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Relatório de Primavera 2012 (1)

3 comentários

Foi hoje apresentado pelo Observatório Português dos Sistemas de Saúde 2012, com o titulo crise & saúde – um país em sofrimento; infelizmente por outros compromissos não tive possibilidade de estar presente na apresentação, mas já comecei a ler o relatório. E irei fazendo aqui uma discussão do relatório, conforme for conseguindo ler.

A primeira parte revê os fundamentos da crise, numa visão que dá primazia às explicações externas / da economia internacional sobre as internas / da economia nacional para a crise, em que me pareceu dar-se menos importância às condições nacionais do que é a minha interpretação. No entanto, não é aspecto crucial para o tema da crise & saúde.

A segunda parte trata dos efeitos da crise na saúde, com recurso à literatura internacional sobre o tema. Aliás, curiosa a apresentação gráfica deste ano do relatório de primavera, com a inclusão de caixas sumário ao longo do texto, e com a indicação das referências bibliográficas dentro do próprio texto.

Percorrem os argumentos conhecidos na literatura sobre acidentes rodoviários e suicídios e sua relação com a crise. Dá-me a oportunidade de relembrar que temos motivos para pensar que o mesmo se verificará em Portugal, como explorei num post antigo (dezembro de 2011), aqui.

Sobre o pico de mortalidade no inicio do corrente ano, que foi apressadamente ligado por alguns comentadores à crise e às medidas que estavam a ser adoptadas, o relatório de primavera refere “Não foi estabelecida nenhuma relação entre a crise económica e este excesso de mortalidade de inverno. Contudo, não foram estudadas as diferenças socioeconómicas dos padrões da mortalidade. É importante realçar que o estudo também revela que somente em Espanha e Portugal se observou um excesso de mortalidade significativa para o grupo etário dos 15 aos 64 anos.” A referência a um grupo etário tão amplo significa que nas populações mais vulneráveis (crianças até 14 anos, adultos com mais de 64 anos) não ocorreu um efeito anormal? de qualquer modo, e usando os trabalhos do Instituto Nacional de Saúde (INSA), este pico de mortalidade foi já desmontado (aqui e aqui); seria interessante ver se o acumulado de mortalidade num período curto de tempo é similar entre picos, bem como traçar o excesso de mortalidade face ao previsto com base nos picos passados do mesmo vírus, mas como essa análise não foi feita, que eu tenha visto, nem houve disponibilidade do INSA para ceder a informação necessária, ficarei na dúvida sobre se se pode ou não falar de um pico “excessivo”. De resto, a apresentação de efeitos da crise com recurso a eventos pontuais saídos na imprensa teria a ganhar com a apresentação de informação sistematizada.

Esta segunda parte termina com uma referência ao Memorando de Entendimento com a troika, mas sobretudo para referir aspectos formais e não ainda impactos sentidos das diversas medidas adoptadas.

(continua…)

Desconhecida's avatar

Autor: Pedro Pita Barros, professor na Nova SBE

Professor de Economia da Universidade Nova de Lisboa.

3 thoughts on “Relatório de Primavera 2012 (1)

  1. Desconhecida's avatar

    Muito Interessante, como sempre, um relatório isento, feito por profissionais com competência mais que demonstrada.

    Apenas complemento o post com o link direto:

    Click to access RelatorioPrimavera2012_OPSS.pdf

    Registei, na primeira leitura duas questões:
    1- A insatisfação clara dos coordenadores das USFs com o papel desempenhado pelas ARSs, ACSS e Tutela no processo de reorganização dos CSPs.(Biscaia et al, 2012)
    2- O facto de continuar a não existir uma estratégia de avaliação dos resultados em saude em contextos de organização como as ULSs.

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  2. Alexandra Carvalhal's avatar

    Porque será que o OPSS não faz qualquer referencia à Rede Nacional de Cuidados Continuados? Que se saiba até é uma prioridade do governo continuar a sua implementação…
    Cumprimentos

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  3. Pedro Pita Barros, professor na Nova SBE's avatar

    Alexandra:
    concordo consigo que a ausência dos cuidados continuados é notada, e que como corresponde a uma necessidade identificada no relatório de reorganizar o sistema de saúde, incluindo o serviço nacional de saúde, para dar resposta ao envelhecimento (activo e saudável), ainda mais surpresa causa.

    Carlos:
    Concordo também com os dois pontos que refere.
    A insatisfação dos coordenadores das USF cai dentro de um ambiente geral dos últimos anos de falta de empenho político para concluir as reformas em curso nos cuidados de saúde primários.

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