Momentos económicos… e não só

About economics in general, health economics most of the time

a meia hora a mais aumenta a produtividade?

3 comentários

Em alternativa à descida da TSU, a proposta governamental passou a ser um aumento de meia hora de trabalho (no sector privado), como forma de aumentar a produtividade.

Pelo meu lado, estou confuso – a meia hora de trabalho adicional pode aumentar a produção total, e a produtividade medida pela produção por trabalhador, mas duvido que aumente a produtividade por hora trabalhada. Aumentar a produção total é bom, desejável e necessário, sobretudo se for em bens transaccionáveis. Contudo é preciso não esquecer que a) em muitos sítios já se trabalha para além do horário oficial, de forma não remunerada; b) em muitos sítios existe o presencialismo – estar presente no local de trabalho sem produzir. Em qualquer um destes casos, embora por diferentes razões, não haverá efeitos da meia hora extra de trabalho.

No entanto, em toda esta discussão sobre salários (na função pública) e horário de trabalho (no sector privado), temo que se esteja a perder alguma coisa de essencial. Fui relembrar escritos de G Akerlof, Nobel da Economia de 2001, sobre salários de eficiência, citando do seu livro com Shiller, Animal Spirits, “the efficiency or effectiveness of labor depends on the wage employees are paid (…) The transaction between the buyer [a empresa] and the seller of labor [o trabalhador] only begins when the labor is employed and the wage is agreed upon. No doubt most employers would welcome a lower wage, if there were no further repercussions. But in the labor market a lower wage will engender future repercussions. Why? Because the individual worker, also the employer’s other workers, must not only appear for the appointed number of hours. He or she must be motivated. It does not do the employer much good to hire a worker at a low wage if this causes the worker to be angry or resentful and thus to screw up the employer’s operation. There are few employees who are so carefully monitored that they lack any opportunity to figuratively spit in the soup.” Embora este aspecto não seja uma explicação universal para todos os problemas no mercado de trabalho, é certamente algo a ter em conta, sobretudo no momento actual.

Como em muitas outras situações económicas relevantes, não tenho certezas pelo que seria interessante ouvir o que especialistas em recursos humanos e em economia do trabalho têm a dizer sobre estes potenciais efeitos.

Desconhecida's avatar

Autor: Pedro Pita Barros, professor na Nova SBE

Professor de Economia da Universidade Nova de Lisboa.

3 thoughts on “a meia hora a mais aumenta a produtividade?

  1. Pedro G. Rodrigues's avatar

    Em teoria, a medida destina-se a reduzir os chamados “custos unitários do factor trabalho por cada unidade produzida”, i.e. o rácio entre as despesas com pessoal (salários brutos mais contribuições sociais) e o número de unidades produzidas. Esta é a variável focada nas análises de competitividade. Claro que o big “if” é se, de facto, o número de unidades produzidas aumenta nessa meia hora. Daí que as confederações patronais tenham feito pressão para o bunching das horas, até porque, como sabemos, a produtividade adicional de mais uma hora de trabalho é menor ao fim do dia do que ao início.

    Tal como a principal medida de austeridade (a suspensão dos subsídios de Natal e de férias para FPs e pensionistas), também esta medida (a de exigir mais umas horas de trabalho não remuneradas) não é sustentável a prazo. É um balão de oxigénio para a economia, com sacrifícios pessoais.

    Continuo na minha a defender que seria mais proveitoso que a meia hora a mais fosse usada em programas de formação profissional. Pelo menos assim, o sacrifício teria efeitos mais duradouros em termos do crescimento económico. Mas mesmo nesse caso, seria preciso convencer as pessoas que o investimento (o esforço no upgrade dos seus skills) teria o retorno (financeiro) em poucos anos.

    Gostar

  2. Francisco Velez Roxo's avatar

    Mais do que um Dilema este é um trapézio Dilémico (trapezio escaleno neste caso por ser aquele em que os lados opostos não paralelos são desiguais).
    A história é simples e seguindo a abordagem de G Akerlof, o tema do salário baixo ( e ainda por cima sem motivação) não vai a lado nenhum.Tal como os salários altos vão dar normalmente a “lugares estranhos”.
    Como em Portugal partimos de uma base baixa ( nos anos 50), evoluimos lentamente ao longo da década de 70 e explodimos naturalmente na década de 80 (e na Função Publica na década de 90 ), implodimos no seculo XXI por força de tudo quanto tinha sido a comparabilidade com a Europa e o definitivo arrumar das correntes dos nossos emigrantes que ganhavam bem na reforma e tinham regressado.Logo, a complexidade da produtividade versus nivel salarial, não só tem sido cruelmente tratada (é preciso baixar salários!!! dito a seco) como agora, com estes remendos da mais uma hora,tentando recuperar a ausência de resultados por força do choque fiscal (TSU), estamos a esquecer as palavras de Akerlof, “There are few employees who are so carefully monitored that they lack any opportunity to figuratively spit in the soup.”.
    Com mais ou menos sindicatos “modernos” e mais ou menos “novo patronato”, o assunto vai morrer na praia da concertação social tal como começou:A citar o exemplo da AutoEuropa!!Porque pouco se fala do exemplo de muitas PME em que a mesma formula já se pratica.”He or she must be motivated” e informado do que significou a mudança na OMC e como é que velhos e novos vão lidar com o futuro para além da mudança estrutural profunda do mercado de trabalho.E da perspectiva “não de conversa” do emprendorismo e de algum “back to Basics”.
    Abraço de quem já geriu muitos recursos humanos e nunca procurou as meias tintas (que só empurram o problema e não o resolvem) mas antes continuakm a pintar “consensos” sem perceber que nem todos os trabalhadores andaram em Faculdades de Economia e Gestão:)
    Abraço Roxo
    Francisco

    Gostar

  3. Pingback: Trabalhar mais 30′ aumenta a produtividade? | Em debate com Pedro G. Rodrigues

Deixe uma resposta para Francisco Velez Roxo Cancelar resposta