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ainda cartões de pagamento, Pingo Doce e alternativas

6 comentários

No seguimento do anúncio do Pingo Doce de não aceitar pagamentos abaixo de 20 euros com cartões de pagamento, como seria previsível surgiram também informações sobre alternativas tecnológicas.

Para perceber melhor o papel potencial dessas alternativas tecnológicas, há que conhecer melhor o papel dos cartões de pagamento do lado dos comerciantes. Quando um cliente paga com um cartão de pagamento, há desde logo uma diferença entre cartão de débito e cartão de crédito. Com cartão de débito, o dinheiro é imediatamente retirado da conta do cliente. Com cartão de crédito, estabelece-se uma obrigação do cliente pagar dentro de um prazo estipulado, e pagando fora desse prazo uma parte do valor da compra pagará juros no crédito obtido. No primeiro caso, cartão de débito, há um serviço prestado ao comerciante – o estabelecimento e gestão do sistema de comunicações electrónico que gere a transferência de verba da conta do cliente para o comerciante. No segundo caso, cartão de crédito, há uma diferença importante – há um serviço de comunicações, mas há também um serviço de concessão de crédito, que é adquirido pela empresa que emitiu o cartão de crédito, pagando ao comerciante e tendo depois que obter do cliente o valor em dívida. Quando alguém usa um cartão de crédito no Pingo Doce, o valor que fica em dívida não é ao Pingo Doce e sim à entidade que emitiu o cartão. Se o cliente não pagar o montante em dívida, o comerciante recebe na mesma, e quem suporta o custo é o emissor do cartão (que depois poderá ter os seus mecanismos de recuperação do valor). Ou seja, há também um serviço de concessão de crédito que tem de ser igualmente remunerado. Por isso, quando se discute se as comissões cobradas nos cartões são elevadas ou não, é necessário ter em conta este serviço. Áreas onde haja mais pessoas a usar cartão de crédito e a não pagar o crédito, terão naturalmente de ter comissões mais elevadas. E áreas aqui pode ser áreas geográficas ou de negócio. Como o serviço de crédito não está presente nos cartões de débito, as comissões nestes cartões são menores porque está sobretudo em causa o serviço de gestão das transacções.

Ora, as alternativas tecnológicas, nomeadamente o pagamento com telemóvel, terão que pensar bem no serviço que realmente prestam.

Há, desde logo, uma questão de segurança do sistema para as pessoas. Se pagar com telemóvel é uma possibilidade apenas por aproximação do aparelho fisico, então a preocupação com eventuais roubos de telemóveis para serem usados em compras poderá ser uma barreira importante à adopção.

Mas também no modelo de negócio – se a pessoa fizer a compra (admitamos que em condições de segurança bem definidas), e o valor em dívida passar para a conta de telecomunicações, é como se as companhias de telecomunicações estivessem a prestar um serviço de concessão de crédito, negócio que não é o seu. Assim, o mais natural é que procurem ter um sistema de pagamento a funcionar em pré-pago. O sistema pré-pago não é uma novidade em termos de telecomunicações, e para as empresas de telecomunicações será a forma mais fácil de não terem riscos adicionais em negócios para os quais não estão vocacionadas. O problema será a adesão do cidadão ao sistema. Imaginemos que por questões de segurança apenas é possível ter um valor para pagamentos no telemóvel até 20 euros. Se uma pessoa fizer compras regulares de 11 euros por dia, ou de dois em dois dias, estará sempre a ter que recarregar o telemóvel nesta sua função. Não parece muito prático. Se a pessoa optar por fazer as compras de uma só vez para o mês ou para quinze dias, rapidamente excede este limite, e nesse caso manterá muito provavelmente a sua opção pelo cartão de crédito (que em montantes elevados será já aceite).

Para além disso, qualquer outro sistema de pagamento pelo cliente implica a existência de tecnologia e equipamento que possam receber esse pagamento no comerciante, o que significa um serviço de comunicações (pelo menos), o que significa comissões nesse serviço alternativo. Volta a não ser claro se este novo serviço conseguirá ter comissões mais baixas do que o serviço associado com os cartões de pagamento.

Não se afigura, por isso, fácil pensar no que será uma alternativa aos cartões de pagamento, sobretudo no caso dos cartões de crédito, que têm um serviço adicional incorporado (mesmo que nos passe despercebido a maior parte do tempo).

Desconhecida's avatar

Autor: Pedro Pita Barros, professor na Nova SBE

Professor de Economia da Universidade Nova de Lisboa.

6 thoughts on “ainda cartões de pagamento, Pingo Doce e alternativas

  1. Francisco Velez Roxo's avatar

    Pedro
    O velho tema recorrente dos pagamentos com cartão tinha de voltar, agora que a crise esta para ficar como modo de vida por mais uns anitos.E o tema continua a nao ser nunca descodificado com clareza e rigor para o grande publico.E e esse o perigo.
    Assim, ou jornalistas pouco conhecedores do tema, ou má comunicação por parte dos Bancos ou, e o que e mais importante, o confronto entre os lobbies com maior ou mais fraca posição dominante no quadro da utilização dos cartões de debito e credito (com o objectivo de apropriação de uma parte maior do ” bolo” disponível), baralham a analise do tema, com objectivos estrategicos e tácticos variados mas muito confusos e desmobilizador da construção de uma economia mais transparente e menos paralela.
    Porque e que se disfarça sempre o debate com inovacao tecnologica ( que e importante) e nao se clarifica que tudo se passa no quadro de modelos de negocio e economia geral em tempo e comodidade para os consumidores e produtores/ distribuidores?Cartões de Debito e Multibanco sao um Bem desgastado por felizmente banalizado.Cartoes de credito, um pecado original que os Bancos e outros operadores nao conseguem nunca comunicar sem marketeirisse da treta.
    O teu post relativamente a nova hipótese dos pagamentos moveis fez- me sorrir a memoria.Afinal o questao em causa hoje e neste quadro de crise em Portugal esta entre ” salvar a casa da moeda” ou transferir as funções do Banco de Portugal ( e BCE) para a ANACOM.:))
    Abraco saudável.
    Francisco ( em ferias)

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  2. Sérgio Silva's avatar

    Caro Pedro,

    Relativamente à diferença das comissões com cartão de débito e de crédito é-me difícil perceber a diferença nas taxas pagas pelos comerciantes.
    É perceptivel que no caso dos cartões de crédito existe um serviço extra (crédito) que no entanto não é prestado aos comerciantes mas sim ao dono do cartão de crédito.
    O serviço prestado ao é assim comerciante é assim, no meu entender, o mesmo: pagametos de compras por meio electrónico (quer seja de débito ou de crédito).
    O serviço de crédito prestado ao cliente já é (na maior parte dos casos) aplicada pelos bancos pela taxa mensal (existente na maioria dos casos) paga pelo simples facto de possuir um cartão de crédito.

    Abraço,
    Sérgio Silva

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  3. Paulo Varela's avatar

    Tenho para mim que o ressurgimento do assunto tem mais a ver com a atracção pela economia subterrânea que com taxas…
    Recentemente ao divagar com uma doente minha sobre o regresso às consultas médicas a X com recibo e X-Y sem recibo pelo fim dos benefícios fiscais com a Saúde, recebi uma pronta proposta nesse sentido…

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  4. Pedro Pita Barros, professor na Nova SBE's avatar

    @Francisco – a inovação é sempre interessante do ponto de vista tecnológico; quando aparece a questão do modelo de negócio é que é o problema !

    @Sérgio – o comerciante é quem vende, e a transacção fica saldada nesse momento, mas porque a entidade emitente do cartão de crédito se comprometeu a pagar ao comerciante. É difícil dizer de forma clara quem é que recebe o serviço – se não houver cartão de crédito, mas o comerciante vender a crédito ao cliente, como forma de realizar a venda, então o serviço de concessão de crédito é de facto substituto de uma decisão do comerciante. De qualquer modo o comerciante pode repercutir esse custo que paga junto do cliente através dos preços que cobra (embora todos os clientes normalmente paguem o mesmo independentemente do meio de pagamento). Alguns cartões agora até devolvem directamente valores aos clientes consoante o seu saldo médio de utilização. Enfim, pretendo apenas mostrar que o modelo de negócio do cartão de crédito e do comerciante não é tão simples como poderá parecer.

    @Paulo: pois, não sei porquê não me sinto surpreendido.

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