Momentos económicos… e não só

About economics in general, health economics most of the time


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segunda revisão do MoU – saúde (parte 2 / taxas moderadoras)

As medidas referentes às taxas moderadoras não sofreram alteração com a revisão do Memorando de Entendimento, tendo-se porém adicionado dois aspectos:

a) reconhecer que as medidas foram aprovadas, mas que ainda não estavam publicadas oficialmente à data da revisão do Memorando de Entendimento. Encontram-se neste momento publicadas.

b) estabelecem-se metas quantitativas para as poupanças desejadas nesta área, ao contrário do que sucedia na versão inicial do MoU, fixando as receitas adicionais para 2012 em 150 milhões de euros, e mais 50 milhões de euros em 2013.

Sendo os valores das taxas e as isenções alteradas com as novas medidas, o valor de mais 50 milhões em 2013 só pode surgir com base numa actualização de valores e/ou revisão de isenções e/ou alteração dos serviços sobre os quais incidem as taxas moderadoras e/ou maior utilização dos serviços. Não é claro o factor que está na base do acréscimo de receita das taxas moderadoras em 2013.

Desapareceu contudo a referência à actualização de acordo com a inflação, o que está de acordo com a publicação legal entretanto ocorrida, mas não com o Memorando de Entendimento inicial, o que abre a dúvida sobre se pretende actualizar a valores inferiores ou superiores à inflação nos próximos anos. Dados os valores assumidos na actualização, torna-se difícil considerar que sejam feitas actualizações sistemáticas superiores à inflação.

Curiosamente, logo a seguir às taxas moderadoras na versão anterior do MoU vinha a referência às deduções fiscais, que deixaram de ser referidas neste ponto, surgindo unicamente na secção destinada à política fiscal.


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Segunda revisão do MoU – saúde (parte 1)

Nos objectivos estabelecidos no Memorando de Entendimento para a despesa pública com medicamentos (despesa em ambulatório + despesa hospitalar) mantiveram-se os objectivos de 1,25% do PIB para 2012 e 1% do PIB para 2013, desaparecendo contudo as referências à média da União Europeia.

Essa referência à média europeia era factor de confusão, devido a questões de comparabilidade internacional de despesa pública em medicamentos e a que países eram ou deveriam ser incluídos nessa comparação.

Mas se esse aspecto tornou menos ambíguo o objectivo, subsiste a questão de saber se deverá ser o objectivo alterado se o crescimento do PIB for diferente, para menor, do que está previsto. É de notar que aqui se está a ter em conta o PIB nominal, pelo que mesmo uma contracção real não necessita de se reflectir numa redução da despesa com medicamentos, dependendo do valor que a inflação venha a assumir.


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hoje, no dinheirovivo.pt, para daqui a 365 dias

Isto é o que desejo escrever daqui a um ano

31 de Dezembro de 2012

02/01/2012 | 02:57 | Dinheiro Vivo

Nesta altura do ano, a maioria dos artigos divide-se entre os que fazem uma revisão de 2011 e os que olham para 2012. “Os desafios de 2012” é o título implícito de muitos dos artigos e comentários que se produzem durante estas semanas. E claro está a Troika e o Memorando que com ela assinamos não podem deixar de figurar. Não fugirei a esta tradição, mas avanço um ano. Penso no que gostaria de escrever no final de 2012 e a entrar em 2013, uma revisão do ano de 2012.

Assim, o meu desejo para 2012 é poder escrever a 31 de Dezembro de 2012 o seguinte: Como era antecipado, o ano de 2012 que agora termina foi de grandes dificuldades para todos os que vivem em Portugal, sobretudo o mês de Janeiro, com aumentos generalizados. O choque para os funcionários públicos chegou no Verão, com a ausência do subsídio de férias. Houve os que alteraram o seu comportamento desde o início do ano, e houve os que só nesta altura perceberam a falta que este salário adicional fez. E todos se começaram a preparar para a ausência do subsídio de Natal.

No sector privado sucederam-se as renegociações salariais em baixa, como forma de garantir os postos de emprego. As empresas com maior sucesso exportador conseguiram evitar essa renegociação.

Face às dificuldades encontradas, a necessidade aguça o engenho, e a gestão das empresas portuguesas, privadas e públicas, bem como da própria administração pública, deram um salto quantitativo. Para além de todos os aspecto legais de enquadramento das actividades económicas em Portugal, um dos bloqueios importantes tem sido tradicionalmente a qualidade da gestão e da gestão intermédia – orientada para a presença no posto de trabalho, e menos para a produtividade; orientada para fazer o que o chefe manda, e menos para a criatividade (até porque a “chefia direta” não gosta disso). A transformação da cultura de gestão ocorreu quer nas grandes empresas quer nas pequenas e médias empresas, que são a maioria. A maior qualidade de gestão nas pequenas e médias empresas levou-as a crescer, e a internacionalizar. Houve as que desapareceram, faz parte da evolução natural das economias, mas foram substituídas por novas empresas. E esta mudança faz toda a diferença na vida económica portuguesa, mas também na esperança e na confiança dos que cá vivem no seu futuro.

Na área da saúde, sendo o Serviço Nacional de Saúde o elemento central da prestação de cuidados de saúde em Portugal, a quebra nos salários gerou de início uma desmotivação e descontentamento geral. As perdas de salário, juntando redução de subsídios de férias e natal com a redução das horas extraordinárias, chegaram a 1/3 do salário anual em alguns casos.

Esta situação, potenciadora de um distanciamento dos profissionais de saúde face à sua actividade, continha o risco de uma real diminuição de cuidados a prestar segundo a necessidade, em qualidade e quantidade. O ano de 2012 começou por isso debaixo da ameaça de um retrocesso dos níveis assistenciais, pois a somar aos efeitos sobre os profissionais de saúde, as exigências de redução de custos eram elevadas.

Mas ao longo do ano de 2012 foram revistas as remunerações salariais dos diversos profissionais, orientadas agora para estruturas mais simples, com enquadramentos mais claros e menos propiciadores de comportamentos que criam desperdício de recursos. Esta alteração permite gastar globalmente menos. Envolveu também uma reorganização da forma como as diferentes profissões de saúde contribuem para o sistema de saúde, onde cada uma é aproveitada da forma que maior valor social gera. Uma das grandes dificuldades de 2012 esteve na gestão dos recursos humanos da saúde, a todos os níveis, incluindo as práticas de gestão, remuneração e organização das instituições. Um olhar cuidado e uma atuação inteligente permitiram manter os níveis assistenciais à população, com menores custos (embora não atingindo as metas inicialmente pretendidas).

Apesar de tudo, o ano de 2012 acaba melhor do que começou. Embora não antecipada no final de 2011, a transformação das práticas de gestão surgiu como a boa surpresa do ano para a economia portuguesa, dando-lhe capacidade de crescimento económico (e ajudando a cumprir as exigências do Memorando da Troika). Na área da saúde, foi o desafio (escondido) de reorganizar os recursos humanos sem comprometer o seu empenho profissional que permitiu não reduzir os níveis assistenciais, mesmo num ambiente de redução de custos.

Será possível escrever este texto daqui a um ano, a 31 de Dezembro de 2012?

Nova School of Business & Economics
ppbarros@fe.unl.pt
Escreve à segunda-feira


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saúde e BPN

Nas discussões da conferência da CNECV surgiu pelo menos duas vezes, por pessoas diferentes, a questão de porque é que se quer poupar mil milhões de euros no Serviço Nacional de Saúde, por um lado, e se continua a “enterrar” mais do que isso no BPN.

Esta é uma pergunta que tenho também ouvido noutros contextos e que merece resposta cuidada, porque é demasiado fácil entrar em demagogia sobre o assunto. Vale a pena antes de responder recuperar a história do processo.

O BPN foi nacionalizado no início da crise financeira internacional. Embora houvesse questões de suspeitas de fraude envolvidas (isto porque caberá ao sistema de justiça decidir…independentemente das nossas posições e visões pessoais), o principal receio que motivou a intervenção, tal como foi apresentado na altura, era o de se criar um efeito de peças de dominó, colocando em questão todo o sistema financeira nacional apenas por reacções desproporcionadas num contexto internacional adverso. Ou resumindo, para evitar o pânico e a corrida aos bancos.

Este motivo era sério, e na altura justificava-se.

Cerca de 6 meses depois era já claro que o BPN não apresentava risco sistémico – o seu desaparecimento não implicaria uma corrida ao bancos, nem o colapso do sistema financeiro português (pelo menos a julgar pela informação pública disponível). Ora, nessa altura deveria ter sido tomada uma decisão definitiva sobre o banco, vender ou extinguir. Vender é sempre mais atractivo, pode-se pensar em recuperar algum valor. Só que não há compradores, nas actuais condições económicas, pelo que para vender se torna necessário fazer alguma “limpeza” interna no banco. Aqui é que o julgamento começou, a meu ver, a ser menos claro, e a não haver a coragem de fechar o banco.

Situação que aliás perdura. Claramente, não aprendemos com os erros passados, uma vez que sempre que se procurou salvar empresas ou instituições em muito difícil condição económica e financeira, o resultado foi sempre “enterrar dinheiro dos contribuintes”, sem mais efeito do que adiar o encerramento.

Este é um processo de decisão, que se iniciado por boas razões se foi complicando à boa maneira portuguesa.

Mas mesmo que estejam aqui em causa vários milhões, encerrar o banco não evitará todos os custos – há compromissos a ser respeitados.

Ligando à saúde, mesmo que se conseguisse um encerramento que evitasse os milhares de milhões que entraram no saneamento do BPN, e se usasse esse valor no Serviço Nacional de Saúde, teria-se quando muito a capacidade de “limpar” as dívidas atrasadas, mas sem alterar o modo de gastar (uso gastar propositadamente no lugar de funcionamento) do Serviço Nacional de Saúde, então o problema voltaria a surgir em poucos anos. Desviar a verba do BPN alivia o momento, descansa as consciências, mas não resolveria as dificuldades subjacentes.

É importante relembrar que o corte pretendido nas despesas públicas com saúde não se destina a pagar os cerca de 3 000 milhões de euros assumidos no Orçamento do Estado como estando em dívida aos fornecedores do Serviço Nacional de Saúde.

O processo do BPN pode estar a ser mal gerido, mas é independente do que se passa na saúde.

O sector público da saúde precisa de gastar menos, mas essa necessidade não é afectada pela solução para o BPN.


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recessão e saúde

Ainda a propósito da conferência da CNECV, um dos comentários feitos manifestava preocupação com a recessão económica e o seu efeito sobre o estado de saúde, citando como referência uma recente análise sobre a crise grega e a taxa de suicídios.

A este respeito, da relação entre recessão e o estado de saúde da população, há que ter algum cuidado nas relações e associações que existem e as que presumimos que existem. Uma regularidade detectada em vários trabalhos é a de que em termos agregados, as recessões económicas não estão associadas com uma deterioração dos indicadores de saúde da população. Este resultado pode parecer paradoxal, e merece por isso ser escrutinado.

Só para ser mais preciso, do estudo de Gerdtham e Rhum, 2006: “a 1% point fall in the national unemployment rate is estimated to raise total mortality by 0.4% and deaths due to cardiovascular diseases, influenza/ pneumonia, liver ailments, and vehicle accidents by 0.4, 1.1, 1.8, and 1.9%, respectively. These patterns are similar to, although generally somewhat weaker than, those obtained in Ruhm‘s (2000) study of the United States using comparable methods and data. ”

O que se passa então? primeiro, o tipo de causas de morte altera-se das recessões para os períodos de maior crescimento económico conjuntural – é importante distinguir as flutuações de curto e médio prazo, o chamado ciclo económico, das tendências gerais de crescimento. Como ficou patente no caso da Grécia, à semelhança de outros países e períodos, a crise económica gera um aumento de suicídios. Mas a crise económica também altera hábitos de transporte, de alimentação e até de exercício fisico (mesmo que não seja desporto). Como a mortalidade em acidentes de viação e em acidentes de trabalho é uma das fontes de anos de vida potencial perdidos, a redução da circulação automóvel reduz os acidentes e melhora os indicadores gerais de saúde da população.

Ou seja, se há um aumento de mortalidade associada com suicídios por um lado há uma redução de mortalidade associada com outras causas.

Dois comentários adicionais – este argumento é um argumento de base populacional. Do ponto de vista individual, a recessão leva a desemprego, e os desempregados têm em média pior estado de saúde do que outras pessoas de características similares mas empregadas. Há um custo de saúde, em termos individuais, de se estar desempregado.  Mas a nível agregado esse efeito aparenta ser compensado por outros aspectos de alteração de comportamento que se traduzem menores mortalidade. Deve ser dada mais atenção aos aspectos de saúde mental, por exemplo.

Segundo, este é um argumento de ciclo económico, de flutuações grandes à volta de uma tendência de crescimento económica. É uma relação diferente na sua natureza de no longo prazo o crescimento económico fornecer condições para um melhor estado de saúde da população, e de cada indivíduo dessa população.

A implicação desta evidência internacional é a de ser mais importante pensar nas intervenções da política de saúde, dados os recursos disponíveis, do que pensar que haverá uma pressão muito elevada sobre os recursos a utilizar apenas por causa da crise. Estejamos atentos à crise, mas não a transformemos no bode expiatório da despesa em saúde.

Vejamos o que temos de evidência nacional.

Como primeiro passo, construa-se um índice de conjuntura. Utilizei uma versão simples – fazer os desvios à tendência linear de evolução das taxas de crescimento real do PIB desde 1980. A tendência linear é ligeiramente negativa, e de alguma forma reflecte o menor potencial de crescimento da economia. A diferença entre a taxa de crescimento observada e o valor dessa tendência é a medida de conjuntura – terá valores positivos em épocas de expansão económica, e valore negativos em tempos de recessão.

Usando alguns gráficos simples tem-se como principais regularidades

a) a mortalidade bruta não tem relação com a fase de ciclo económico. O mesmo sucede com o indicador “anos de vida potenciais perdidos” (que mede o tempo de vida perdido prematuramente).

b) a taxa de suicídios está negativamente relacionada com a fase de ciclo económico – como sucede noutros países, a taxa de suicídio aumenta em períodos de recessão;

c) o número de acidentes de viação, a mortalidade e o número de feridos em acidentes de viação tem uma relação positiva com o ciclo económico – aumentam em momentos de expansão.

Os gráficos encontram-se no final do texto.

Os gráficos não contemplam outros factores que possam ser relevantes. Admitindo que um efeito de tendência permite captar esses outros factores de forma razoável, uma regressão linear simples de cada um dos indicadores acima na evolução do tempo e no indicador de conjuntura económica permite uma primeira abordagem aos efeitos, que vai para além da mera inspecção gráfica.

Os quadros referentes a essas regressões, usando todas as observações anuais disponíveis desde 1980, corroboram as conclusões da análise gráfica. (nota: alargar o período temporal não afecta as conclusões; para os anos de vida potenciais perdidos há observações em falta nos últimos 5 anos).

O que se pode então retirar?

Que os tempos de recessão trazem exigências diferentes ao Serviço Nacional de Saúde, sobretudo no campo da saúde mental – embora se tenha usado aqui o indicador de taxa de suicídio, é de admitir que o mesmo se passará com as depressões, por exemplo -, mas sem a sobrecarga agregada ser claramente diferente. Isto porque noutras áreas diminui a pressão sobre o sistema de saúde – por exemplo, os acidentes de viação reduzem-se, reduz-se a mortalidade com eles associada bem como o número de feridos, que são tipicamente tratados no Serviço Nacional de Saúde.

Ou seja, Portugal não parece ser diferente dos outros países, apesar de esta ser ainda evidência preliminar e que deverá ser aprofundada. Os tempos de crise não são necessariamente tempos de mais despesa ou de mais pressão sobre os serviços de saúde, são certamente tempos de uma pressão de natureza diferente.

Em termos de percepções dos profissionais e da população, a pressão acrescida nalgumas áreas é sempre mais visível e saliente que a redução de pressão noutras. Por isso mesmo, as análises devem ir para além das percepções e do “achismo”.

Por fim, deve-se ter em conta que não se pode daqui inferir relações entre custos de saúde no Serviço Nacional de Saúde e momentos de recessão económica, uma vez que as despesas no SNS dependem também da oferta de serviços que é feita, que tende a ser menor ou mais preocupada com os efeitos de despesa em tempos de recessão.

Referências

Rhum, Christopher J. “Are Recessions Good for Your Health?” Quarterly Journal of Economics 115(2): 617–50, May 2000.

Rhum, Christopher J. “A Healthy Economy Can Break Your Heart,” Demography 44(4): 829–48, November 2007.

Gerdtham, Ulf G., and Christopher J. Rhum. “Deaths Rise in Good Economic Times: Evidence From the OECD,” Economics and Human Biology 4(3): 298–316, December 2006.

Gráficos e Análise de regressão

Relação entre acidentes de viação e índice de conjuntura (valor>0=expansão): positiva

Relação entre taxa de suicídio e índice de conjuntura (valor>0=expansão): negativa

Relação entre mortalidade bruta e índice de conjuntura (valor>0=expansão): sem sentido definido.

Relação entre mortos em acidentes de viação e indicador de conjuntura (1980-2010): positiva, depois de descontada a tendência geral de redução da mortalidade em acidentes de viação.

relação entre feridos em acidentes de viação e indicador de conjuntura (1980-2010): positiva, depois de descontada a tendência geral de crescimento do número de feridos em acidentes de viação (embora muito ténue e praticamente estável em sentido estatístico).

relação entre número de  acidentes de viação e indicador de conjuntura (1980-2010): positiva, depois de descontada a tendência geral de aumento do número de acidentes de viação (embora muito ténue e praticamente estável em sentido estatístico).

relação entre a taxa de suicídio e  indicador de conjuntura (1980-2010): negativa, depois de descontada a tendência geral de redução da taxa de suicídio.

 

relação entre os anos de vida potenciais perdidos e o  indicador de conjuntura (1980-2010): não é diferente de zero – ausência de relação, depois de descontada a tendência geral de redução dos anos de vida potenciais perdidos.

relação entre a taxa de mortalidade bruta e  indicador de conjuntura (1980-2010): não é diferente de zero – ausência de relação, depois de descontada a tendência geral de ligeiro crescimento da taxa de mortalidade bruta (no limite da significância estatística).

 


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dar tudo a todos

Das discussões da conferência organizada pela CNECV, ficaram no ar várias perguntas e comentários, que vale a pena tentar responder e tentarei ir fazendo isso nos próximos textos.

O de hoje é dedicado à frase “dar tudo a todos”, entendendo-se como dar todos os cuidados de saúde solicitados a todas as pessoas. Esta é uma posição que é obviamente simpático, e do qual não se discorda. O problema, o senão, é saber se é possível fazê-lo, se existem recursos suficientes para satisfazer esse objectivo por um lado. Também se pode contestar o próprio princípio na ausência de uma maior pormenorização do que se entende por ele.

Por exemplo, dar a alguém acesso a cuidados de saúde apenas por capricho ou prazer consumista, sem real necessidade clínica, é adequado? Provavelmente, dir-se-á que não.

Na interpretação de que “dar tudo a todos” significa “dar tudo o que for necessário  a todos”, então já se voltará a ter maior consenso. Só que este pequeno passo implica dizer o que constitui “necessidade de cuidados de saúde “, o que estará longe de ser fácil ou consensual.

Por exemplo, repetição de exames ao final de uma semana, radiografia ou outro exame de imagem, justifica-se ou não? Não se pode afastar a possibilidade de ter uma alteração relevante nesse espaço de tempo. Terá uma probabilidade muito pequena, tão pequena quanto queiramos, mas não é uma probabilidade nula. Ora, nesse caso existe um benefício clínico esperado positivo, em sentido probabilístico. No entanto, o custo de fazer essa repetição de exames excede largamente esse benefício – é desnecessário num sentido económico que envolve o baixo benefício e o desvio de recursos que poderiam ser usados noutro lado com maior benefício. A delimitação de onde se pára é que não é fácil. Mas literalmente já não se está a “dar tudo a todos”. Na verdade, o princípio aceitável parece apontar “dar tudo o que for necessário a todos, atendendo aos recursos disponíveis“, e a nossa discussão deve passar para o que deve ser o volume de recursos disponíveis, por um lado, e para a forma como se define necessidade, por outro lado.

Aliás, mesmo em termos éticos, a questão de “dar tudo a todos” pode ser discutida – uma vez que têm de ser obtidos recursos para “dar tudo”, assumir este princípio de forma totalmente literal, significa dar a cada cidadão o direito de tributar os outros cidadãos, num sistema que o “dar” é incumbência de um Serviço Nacional de Saúde financiado por impostos gerais sobre a população, para satisfazer toda e qualquer necessidade de saúde que entenda. Dificilmente aceitamos o princípio de que podemos ser tributados de forma livre por qualquer outro cidadão. Ou seja, não será apenas a “parte económica” da questão a ter relevância, também a “parte ética” de “dar tudo a todos” mediante financiamento por impostos é questionável.

O passo seguinte é como levar os conceitos de necessidade e de atender a recursos disponíveis ao processo de decisão. Essa será toda uma outra discussão, que passa inevitavelmente por informação e por normas de orientação clínica.


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sobre a conferência do Conselho Nacional de Ética para as Ciências da Vida

A conferência realizada no dia 29 de Novembro teve várias intervenções fortes, desde logo a abertura pelo Presidente do CNECV, Miguel Oliveira da Silva, tocando diversos pontos importantes e sensíveis: contrato social da saúde, relevância de garantir a boa utilização de recursos (eficiência) como responsabilidade de todos, dando como exemplos a “histeria e fraude” na gripe A (se estou bem recordado das palavras usadas) e da “prescrição de fármacos desnecessariamente caros”, importância da ética no exercício público e no exercício privado da Medicina. Será um texto a ler, quando disponibilizado.

Alguns temas estiveram presentes mais do que uma intervenção: escolha de prioridades a ser feita com transparência e a transparência como imperativo ético, necessidade de novo modelo de estado social e a crise de valores (mais geral do que a crise financeira, mas englobando esta). Passou também por várias intervenções a questão da responsabilidade individual pela saúde e os comportamentos de estilos de vida, como forma de reduzir a pressão sobre os sistemas de saúde.  A este respeito, não se pode deixar de dar atenção à intervenção de Vitor Malheiros, que desmontou o “mito da informação” – dar informação afinal não muda (facilmente) os hábitos, lançando a questão de saber se as pessoas têm informação relevante porque não mudam o seu comportamento? A resposta dada é que não são os dados que mudam os comportamentos, mas sim as histórias e as narrativas que se constroem.

 

 


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Google search “melhores práticas”

Ainda a propósito do Expresso da Meia Noite comentado ontem, e ligando ao sentimento que a resposta do Serviço Nacional de Saúde, e do sistema de saúde, tem que ser dada ao nível do funcionamento de cada entidade, decidi só por curiosidade fazer uma busca no Google, com “melhores práticas” + “gestão hospitalar” + Portugal, e “melhores práticas” + “saúde” + gestão + Portugal

Tal como antecipava, não surgiu nenhum sítio de internet, oficial ou não, que recolha as descrições de melhores práticas seguidas na gestão de unidades de saúde em Portugal. E há excelentes exemplos, que podem ser lidos e servir de inspiração para mais transformações.

Desafio (mas não sei dirigido a quem…): termos um repositório de casos de melhores práticas, que possa ser facilmente consultado, e que apareça no topo dos motores de busca quando se usarem as palavras chave acima. A dificuldade está em que se escrevam e divulguem os bons exemplos. Vamos a isso?


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Expresso da meia-noite

O Expresso da Meia-Noite de ontem teve a participação de Manuel Teixeira, Isabel Vaz, Adalberto Campos Fernandes e João Almeida Lopes, segundo a ordem pela qual foram introduzidos (espero não estar enganado). Discussão sobre o sistema de saúde naturalmente.

Elementos chave da discussão realizada, pelo menos o que dela retive:

– Manuel Teixeira – necessidade de ajustamento para garantir a sobrevivência do Serviço Nacional de Saúde,  argumenta que devido à “má despesa” se podem reduzir os custos sem afectar qualidade ou acesso dos cidadãos. Centrada a mensagem em que o único caminho, nas actuais condições de financiamento da economia, só pode passar pela redução da despesa.

– Isabel Vaz – o ponto forte acabou por ser o apelo a uma maior exigência dos cidadãos, para forçar a que a gestão das entidades que prestam cuidados de saúde seja obrigada a melhorar. Também teve que responder à (habitual) questão sobre gestão pública versus gestão privada, e sobre o novo hospital de Loures (sim, é um hospital do Serviço Nacional de Saúde, indistinto para o utente em termos de acesso dos outros hospitais públicos, como o Hospital de Santa Maria).

– Adalberto Campos Fernandes – procurou salientar que a asfixia financeira actual não pode fazer com que a componente política das decisões no sector da saúde seja ultrapassada pela componente financeira do curto prazo; também argumentou a favor de uma leitura transparente do exercício da gestão pública no sector da saúde. A preocupação com o subfinanciamento da saúde foi igualmente expressa, devido aos riscos de redução de acesso dos cidadãos aos cuidados de saúde que comporta.

– João Almeida Lopes – naturalmente centrado no campo do medicamento, duas mensagens que procurou passar. Por um lado, o sector do medicamento está já a ajustar às novas condições de restrição da despesa pública, nomeadamente na despesa pública com medicamentos em ambulatório; segundo, já se está, segundo referiu, a ir para além do exigido no Memorando de Entendimento, e não há outra área da saúde onde este esforço tenha paralelo.

Que podemos retirar no fim do programa?

– a redução da despesa pública com cuidados de saúde vai ter que baixar; ou será feita com de forma ordenada, articulando a necessidade económica com prioridades políticas, ou será desordenada com racionamento (aleatório), determinado pela falta de dinheiro. A palavra “racionamento” não entrou na discussão, mas esteve latente. Há que optar pela versão ordenada, que é muito exigente certamente, não tenho a certeza que seja possível alcançar o montante de redução de despesa pretendida, mas é certamente melhor caminho que a segunda opção;

– a redução da despesa passa por uma maior exigência sobre a gestão dos cuidados de saúde, e que neste momento todos estão de acordo com a necessidade de tornar efectiva essa maior exigência, e não ser apenas uma frase “chave” para seminários, conferências ou blogs.

Para quem quiser ver em diferido, via SIC Noticias, aqui

(post gémeo com Estado Vigil)


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As medidas de Paulo Macedo em 90 dias de Governo

Este foi o título de um artigo no Diário Económico de ontem, e vale a pena revisitar rapidamente o que lá está:

1) Medicamentos – proposta de lei para terminar a disputa legal sobre questões de patentes e que tem limitado a entrada de genéricos;

2) Medicamento – fixação do preço do primeiro genérico em 50% do preço do medicamento original

Comentário: nenhuma destas medidas passou ainda a ser efectiva.

3) Médicos e enfermeiros – proibição de novas contratações para os hospitais que não tenham alcançado uma redução de 10% na despesa com recursos humanos; regras mais apertadas para contratação de médicos via empresas / tarefeiros

4) Redução de incentivos para transplantes (em 50% do valor)

5) proibição de autorizar pedidos de licença sem vencimento para médicos do Serviço Nacional de Saúde

Comentário: proibições taxativas vão resultar em excepções várias, aumentando a confusão. Alternativas: auditorias rápidas a casos que pareçam anómalos, penalizações severas (despedimento dos gestores incluídas, anulamento das contratações com reposição de verbas pelos visados, mesmo que tenham desenvolvido trabalho) caso sejam encontradas situações de abuso. Não demorar mais do que 2 meses a resolver as situações. Limitar a liberdade de gestão com proibições só vai desresponsabilizar a gestão, e a breve prazo o custo dessa desresponsabilização será maior do que o benefício imediato de conter essas contratações.

6) Suspensão de reembolsos directos aos utentes por serviços privados

7) Redução de 12,5% no preço pago aos prestadores privados por serviços de hemodiálise e imagiologia

8) Obrigatoriedade de prescrição electrónica em todos os medicamentos, exames e meios complementares de diagnóstico

Comentário: primeiro passo importante; pode-se passar ao segundo passo: revisão de utilização e monitorização de situações extremas.

9) Redução de entidades e cargos dirigentes

Comentário: mais emblemático do que de efeito real, sobretudo porque ditado pela lógica de cortar, não sendo anunciada qual a lógica de estruturação da actividade do Ministério de Saúde que torna redundantes os serviços e cargos eliminados (ou que torna evidente que já eram redundantes). A não ser explicitada essa lógica, dentro de pouco tempo serão criados cargos similares anulando a presente eliminação (conjectura minha!)

10) controlo das horas extraordinárias nos hospitais

11) hospitais do Serviço Nacional de Saúde têm que assegurar a realização dos meios complementares de diagnóstico e terapêutica aos seus utentes como regra, em vez de os solicitarem ao sector privado.

Comentário: é aquí evidente a intenção de utilizar a capacidade instalada; convém ter em atenção que o sector público necessitará sempre de alguma capacidade vaga para atender a “picos de procura”, mas é bom que se conheça de forma mais clara como essa programação é feita.