das segundas feiras, aqui. Desta vez dedicado ao inicio do esmiuçar da proposta de alteração da TSU pelo Governo, que apesar do que se passou esta semana deve ser avaliada nas várias modalidades que pode ter. A versão apresentada pelo governo é apenas uma das possibilidades, em que o financiamento da redução para as empresas é financiada pelos trabalhadores. Há que perceber porque foi feita a proposta desta forma, e ver se há outras formas melhores de aplicar a ideia de um estímulo ao emprego por esta via.
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Manif e economia
Três mil. Dez mil. Vinte mil. Cinquenta. Cem mil manifestantes ou mesmo mais, consoante as cidades e as opiniões. Tendo por trás uma simpatia maioritária da população que mesmo não se juntando fisicamente na manifestação a apoia e deseja. O civismo com que decorreu mostrou um descontentamento com a última semana, e um desejo de “pensem lá bem nisso”. A manifestação não retira legitimidade ao governo e ao parlamento mas não deixa de ser uma forma de transmitir um sentimento social.
Politicamente, muito tem sido dito sobre estes últimos dez dias. E sem o que se passou desde essa sexta-feira dia 7 de Setembro (nalguns calendários será mais uma sexta-feira 13), provavelmente a manifestação de dia 15 de Setembro não teria a adesão que se viu. As leituras políticas ficam para outros mais habilitados para o efeito.
Do ponto de vista dos efeitos sobre a economia é que se tem falado pouco. Vitor Bento em entrevista referiu a importância de recuperar a serenidade para discutir a TSU, que efeitos tem, como deve ser usada – a forma como tem sido analisada não envolvia a subida das contribuições dos trabalhadores. Na verdade, é preciso serenidade para muito mais. Toda a discussão de novas medidas na área económica será agora muito mais difícil. O sentimento de injustiça que o anúncio das novas medidas criou dificultará todo o diálogo futuro.
Mas não é só na discussão de políticas que haverá dificuldades.
Algo mais está em risco neste momento, com potencial impacto na própria actividade económica. A economia portuguesa tem evoluído para assentar cada vez mais em serviços e quando se fala em criatividade, inovação, serviços, está-se a falar de actividades económicas com uma característica particular – o seu sucesso depende do empenho que se puser nessas actividades. Não é possível verificar se há esforço de criatividade no desenho de novos produtos. É quase impossível verificar se em cada atendimento a um turista há um sorriso e uma forma de tratar que o faça querer voltar. Verificar a produção robotizada, ou mesmo a produção manual, é fácil. Verificar o intangível não é. E a perda de valor associada pode ser relevante. O problema central, o de aumento da produtividade, continua fora das discussões, e deverá reganhar espaço.
A perda de um sentido de esforço comum para fazer Portugal sair da actual crise poderá ser um aspecto economicamente relevante espelhado pela manifestação de 15 de Setembro. Escrevo “poderá” porque a esperança e a vontade de mudar para melhor têm que prevalecer.
Será necessário discutir de forma diferente as opções de política económica, com espírito aberto, de todas as partes, com seriedade intelectual e capacidade para ouvir e validar, ou não, os argumentos e evidência que existam. É sobretudo essa mudança de atitude que se espera.
(texto publicado no dinheirovivo.pt)
no dinheirovivo.pt de hoje
sobre o que será o sucesso ou o falhanço central do Ministério das Finanças neste ano de 2012, aqui. Não coloco o défice público como o elemento central. Claro que falhar as metas do défice são um falhanço, como cumprir seria um sucesso. Só que há um aspecto mais crucial – algo duramente criticado em documento de agosto 2011: ter mecanismos que controlem a capacidade dos organismos públicos criarem despesa. Essa foi uma meta a que este Governo se comprometeu, e em que depende essencialmente de si (ao contrário do défice, que tem vários aspectos externos a influenciar, como se tem discutido, a recolha de impostos e as prestações sociais).
ainda cartões de pagamento, Pingo Doce e alternativas
No seguimento do anúncio do Pingo Doce de não aceitar pagamentos abaixo de 20 euros com cartões de pagamento, como seria previsível surgiram também informações sobre alternativas tecnológicas.
Para perceber melhor o papel potencial dessas alternativas tecnológicas, há que conhecer melhor o papel dos cartões de pagamento do lado dos comerciantes. Quando um cliente paga com um cartão de pagamento, há desde logo uma diferença entre cartão de débito e cartão de crédito. Com cartão de débito, o dinheiro é imediatamente retirado da conta do cliente. Com cartão de crédito, estabelece-se uma obrigação do cliente pagar dentro de um prazo estipulado, e pagando fora desse prazo uma parte do valor da compra pagará juros no crédito obtido. No primeiro caso, cartão de débito, há um serviço prestado ao comerciante – o estabelecimento e gestão do sistema de comunicações electrónico que gere a transferência de verba da conta do cliente para o comerciante. No segundo caso, cartão de crédito, há uma diferença importante – há um serviço de comunicações, mas há também um serviço de concessão de crédito, que é adquirido pela empresa que emitiu o cartão de crédito, pagando ao comerciante e tendo depois que obter do cliente o valor em dívida. Quando alguém usa um cartão de crédito no Pingo Doce, o valor que fica em dívida não é ao Pingo Doce e sim à entidade que emitiu o cartão. Se o cliente não pagar o montante em dívida, o comerciante recebe na mesma, e quem suporta o custo é o emissor do cartão (que depois poderá ter os seus mecanismos de recuperação do valor). Ou seja, há também um serviço de concessão de crédito que tem de ser igualmente remunerado. Por isso, quando se discute se as comissões cobradas nos cartões são elevadas ou não, é necessário ter em conta este serviço. Áreas onde haja mais pessoas a usar cartão de crédito e a não pagar o crédito, terão naturalmente de ter comissões mais elevadas. E áreas aqui pode ser áreas geográficas ou de negócio. Como o serviço de crédito não está presente nos cartões de débito, as comissões nestes cartões são menores porque está sobretudo em causa o serviço de gestão das transacções.
Ora, as alternativas tecnológicas, nomeadamente o pagamento com telemóvel, terão que pensar bem no serviço que realmente prestam.
Há, desde logo, uma questão de segurança do sistema para as pessoas. Se pagar com telemóvel é uma possibilidade apenas por aproximação do aparelho fisico, então a preocupação com eventuais roubos de telemóveis para serem usados em compras poderá ser uma barreira importante à adopção.
Mas também no modelo de negócio – se a pessoa fizer a compra (admitamos que em condições de segurança bem definidas), e o valor em dívida passar para a conta de telecomunicações, é como se as companhias de telecomunicações estivessem a prestar um serviço de concessão de crédito, negócio que não é o seu. Assim, o mais natural é que procurem ter um sistema de pagamento a funcionar em pré-pago. O sistema pré-pago não é uma novidade em termos de telecomunicações, e para as empresas de telecomunicações será a forma mais fácil de não terem riscos adicionais em negócios para os quais não estão vocacionadas. O problema será a adesão do cidadão ao sistema. Imaginemos que por questões de segurança apenas é possível ter um valor para pagamentos no telemóvel até 20 euros. Se uma pessoa fizer compras regulares de 11 euros por dia, ou de dois em dois dias, estará sempre a ter que recarregar o telemóvel nesta sua função. Não parece muito prático. Se a pessoa optar por fazer as compras de uma só vez para o mês ou para quinze dias, rapidamente excede este limite, e nesse caso manterá muito provavelmente a sua opção pelo cartão de crédito (que em montantes elevados será já aceite).
Para além disso, qualquer outro sistema de pagamento pelo cliente implica a existência de tecnologia e equipamento que possam receber esse pagamento no comerciante, o que significa um serviço de comunicações (pelo menos), o que significa comissões nesse serviço alternativo. Volta a não ser claro se este novo serviço conseguirá ter comissões mais baixas do que o serviço associado com os cartões de pagamento.
Não se afigura, por isso, fácil pensar no que será uma alternativa aos cartões de pagamento, sobretudo no caso dos cartões de crédito, que têm um serviço adicional incorporado (mesmo que nos passe despercebido a maior parte do tempo).
jogada de risco: Pingo Doce deixa de aceitar cartões em pagamentos inferiores a 20 euros
Hoje, através da rádio, fiquei a saber desta decisão do Pingo Doce, que aparece também em vários locais da imprensa online.
O argumento apresentado é o a da poupança de 5 milhões de euros. Deixemos por um momento de parte saber como esta poupança será repartida entre clientes e empresa.
A minha dúvida é se esta poupança existirá de facto em termos globais. Em particular, interessa-me pensar na forma como o comportamento dos consumidores /clientes do Pingo Doce se poderá alterar.
Para pequenas compras, inferiores a 20 euros, terão que andar com dinheiro na carteira, e se quiserem pagar com cartão terão fazer compras de maior valor. Significa que se os clientes tiverem uma forte preferência por pagar com cartão, irão juntar várias compras feitas actualmente numa só, para acumular valor e não terem problemas com pagar com cartão. As pequenas compras de impulso, de baixo valor, que seriam pagas com cartão tenderão a desaparecer. Por outro lado, ao pagar com “dinheiro vivo” a percepção da despesa passa a ser maior – pagar 5 euros e ver que se fica apenas com mais 5 ou 10 euros na carteira poderá dissuadir da compra, enquanto o débito no cartão é normalmente mais indolor. Claro que se pode tentar argumentar que se o cliente quiser mesmo pagar com cartão então vai comprar mais coisas. Pessoalmente, creio que apenas pontualmente tal poderá suceder, e os clientes rapidamente ajustarão o seu comportamento de aquisição.
Adicione-se a este aspecto a existência de alternativas, de outras cadeias de distribuição na proximidade. Se um cliente / consumidor quiser mesmo pagar com cartão de débito ou crédito, poderá dirigir-se a uma loja de uma cadeia concorrente, mas se o fizer para as pequenas compras poderá também passar a fazê-lo para as grandes compras, e lá se vai a “fidelidade” do cliente. Novamente, pode ser que este seja um grupo pequeno de pessoas, ou talvez não…
Por fim, será que os clientes serão sensíveis à poupança assim alcançada? admitamos que é toda transferida para os clientes. Qual será a poupança alcançada em cada transacção realizada? Numa transacção de 10 euros, uma taxa de 2,25% cobrada pela rede de cartões corresponde a 22,5 cêntimos, mas se o Pingo Doce como grande comerciante conseguir, digamos, uma taxa melhor pelo elevado volume transacções, por exemplo, 1,55%, então seriam 11,5 cêntimos de poupança para o consumidor numa compra de 10 euros, caso toda a poupança fosse canalizada para essa compra. Só que há um ligeiro problema – os mesmos produtos não vão ter preços diferentes consoante a forma de pagamento do cliente, e por isso uma redução de preços que transfira toda a poupança gerada será distribuída por todos os consumidores (e eventualmente por muitos produtos). Significa que a poupança que cada consumidor sentirá como resultado de não pagar com cartão de pagamento será virtualmente nula – fica apenas o incómodo de ter de pagar com dinheiro quando preferia pagar com cartão, o benefício fica diluído e pouco perceptível. Não vejo como se pode esperar que o consumidor seja sensível a pagar à poupança gerada. Talvez se passarem a oferecer os sacos (que agora são pagos) em todas as compras abaixo de 20 euros?
Ou seja, gostaria de saber se a poupança de 5 milhões é apenas devida à taxa de serviço que está associada às transacções que deixarão de ter como pagamento o cartão de débito e/ou crédito, ou se de alguma forma incorporaram o efeito sobre as vendas e as respectivas margens para a empresa que poderá resultar do ajustamento do comportamento do cliente / consumidor.
Se estes efeitos não foram pensados, então tem-se uma jogada de risco por parte do Pingo Doce; veremos no final se valeu a pena ou não.
Temas sugeridos: as greves
Por email, recebi a seguinte sugestão: as greves,
“Nota prévia: não gosto de greves. Em tese, são semelhantes ao terrorismo, pois “batem” em inocentes para chamar a atenção de terceiros para a causa.
As greves começaram por ser uma arma dos trabalhadores contra o capitalismo selvagem, tendo até o apoio da Doutrina Social da Igreja. Hoje, parecem ser uma arma dos “funcionários” contra o “socialismo selvagem”, pois é raro ver uma greve numa empresa privada (será que a ameaça de despedimento é a única razão para a ausência no sector privado e até no privatizado?).
Como as greves ocorrem a maioria das vezes em empresas com “déficit operacional”, a greve melhora os resultados (no caso dos transportes é ainda maior o efeito, pois muitas das receitas já foram angariadas). Eu já fui gestor público, tive greves, e sinceramente não perdi o sono…
Há ainda o problema dos números: ninguém se entende com as taxas de adesão. De facto, muitos grevistas não se assumem, tirando baixa (sem atestado até 3 dias), ou fazendo férias, ou não podendo ir trabalhar… devido à greve!!
Uma solução possível: durante uma greve, todos os trabalhadores teriam de estar ao serviço e efectuar exactamente as suas actividades como se de um dia normal se tratasse, sem prejuízo para os clientes. Todos os “grevistas” teriam de se declarar para apurar a verdadeira taxa de adesão. Os grevistas perdiam o ordenado do dia. E os administradores perdiam também parte do ordenado (de um dia, de uma semana, …) na proporção da adesão à greve acima de determinado valor.
Acabava individualmente a greve táctica: não ir trabalhar um dia não seria motivo de greve.
Pelo menos era criado um incentivo para que os gestores se preocupassem com o assunto.”
Esta ideia obriga a pensar no que é o objectivo, por um lado, e o instrumento, por outro.
O objectivo da greve não é parar as empresas, é induzir uma alteração de comportamento das empresas ou de outro agente económico (no caso das greves gerais, o alvo é o Governo). Para induzir essa alteração é imposto um custo a esse agente económico – o instrumento é a perda que é provocada pela greve.
Sem colocar em causa o objectivo, pode-se perguntar se o instrumento ainda é o mais adequado – em particular, se se quiser penalizar financeiramente outro agente económico, é a greve a melhor forma de o fazer? A resposta será dependente de cada contexto, parece-me.
No caso de empresas privadas, apenas a greve poderá fazer com que os trabalhadores imponham um custo ao dono ou à administração da empresa.
No caso do Governo, é duvidoso que as greves afectem a sua visão ou intenção. Claro que as greves nesse caso podem ser mais para consumo interno das organizações que as convocam do que um pretenso instrumento para mudança.
No das empresas públicas, o principal custo cai sobre os utilizadores dos serviços respectivos. E nesse sentido, uma proposta de instrumento que não penalize os utilizadores e apenas a administração parece fazer muito mais sentido (e tem pelo menos a vantagem de não colocar os utilizadores contra os grevistas). Nesta era de facebook, um “like” para a ideia aplicada às empresas públicas de transportes.
euforia à vista?
de repente, começaram a surgir notícias de que o pior da recessão da economia portuguesa, que o decréscimo do PIB este ano não será tão elevado como previsto, de que o crescimento das exportações é animador.
Antes de entrar em euforia com estas notícias, há que olhar com mais cuidado. Sobretudo se se quiser destas noticias inferir que o processo de ajustamento da economia portuguesa está quase a ser feito. Não está! Pelo menos não com base nestas notícias.
Exportar mais do que esperado e para novos mercado parece, de facto, estar a ser conseguido pelas empresas portuguesas. E esta é uma notícia boa. Até pode ser o suficiente para que o decréscimo do PIB seja menor do que o previsto. MAS não há nada que garanta ser uma alteração permanente e estrutural para um maior crescimento.
Se as empresas deixaram de ter mercado interno, têm capacidade produtiva disponível, e pode ser melhor usá-la e vender no exterior do que a deixar desaproveitada. Daqui resulta o aumento das exportações. Só que apenas este efeito não traduz ainda qualquer alteração fundamental na forma de funcionamento da economia portuguesa. Significa apenas a substituição das vendas no mercado interno por vendas no exterior.
Só quando as empresas exportadoras começarem a investir em aumento de capacidade produtiva, e a contratar mais trabalhadores, é que se poderá começar a pensar em ter passado o pior do período de ajustamento. O maior risco neste momento é estar-se a assistir a uma alteração pontual de mercado interno para externo.
A necessidade de continuar a realizar esforços para que as exportações continuem a crescer, por aumento de capacidade produtiva uma vez atingida a capacidade disponível actualmente, deve estar presente na definição de políticas públicas, nem que seja para evitar decisões que afectem negativamente as decisões de investimento.
Euforia à vista? Espero bem que não, e não por prazer da austeridade. É que mudar de caminho a meio levará provavelmente a nova recessão e crise económica muito rapidamente.
austeridade e crescimento económico
nos dias que correm a discussão sobre a forma de fazer crescer a economia (e baixar o desemprego por aumento da actividade económica) vai-se centrando no papel da austeridade vs estímulo público ao crescimento.
O que se afirma: austeridade não leva a crescimento,
Mas não se daqui inferir que: estímulo de despesa pública leva a crescimento.
Só que há distinções a fazer: crescimento de curto prazo, no imediato – só pode ser feito aproveitando capacidade produtiva disponível e não utilizada. Crescimento de longo prazo – tem que ocorrer com novo investimento produtivo, o que demora tempo e exige fundos para esse investimento.
Então, austeridade não leva a crescimento de curto prazo, mas não impede crescimento de longo prazo. A expectativa é que austeridade permita novo investimento produtivo privado, com mobilidade de trabalhadores (via desemprego, infelizmente) de uns sectores de actividade (em contracção) para outros (em expansão). Crescimento de curto prazo, por aumento da despesa – investimento – público, resultaria em expansão (ou menor contracção) dos sectores favoritos, mas findo o período de expansão ter-se-ia novamente a questão de como obter crescimento de forma mais permanente.
Se observarmos crescimento dentro um par de anos, podemos dizer que resultou da austeridade? bom, teremos que isolar todos os factores que possam ter contribuído.
O que é consensual: a economia precisa de crescer.
Como o fazer? só com o aparecimento de novas actividades, nomeadamente ligadas à exportação. O que implica que os novos empregos serão diferentes dos que se perderam. Daí que qualquer estímulo ou plano de crescimento que se queira fazer tem que evitar expandir emprego nas áreas que não conseguem garantir aumentos de produtividade ou crescimento no longo prazo, mas que serão as que mais facilmente empregam pessoas no curto prazo.
DEO – Documento de Estratégia Orçamental
o peso do estado (parte 1)
o peso do estado na economia pode ser medido de várias formas; uma das mais informativas é o peso da despesa pública sobre o PIB, seja em % seja em número índice que dá a evolução a partir de um ano base. As duas figuras no final deste post dão essa evolução em Portugal e na Europa a 27, desde 1995 até 2010. É visível o aumento desse peso do estado na economia portuguesa. Mas ainda assim, esta é uma sub-estimação do verdadeiro peso do estado sobre a economia. Estes rácios são valores médios, mas em termos de incentivos económicos poderá ser mais interessante olhar em termos marginais e em termos de efeito sobre consumos intermédios relevantes. Sem ter a pretensão de um tratamento exaustivo, dois exemplos ilustram como o peso do estado sobre o desenvolvimento da economia pode ser bem superior ao que o valor médio sugere, na medida em que o crescimento e desenvolvimento de actividades é tributado a uma taxa mais elevada do que se poderia supor à partida. O primeiro exemplo é de consumo de electricidade, o segundo do mercado de trabalho (a detalhar em post futuro).
O exemplo consiste em “arrumar” uma conta real de electricidade de forma diferente:
– total da factura de um T0: 22,75 euros. Neste valor inclui-se:
- 2,39 de taxa de audiovisual, que é imposta e tributada a 6%
- 0,05 de imposto especial de electricidade
- 0,09 de taxa especial de DGEG
- 3,78 de IVA sobre o consumo de electricidade
- 4,48 de custos de interesse económico geral (isto é decisões do estado que colocaram os consumidores de electricidade a pagar) incluidos no acesso às redes, e sobre os quais incide o IVA (já incluído na linha anterior).
Significa que do total de 22,75 euros, quase metade, 10,79 euros se destinam ao estado, sob diferentes formas. Os restantes 11,96 são então usados para pagar a produção, transporte, distribuição e comercialização de electricidade.
Para estes 10,79 euros de electricidade, o “equivalente de imposto” que é lançado pelo estado é de 90% (10,79/11,96)- a “taxa de imposto” proporcional que é equivalente a todas estas contribuições é bem superior ao rácio despesa pública / PIB (que pode ser visto como uma aproximação aos impostos, presentes e futuros, que o estado lança).

