Como seria de esperar, João Lobo Antunes introduz várias ideias desafiadoras do status quo. Uma delas é a reacção (?) ao uso da tecnologia pela tecnologia, “na Nova Medicina a imagem quase aboliu a narrativa da doença, em parte porque o médico tem menos tempo para ouvir (há um estudo que revela que o médico tende a interromper o discurso do doente em média dezoito segundos depois de ele começar!),” em que o doente também acredita mais na imagem do que na narrativa.
Olhando com as lentes dos óculos de economista, a produção de imagem para diagnóstico e o tempo dedicado pelo médico a ouvir o doente são “factores produtivos” substitutos, a partir de um mínimo de cada um, para se alcançar um objectivo. A maior intensidade de utilização de um ou de outro depende da contribuição relativa de cada um, bem como do seu custo relativo. No caso da tecnologia de imagem, assistimos a evoluções que permitem melhores imagens e a tecnologia vai diminuindo de custo depois de introduzida. Em termos relativos, tornou-se muito mais barato ter diagnóstico de imagem de qualidade face ao tempo usado pelo médico. E o custo não é apenas o custo monetário do salário médico, é o custo de oportunidade de o tempo gasto com um doente não ser gasto com outro quando há escassez de médicos. Quando há muitos doentes em espera para serem vistos, a pressão é para o médico usar menos tempo a ouvir cada um, para os poder ouvir a todos. Por vezes, o próprio enquadramento remuneratório pode levar a decisões de utilização de tempo versus tecnologia diferentes consoante esse enquadramento. Por exemplo, se a modalidade de pagamento for por consulta realizada, do ponto de vista do médico a informação implícita transmitida pelo sistema de pagamento é para aumentar o número de consultas, o que para um tempo total disponível constante do médico só é possível com redução do tempo por consulta, o que pode ser conseguido com um aumento do recurso a pedidos de utilização de tecnologia para diagnóstico (o que poderá ainda aumentar o número de consultas futuras para avaliação dos exames pedidos). Os efeitos podem ser mais complexos se adicionarmos outros elementos, mas o essencial é que esta escolha entre “narrativa” e “tecnologia” é sensível a forças económicas.
Não espanta então a evolução registada, com a diminuição da importância da narrativa da doença. Para perceber que tipo de evolução futura se vai ter, há que olhar para estes factores económicos – contribuição de cada acto adicional para o estabelecimento do diagnóstico, e o custo relativo de cada alternativa.