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Programas de governo: contando palavras

Têm sido escritas muitas análises dos programas de governo, comparando as opções políticas e as propostas dos partidos proponentes. Cada análise inclui, mesmo que não seja de forma propositada, o ponto de vista de quem escreve, quase inevitavelmente.

Uma curiosidade que tenho é perceber se o programa do XX Governo (o segundo Governo liderado por Passos Coelho) está mais próximo do programa do XIX Governo (o primeiro liderado por Passos Coelho) ou da proposta de programa do PS (o que a acontecer será o XXI Governo).

Para me isolar do meu próprio enviesamento, decidi usar um programa de contagem de palavras, e agrupar por temas (o que será sempre discutível, embora juntar desemprego, desempregado, desempregadas, etc., seja razoável).

Os diferentes programas têm dimensões diferentes, e convém olhar para o número absoluto de palavras e para o número relativo.

Contar palavras não desvenda o conteúdo das propostas, dá quando muito a importância de cada tema (podendo ter igual importância mas de sentido oposto quando se comparam programas, basta ter um “não” à frente por exemplo). Ainda assim, como exercício de tratamento sumário dos programas, pensei que me poderia dar uma primeira visão do que cada programa (ou proposta de programa) considera mais relevante em termos de temática.

Uma primeira curiosidade é o termo “memorando”, que surgia 16 vezes no programa do XIX Governo, e que desaparece completamente no programa do XX Governo e na proposta do PS para programa de Governo.

A proposta do PS é a que tem mais palavras, quase 50% mais do que o programa do XX Governo, que por sua vez era também ele cerca de 50% maior, em palavras, do que o programa do XIX Governo. Dividi (de forma ad-hoc) os termos que mais interessam por 3 grandes temas: economia, sector público e sociedade. Para cada um destes temas, os quadros seguintes apresentam o número de palavras associados com os termos, sendo que variantes do mesmo termo foram somadas (os exemplo mais óbvios, utilização de masculino/feminino e/ou singular/plural).

Sem grandes surpresas, o programa do PS tem mais referências a quase todos os temas, por ser um texto mais longo. Ainda assim, só com os números absolutos é possível perceber que as Misericórdias, que surgiam com várias referências no programa do XIX, praticamente desaparecem no programa do XX Governo e na proposta no PS. Os aspectos de desemprego, equidade/pobreza, emigração e sector público, por seu lado, aparecem com mais força no programa do PS. Tal como a energia e o mar. Já os temas de “reformas” e “digital” têm pouca atenção no programa do PS face ao programa do XX Governo (sendo que o digital não surgia no programa do XIX Governo).

Em termos relativos, olhando para o peso relativo de cada tema dentro do total dos temas a que dei atenção, os gráficos mostram os elementos relativos ao funcionamento do mercado privado recebiam mais atenção no programa do XIX Governo do que no programa do XX Governo, que lhes deu mais atenção que na proposta do PS. Inovação e Investimento recebem mais importância na proposta do PS, embora exportações e infraestruturas tenham menos importância relativa do programa do PS. Enquanto o XIX Governo se referia frequentemente a solidariedade, a proposta do PS incide mais em desigualdade/equidade/pobreza. Reflete provavelmente a linguagem própria de cada área política.

A vantagem dos quadros e dos gráficos é permitirem a cada um identificar o que sejam as diferenças nas áreas que mais lhe importam.

Construindo um indice de diferença entre os três documentos com base na diferença entre a frequência relativa de palavras (dentro dos temas seleccionados) entre cada dois programas (elevando ao quadrado cada diferença e somando todas as parcelas), ao valor 0 a igualdade entre propostas. A diferença entre a proposta do PS e o programa do XX Governo tem um score de 0,06, a diferença entre os programas do XIX e do XX Governos tem um score de 0,13 e o score da diferença entre o programa do PS e o programa do XIX Governo é 0,18. Ou seja, também por aqui se encontra uma aproximação do programa do XX Governo ao PS, mais do que ao Governo anterior.

Economia Proposta PS XX Governo XIX Governo
Agricultura e pescas 71 53 44
Banca 27 11 7
Crescimento 36 45 31
Digital 30 54 6
Empresas/Empreendedorismo/industria 278 204 161
Exportações 34 28 24
Infraestruturas 35 28 21
Inovação 84 46 27
Investimento 187 120 60
Mercado/sector privado/concorrência/competitividade 283 268 206
Salários/remunerações/rendimentos 80 49 30
Mar 67 33 18
Economia 228 194 131
Energia 101 51 21
Regulação 33 27 20
Sector Público Proposta PS XX Governo XIX Governo
Ambiente 123 88 35
Autarquias 33 38 15
Desemprego/emprego 244 154 99
Memorando 0 0 16
Contas Públicas/Orçamento 36 39 32
Pensões 28 22 16
Sector Público 354 233 147
Reformas 39 77 37
Social 292 227 154
Impostos 34 25 11
Privatizações 6 4 11
Saúde 87 62 66
Sociedade Proposta PS XX Governo XIX Governo
Emigração 38 5 4
Envelhecimento/Demografia 46 34 14
Equidade/desigualdades/Pobreza 77 28 19
IPSS/Misericórdias 1 2 32
Natalidade 28 16 14
Solidariedade 24 23 31
Sociedade

Sociedade

Sector Público

Sector Público

Economia

Economia

(nota: os valores das figuras são as percentagens de termos em cada tema no total dado pela soma de todas as palavras de todos os temas para o mesmo programa).


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Memórias de Paris, Setembro de 2015

A regressar algures nos próximos dois meses, em visita rápida de trabalho. Que as memórias de Paris não sejam as que os terroristas procuram instalar na nossa mente, e sim as que escolhemos.

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Sustentabilidade orçamental na saúde,

retirado do Expresso de 7 de Novembro de 2015.

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Sustentabilidade financeira dos sistemas de saúde (3)

O primeiro capitulo do relatório da OECD tem como titulo “sustentabilidade orçamental dos sistemas de saúde – porque é uma questão, o que pode ser feito?”, e será por isso o capítulo central de todo o documento. Aliás, é assinado como OCDE e não por indivíduos, dando conta de ser uma posição oficial da organização e não dos seus autores individuais.

Na introdução coloca as principais conclusões, que serão posteriormente sustentadas. E esta introdução é clara no que diz, mesmo quando mostra que os prefácios não se encontram completamente alinhados com as conclusões retiradas do trabalho técnico. Traduzindo de forma livre, é dito que o rápido crescimento das despesas em saúde têm sido amplamente entendido como resultando de aspectos tecnológicos e de riqueza/rendimento crescentes, como a demografia (leia-se envelhecimento) e as características institucionais como sendo factores relevantes mas muito menos relevantes.

A primeira grande conclusão apontada está ligada ao contexto e não às despesas em saúde por si só. Refere que a sustentabilidade orçamental exige que os governos façam uma gestão credível das finanças públicas (toda a intervenção pública). Os sistemas de saúde colocam desafios devido aos custos crescentes que exercem pressão sobre as finanças públicas, sendo decorrentes sobretudo dos novos tratamentos e da pressão permanente para melhoria nos cuidados de saúde prestados. E a referência ao envelhecimento surge não pelo lado da despesa mas pelo lado da receita, devido à redução de contribuições que possa gerar (sobretudo nos países em que as contribuições são uma proporção dos ordenados das pessoas activas).

A conclusão seguinte mais do que conclusão é uma constatação – os agentes políticos têm três formas de assegurar a sustentabilidade orçamental dos sistemas de saúde – obter mais contribuições para financiar as despesas de saúde (suponho que estarão aqui a falar de contribuições específicas, o que é difícil de realizar com impostos gerais), de melhorar a eficiência da despesa pública em saúde (isto é, com a mesma despesa assegurar a expansão de tratamentos e melhoria dos cuidados de saúde prestados) e reavaliar as fronteiras da despesa pública e da despesa privada (e teremos que ver adiante em que se traduz exactamente esta ideia). Importante é a afirmação que encerra este parágrafo: cortes de despesa cego (tipo 10% em todas as despesas) é uma forma de responder às pressões orçamentais mas que provavelmente terá efeitos negativos.

Termina a introdução deste capítulo, certamente não por acaso, com a referência a que os cuidados de saúde são muito valorizados pela população, pelo que um aumento da despesa em saúde não é automaticamente um problema, em particular se os cidadãos estão disponíveis para pagar esse aumento via aumentos de impostos (sic) ou cortes nas outras áreas da despesa pública. O desafio que identificam é assegurar que qualquer aumento na despesa pública respeita as restrições de sustentabilidade orçamental e tem benefícios que compensam esse aumento de despesa. A importância desta conclusão não deve ser subestimada – o objectivo dos sistemas de saúde não é a sustentabilidade orçamental, esta é uma restrição ao que se pretende fazer, pelo que dentro dela se tem que encontrar a melhor forma de utilizar os fundos disponíveis, e isso significa fazer escolhas e estabelecer prioridades. O processo pelo qual se fazem essas escolhas não deverá ser o que é mais visível politicamente ou mediaticamente (hoje estas duas coisas são quase a mesma, mas mantenhamos a distinção). E não se exclui que possa haver um aumento de contribuições, se for essa a preferência social. No caso de Portugal, o facto das despesas em saúde do Serviço Nacional de Saúde serem financiadas por impostos gerais (a verba sai do Orçamento do Estado e não de uma contribuição específica) tem a vantagem de não ficar dependente do número de pessoas activas na população (o efeito negativo de envelhecimento apontado a propósito de outros países), mas tem a desvantagem de qualquer contribuição específica poder ser “apropriada” pelas outras áreas de despesa pública através da redução da componente financiada por impostos gerais.

(continua)


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Sustentabilidade financeira dos sistemas de saúde (2)

O sumário executivo do documento da OCDE faz, como seria de esperar, um resumo do que a OCDE considera serem as principais conclusões dos vários capítulos (que são assinados por diferentes autores).

Neste sumário volta-se a ter a referência ao rácio despesa em saúde sobre PIB, ainda que novamente sem justificação de porque é essa a medida de sustentabilidade orçamental adequada. Já na identificação das pressões sobre a despesa em saúde surgem os “suspeitos do costume”, alinhados pela ordem de importância que tem sido encontrada na literatura: novas tecnologias que permitem alargar os tratamentos disponíveis e a qualidade dos mesmos, aumento (fortemente associado ao crescimento do rendimento) das expectativas da população quanto à intervenção do sistema de saúde e o envelhecimento da população.

Outra conclusão apresentada neste sumário executivo é a grande diversidade de formulações institucionais para os sistemas de saúde no que respeita à origem de fundos, à gestão e à prestação de cuidados. O desafio comum é conseguir satisfazer as necessidades e expectativas da população dentro das restrições de sustentabilidade orçamental.

Dentro deste grande desafio, uma primeira necessidade é a de diagnosticar correctamente quais são as ameaças à sustentabilidade orçamental. E aqui fazem a identificação de um efeito do envelhecimento sobre a sustentabilidade orçamental que não é o aumento das despesas, é sim o impacto que o envelhecimento tem em termos de contribuições para os mecanismos de segurança social. Quanto uma pessoa se reforma a percentagem do salário que vai para a segurança social, soma da contribuição do trabalhador e da empresa, reduz-se drasticamente, o que diminui os fundos disponíveis. Ou seja, o problema do envelhecimento para a sustentabilidade orçamental não vem do aumento da despesa, vem da redução da receita global. Este efeito será tanto maior quanto mais as despesas em saúde forem financiadas por contribuições sociais alicerçadas nos salários dos trabalhadores activos.

O desafio seguinte é o de ter informação suficiente em tempo útil para poder constituir um mecanismo de alerta que permita intervenção das políticas públicas. O terceiro ponto é a existência de análises regulares do funcionamento do sistema de saúde para procurar formas de encontrar poupanças na despesa, incluindo-se aqui a existência de previsões plurianuais para as despesas em saúde.

Um quarto ponto relevante é o papel da descentralização da despesa para níveis regionais, dentro de alguns países, da qual decorrem questões de excesso de despesa por haver um governo central que acorre em caso de necessidade às regiões, e de se tornarem patentes desigualdades geográficas.

São, de seguida, referidos os instrumentos disponíveis para procurar assegurar a sustentabilidade orçamental, incluindo-se aqui políticas do lado da oferta (formas de pagamento a prestadores, concorrência, etc.) e políticas do lado da procura (sistemas de referenciação, política do medicamento, co-pagamentos e taxas moderadoras, avaliação de tecnologias em saúde, etc.).

Não há propriamente uma defesa de um instrumento como sendo melhor do que os outros, nem a identificação de um cocktail óptimo de medidas. Há a referência a que medidas que aumentem a concorrência, que estabeleçam incentivos para mais eficiência, etc., têm resultado nalguns países, e que medidas que procuram promover concorrência entre entidades seguradoras ou modifiquem as condições de exercício profissional têm tido resultados menos claros.

Do lado da procura, os efeitos associados com copagamentos incluem problemas de acesso a cuidados de saúde, mas a principal conclusão que ressalto é que a promoção do crescimento dos seguros de saúde privados não tem sido eficaz como forma de reduzir as pressões sobre a sustentabilidade orçamental (aspecto que também me parece ser verdade para Portugal, e que está associado à natureza particular das despesas em saúde, em termos de características de risco e de assimetrias de informação).

Sobre a utilização da avaliação de tecnologias em saúde como fonte de redução da pressão sobre a despesa, remetem para a pouca evidência disponível sobre o seu impacto.

Na componente de aumento das receitas para resolver a sustentabilidade orçamental, a preocupação expressa é com os efeitos sobre o funcionamento da economia que pode ter um aumento das taxas marginais de imposto, defendendo-se uma maior base de contribuições. Em particular, referem que os “sin taxes” podem ter efeitos relevantes em termos de saúde pública mas são de papel reduzido no volume de financiamento. Aliás, não seria de esperar outra coisa – se se espera que o imposto sobre tabaco reduza o consumo de tabaco não se pode esperar que seja uma fonte de receita importante.

No final, há um aspecto que será crucial no desenvolvimento da sustentabilidade orçamental das despesas em saúde e que não se encontra focado neste relatório: não se fala em reorganização do sistema de saúde, a prazo a sustentabilidade orçamental, e com ela a sustentabilidade financeira do Serviço Nacional de Saúde, não se joga nos aspectos e nos instrumentos macro e sim no funcionamento e nas funções das organizações do sistema de saúde, será preciso ter uma visão diferente (e aqui socorro-me do Relatório Gulbenkian, que tem mais de um ano e que bem poderia ter um maior papel no delinear de estratégias de sustentabilidade orçamental no campo da saúde).

(continua)


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A subida do salário mínimo

faz aparentemente parte do processo de “convergência das esquerdas” para um (possível) acordo PS com apoio do Bloco de Esquerda e do PCP (como ainda não há nada divulgado oficialmente sobre esse acordo, até lá trabalhamos com hipóteses). Sobre este aspecto, volto a um post do ano passado (aqui), quando me parecia que um benefício possível do aumento do salário mínimo consistia na pressão sobre as empresas para aumentar a sua produtividade por forma a sobreviverem, sendo a baixa produtividade em Portugal um problema ainda à procura de solução. Além disso, ter que pagar um salário mínimo mais elevado pode levar as empresas a terem uma maior preocupação em garantir boas contratações, o que poderá gerar maior estabilidade de emprego (um efeito que tem sido observado noutros países). A importância deste aspecto foi reforçada no último ano pela preocupação com a qualidade da gestão em Portugal, expressa por Albert Jaeger, representante do FMI em Portugal durante o programa de ajustamento (aspecto presente nas suas apresentações finais, antes de terminar a sua presença no nosso país, consultáveis aqui).

A preocupação com aumentos de salário mínimo é obviamente os efeitos negativos sobre o emprego que pode provocar. Essa visão está hoje expressa num artigo de Luis Aguiar-Conraria (aqui). Ora, a este respeito, o consenso internacional que se tem gerado é o de não ser de todo claro que esse efeito é suficientemente importante para se sobrepor a outros efeitos. Os efeitos de um aumento do salário mínimo foram abordados, em 2014, numa carta subscrita por muitos economistas americanos de grande reputação (ver aqui)  e retomado com referência à situação europeia na coluna Vox.eu (aqui): “The fact that the overall employment rate for older workers changes little when the minimum wage changes has led many observers to conclude that minimum wages are simply irrelevant for these workers. Instead, we find that when the minimum wage is higher, all low educated workers face jobs that are more stable (in the sense that they are less likely to end in a lay-off) but harder to get. This shifts the debate over the usefulness of minimum wages to the question of whether workers are better off with improved job stability or improved chances of finding a job when unemployed. It also means that minimum wages affect a much larger part of the labour market than is usually recognised and potentially raises the stakes in the policy debates.” Para Portugal, Luis Aguiar-Conraria argumenta que os efeitos serão negativos, com base em trabalhos de Mário Centeno (o economista-bandeira do PS na actualidade).

Claro que a dimensão do aumento do salário mínimo também tem importância e um salto imediato de 20% (como seria passar de 500 para 600 euros), é provavelmente demasiado elevado (uma vez que as contribuições sociais associadas também aumentam) para várias (muitas?) empresas se ocorrer instantaneamente.

Assim, a decisão de aumentar substancialmente o salário mínimo de uma só vez é provavelmente negativa, mas aumentar um pouco e estabelecer uma sequência de aumentos nos próximos anos, que seja cumprida, poderá ter mesmo vantagens em termos de funcionamento da economia, não por aumentar o consumo mas por obrigar as empresas a melhorarem a sua gestão e produtividade se quiserem sobreviver.

Em qualquer caso, olhando para a evolução das taxas de desemprego médias (entre países) de acordo com o tipo de salário mínimo praticado (ausência de salário mínimo: Dinamarca, Itália, Chipre, Áustria, Finlândia e Suécia; salário mínimo baixo: Bulgária, Roménia, Lituânia, Hungria, República Checa, Letónia, Eslováquia, Estónia, Croácia e Polónia; salário mínimo médio: Portugal, Grécia, Malta, Espanha e Eslovénia; salário mínimo elevado: França, Irlanda, Alemanha, Bélgica, Holanda, Reino Unido e Luxemburgo) não se encontra na última década e meia vantagem óbvia de um modelo face a outro.

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Taxa de desemprego médio, segundo o tipo de salário médio. Fonte: cálculos com base nos dados AMECO.


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Sustentabilidade financeira dos sistemas de saúde (1)

Foi recentemente publicado um documento pela OCDE, Fiscal sustainability of health systems – bridging health and finance perspectives.

Este documento da OCDE faz uma análise interessante da sustentabilidade financeira dos sistemas de saúde e da sua ligação à construção da política orçamental. O texto encontra-se dividido em vários capítulos autónomos que cobrem quer os aspectos de despesas de saúde quer os aspectos de construção do orçamento público para a saúde. As conclusões que apresentam vão em linha com trabalhos anteriores, mas há um esforço de sistematização da discussão e da necessidade de ligação entre o ministério que tem a responsabilidade das despesas com saúde e o ministério das finanças na determinação do orçamento público para a área da saúde.

Curiosamente, ou talvez não, o prefácio não é inteiramente consistente com a discussão que depois se segue, ou pelo menos permite interpretações distintas do que é depois pormenorizado no corpo do documento.

Por exemplo, o prefácio abre logo com a constatação de que as despesas em saúde (totais, supõe-se uma vez que não é dada qualquer indicação de serem públicas ou privadas) cresceram mais rapidamente que o PIB (suponho que seja o que querem dizer quando falam em crescimento económico), e remete logo na frase seguinte para a sustentabilidade orçamental dos sistemas de saúde. Cria a sensação de que despesas em saúde aumentarem o seu peso no PIB (consequência mecânica de aumentarem mais rapidamente que o crescimento económico) é a fonte do problema de sustentabilidade, mas depois ao longo do texto será dito que até é possível que haja sustentabilidade nesse caso. Ou seja, o critério de sustentabilidade dos sistemas de saúde não é o rácio das despesas face ao PIB.

Mais adiante refere que os ministérios da saúde têm a enorme tarefa de manter as suas populações que envelhecem saudáveis enquanto procuraram aumentar a eficiência dos sistemas de saúde. Novamente parece ter implícita a ideia de que o problema central é o envelhecimento da população, quando o que surge nos vários capítulos que se seguem é precisamente o contrário – não é o envelhecimento o principal motor do aumento das despesas com a saúde.

A conclusão final escolhida para o prefácio é em si mesma relativamente trivial, que são necessárias boas instituições para os governos conseguirem controlar as despesas públicas e assegurar que os fundos públicos são bem gastos(value for money). Porém a questão central é que aspectos são suficientes para assegurar essa sustentabilidade.

Os diversos textos são bem mais ricos que esta introdução, e serão comentados em próximos posts.