias razões para isso: os que se tentaram não funcionaram, não há dinheiro para os fazer, e o Estado tem-se mostrado exímio em investir sem retorno. No caminho a seguir, a importância das exportações é também assumida de forma geral. Só que o Estado pouco ou nada produz que possa exportar, ou pelo menos assim parece.

Dito isto, é necessário então que a sociedade, todos nós, procuremos um caminho diferente. Esse caminho não pode passar por apoios do Estado, ou pelo beneplácito do Estado, ou pela autorização do Estado que concede uma situação de favor, ou uma renda económica, ou a utilização de um recurso com valor económico em exclusivo.

Para encontrar um novo caminho, proponho que se comece por reconhecer que o padrão de produção dos últimos dez anos da economia portuguesa não poderá ser mantido. Significa que um dos principais papéis do Estado é facilitar a mudança dos trabalhadores entre empresas, entre sectores e talvez mesmo entre regiões do país.

Aceitando esta premissa, uma simples pergunta deve ser feita para qualquer medida que seja anunciada como favorecendo o crescimento da economia: facilita estas diferentes mobilidades de trabalhadores?

Se sim, tenderá a ser uma boa medida. Se não, deverá ser procurada uma alternativa. Esta pergunta pode ser aplicada a várias reformas, medidas, ideias, que têm começado a surgir nos últimos tempos. Dois exemplos: a lei das rendas, e linhas de apoio às pequenas e médias empresas. A lei das rendas vem facilitar a mobilidade dos trabalhadores e das suas famílias? Não a conheço em detalhe para dar a resposta, mas em termos de contribuição para o crescimento económico é bom que seja conhecida. Não é apenas uma questão de redistribuição de valor (da renda paga) entre inquilino e senhorio que está em causa. A mesma pergunta deve ser aplicada à nova linha de crédito anunciada: facilita a mobilidade de empresas e de trabalhadores entre sectores, ou serve apenas para prolongar a “agonia” de empresas que não serão viáveis? Mais uma vez, não conheço os detalhes para dar resposta, mas espero que alguém a conheça.

Para encontrar o caminho do crescimento económico, há que saber fazer as perguntas certas. A que proponho, “facilita a mobilidade de trabalhadores, seja entre empresas, entre sectores e/ou entre regiões?”, julgo fazer todo o sentido para uma rápida lista de verificação da adequação das propostas a uma estratégia que leve a economia portuguesa de novo ao crescimento económico.

Nova School of Business and Economics
ppbarros@novasbe.pt
Escreve à segunda-feira
Escreve de acordo com a antiga ortografia


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Uma prenda de Natal vinda China, no dinheirovivo.pt.

A venda da EDP a capitais chineses pode ser o início de uma relação mais aberta ao mundo, com implicações na própria gestão, o que me levou à reflexão de hoje no dinheirovivo.pt,

Uma prenda de Natal da China

26/12/2011 | 02:48 | Dinheiro Vivo

A venda de 21,35% da EDP à empresa China Three Gorges Corporation constituiu um sucesso deste Governo, e por diversos motivos. Uns gerais, outros particulares a esta opção.

Primeiro, a receita financeira é importante. Numa situação como a actual, não se liga à cor do dinheiro, neste caso à nacionalidade de quem compra. O ter-se tomado uma decisão com base em quem paga mais é um saudável princípio, face a alternativas como a qualidade do projecto industrial ou promessas futuras. Nada como um compromisso claro com o pagar hoje, em lugar de promessas futuras, em geral raramente concretizadas. Claro que a pergunta sobre qual o projecto industrial e de desenvolvimento é importante, mas é precisamente quem mais dinheiro está disposto a meter quem mais acredita que tem a ganhar com o desenvolvimento da empresa. Não creio que se possa pensar que a decisão da empresa chinesa tinha como base ajudar a Portugal, sem pensar no retorno que vai querer retirar do seu investimento. E esse é o maior incentivo a que a empresa seja bem gerida.

Segundo, a ausência de discussão sobre o papel dos centro de decisão nacionais. No passado, essa discussão levou a que empresas portuguesas fossem vendidas a accionistas de outros países, por intermédio de portugueses que tiveram como única função facilitar o processo e no caminho realizaram importantes mais valias. Desde a banca à energia assistiu-se repetidamente ao mesmo padrão. Por não se ter entrado nessa discussão desta vez, seja qual for o motivo que lhe esteja subjacente, foi também um sucesso da operação. A prazo, interessa pouco quem é o proprietário, interessa sim que sejam empresas bem geridas.

Terceiro, aparentemente as questões políticas, mesmo que afloradas de vez em quando – por exemplo, nas notícias sobre conversas de Angela Merkel com o primeiro-ministro português – acabaram por não ter influência decisiva no processo (a atender às informações públicas sobre a venda).

Quarto, não é esperar que a empresa chinesa tenha comprado a EDP com o objectivo de a gerir melhor por trazer consigo melhor capacidade tecnológica ou de gestão. É antes uma situação em que é a empresa chinesa que pode beneficiar da capacidade e conhecimento tecnológico nacional, trazendo quem compra apenas a capacidade financeira que poderá potenciar desenvolvimentos futuros. Creio ser natural pensar-se que o mercado português é pouco relevante para uma empresa chinesa, país em que cidades são maiores, em termos de população, que Portugal inteiro. Será uma empresa com ambições globais. Assim, há a oportunidade de colocar tecnologia portuguesa num mercado globalizado.

Quinto, tem sido referido por vezes que é uma venda que não deixa de ter riscos para Portugal. Afinal, a energia é um sector sensível em qualquer país. Mas Portugal participa já num mercado ibérico de electricidade, a EDP é apenas um dos produtores nesse mercado. A distribuição de energia, como actividade, é por seu lado uma actividade regulada, e não deixará de o ser. Como a venda seria feita de qualquer forma a uma empresa estrangeira, é até provavelmente melhor a prazo que quem compra não tivesse já instalado na Península Ibérica (situação dos alemães).

Sexto, sendo conhecido que muitas outras empresas portuguesas têm hoje importantes accionistas estrangeiros, e que provavelmente outras ainda verão iniciada ou reforçada a abertura a capitais oriundas de outros países, não deixa de ser salutar uma diversificação da origem geográfica desses capitais.

Concorrência pelas empresas nacionais entre capitais internacionais é a melhor forma de obter o máximo valor por essas empresas.

Sétimo, não deixará de ter riscos ter como grande accionista uma empresa cuja propriedade é de outro Estado. Mas aqui temos que confiar que o quadro institucional português, europeu e o enquadramento regulatório cumprirão o seu papel.

Em suma, a venda do capital da EDP aparenta ter sido um sucesso financeiro e político, tem o potencial de a prazo ser um sucesso económico, e constitui uma mudança de regime na forma de Portugal encarar o capital estrangeiro na economia portuguesa. Esta prenda de Natal vinda da China vale pelo dinheiro que traz mas também pelo que é uma mudança de atitude de Portugal face ao capital que vem de fora e sua origem.

Nova School of Business & Economics
ppbarros@novasbe.pt
Escreve à segunda-feira

 


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o que fazer a 2 000 000 000 de euros?

a tentação de usar responsabilidades futuras como se tratasse de bilhetes premiados de lotaria é grande, o que me levou a escrever a contribuição de hoje para o dinheirovivo.pt (original aqui),

Velhos vícios que custam a desaparecer

05/12/2011 | 15:56 | Dinheiro Vivo

Nova School of Business and Economics

A “novidade” da semana foi a declaração do primeiro-ministro de um excedente de 2000 milhões de euros, que logo muitos se apressaram a querer gastar aqui ou ali. Ou a encarar este valor como uma folga orçamental.

Não deixei de ficar completamente baralhado com as reacções e os diversos anúncios. E de relembrar a frase emblemática da semana imediatamente anterior, “viciados em crédito”.

Mas vamos por passos. Este “excedente” resultou de uma medida extraordinária e irrepetível, e foi a forma encontrada de satisfazer o objectivo de défice orçamental para 2011. Mais uma vez, é a utilização de mecanismos extraordinários que permite colocar as contas públicas nos valores de compromisso internacional. Melhor assim do que não cumprir, mas pior do que cumprir sem necessidade destas medidas.

Sendo uma medida extraordinária tem uma contrapartida: a Segurança Social fica responsável por um pagamento futuro de pensões. Segundo o que foi dito, é um pagamento fixo, não suportando os riscos associados com o aumento dessas pensões. Ou seja, recebe-se a verba hoje a troco de pagamentos futuros. Ou ainda de outro modo, contrai-se um “empréstimo” hoje que será pago no futuro. Estas transferências de fundos pensões são apenas uma outra forma de o Estado continuar “viciado em crédito”, e de onerar os orçamentos futuros. Na impossibilidade de aumentar mais a tributação hoje, está aqui uma forma de usar já aumentos futuros de impostos.

Claro que há a esperança que a economia retome o crescimento, e que isso seja suficiente para trazer mais receita fiscal sem alterar taxas de imposto, mas não deixa de ser mais uma fonte de inflexibilidade futura da despesa pública (neste caso, transferências da Segurança Social).

Ora, nestas condições, o dito excedente conforta-me muito pouco. Não se adicione aos encargos futuros uma utilização dessa verba que não traga retorno que os ajude a pagar. Em lugar de serem usados para efeitos distributivos, este valor deveria ser usado para efeitos reprodutivos.

É este o desafio que se coloca, saber usar bem estes “impostos futuros”, embora o início de discussão pouco augure de bom. Nesta linha, o pagamento de dívidas do Estado (que além do mais têm juros de mora) é bem mais relevante nesta perspectiva do que aliviar a tributação adicional de 2011 (o equivalente a meio subsídio de Natal). Contribui também para resolver uma das exigências do Memorando de Entendimento que tem sido mais difícil de cumprir, apesar de só de vez em quando chegar às luzes da ribalta: os atrasos nos pagamentos a fornecedores do Estado. E temo que só o regularizar das dívidas leve bem mais do que os 2000 milhões de euros.

Medidas extraordinárias como esta transferência de fundos de pensões só alimentam os velhos vícios de um Estado “viciado em crédito”, mas pelo menos usemos esses fundos da forma que mais desonere os futuros orçamentos.

Nova School of Business and Economics

Escreve à segunda-feira


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Mi(ni)stérios

Contribuição para o dinheirovivo como usual, aqui.

 

Mi(ni)stérios

21/11/2011 | 04:55 | Dinheiro Vivo

Economia
Tornou-se evidente que o Ministro da Economia e Emprego se tornou o alvo político do momento. Mas entre as várias declarações de diverso tom proferidas durante a semana, não deixa de ser curioso que não se tenha produzido qualquer análise séria e detalhada do que o Orçamento do Estado prevê para 2012 neste campo. A discussão centra-se ao nível das declarações deste ou daquele, faltando objectividade.

Vejamos, é por demais claro que nos dias que correm a concessão de subsídios deixou de ser um instrumento privilegiado. O custo de oportunidade desses subsídios público aumentou consideravelmente, e se no passado já era duvidoso qual a rentabilidade da sua aplicação, hoje dificilmente se conseguirá justificar do ponto de vista social a concessão de avultados subsídios (claro que do ponto de vista privado, é sempre interessante receber subsídios, pelo que os pedidos não esmorecerão).

Olhando para as intenções do Ministério da Economia e Emprego, tal como descritas no Relatório do Orçamento do Estado, a aposta para o crescimento futuro da economia está no empreendedorismo e inovação. Dificilmente encontraremos um diagnóstico que discorde da importância desse caminho. Só que os interlocutores habituais, oficiais ou mediáticos, são normalmente empresas ou representantes de empresas ou trabalhadores. Ou seja, representantes do que existe e não do que poderá existir e ser inovador. Por exemplo, se uma inovação criar um novo sector de actividade à custa de outro existente, apenas este último terá “representantes” a procurar medidas que o defendam do primeiro.

O principal instrumento do Ministério da Economia está na definição de enquadramentos e regras. Que devem ser o mais neutrais possíveis na escolha entre sectores actuais e potenciais, se se quer de facto promover a inovação. Promover inovação significa também uma enorme capacidade da equipa dirigente do Ministério da Economia e Emprego em resistir às pressões, públicas e privadas, oficiais e informais, que existem e vão existir a favor deste ou daquele sector, desta ou daquela empresa.

Justiça
O bom funcionamento do sistema judicial é reconhecidamente uma das pré-condições para que ocorra o investimento necessário para que a actividade económica volte a crescer em Portugal. O Memorando de Entendimento é muito claro num conjunto de exigências de melhorias operacionais no sistema judicial. Sem essas melhorias, a possibilidade de um qualquer investimento ser “expropriado” ao investidor por mau funcionamento do sistema de justiça é obviamente um dissuasor importante desse investimento em primeiro lugar. Ora, olhando para o Relatório do Orçamento do Estado para 2012, a preocupação principal aparenta ser reforma e revisão de códigos, e pouco ou nada sobre metas de melhorias operacionais, redução de tempos de decisão, etc…

Não sendo especialista da área da Justiça, depois de ler o que está no Memorando de Entendimento, a sensação é a de que o problema está na aplicação das leis, e não no seu conteúdo, de uma forma geral. Avançar para alterar conteúdos servirá apenas para continuar a justificar o mau funcionamento operacional da aplicação da justiça em Portugal. Deve-se exigir mais.

Não é claro como o Ministério da Justiça pretende colocar, em curto espaço de tempo, o funcionamento do sistema judicial ao serviço da sociedade e da economia, em lugar da procura do sistema legal perfeito.

Pedro Pita Barros
Nova School of Business and Economics
ppbarros@novasbe.pt


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para o dinheirovivo.pt de hoje, a desilusão com as gorduras do estado

A desilusão com as “gorduras” do Estado

24/10/2011 | 00:08 | Dinheiro Vivo

Declaração de conflito de interesses: sou funcionário público. Apesar disso, não devo deixar de contribuir para a discussão em curso sobre a redução da despesa pública via redução de salários.

A opção tomada poderá ser a mais eficaz no curto prazo, mas deixa no ar a questão de saber se será solução duradoura.

Para que esta quebra salarial imposta à função pública seja a chave para resolver o problema do défice público de forma sustentada, será necessário que o crescimento das remunerações com os funcionários públicos fosse o principal factor de crescimento da despesa pública. Ora, os números referentes às despesas por classificação económica indicam que são as transferências que têm apresentado maior crescimento (mesmo ignorando os dois últimos anos, em que ganharam grande peso para além da sua tendência histórica).

Assim, poderá estar-se a ganhar tempo, mas não se está a resolver o problema de fundo, uma vez mais. É neste sentido que a impotência revelada para realizar outro tipo de cortes se traduz numa desilusão.

Vejamos com um exemplo concreto, a área da saúde. Os diagnósticos feitos (e refeitos) apontavam para crescimento despropositado de verbas em horas extraordinárias, para a necessidade de controlar a introdução de inovação de elevados custos (levando a que apenas a inovação geradora de benefícios sociais que compensem esses custos seja adoptada), para medidas que conseguissem um menor crescimento da despesa com medicamentos, etc…

Não houve, contudo, uma conclusão de os salários pagos no Serviço Nacional de Saúde serem excessivamente elevados, de uma forma geral e universal dentro do SNS. Sendo assim, compreende-se pouco como a opção de baixar salários será solução duradoura.

Não se exclui que haja situações de pagamentos excessivos de remunerações, associadas a horas extraordinárias, mas também a suplementos diversos e escalas de serviço (mesmo equipas) determinadas de forma pouco eficiente, mas nesse caso a solução deveria ser mais direccionada.

Quando se esperava a apresentação de opções para racionalização da rede de oferta de cuidados hospitalares, com eventual encerramento ou reconversão de hospitais redundantes na actual oferta existente no Serviço Nacional de Saúde, é adoptada uma medida que implicitamente diz que toda a distribuição de unidades, por tipo de cuidados e geograficamente, está essencialmente correcta. Apenas os trabalhadores, todos ganham demais.

Assim, a primeira impressão do Orçamento do Estado quanto às “gorduras” acaba por ser de desilusão. Espero que seja apenas passageira, até que sejam anunciados os verdadeiros cortes, no sentido de intervenções que controlem o ritmo de crescimento da despesa pública e não se limitem simplesmente a reduzir salários sem qualquer outra alteração.

Nova School of Business and Economics
Escreve à segunda-feira
ppbarros@novasbe.pt


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Ir mais além

a contribuição de hoje no dinheirovivo.pt, aqui, e porque é que pode ser interessante e necessário para fazer a diferença para a Grécia cumprir o memorando e ir mais além nalgumas das medidas

 


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Cem dias de Governo

Do jornal online dinheirovivo.pt pedriram-me uma avaliação dos primeiros 100 dias do Governo. Está aqui .

Não tem nada de surpreendente uma vez que os principais traços destes 100 dias não passaram despercebidos à maioria das pessoas.

A minha curiosidade maior vai para a diferença, se existir, entre as expectativas iniciais e a capacidade de concretização em cada Ministério. A sobre-estimação das resistências à mudança é provável que tenha aparecido em vários Ministérios. É também por isso importante que os ministros reforcem o seu empenhamento e que os próximos 100 dias vejam o resultado do trabalho feito entretanto. O país está claramente a necessitar de um exemplo de trabalho e que deverá até vir do cimo.


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A complacência (como gordura do Estado)

A habitual contribuição para o dinheirovivo.pt

A complacência (como gordura do Estado)

26/09/2011 | 01:10 | Dinheiro Vivo

Embora seja usual irmos procurar as “gorduras” do Estado em cargos, institutos ou similares, é necessário ser mais abrangente e incluir na noção de “gordura” todas as atitudes e comportamentos que ajudam à existência de despesa pública desnecessária. A despesa pública desnecessária é aqui entendida no sentido de não ter qualquer valor para a sociedade, ou de ter valor social menor que o custo inerente a essa despesa.

Um desses comportamentos comuns é a complacência, o “deixar seguir” e não aprofundar e intervir, apenas porque não se recolhe imediatamente os benefícios da acção. A exigência face aos serviços públicos, definidos de forma lata, faz também parte do combate ao desperdício. Essa exigência tem um lado externo – cada cidadão exigir rigor e resposta na sua interacção com a administração pública, qualquer que seja o seu nível (em lugar de procurar o conhecido que pode fazer um favor ou um “jeitinho”). Tem também um lado interno – dentro da própria administração pública, cada serviço e departamento, cada funcionário, deve ser exigente com o trabalho dos outros.

Sendo mais fácil falar do que fazer, não quero deixar de realçar que o anúncio de que muito em breve os médicos irão receber do Ministério da Saúde informação sobre o seu padrão de prescrição, constitui um passo importante no sentido de reduzir a “gordura” da complacência com a despesa pública em medicamentos. Não se trata aqui de interferir com a prescrição médica. Essa liberdade nunca estará em causa. Mas a informação sobre o que se prescreve, e sobre o que os outros médicos andam a prescrever, em termos agregados, só pode contribuir para melhores decisões. Será igualmente possível detectar casos anómalos, eventualmente justificados ou a justificar, que permitirão tratar com exigência e não com complacência, as decisões que são tomadas. Face à informação que venha a ser disponibilizada, cabe aos médicos enquanto elemento central do sistema de saúde, usá-la da melhor forma possível.

Será uma forma mais silenciosa de combater as “gorduras” do Estado, menos mediática, mas certamente mais eficaz e duradoura a prazo. Sobretudo porque contribui numa área concreta para combater, pelos próprios médicos, a complacência com a prescrição inadequada.


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A dívida da Madeira (como “gordura” do Estado), no dinheirovivo.pt

Pode ver aqui como a situação de dívida da Madeira nos diz mais do que apenas a falta de controlo ou a “legítima defesa” que têm estado na lista da frente dos vários comentários.

A dívida da Madeira (como “gordura” do Estado)

19/09/2011 | 00:57 | Dinheiro Vivo

De repente a dívida da Madeira saltou para as primeiras páginas e para a primeira linha das conversas. O traço mais comum dos comentários é o cansaço com a capacidade de Alberto João Jardim extrair fundos ao resto do país (há quem use termos mais fortes). O outro aspecto que tem sido focado é do efeito da dívida madeirense agora revelada na reputação internacional de Portugal, num momento em que as diferenças face à Grécia são crescentemente importantes.

Sobre estes dois aspectos, nada há mais a dizer. Há, porém, um outro aspecto que este problema ilustra. Contra o processo de consolidação orçamental e de redução de despesa pública tem sido apresentado por várias pessoas e partidos políticos a visão alternativa de fomentar o crescimento económico através da despesa pública.

Ora, a situação actual da Madeira, acusada de excessiva e preocupante pelos mesmo partidos, não é mais do que o resultado das políticas por eles preconizadas – dar rédea solta à despesa pública que esta se multiplicará, combater o desemprego através do emprego como funcionário público. Esta foi a “receita” para o crescimento da Madeira. O que se vê hoje? Para além de obras como estradas e túneis, não se encontrou uma fonte de crescimento da actividade económica que fosse duradoura. Não se reinventou o Turismo, dando-lhe novo ânimo, não se descobriram novas actividades económicas que trouxessem riqueza à região. Mais, ao cristalizar no emprego público uma fatia considerável da população activa, retirou-se a essas pessoas o interesse e a dinâmica de procurarem outras actividades económicas.