Momentos económicos… e não só

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a 6ª avaliação da troika

produziu a aprovação para mais parcela do dinheiro do resgate financeira acordado. Esta não era uma avaliação especialmente difícil. Depois da 5ª avaliação ter levado a uma proposta de Orçamento do Estado fiscalmente violenta, depois da agitação social provocada pelo anúncio da TSU e respectiva retirada em Setembro, não estando ainda o Orçamento do Estado aprovado, depois do anúncio do ministro das finanças da revisão das funções do estado  e aproximando-se o tempo de Natal (com a redução da intensidade laboral também nas três instituições da troika), não era complicado prever que, a menos de alguma coisa muito errada ter sucedido recentemente, a avaliação da troika seria positiva.

A principal novidade desta revisão, do que foi publicamente exposto pelo ministro das finanças, é a redução da taxa de crescimento esperada da economia portuguesa para os próximos tempos. Como a queda provavelmente está a ser mais baixa do o previsto, e a recuperação será mais lenta, demorará mais tempo aos portugueses atingirem níveis de rendimento e riqueza próximos dos seus parceiros europeus. Os aspectos de convergência (e coesão) dentro da União Europeia, que tanta atenção suscitavam há alguns anos, deixaram de ser sequer referidos.

Segundo ainda o ministro das finanças, o ajustamento estrutural da economia portuguesa está a ser mais rápido do que o previsto. Como escrevi no post de ontem, do lado do consumo privado, tal parece ser muito claro. Resta agora saber se o mesmo sucede do lado produtivo. E é para esse aspecto que deve ser agora dada mais atenção em termos de discurso público. Sabendo que a transformação da estrutura produtiva implica uma passagem de recursos de uns sectores para outros, parte dessa passagem será feita com fecho de empresas (que já está a suceder) para abertura de outras, em áreas ou sectores com maior produtividade e potencial de exportação. Saber dirigir o discurso público para realçar o que estiver a nascer de novo, em lugar de salvar o que existia e que irá desaparecendo na renovação natural da estrutura produtiva é um desafio comunicacional num contexto onde vários erros nessa componente comunicacional ocorreram. É um desafio comunicacional porque terá que ser alicerçado em evidência que se vá podendo apresentar. É um desafio de substância porque, regral geral, as avaliações de programas de reformas económicas noutros países e momentos do tempo apontam para que os resultados só sejam visíveis ao final de 5 anos, mais coisa menos coisa. Neste campo, comunicar algo que não tenha correspondência na realidade será problemático para a sociedade e para o sistema político.

 


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Memorando – quinta revisão (3)

O Memorando de Entendimento volta a referir a necessidade de acelerar a resolução da situação da ADSE, no seguimento das versões anteriores do Memorando. Na quarta revisão era dito que seria avaliado o progresso na quinta revisão, mas essa avaliação não produziu até ao momento qualquer decisão clara, tendo apenas sido adiado para o terceiro trimestre de 2012 a resolução. Entretanto, o terceiro trimestre terminou há quase um mês e continua a não existir qualquer novidade nesse campo. No orçamento do estado para 2013 há uma redução das transferências para a ADSE, mas não se refere qualquer alteração fundamental no seu funcionamento. Esta não é, porém, uma questão para o Ministério da Saúde resolver cabendo antes ao Ministério das Finanças tomar uma decisão.

No campo do medicamento, os compromissos com a troika parecem entrar agora numa certa velocidade de cruzeiro, mantendo-se a ideia que já vinha da primeira revisão, há um ano atrás, de legislação que baixe o preço dos medicamentos quando estes perdem a patente. Também continuam presentes a revisão anual dos preços dos medicamentos e dos países de referência para essa revisão e o objectivo de 1% para a despesa pública com medicamentos.

A obrigatoriedade de baixar preços no momento de perda de patente está aparentemente a ter alguma dificuldade em passar à prática. É uma medida que poderá contudo gerar alguns efeitos inesperados. Em particular, se a empresa detentora do medicamento original for obrigada a baixar o preço de forma substancial quando termina o período de protecção de patente, irá essencialmente estar a competir com os medicamentos genéricos, em lugar de manter um preço elevado para quem dê valor à marca, deixando aos medicamentos genéricos sobretudo os doentes mais sensíveis ao argumento do preço. Se tiver que colocar o preço bastante mais baixo, então poderá querer competir directamente com os medicamentos genéricos e poderá fazê-lo baixando o preço do medicamento original ainda durante o período de patente, como forma de sinalizar desde logo um posicionamento agressivo no mercado, por um lado, e ao mesmo tempo condiciona as decisões das empresas de genéricos quanto à entrada. Este último aspecto será sobretudo preocupante se for mantida alguma regra de que o preço do genérico tem que ser inferior ao preço do medicamento original numa certa percentagem. É que mesmo sendo o preço de referência para este facto o preço do medicamento original antes da perda da protecção da patente, então a empresa produtora do medicamento de marca poderá ter interesse em perder margem no último ano mas afastar a concorrência de genéricos (que deixam de estar interessados por haver um preço muito baixo). A prazo poderá eventualmente ocorrer uma situação de menor concorrência no mercado dos medicamentos que perderam patente. No entanto, o preço médio no mercado poderá ser mais baixo desta forma, e na verdade os preços dentro de grupos homogéneos (medicamento original mais respectivos genéricos) deveria convergir no tempo para preços similares. Há, aqui, um tema para maior  conhecimento futuro, uma necessidade de aprofundamento da forma como esta medida poderá influenciar o funcionamento do mercado, além do impacto inicial de descida de preços.


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Memorando – quinta revisão (2)

O segundo ponto que é mantido no Memorando de Entendimento é da receita de taxas moderadoras (mais 150 milhões de euros em 2012 e adicionais 50 milhões de euros em 2013).

Como já referi no livro sobre o primeiro ano da troika (ver o link na barra lateral para quem estiver interessado), este é um objectivo que em si mesmo é complicado e até contraditório com outros objectivos da troika e com decisões do Governo.

Grosso modo, estes valores de receitas de taxas moderadoras resultariam se face ao aumento verificado em 2012 (em linhas gerais uma duplicação do valor das principais taxas moderadoras) a procura de serviços se mantivesse constante. Mas o objectivo das taxas moderadoras é induzir uma melhor utilização dos serviços, tal como escrito no próprio memorando de entendimento como. Ora, se esse objectivo for alcançado, por exemplo com as pessoas a irem mais aos cuidados de saúde primários em vez de irem à urgência hospitalar, então a receita de taxa moderadora é menor.

Temos ainda que juntar a este efeito as isenções, que aumentaram, embora de acordo com os últimos números divulgados não tanto como tinha sido previsto. Se aumentam as isenções, reduz-se a receita respectiva a elas.

Para os que pagam taxa moderadora, se a sua utilização for mesmo moderadora no sentido de não recorrerem a serviços de saúde sem ser realmente necessário, então também essa receita deixa de estar presente (o que é bom para o Serviço Nacional de Saúde, em termos de custos evitados com situações que não justificam esse uso).

Juntando todos estes efeitos, só com mais taxas moderadoras (sobre mais serviços) se poderá ter um efeito de expansão da receita, mas é duvidoso que o aprovado no início de 2012 consiga ter esse efeito.

Por outro lado, o actual momento social e político desaconselha tomada de medidas que possam ser vistas como apertar e dificultar ainda mais a vida e a rede de apoio pública das pessoas.

Esta parte do Memorando deverá ser medida cuidadosamente em todos os seus efeitos, e focar mais nos aspectos de uso racional do Serviço Nacional de Saúde, eventual auto-restrição excessiva no sentido das pessoas não recorrerem quando o devem fazer por causa da taxa moderadora, do que propriamente no objectivo da receita. Seria útil que também o objectivo de utilização racional fosse de alguma forma quantificado. Mesmo que não seja introduzido no texto do memorando, pelo menos na avaliação que se faz do memorando deveria estar presente, e não ser apenas uma questão de mais ou menos receita. Aliás, mostrar o sucesso nessa área será provavelmente a melhor forma de compreender porque não se alcançou a receita prevista (se não for alcançada, claro).


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Memorando – quinta revisão (1)

Bom, vou procurar fazer uma apreciação da quinta revisão do Memorando de Entendimento no que diz respeito à parte da saúde, ao que no Memorando de Entendimento vem na sequência do subtítulo “Health Care System”.

A impressão da primeira leitura é que não há alterações fundamentais, mas alguma coisa mudou, com adiamento de alguns pontos e de introdução de precisão adicional noutros. Os elementos novos não parecem ser muitos.

Os objectivos continuam a ser organizados em três grandes itens:

1) uso mais racional dos serviços e controlo da despesa

2) redução da despesa pública com medicamentos

3) poupanças adicionais nos custos hospitalares e eliminação do problema dos pagamentos atrasados e consequente dívida gerada.

A quantificação do objectivo de despesa pública com medicamentos mantém o “cerca de 1% do PIB” em 2013 nesta parte, mas no ponto 3.45 é dito exactamente “1% do PIB”, o que deixa alguma ambiguidade no ar. O acordo com a APIFARMA (tratado noutro texto a propósito do Orçamento do Estado 2013) permite pensar no processo pelo qual este objectivo da troika será nominalmente alcançado. Mas dadas as tendências de crescimento da despesa com medicamentos em ambiente hospitalar, é de esperar um depois de terminado o objectivo de 2013, se observe novo aumento da despesa pública com medicamentos. O mecanismo de protocolo não é uma garantia de controlo futuro da despesa, apenas garante estes dois anos. Há, por isso, que perceber que mecanismos serão colocados em prática para se conseguir alcançar esse controlo da despesa, ou pelo menos crescimento controlado.

Um dos instrumentos, utilização de mecanismos de avaliação económica, está já em uso há alguns anos, e tem sido criticado por limitar a entrada de medicamentos inovadores. Aspecto que tem sido rebatido com o argumento que muitos medicamentos não são verdadeiramente inovadores. Há aqui claramente a necessidade de fazer uma avaliação do que tem sido essa experiência, em termos de contributo para contenção orçamental e em termos de efeito sobre a saúde dos doentes e sobre as oportunidades de tratamento perdidas.

Outro instrumento é a aplicação e utilização generalizada de orientações de prática clínica que incorporem os aspectos de custos nessa decisão. Só que a dificuldade de fazer essa discussão no que se refere aos medicamentos em ambiente hospitalar esteve bem patente no alarme e exaltação que surgiram com o recente parecer do Conselho Nacional de Ética para as Ciências da Vida. Talvez um ponto de partida seja a mera identificação das situações em que a aplicação de medicamentos não se traduz em qualquer benefício para o doente, pois mais do que tratar ou não tratar os doentes, há uma questão do valor adicional em termos terapêuticos. A incorporação dos elementos de custo deve ser feita a um nível de orientação (que não é lei, e à qual pode haver desvios justificados), e não ao nível de cada doente – não é face a um doente concreto que se terá de decidir se o preço compensa o benefício ou não, e sim numa apreciação genérica sobre as propriedades terapêuticas e custos do medicamento nas situações clínicas em que o mesmo possa ser usado.

Para este caminho, da chamada utilização racional do medicamento – que não é contestada em geral – o Memorando de Entendimento nada diz nem nada obriga, pelo que nos cabe escolher o que fazer. Neste campo, o desafio é olhar para lá do objectivo de despesa em 2013.


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a quinta revisão do Memorando de Entendimento

está já disponível no site do FMI, aqui, para ler nos próximos dias, depois de classificar exames.


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sobre o que está destinado à saúde no OE 2013

têm-se lido e ouvido as mais diversas opiniões e leituras. Confesso que fico um pouco espantado, e se também tenho as minhas dúvidas nalguns aspectos (talvez por leitura superficial do relatório do OE), noutras há mesmo leituras apressadas dos números. Destaco duas leituras que me parecem enganadoras:

– decréscimo do orçamento da saúde em 17% – conclusão obtida directamente do quadro do OE 2013 que compara a dotação orçamental de 2012 (depois de orçamentos rectificativos) e de 2013. Esta comparação é errada se quisermos saber alguma coisa quanto ao que vai estar disponível para as instituições do Serviço Nacional de Saúde. O valor de 2012 neste quadro inclui verbas excepcionais para pagar as dívidas passadas acumuladas (infelizmente um aspecto não tão excepcional assim), logo essas verbas em 2012 não corresponderam a mais fundos para o funcionamento normal das instituições do SNS. Para saber do aperto financeiro (ou não) sobre o SNS em 2013 versus 2012 é necessário retirar esse valor. Grosso modo, serão perto de 2000 milhões de euros. E lá se vai a diferença de 17%. Mas um ponto melhor de comparação é provavelmente o que estava previsto no OE 2012 para o SNS em 2012, na medida em que corresponde ao que se pretendia transferir. Esse valor é inferior à transferência para o SNS no OE 2013. Só que também esta comparação não é inteiramente exacta – em 2012 não foi pago um subsídio aos funcionários públicos, incluindo os da saúde, que será pago em 2013 (por conta da decisão do Tribunal Constitucional). Logo o aumento da transferência do OE 2013 face ao OE 2012 para o SNS, expurgada das verbas das dívidas, ainda não é completamente correcto. Se admitirmos que grosso modo o valor deste subsídio a pagar aos funcionários públicos em 2013 que não foi pago em 2012 corresponde no caso da saúde a algo entre 300 e 400 milhões de euros (estimativa minha, uma vez que não encontrei uma estimativa oficial para este valor), então a transferência do SNS em 2013 é sensivelmente igual à de 2012. Há algumas imprecisões nestas contas, mas em termos gerais não se poderá falar de um aperto muito maior do que já existiu em 2012 ou numa folga e capacidade de desenvolvimento em 2013 face a 2012. Insistir nos 17% de redução é por isso pouco útil, e irrelevante para perceber o que se vai passar no SNS.

– poupanças com medicamentos – neste campo, aparece uma poupança prevista com a política do medicamento no “Quadro II.3.1. Medidas de consolidação orçamental em 2013”, p. 47 do Relatório do OE 2013, em 146 milhões de euros.

 

Ora, este valor de 146 milhões de euros não é compatível, só ele, com o objectivo de redução da despesa pública com medicamentos assumido como compromisso no Memorando de Entendimento – de acordo com o que consultei, o objectivo de despesa pública em ambulatório com medicamentos para 2012 é de quase 1200 milhões de euros (ver aqui, p. 4, cláusula 4.ª). O objectivo para 2013 em termos de despesa pública com medicamentos é de 1% do PIB, o PIB de referência para este efeito é 175 000 milhões de euros (cláusula 3.ª do acordo). Logo a despesa em 2013 deveria ser 1750 milhões de euros, face ao objectivo de 2012 de 2038 milhões de euros. A diferença entre os dois valores é 288 milhões de euros, muito acima dos 146 milhões previstos para a contribuição da política do medicamento. Uma interpretação possível é que estes 146 milhões dizem respeito à despesa em ambulatório, e o restante dos 288 milhões de euros (142 milhões) terá de vir do medicamento em ambiente hospitalar. Se esta interpretação não for válida, então deverá inferir-se que se abandonou o objectivo de 1% do PIB em termos de despesa pública com medicamentos. Não consegui encontrar informação no OE 2013 que me permitisse clarificar esta dúvida.

 

O que é dito sobre política do medicamento no OE 2013:

Política do Medicamento

  • Promoção da prescrição, dispensa e utilização de medicamentos genéricos, nomeadamente através da conclusão do processo de implementação e dinamização da prescrição por Denominação
  • Comum Internacional (DCI) e do reforço da monitorização da prescrição e da dispensa de medicamentos;
  • Promoção do acesso ao mercado de medicamentos genéricos;
  • Reforço da monitorização da utilização dos medicamentos, potenciada pela publicação das normas e orientações clínicas relativas ao medicamento;
  • Continuação da publicação e promoção de normas de orientação clínica, tanto no que se refere ao medicamento como relativamente a MCDT, e respetivo sistema de auditoria da sua implementação;
  • Consolidação, disseminação e monitorização da prescrição eletrónica, com implementação do processo de desmaterialização da prescrição e da faturação de medicamentos e MCDT;
  • Promoção de eficiência e aumento da capacidade negocial na aquisição de medicamentos, dispositivos médicos e outros bens e serviços, através de aquisições partilhadas e/ou centralizadas;
  • Monitorização centralizada do consumo intra-hospitalar de medicamentos e MCDT, com vista à otimização de recursos e análise custo-benefício;
  • Monitorização do acordo com a indústria farmacêutica em relação à limitação de encargos públicos com medicamentos em ambulatório e meio hospitalar;
  • Realização da revisão anual de preços com base em preços internacionais, e monitorização da remuneração de distribuidores farmacêuticos e de farmácias;
  • Implementação de novas formas de monitorização e de prevenção da fraude.


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modelos económicos e TSU

Não sei o que a maior parte das pessoas entende por “modelo económico”. Espero que não seja a ideia de que é possível descrever e prever exactamente como toda e cada um dos agentes económicos (pessoas, entidades) age e reage em cada momento.

Um modelo económico é sempre uma forma simplificada de tentar perceber a realidade e a partir daí inferir efeitos prováveis de políticas económicas.

A vantagem dos modelos económicos é serem uma simplificação da realidade. A sua desvantagem é, bem…, simplificarem a realidade.

Vem isto a propósito da TSU, pelos vistos abandonada sem mais pensamento, quando o problema principal estava a residir na forma de financiamento da descida do valor a ser pago pelas empresas.

Interessa-me neste momento discutir a medida no que diz respeito ao incentivo ao emprego e desenvolvimento de empresas. Para isso, vou recorrer a um modelo muito simples, e explicitá-lo para que possa ser contestado e refinado. O objectivo é pensar no que sucede a médio prazo, pelo menos.

Para esse médio prazo, parto do princípio que a disponibilidade dos trabalhadores para aceitar uma posição de emprego é tanto maior quanto maior for o salário liquido que recebem (aqui salário liquido de impostos e contribuições para a segurança social a cargo do trabalhador).

Por seu lado, as empresas contratam menos quanto quanto maior for o pagamento total que tenham de fazer. O seu pagamento é o salário bruto acrescido das contribuições da segurança social a cargo dos trabalhadores.

Se o salário liquido for w, o salário bruto tem que ser w/(1-t-scc_w), em que t é a taxa média de imposto e ssc_w a contribuição para a segurança social a cargo do trabalhador. O pagamento total da empresa é w(1+ssc_e), em que ssc_e é contribuição do empregador.

Nesse médio prazo, para o trabalhador receber w, o empregador tem que pagar w (1+ssc_e)/(1-t-ssc_w).

Este último factor b=(1+ssc_e)/(1-t-ssc_w) é que traduz a distorção ao mercado de trabalho. Não mexendo na TSU, para uma taxa média de imposto sobre o rendimento de 20%, este factor é de 1,804, enquanto a proposta alternativa de a TSU -reduzir-se para as empresas e aumentar para os trabalhadores- aumenta este factor para 1,903 (se preferirem outras taxas médias de imposto sobre o rendimento, as contas são fáceis de fazer). Se houvesse apenas redução na TSU paga pelas empresas, com a compensação nas contas públicas definida de outra forma (por exemplo, via IVA), este valor desceria.

O resultado no médio prazo seria na verdade um mercado de trabalho com mais distorção e menos emprego.

No curto prazo, a baixa elasticidade da oferta de trabalho – os trabalhadores não deixam a empresa mesmo que haja uma descida do salário liquido.

Assim, um dos elementos relevantes da discussão é saber qual a sensibilidade da contratação de novos trabalhadores ao valor da TSU paga pelo empregador e qual a sensibilidade da disposição a trabalhar por parte dos trabalhadores ao salário que recebem.

Aliás, uma das respostas a este argumento de uma maior distorção no mercado de trabalho é a de que actualmente não há resposta do lado dos trabalhadores, não é por salário maior ou menor que arriscarão perder o posto de trabalho. Não aprecio especialmente esse argumento por duas razões, mas primeiro há que reconhecer que se as decisões sobre que trabalho aceitar forem independentes do salário liquido recebido pelo trabalhador, então a medida teria como único efeito reduzir salários liquidos dos trabalhadores. Mas a prazo tal não será verdade, e esta medida é uma medida que procura ter efeitos de criação de emprego, de uma forma duradoura, por isso os seus efeitos têm que ser pensados a prazo. Os dois motivos pelos quais este contra-argumento é pouco válido são a) se fosse verdade a médio prazo essa insensibilidade, no sentido de os trabalhadores aceitarem sempre qualquer salário, então muitas das outras alterações no mercado de trabalho não fariam sentido, nomeadamente as destinadas a criar um maior incentivo a quem está desempregado procurar sair dessa situação. Não seria necessário porque de acordo com o contra-argumento o salário seria irrelevante para essa decisão; b) mesmo no curto prazo haveria efeitos em algumas empresas, nomeadamente as mais dinâmicas, que tivessem capacidade de o fazer, mas que seriam precisamente aquelas que se a distorção fosse reduzida teriam maior capacidade de criar emprego.

Outra resposta a justificar a medida tal como apresentada era a de que aliviaria as actuais restrições de tesouraria das empresas, permitindo-lhes sobreviver melhor e preservar os empregos nesta altura de crise. A complicação deste argumento é a de que está a usar uma medida permanente que aumenta as distorções no sentido de dificultar a criação de emprego para resolver um problema de curto prazo.

Esta discussão tem como base um modelo económico de comportamento do mercado de trabalho que se baseia em duas premissas – a médio e longo prazo, as decisões dos trabalhadores baseiam-se no salário liquido que recebem, e as decisões das empresas em contratar dependem dos encargos totais que suportam com os trabalhadores. Visão simplificada, mas que tem implicações. Alterações a esta visão simplificada têm que explicitar como é as hipóteses explicitadas se alteram, em que sentido e porquê. Modelos económicos não são a solução dos problemas, são uma ajuda a pensar nos problemas.


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leitura recomendada

de um documento do FMI  sobre os problemas de crescimento económico na Europa, com informação relevante para Portugal.

A propósito da TSU, neste documento:

“Fiscal devaluation. Deficit-neutral tax reforms that shift revenue from labor or social security taxation to VAT in the periphery would be helpful, mostly in the short run. Moreover, this policy would need to be well-coordinated across countries as a simultaneous implementation of such a policy would not yield the intended gains.”

O que gera duas observações – desde logo, a necessidade de perceber claramente os efeitos da medida como proposto em Portugal, uma vez que a forma de manter a neutralidade no défice é diferente da experiência anterior e as recomendações do FMI são baseadas nessa experiência anterior, e a necessidade de coordenação internacional destas medidas, aspecto levantado por Pedro Lains. Saber o que se pensa fazer em Itália e Espanha, Grécia e Irlanda, etc., faz parte do processo político e económico.

Ah, neste trabalho do FMI encontram-se também outros aspectos relevantes da discussão em curso. Leitura Recomendada.

 


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a quinta visita da troika

A apresentação de ontem do ministro das finanças sobre a quinta visita da troika trouxe algumas novidades, e desvendou várias das propostas que deverão surgir nas propostas para o orçamento do estado 2013.

O elemento mais marcante foi o anunciado adiamento de cumprimento da meta quantitativa para o défice público em um ano, justificado pelo agravamento das condições externas.

Sendo algo que vinha sendo pedido pelos partidos da oposição, com destaque para o PS, politicamente não deixa de ser um ponto a favor deste partido.

Economicamente, porém, devemos procurar pensar além da mera luta política. Esta situação de adiamento do cumprimento do critério défice público face ao PIB pode ter subjacente duas situações e será importante conhecer com algum rigor qual delas é a verdadeira. A primeira será a diferença entre o planeado e o observado se dever aos chamados “estabilizadores automáticos” – em tempos de crise, menores receitas de impostos e maiores prestações de apoio ao desemprego geram maior défice. Se o chamado défice estrutural evolui no sentido pretendido e montante pretendido, e apenas se registaram desvios por efeito dos estabilizadores automáticos, temos uma situação conjuntural de défice acima da meta. A segunda situação corresponde a que apesar de alguma contribuição dos “estabilizadores automáticos” para a situação actual, a evolução do défice estrutural ficou aquém do planeado e necessário para cumprir os objectivos. Neste segundo caso, as contas públicas portuguesas continuam a ter os seus problemas estruturais, e as dificuldades de financiamento no mercado internacional poderão voltar a repetir-se. A clarificação de qual destas duas situações ocorre é importante.

O aspecto seguinte é saber o que deve ser feito no próximo ano, sabendo-se que a meta quantitativa do défice deslizou um ano. Uma alternativa é aligeirar as reformas, nomeadamente no sector público, para aproveitar o ano adicional. Esta alternativa seria a tradução neste contexto do hábito nacional de “deixar tudo para o último minuto”, ou seja, só ajustar quando for mesmo preciso. A outra alternativa é manter o propósito das reformas mais estruturais no sector público, e com isso, independentemente da meta do défice público, manter os objectivos em termos de mecanismos, objectivos e já agora resultados da transformação da economia e do estado.

Ou seja, como que fingir que não houve adiamento. Na verdade, as transformações em curso não podem ter como único objectivo cumprir valores para o rácio défice público sobre o PIB e apenas enquanto durar o programa de ajustamento. Tem que haver o objectivo global de aumentar a produtividade da economia portuguesa, e sobre esse aspecto o resumo que foi feito desta quinta avaliação da troika foi parco. Talvez a versão escrita traga algo mais. É certo que o governo não pode comandar a produtividade na economia, tal depende das empresas em grande medida. Mas pode-se perceber que obstáculos foram removidos a que essa maior produtividade possa surgir no sector privado. Pode-se perceber se o estado está ele próprio a aumentar a sua produtividade e a contribuir para gerar as condições para que o sector privado também tenha aumentos de produtividade. Não estou a falar de programas de investimento público ou de estímulo. Estou a pensar nas condições estruturais da economia. Aqui não deverá haver adiamento de pensamento e de acção.

Compreendo o centrar na conjuntura, mas deveria haver sempre a preocupação de saber qual o caminho de longo prazo.

 


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a mesada do pai

As noticias referentes à quinta avaliação da troika são deprimentes. Não porque a economia esteja deprimida (e estamos realmente em recessão económica). E sim pela atitude que revela. Todos os relatos das reuniões sugerem que representantes de organizações, de parceiros sociais e de partidos politicos que o verbo mais usado tem sido “pedir”, normalmente no contexto de “alguém que representa a organização X” pede à Troika [mais dinheiros/mais tempo/ambos/flexibilização] (escolher conforme os casos).

É claramente uma atitude de pedir ao pai um aumento da mesada, prometendo que um dia nos iremos portar bem.

O que eu gostaria de ver? o assumir que a situação actual é uma responsabilidade nossa, de Portugal, e que teremos de ser nós a sair dela, de preferência com soluções que consigam reunir os esforços de todos, antes na preparação, depois na execução. Para fazer isso é necessário apresentar capacidade técnica de análise, e capacidade de execução. Duas áreas em que aparentemente temos sido parcos. Por exemplo, não se deveria admitir que o seguinte tipo de relato sobre reuniões com a troika “os partidos não avançaram com nada de concreto”. E não admitir não significa silenciar jornalistas e sim exigir que os partidos apresentem propostas concretas, que estejam quantificadas, que falem a “linguagem da troika” se é a ela que precisamos de convencer, que mostrem que as soluções são pensadas e estudadas e não atiradas ideias para o ar baseadas em três ou quatro conversas, e leitura de três ou quatro blogs. Antes da chegada da troika, os partidos tinham obrigação de colocar em cima da mesa análises técnicas de suporte das suas opiniões. Em vez de colocar a decisão na troika, através do pedido, e quem sabe até da “cunha” tão portuguesa junto das altas instâncias das instituições da troika, procurar ganhar os objectivos através da consistência técnica nos argumentos e na discussão técnica com as equipas da troika.

Será assim tão dificil?