Momentos económicos… e não só

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a 7ª avaliação da troika

disponível aqui, e há também um sumário para não especialistas.

Para ser lido e analisado, se calhar na praia, com grãos de areia entre as páginas (para quem ainda lê em papel).


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o relatório da ocde (23)

Três outros aspectos terminam o relatório da OCDE.

Primeiro, a importância de reforçar os mecanismos de contratos públicos de aquisição de bens e serviços intermédios.

Segundo, uma gestão eficaz dos fundos comunitários, aproveitando a redução do co-financiamento nacional de 30% para 15%.

Terceiro, reduzir a sensibilidade das receitas das autarquias ao ciclo económico, aspecto que será favorecido com a passagem das receitas municipais para maior peso dos impostos sobre imóveis (em lugar do imposto sobre transacções de imóveis). Este aspecto tem uma vertente de impostos locais e do seu papel, uma vez que são ao mesmo tempo receita e uma medida de desempenho dos autarcas perante as populações. A procura de uma maior eficiência da despesa local acaba por ter uma barreira – a divisão administrativa deveria incorporar a escala adequada para prestar serviços. Será que faria mais sentido agregar alguns concelhos em vez de reduzir freguesias? como equilibrar a noção de capilaridade da presença pública vs. dimensão adequada para algumas funções.


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o relatório da ocde (22)

O relatório da OCDE discorre ainda sobre as empresas públicas e as parcerias público-privadas.

No que se refere às empresas públicas, tem uma afirmação curiosa – estas deverão procurar ser maximizadoras do lucro e não ter objectivos intermédios.

Se o objectivo das empresa públicas é a maximização do lucro, qual a razão de serem empresas públicas. Não haverá uma distinção a fazer entre as empresas que têm concorrência do sector privado e as que não têm?

Qual o objectivo final então de se ter empresas públicas? porque é que o livre funcionamento do sector privado não chega? se é necessária intervenção do sector público, que formato deve ter? empresas públicas, empresas públicas reguladas, empresas privadas mais sistema de pagamento, ligado a objectivos definidos, quantificados e valorizados?

Sobre as PPP, a principal recomendação é de se manter uma situação de “value for money” durante a fase operacional, aspecto que é mais exigente do que apenas não ter perdas. Este aspecto exige especial cuidado com as renegociações contratuais das PPP em geral.


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o relatório da ocde (21)

A secção III.4 do relatório da OCDE centra-se na gestão do orçamento do estado.  Começa por referir a regularidade de estimativas sempre muito elevadas para as receitas públicas, e para a falta de efectivo controle orçamental que tem existido.

Defende o relatório da OCDE uma regra para a despesa pública, em vez de uma regra para o défice estrutural. O argumento para a preferência da OCDE não é de natureza conceptual ou de teoria económica, apenas de facilidade de aplicação. O conceito de défice estrutural é de difícil operacionalização pois implica definir o que é a capacidade potencial da economia. Uma regra sobre a despesa é mais facilmente verificável, sacrificando-se rigor no sentido económico da regra a favor de uma maior previsibilidade, facilidade de verificação e dificuldade de manipulação da regra.

Defende também que o ministério das finanças deverá ter uma maior capacidade de análise do que é proposto em termos orçamentais pelos restantes ministérios. Não se deverá ficar por uma verificação formal no controle orçamental.

Para este papel será que o ministério das finanças tem a quantidade e qualidade de recursos humanos que são necessários para essa tarefa? é que provavelmente o ministério das finanças deve querer dar o exemplo em termos de não contratações, ficando depois limitado na sua capacidade técnica. Adicionalmente, não se adivinha fácil a relação com os outros ministérios se as decisões forem contestadas não num nível formal mas num nível substantivo da decisão. O que obriga a que os mecanismos de coordenação política do governo funcionem adequadamente (ver um dos posts anteriores).


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o relatório da ocde (20)

A terceira secção deste terceiro capítulo é dedicado à gestão dos recursos humanos dentro da administração pública.

É referido de forma positiva o sistema de avaliação de desempenho. Contudo dá a sensação de que os peritos da OCDE não se aperceberam da diferença (enorme, à la Vitor Gaspar nos impostos) entre o aspecto formal e a realidade. Sendo uma avaliação sem consequências, o sistema de avaliação de desempenho não é sério, nem pode gerar resultados de mudança. Constitui em grande medida, e até poder ter as consequências positivas e negativas, apenas mais uma dificuldade no funcionamento das instituições públicas.

Como ponto positivo do relatório da OCDE, o reconhecer-se que os aspectos de motivação são importantes na administração pública e que não se podem limitar a ser apenas financeiros. Importante é a afirmação que apenas reduzir trabalhadores na função pública sem qualquer critério tem sido questionado como sustentável no longo prazo – acaba-se sempre por ter de ir contratar novamente. Sem mudar processos, simplesmente tirar pessoas não provoca mudança.

A este respeito, fiquei apenas com pena de não ver referida a necessidade de uma avaliação de desempenho, uma única vez, para definir quais os estrangulamentos actuais e quem está a mais na administração pública. Este é um trabalho que não pode ser feito pela própria administração pública, que é parte interessada. É uma área onde é crucial ter pessoas de fora a ouvir todos os funcionários públicos de cada serviço, numa avaliação global de cada serviço e das melhorias que se pudessem introduzir. Isto porque só perante pessoas externas ao serviço e obrigadas a dever de confidencialidade se conseguirá uma avaliação honesta de todos sobre todos. Talvez não seja possível fazer em todos os serviços, mas conseguir demonstrar que o estado consegue fazer estas avaliações seria importante para mudar nos locais onde fosse feita, mas também em todos os outros em antecipação dessas avaliações virem a ser aí realizadas.


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o relatório da ocde (19)

O relatório da OCDE dá também alguma atenção ao processo orçamental português e às transformações que foram introduzidas. De uma forma geral, o que está a ser feito é visto como apropriado e adequado. Apesar disso, há uma discussão sobre acompanhamento das reformas que merece destaque. Não que seja uma novidade, mas por ser mais uma opinião a favor de se terem mecanismos de acompanhamento das medidas. De um ponto de vista genérico, não há discordância de ninguém quanto a esse aspecto. Mas na prática, não se percebe qual o mecanismo e o compromisso para que esse acompanhamento suceda.

Por exemplo, é referido que o processo da preparação do orçamento tenha objectivos claros, dados de boa qualidade e uma cultura de aprendizagem e melhoria continuas. De certeza que já temos este aspecto enraizado no nosso processo de elaboração do orçamento?

Sobre as boas práticas no processo orçamental, o relatório da OCDE faz uma breve menção às experiências da Suécia, da Áustria e da Austrália. Sobre as experiências da Austrália e da Suécia, quem estiver interessado pode igualmente consultar os documentos da conferência organizada pelo Banco de Portugal, pelo Conselho de Finanças Públicas e pela Fundação Calouste Gulbenkian, em Janeiro de 2013, onde foram apresentadas em maior detalhe por alguns dos intervenientes nessas reformas.


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o relatório da ocde (18)

Apesar de muito já ter sido dito sobre a reforma do estado, o relatório da OCDE consegue apontar um aspecto novo na discussão: o problema político de cooperação entre ministérios.

É a primeira vez que vejo surgir esta questão num relatório sobre Portugal. Que a coordenação política de um governo é importante tem sido frequentemente referido por analistas políticos. Mas nunca se discute as implicações económicas de eventuais descoordenações.

E este é um campo em que o governo depende apenas de si mesmo, e onde a solução irá além da simples demagogia de cortar salários dos políticos, de cortar pessoal dos ministérios, ou ambos. Não basta os slides terem o mesmo grafismo em todos os ministérios, ou as páginas web terem todas o mesmo aspecto, para que haja sintonia de políticas entre ministérios, e se calhar até que se cumpram os compromissos assumidos em reuniões de conselho de ministros.

A coordenação entre ministérios deve ter como palavras chave apoio e aconselhamento e não controle e auditoria.

A par dessa necessidade de coordenação a nível superior, surge num outro nível a necessidade de assegurar a selecção e o recrutamento dos gestores de topo da administração pública, devendo-se pensar bem no balanço que se quer entre concurso e nomeação.

Não deixa de ser curiosa e até surpreendente a menção de que Portugal até tem uma baixa rotação na administração pública depois de realizadas eleições por comparação com outros países pertencentes à OCDE. Coloca um pouco em perspectiva a sensação de que é tudo “jobs for the boys (and girls)”.

Dentro deste conjunto de preocupações, o relatório da OCDE remete para a necessidade de os níveis político e administrativo terem maior comunicação entre si, para assegurar processos de decisão políticos informados.

Aqui, tenho algum cepticismo adicional. Uma coisa é os decisores políticos terem conhecimento dos efeitos de longo prazo, outra é incorporarem essa informação no processo de decisão de forma adequada. Será inevitável que o ciclo eleitoral não consiga criar um interesse mais forte no curto prazo.


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e começam a sair os documentos da 7ª avaliação da Troika

para leitura e comentário conforme for havendo tempo nos próximos dias;

os links: o novo documento do FMI , e a página dedicada a Portugal

o relatório da comissão europeia e o novo memorando de entendimento (oitava versão), deverá vir a estar disponível brevemente no site da Comissão Europeia dedicado ao programa de assistência a Portugal, aqui


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o relatório da ocde (17)

A parte III do relatório da OCDE trata do papel do estado como apoio ao crescimento da economia. O estado como agente económico que deve facilitar o ambiente para maior crescimento económico, e não o estado como empresário. O estado como definidor do enquadramento global, como regulador e como prestador de serviços à sociedade.

Nesta parte, surgem várias recomendações que são aliás idênticas para outros países.

Por exemplo, e logo a abrir o capítulo, a importância de se ter uma administração pública forte como factor de sucesso para as restantes reformas. É um aspecto que em Portugal tem ficado mais escondido no discurso oficial, uma vez que toda a atenção tem estado voltada para reduzir a despesa com os funcionários públicos, não se focando de como no processo de ajustamento se pode e deve garantir que a administração pública futura terá interesses alinhados com uma prestação de serviços à sociedade que promova o crescimento económico e o desenvolvimento.

Relativamente ao papel do estado, as considerações apresentadas levam para que a falha na década passada de se conseguir ter um crescimento económico razoável na economia portuguesa foi também uma falha do estado. Como o estado não foi um estado passivo, não foi por falha de omissão, e sim falha por decisões que não foram as melhores para o crescimento a longo prazo, e que atravessaram vários governos e equipas governamentais. Saber porquê é importante para evitar que a situação se repita. E de certa forma voltamos aqui à qualidade das instituições portuguesas, e da administração pública e dos seus processos de decisão em particular.

 

Os objectivos genéricos enunciados são fáceis de aceitar, e provavelmente muito consensuais, no que toca à reforma do estado. A dificuldade está em definir que instrumentos utilizar, saber o que funciona e com que intensidade é preciso trabalhar esse instrumento para que produza efeitos visíveis.


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post convidado: o que há de comum entre a política e o Carnaval?

Este blog funciona num registo de espaço livre de discussão, está aberto a comentários, e até a textos de convidados. Em vez de um comentário mais longo a um texto, pode justificar-se a colocação de um texto. Ou simplesmente, não se querer abrir um blog e ainda assim querer expressar uma opinião.

Este é o primeiro post convidado, da autoria de Francisco Severino.

“O que há de comum entre a política e o Carnaval?

À primeira vista deveríamos estranhar esta associação, mas desconfio bem que não serão poucos os que terão esboçado um sorriso ao ler o título.

Já todos aliás nos habituamos a ver um certo político com responsabilidades regionais a participar num carnaval conhecido, mas não é nisso que estou a pensar.

Peço alguma paciência ao leitor e explicarei o que leva a pensar que há muito me comum entre o carnaval e a política.

Estando Portugal no meio do que será porventura uma das mais graves crises económicas da sua já longa história, não consigo deixar de ficar triste com o nível, a seriedade (ou falta dela) e o nível de profundidade do debate político.

Alguns dirão que a política é também o reflexo do país que temos.

Sem dúvida o será.

Mas gostaria de acreditar que para além do nível de educação académico, vivia num país com melhores valores – algo que não depende tanto da escola, mas sobretudo daquilo que os pais, a família e a sociedade em geral nos transmitem.

Acreditava eu ser hoje aceite pela vasta maioria dos portugueses que a raiz da crise que temos vivido há mais de 10 anos resulta da progressiva perda de competitividade que em última análise resultou no crescimento do desemprego.

Facto que alguns contestam mas que os números não deixam margem para dúvida é que ao longo destes mesmos 10 anos (e ainda mais ao longo dos últimos 30), o Estado Social foi crescendo até chegar no que é hoje.

Só para ilustrar o que refiro, de acordo com a classificação COFOG em 2011 gastámos mais de 30% do nosso PIB com o Estado Social (Proteção Social, Educação e Saúde), valor 50% mais elevado do que em 2000 quando gastávamos pouco mais de 20% do PIB nestas funções. Em termos nominais em 2000 gastámos pouco mais de 31 mil milhões de euros com o Estado Social. Em 2011 este valor foi de 53 mil Milhões de Euros, ou sejam mais de 5000€ por cada português.

Chegada a chamada crise da dívida soberana dos periféricos e eis que Portugal se vê a braços com a necessidade de reduzir rapidamente a despesa pública.

Esta redução reduz a procura interna o que induz uma recessão.

Quando os nossos principais parceiros comerciais (Espanha, Alemanha, França, …) resolvem também aplicar medidas de austeridade as suas economias reduzem o crescimento e algumas entram em recessão e as nossas exportações ressentem-se.

Reconhecendo que o nível de impostos é mais elevado do que o que a maioria dos portugueses parece disponível para aceitar o Governo tentou (de forma pouco eficaz diga-se) lançar o debate sobre a reforma do Estado e sobre o nível de Estado que queremos.

Algo que o Ministro das Finanças em tempos explicou dizendo que “Existe aparentemente um enorme desvio entre o que os portugueses acham que devem ter como funções do Estado e os impostos que estão dispostos a pagar”.

E deste “enorme desvio” têm resultado os enormes deficits que em apenas pouco mais de uma década a dívida acumulada em % do PIB tenha passado de manos de 50% para mais de 120% do PIB.

Lançado o processo da “reforma do Estado” – ou seja, com a promessa da redução estrutural de despesa – o Governo conseguisse convencer os seus (atuais) principais credores _ a troika – a concederem-lhe uma reestruturação da sua dívida – sim leram bem, Portugal conseguiu reestruturar parte da sua dívida! – Falo, claro, da extensão das maturidades.

E foi na sequência da extensão das maturidades (o soft reestructuring) e deste compromisso com a reforma do Estado que Portugal conseguiu convencer mais uns novos financiadores. Colocámos assim a primeira emissão de Obrigações do Tesourou a 10 anos desde o início da crise soberana.

Foi assim com alguma surpresa que pude hoje nos últimos dias este artigo http://rr.sapo.pt/informacao_detalhe.aspx?fid=27&did=109681 que refere como um dos principais partidos do arco da Governação vai fazer propostas para aumentar as pensões (mínimas) e também o salário mínimo.

Curiosa porque o programa de ajustamento subscrito supostamente pelos 3 partidos do arco da Governação estabeleceu claramente que durante o programa de ajustamento (2011-2014) não haveria aumento do salário mínimo nacional.

Mais curiosa a proposta quando no âmbito das propostas para a reforma do Estado o Governo anunciou a redução das pensões – bem sei que também disse que iria salvaguardar as pensões mais baixas.

Mas deixem-me clarificar a minha posição – acredito que são boas propostas…

Propostas com as quais no campo dos princípios concordo completamente.

Isto é, concordo que deveremos ter como objectivo aumentar as pensões de sobrevivência, reduzindo assim o fenómeno da pobreza na velhice – algo, já agora, que os nossos quase 20% de despesa no PIB com a Proteção Social não parece ser eficazes a fazer…talvez antes de “atirar mais dinheiro para o problema”, nos devêssemos debruçar sobre o que está errado no atual sistema que, sendo caro (i.e. consome muitos recursos), é ineficaz (i.e. não parece combater eficazmente a pobreza e exclusão social).

Concordo também que deveremos ter como objectivo que o salário mínimo nacional possa subir, pois deve ser bastante difícil viver com este valor.

…o que já não concordo é que este seja o momento para o fazer!

E não me parece que o seja por pelo menos duas ordens de razões:

1) aumentar as pensões implica quase certamente aumentar a despesa pública

i.e. não imagino que a proposta passe pelo aumento das pensões mínimas (na sua maioria não contributivas) à custa da redução das restantes pensões (que resultam de regimes contributivos)

2) aumentar o salário mínimo deverá resultar a curto prazo em menos criação de emprego e a curto/médio prazo em mais desemprego

Que estas propostas fossem apresentadas por centrais sindicais ou por partidos mais pequenos e radicais, já nos habituamos (infelizmente!), mas que surja de um partido no arco da governação preocupa-me deveras.

Como não acredito que não conheçam e que não concordem com análise simples que acabei de fazer, só posso concluir que se trata de “publicidade enganosa”. Sabem certamente que caso formem Governo não poderão executar as medidas que agora propõem.

Entraríamos então na já habitual fase de culpas sobre os antecessores que afinal deixaram o país muito pior do que pensavam, etc, etc.

Fosse uma empresa privada a fazer publicidade a um seu qualquer produto e estou certo que levaria uma pesada multa por “publicidade enganosa”.

Mas neste caso não há problema, afinal é só política e na política, como no Carnaval, ninguém leva a mal.

Afinal e ainda para mais este ano é ano de eleições…

Eu acredito que uma pessoa pode fazer a diferença.

Acredito também que os atos, mais do que as palavras, revelam os valores de quem as pratica.”