Momentos económicos… e não só

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Turismo médico (vs. turismo de saúde) (5)

Passando agora ao lado da oferta de serviços em “turismo médico” há vários aspectos a ter em conta.

Desde logo, saber se existe um fluxo de doentes regular no tempo para “turismo médico” ou se os primeiros tempos de crescimento não serão devidos apenas a um efeito de stock. É necessário perceber que investimentos são justificados pelo fluxo estável de doentes, depois de ultrapassado o efeito inicial.

Para dedicar capacidade a “turismo médico”, interessa também saber se são necessários investimentos novos, ou se se limita a doentes adicionais que irão usar capacidade disponível e não utilizada no actual sistema de saúde.

Terceiro aspecto, qual a dimensão mínima para operar no mercado do “turismo médico”? qual a escala necessária? Quais as oportunidades em que essa escala se encontra preenchida em termos das unidades de saúde portuguesas?

Para pensar nessas oportunidades, o quadro seguinte reproduz alguns preços de procedimentos reportados pelo relatório da OCDE em que colaborou Neil Lunt, adicionando valores para Portugal baseados nos pagamentos adicionais do SIGIC (que gere as listas de espera, e paga actividade adicional de acordo com uma tabela publicada em 2012).

Screen Shot 2012-12-27 at 17.02.24Há ainda outros factores a ter em conta, e para os quais é necessário ter resposta: como lidar com o erro médico (que dificilmente será reduzido a zero), que resposta o sistema judicia consegue dar a esses casos? como dar confiança aos doentes de outros países nesse campo, e aos “terceiros pagadores” que os representem?

Também em termos de informação sobre as instituições e as unidades de saúde portuguesas, que informação é disponibilizada, como é disponibilizada? irão colocar-se questões de reciprocidade (por exemplo, recebermos doentes do NHS inglês para tratamento em Portugal, mas o NHS esperar que também enviemos doentes para tratamento em Inglaterra)? como se organizam esses laços?

Qual o papel da certificação internacional das unidades de saúde? se todas tiverem certificação, o que irá distinguir umas das outras? qual o factor decisivo, preço, qualidade, relação preço/qualidade, ou outra coisa?

 


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Turismo médico (vs. turismo de saúde) (4)

Retomando a discussão sobre turismo médico, ainda no lado da procura, há no trabalho de Neil Lunt um aspecto particularmente motivador para Portugal – a importância que tem tido em vários países a população da Diáspora. São pessoas com uma ligação ao país, mas que se encontram a residir noutro, e que por diferentes motivos poderão querer ser tratadas em “turismo médico”. Diferentes populações poderão ter aqui diferentes motivos.

Os portugueses ou descendentes de portugueses em países como os Estados Unidos poderão ter como principal factor de decisão o preço.

Os que vivem e trabalham em Africa poderão ter como factor decisivo a falta de serviços disponíveis no país onde se encontram.

Os que residem em países europeus do Norte poderão ter como principal argumento a proximidade cultural, o “voltar a casa” para realizar os tratamentos.

A Diáspora poderá ter na verdade múltiplas razões e motivações, e não é claro que interlocutores existem para cada uma destas populações, nem qual o verdadeiro potencial de turismo médico em cada uma delas.


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a mensagem de Ano Novo do PR

A mensagem de Ano Novo do Presidente da República tocou nos tópicos do momento: espiral recessiva, desemprego jovem, redução défice, impacto sobre as famílias, dúvidas sobre a justiça dos sacrifícios, importância do OE, utilidade dos sacrifícios, nível insustentável da dívida do Estado, honrar compromissos internacionais, renegociar não é solução, crescimento negativo é um problema para alcançar o equilíbrio das contas públicas, interromper ciclo negativo de crescimento, unir os portugueses, o problema é falta de crescimento económico, exige esforços, problema da recessão da zona euro, e a crise económica em Espanha, relevância dos apoios da UE ao investimento e da melhoria das condições de financiamento das empresas junto do sector bancário, diálogo e consenso, encontrar soluções, melhorar clima de confiança.

Em termos gerais, não há grande novidade – já era esperada a preocupação com a “justiça dos sacrifícios”, susceptível de criar mais tensões na sociedade portuguesa.

O desejado crescimento económico joga-se no sector privado, uma vez que claramente não será possível fazer, nem seria desejável que o fosse, via despesa pública. Só que é mais fácil enunciar do que concretizar.

O que seria ideal ter em 2013: A criação de um ambiente estável para investimento em áreas produtivas inseridas no comércio internacional e que gerem emprego (sejam intensivas em trabalho, no jargão económico).

Perigos em 2013: O crescimento da economia informal. Ao aumento da pressão fiscal e da pressão inspectora do Ministério das Finanças irá provavelmente corresponder um aumento da economia paralela. Resta saber que dimensão terá e que efeitos provocará na economia formal.


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Balanço de 2012

1- Portugal não saiu do euro (a Grécia também se aguenta) e o euro ainda existe.

2- A Troika continuou a visitar-nos com frequência, e deu espaço para respirar no défice deste ano mas pouco.

3- Não houve renegociação da dívida.

4- Não houve mais surpresas ou buracos vindos da Madeira que comprometam os objectivos gerais.

5- Sarkozy foi corrido em França mas Hollande ainda não cumpriu as expectativas. E ainda vai ter que se haver com o Gerard Depardieu.

6- De TSU para manifestação colossal para aumento enorme de impostos e logo de seguida refundação do estado social, os últimos quatro meses do ano foram frenéticos.

7- Mais um campeonato europeu que não ganhamos, mas mais uma vez atropelamos a Holanda, fomos atropelados pela Alemanha, e recuperamos o trauma do golo de Poborski há muitos anos atrás com a vitória sobre a Republica Checa. Faltou só uma pontinha de sorte a Cristiano Ronaldo no jogo com a Espanha.

8- O país descobriu Artur Baptista da Silva. Com grande injustiça para outros como ele que permanecem na penumbra mediática.

9- Ainda não foi este ano que se descobriu petróleo em Portugal.

10- (cada um coloque o que quiser, desde uma canção a um filme, ou outra coisa qualquer)

 


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no dinheirovivo.pt de hoje,

conforme vamos avançando nos dias, fica cada vez mais longe uma discussão pausada e informada sobre o estado, e sobre o estado social. Um dos aspectos que vai ser usado é, quase certamente, os salários da função pública versus os salários do sector privado. É essa a minha preocupação expressa no artigo para o dinheirovivo.pt de hoje.

Os desejos de um Bom Ano de 2013 a todos.


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2012 in review

The WordPress.com stats helper monkeys prepared a 2012 annual report for this blog.

Here’s an excerpt:

19,000 people fit into the new Barclays Center to see Jay-Z perform. This blog was viewed about 88,000 times in 2012. If it were a concert at the Barclays Center, it would take about 5 sold-out performances for that many people to see it.

Click here to see the complete report.


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Turismo médico (vs. turismo de saúde) (3)

Entrando agora em comentários sobre as ideias de turismo médico e da apresentação do Neil Lunt sobre o assunto na conferência do health cluster portugal, há um importante ponto de partida para qualquer discussão sobre turismo médico – qual a definição do que é um consumidor?

Aqui, a definição mais comum parece ser bastante limitada – pessoas doentes, dispostas a viajar e a pagar directamente os cuidados de recebidos (o que na gíria de economia da saúde se designa por out-of-pocket).

Ora, o número global de “consumidores de turismo médico” que irá preencher estas condições irá ser limitado. De uma forma geral, para os procedimentos médicos mais sofisticados, para as intervenções clínicas de maior envergadura, as pessoas em geral pretendem ter uma protecção financeira em caso de doença, pretendem ter um seguro, seja privado ou público.

Esta característica altera de forma substancial a “procura” de turismo médico: passa a haver um novo participante, o “terceiro pagador”, a entidade que assume a responsabilidade das despesas de saúde quando e se forem necessárias, na extensão que tiver sido acordada; a existência deste “terceiro pagador” altera também as condições em que cada doente fará a escolha entre ser tratado no seu país de origem ou procurar tratamento num outro país; e levanta, por fim, a questão de quem é o decisor chave, o doente, ou o “terceiro pagador” se tiver possibilidade de se negar a pagar fora do contexto que tiver sido explicitamente acordado?

No relatório da OCDE, são identificados vários tipos de “turistas” por motivos clínicos, para além da definição de “doente, disposto a viajar e disposto a pagar directamente”:

– visitantes temporários de um país, que têm o azar de ficar doentes; são pessoas que em viagens de lazer ou negócios ficam doentes; não serão “turistas médicos” no sentido do turismo médico que tem vindo a ser discutido. Nem serão uma procura especialmente expressiva, não serão factor de crescimento ou de desenvolvimento de um sistema de saúde virado para a prestação de serviços em turismo médico.

– residentes num país de nacionais de outro país – também este outro não será exactamente o que se pretende denominar com “turismo médico” – claro que podem criar uma pressão de procura para os sistemas de saúde de cada país, com especial acuidade nalgumas regiões, ou procurando tratamentos que não são disponibilizados nos seus países de origem, mas uma vez mais não são o “turismo médico” como ele tem vindo a ser entendido.

– cuidados transfronteiriços – com a partilha de equipamentos de saúde, não são também eles “turismo médico”; são e devem ser pensados em termos locais;

– doentes colectivos – são os doentes que resultam de “outsourcing” de tratamento por parte dos “terceiros pagadores” que os cobrem; não têm uma decisão individual no sentido em que não pagam directamente (out-of-pocket) os cuidados, mas há uma organização, uma entidade, que os organiza nesse sentido. Este tipo de doente pode corresponder a uma parte relevante do “turismo médico”. A meu ver será aliás nestes doentes que se concentrará uma fatia, senão mesmo a fatia mais interessante, do movimento europeu de “turismo médico”.

Os elementos chave da definição da procura, de acordo com o relatório da OCDE, são “tratamentos a baixo custo”, “custos de transporte baixos” e “informação prestada pela internet”.

Mas há outras questões a serem respondidas: em que medida esta é uma “procura desviada” ou uma “nova procura”? É crucial perceber os aspectos dinâmicos e as implicações das decisões empresariais tomadas. Situações em que muitos procuram satisfazer sobretudo uma “procura desviada” resulta normalmente em sobre-investimento sem que haja um fluxo de doentes correspondente. Por procura desviada entendo procura de cuidados de saúde que seriam prestados de qualquer modo, sendo que o “turismo médico” o que faz é alterar o âmbito geográfico da decisão de onde se realizar o tratamento.


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sobre o valor da protecção contra despesas incertas em cuidados de saúde (2)

Há cerca de duas semanas, fiz um pequeno inquérito online, que dou agora por terminado. O interesse principal era ver a diferença entre o valor esperado de despesas  de saúde futuras, com referência a três casos concretos, e o valor que se estaria disposto a pagar para “segurar” essas eventuais despesas incertas. Com esta pequena experiência chama-se a atenção para o valor que tem evitar a preocupação com despesas inesperadas e de valor elevado, ainda que ocorram com baixa probabilidade.

Nas primeiras respostas, ficou logo claro que havia esse valor, confirmado nas perto de 100 respostas recebidas (obrigado a todos os que responderam). As figuras seguintes apresentam os resultados finais. O valor médio é de 43 euros, muito superior ao valor esperado (linha a vermelho nos gráficos abaixo). A primeira figura apresenta o histograma das respostas recebidas, a segunda figura apresenta um zoom para valores de 25 euros ou menos, e a terceira apresenta uma aproximação continua à distribuição de valores bem como uma distribuição normal com a mesma média dos dados.

A principal conclusão a retirar é a de que existe valor na protecção financeira de despesas de saúde, para além da capacidade de ter fundos para pagar essas despesas (caso em que basta pagar o valor esperado), mesmo ignorando os valores muito elevados (acima de 25, por exemplo).

figura 1

 

 

figura 2figura 3


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Turismo médico (vs. turismo de saúde) (2)

A apresentação de Neil Lunt na conferência do health cluster portugal sobre turismo médico tem como ponto de chegada o tratamento do que Neil considera serem três mitos: o mito do crescimento exponencial do turismo médico; o mito de que o turismo médico é um mercado global; e o mito de a intervenção pública (governamental) poder ser útil.

Relativamente a estes três mitos, no primeiro deles, a conclusão é que não existe um crescimento exponencial, não há qualquer dado que o permita confirmar, e as expectativas de crescimento apontadas há menos de meia dúzia de anos não se concretizaram.

O segundo mito é avaliado de outra forma. Não sendo uma característica universal – nem todo o turismo médico será um mercado global, é plausível que tal ocorra para alguns tipos de cuidados. Mas alerta para que este não será um campo neutro para todos os que nele pretendem estar. Há vantagens de alguns intervenientes que poderão ser difíceis de combater (mas que por outro lado dão a esses mesmos intervenientes oportunidades mais amplas).

Quanto ao terceiro mito, remete para os mitos 1 e 2 para argumentar que não é fácil perceber qual a intervenção pública (em termos de políticas adoptadas) que é mais razoável, nem que problema justifica essa intervenção.

Tendo esta caracterização geral da intervenção do Neil Lunt, pode-se agora passar à sua discussão e às implicações que tem para Portugal.

(continua…)


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Turismo médico (vs. turismo de saúde) (1)

No mês passado, o health cluster portugal promoveu uma conferência onde foi discutido com detalhe o projecto de fazer de Portugal um destino de turismo de saúde. É mais correcto, na verdade, utilizar-se o termo turismo médico, apesar de se estar a generalizar a designação de turismo de saúde. A questão da definição não é inócua, uma vez que turismo de saúde engloba também o turismo destinado aos SPAs e termas, por exemplo, e tem por isso uma característica eminentemente individual, enquanto o turismo médico é direccionado para a resolução de problemas clínicos.

Nessa conferência, Neil Lunt, que fez recentemente um trabalho de revisão do tema para a OCDE, trazia uma palavra de cautela, procurando chamar a atenção para vários “buracos” nas discussões correntes sobre turismo médico.

Desde logo, as previsões de procura global – a recomendação de Lunt é a de cautela na utilização de números que são avançados, uma vez que não existe uma recolha sistemática e sistematizada da utilização de turismo médico. As previsões surgem “do nada” e são repetidas até se tornarem aceites, mas sendo que frequentemente se resumem a uma única fonte não confirmada.

Também resulta do seu trabalho e da apresentação realizada, a necessidade de compreender bem o lado da procura de turismo médico antes de se iniciar um projecto de oferta de serviços de turismo médico.

Uma das principais ideias resultantes da análise feita é a importância a ser dada a “facilitadores” de encontro entre procura e oferta – o papel das redes, da informação sobre prestadores, sobre organização das viagens e alojamento, verificação da qualidade dos cuidados prestados, apoio nos períodos pós-intervenção médica, tratamento de questões legais que surjam.

Pensar na forma como a “procura” e a “oferta” se encontram no caso dos serviços de turismo médico tem que ser feito ao nível do país de origem e do país de destino.

(continua…)