Momentos económicos… e não só

About economics in general, health economics most of the time


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um momento de publicidade

está finalmente disponível o meu livro com Xavier Martinez-Giralt, da Universidade Autónoma de Barcelona:

Deu trabalho durante dois anos, e se voltasse ao início, há partes que escreveria de forma diferente, mas é sempre preciso colocar um ponto final em algum momento. E depois recomeçar, a pensar na próxima actualização.

Não pretende ser uma enciclopédia sobre economia da saúde, é antes um livro que reflecte a nossa investigação comum e as nossas preferências pelos tópicos a leccionar dentro da economia da saúde. É um livro técnico q.b. esperamos nós. Para enciclopédia avançada, haverá em breve o Handbook of Health Economics, e para dicionário, há este trabalho do Tony Culyer.

A relação com a editora do livro é muito curiosa, a ordem dos nomes nesta capa não corresponde à ordem dos nomes na versão publicada – trocaram algures no processo, mas ainda não conseguiram rectificar. Fizeram uma versão com capa dura, com outra capa (toda azul), e com o meu nome como Pedro Pita Barros enquanto nesta versão aparece Pedro Barros. Assim, se um dia virem uma referência a essa versão de capa dura, é a mesma coisa que esta de capa mole!! Ineficiências não são apenas característica nacional.


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dar tudo a todos

Das discussões da conferência organizada pela CNECV, ficaram no ar várias perguntas e comentários, que vale a pena tentar responder e tentarei ir fazendo isso nos próximos textos.

O de hoje é dedicado à frase “dar tudo a todos”, entendendo-se como dar todos os cuidados de saúde solicitados a todas as pessoas. Esta é uma posição que é obviamente simpático, e do qual não se discorda. O problema, o senão, é saber se é possível fazê-lo, se existem recursos suficientes para satisfazer esse objectivo por um lado. Também se pode contestar o próprio princípio na ausência de uma maior pormenorização do que se entende por ele.

Por exemplo, dar a alguém acesso a cuidados de saúde apenas por capricho ou prazer consumista, sem real necessidade clínica, é adequado? Provavelmente, dir-se-á que não.

Na interpretação de que “dar tudo a todos” significa “dar tudo o que for necessário  a todos”, então já se voltará a ter maior consenso. Só que este pequeno passo implica dizer o que constitui “necessidade de cuidados de saúde “, o que estará longe de ser fácil ou consensual.

Por exemplo, repetição de exames ao final de uma semana, radiografia ou outro exame de imagem, justifica-se ou não? Não se pode afastar a possibilidade de ter uma alteração relevante nesse espaço de tempo. Terá uma probabilidade muito pequena, tão pequena quanto queiramos, mas não é uma probabilidade nula. Ora, nesse caso existe um benefício clínico esperado positivo, em sentido probabilístico. No entanto, o custo de fazer essa repetição de exames excede largamente esse benefício – é desnecessário num sentido económico que envolve o baixo benefício e o desvio de recursos que poderiam ser usados noutro lado com maior benefício. A delimitação de onde se pára é que não é fácil. Mas literalmente já não se está a “dar tudo a todos”. Na verdade, o princípio aceitável parece apontar “dar tudo o que for necessário a todos, atendendo aos recursos disponíveis“, e a nossa discussão deve passar para o que deve ser o volume de recursos disponíveis, por um lado, e para a forma como se define necessidade, por outro lado.

Aliás, mesmo em termos éticos, a questão de “dar tudo a todos” pode ser discutida – uma vez que têm de ser obtidos recursos para “dar tudo”, assumir este princípio de forma totalmente literal, significa dar a cada cidadão o direito de tributar os outros cidadãos, num sistema que o “dar” é incumbência de um Serviço Nacional de Saúde financiado por impostos gerais sobre a população, para satisfazer toda e qualquer necessidade de saúde que entenda. Dificilmente aceitamos o princípio de que podemos ser tributados de forma livre por qualquer outro cidadão. Ou seja, não será apenas a “parte económica” da questão a ter relevância, também a “parte ética” de “dar tudo a todos” mediante financiamento por impostos é questionável.

O passo seguinte é como levar os conceitos de necessidade e de atender a recursos disponíveis ao processo de decisão. Essa será toda uma outra discussão, que passa inevitavelmente por informação e por normas de orientação clínica.


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o que fazer a 2 000 000 000 de euros?

a tentação de usar responsabilidades futuras como se tratasse de bilhetes premiados de lotaria é grande, o que me levou a escrever a contribuição de hoje para o dinheirovivo.pt (original aqui),

Velhos vícios que custam a desaparecer

05/12/2011 | 15:56 | Dinheiro Vivo

Nova School of Business and Economics

A “novidade” da semana foi a declaração do primeiro-ministro de um excedente de 2000 milhões de euros, que logo muitos se apressaram a querer gastar aqui ou ali. Ou a encarar este valor como uma folga orçamental.

Não deixei de ficar completamente baralhado com as reacções e os diversos anúncios. E de relembrar a frase emblemática da semana imediatamente anterior, “viciados em crédito”.

Mas vamos por passos. Este “excedente” resultou de uma medida extraordinária e irrepetível, e foi a forma encontrada de satisfazer o objectivo de défice orçamental para 2011. Mais uma vez, é a utilização de mecanismos extraordinários que permite colocar as contas públicas nos valores de compromisso internacional. Melhor assim do que não cumprir, mas pior do que cumprir sem necessidade destas medidas.

Sendo uma medida extraordinária tem uma contrapartida: a Segurança Social fica responsável por um pagamento futuro de pensões. Segundo o que foi dito, é um pagamento fixo, não suportando os riscos associados com o aumento dessas pensões. Ou seja, recebe-se a verba hoje a troco de pagamentos futuros. Ou ainda de outro modo, contrai-se um “empréstimo” hoje que será pago no futuro. Estas transferências de fundos pensões são apenas uma outra forma de o Estado continuar “viciado em crédito”, e de onerar os orçamentos futuros. Na impossibilidade de aumentar mais a tributação hoje, está aqui uma forma de usar já aumentos futuros de impostos.

Claro que há a esperança que a economia retome o crescimento, e que isso seja suficiente para trazer mais receita fiscal sem alterar taxas de imposto, mas não deixa de ser mais uma fonte de inflexibilidade futura da despesa pública (neste caso, transferências da Segurança Social).

Ora, nestas condições, o dito excedente conforta-me muito pouco. Não se adicione aos encargos futuros uma utilização dessa verba que não traga retorno que os ajude a pagar. Em lugar de serem usados para efeitos distributivos, este valor deveria ser usado para efeitos reprodutivos.

É este o desafio que se coloca, saber usar bem estes “impostos futuros”, embora o início de discussão pouco augure de bom. Nesta linha, o pagamento de dívidas do Estado (que além do mais têm juros de mora) é bem mais relevante nesta perspectiva do que aliviar a tributação adicional de 2011 (o equivalente a meio subsídio de Natal). Contribui também para resolver uma das exigências do Memorando de Entendimento que tem sido mais difícil de cumprir, apesar de só de vez em quando chegar às luzes da ribalta: os atrasos nos pagamentos a fornecedores do Estado. E temo que só o regularizar das dívidas leve bem mais do que os 2000 milhões de euros.

Medidas extraordinárias como esta transferência de fundos de pensões só alimentam os velhos vícios de um Estado “viciado em crédito”, mas pelo menos usemos esses fundos da forma que mais desonere os futuros orçamentos.

Nova School of Business and Economics

Escreve à segunda-feira


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reportagem do jornal Tempo Medicina

via Facebook (sinais dos tempos) e com foto, aqui, sobre o que falei na conferência do conselho nacional de ética para as ciências da vida.


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PIB e função pública

de repente, surgiu-me uma dúvida, depois de ouvir falar em mais austeridade, mais recessão…

O cálculo do PIB inclui actividades de mercados e actividades que não têm preços de mercado.

Um exemplo de actividades sem preço de mercado é a administração pública, a função pública.

Para as actividades sem preço de mercado, utilizam-se os custos de produção.

A função pública conta para o PIB de acordo com os seus custos de produção.

Reduzir salários baixa os custos de produção. Logo baixa o PIB.

Como o PIB baixa (recessão), tem que se voltar a reduzir os custos de produção, logo tem que se reduzir novamente os salários da função pública.

Será que estou a pensar bem, ou alteraram a forma de cálculo do PIB?

Podemos falar em recessão mecanicamente induzida? (para além do problema óbvio de sendo usados os mesmo recursos, desenvolvendo as mesmas actividades da mesma forma, o valor é menor porque se paga menos – o sistema de contabilização do PIB está criado para economias que estão sempre com os salários a crescer).

 

(para mais detalhes, ver os documentos aqui)


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sobre a conferência do Conselho Nacional de Ética para as Ciências da Vida

A conferência realizada no dia 29 de Novembro teve várias intervenções fortes, desde logo a abertura pelo Presidente do CNECV, Miguel Oliveira da Silva, tocando diversos pontos importantes e sensíveis: contrato social da saúde, relevância de garantir a boa utilização de recursos (eficiência) como responsabilidade de todos, dando como exemplos a “histeria e fraude” na gripe A (se estou bem recordado das palavras usadas) e da “prescrição de fármacos desnecessariamente caros”, importância da ética no exercício público e no exercício privado da Medicina. Será um texto a ler, quando disponibilizado.

Alguns temas estiveram presentes mais do que uma intervenção: escolha de prioridades a ser feita com transparência e a transparência como imperativo ético, necessidade de novo modelo de estado social e a crise de valores (mais geral do que a crise financeira, mas englobando esta). Passou também por várias intervenções a questão da responsabilidade individual pela saúde e os comportamentos de estilos de vida, como forma de reduzir a pressão sobre os sistemas de saúde.  A este respeito, não se pode deixar de dar atenção à intervenção de Vitor Malheiros, que desmontou o “mito da informação” – dar informação afinal não muda (facilmente) os hábitos, lançando a questão de saber se as pessoas têm informação relevante porque não mudam o seu comportamento? A resposta dada é que não são os dados que mudam os comportamentos, mas sim as histórias e as narrativas que se constroem.

 

 


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No Reino da Dinamarca…

…é apenas o nome do novo blog colectivo que arranca hoje, 1 de Dezembro de 2011, talvez último feriado da Restauração celebrado desta forma.

A “carta de abertura” do blog: http://noreinodadinamarca.wordpress.com/about/


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preços dos medicamentos com as novas margens

Por curiosidade, fui ver quais os valores das novas margens e dos preços dos medicamentos depois do Decreto Lei 112/2011. No caso “antes” do decreto-lei, a margem era definida como percentual do preço de venda ao público (PVP), sendo agora uma margem sobre o preço de venda ao armazenista (PVA), pelo que tal tem que ser acomodado na comparação das margens.

A primeira conclusão é a de que para preços baixos dos medicamentos, o impacto é essencialmente nulo, e só a partir de certo valor se começa a sentir uma redução do preço.

Os três gráficos seguintes mostram a comparação de preços entre “antes” e “depois”, no primeiro, e depois a margem face ao PVA de cada um sistemas para farmácias, primeiro, e grossistas depois. A preocupação de impacto praticamente zero ao utente nos preços mais baixos parece ter estado presente.


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tempo de passar à análise

Transcrevendo directamente do portal da saúde, o início da consulta pública do documento sobre a reforma hospitalar (Documento aqui):

“Os cidadãos no centro do sistema. Os profissionais no centro da mudança” recolhe contributos até 31 de Dezembro 2011.

Portugal assumiu, no Memorando de Entendimento celebrado com a União Europeia, o Banco Central Europeu e o Fundo Monetário Internacional, o compromisso de melhorar o desempenho e aumentar o rigor na gestão dos hospitais do Serviço Nacional de Saúde através da utilização optimizada e eficiente dos recursos disponíveis e continuando a assegurar o direito constitucional de protecção da saúde.

O relatório do Grupo Técnico para a Reforma Hospitalar, criado pelo Despacho do Ministro da Saúde n.º 10601/2011, de 16 de Agosto, com a missão de propor um conjunto de medidas para reorganizar a rede hospitalar através de uma visão integrada e racional do sistema de saúde, ficará em discussão pública até 31 de Dezembro de 2011.

O relatório do Grupo Técnico para a Reforma Hospitalar, intitulado “Os cidadãos no centro do sistema. Os profissionais no centro da mudança”, centra-se num conjunto de propostas que visam:

  • Melhorar o acesso e a qualidade das prestações de saúde;
  • Melhorar a eficiência hospitalar;
  • Garantir a sustentabilidade económica e financeira;
  • Melhorar a governação e o desempenho dos profissionais ao serviço dos hospitais;
  • Reforçar o protagonismo e o dever de informação aos cidadãos.

Envie os seus contributos e sugestões, até 31 de Dezembro de 2011, para relatorio-gtrh@sg.min-saude.pt

(post gémeo com Estado Vigil)


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restrição orçamental e problemas éticos na prescrição

No dia 29 de Novembro, participei na conferência do Conselho Nacional da Ética para as Ciências da Vida, onde me foi proposto o tema do título. Diversos aspectos importantes foram discutidos, e nalguns casos valerá a pena retomar a discussão de forma mais completa.

As diversas intervenções tiveram abordagens diferentes mas complementares. Tanto quanto percebi as comunicações estarão posteriormente disponíveis. Para ir avançando caminho, deixo aqui disponível a minha apresentação.