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Observatório da dívida dos hospitais EPE, segundo a execução orçamental (nº 85, junho de 2025)

5 comentários

Tendo sido publicados os valores de pagamentos em atraso referentes a maio de 2025, pela Direção-Geral do Orçamento, o momento deve ser de preocupação. Há um acelerar importante do crescimento dos pagamentos em atraso, o que num prazo de 6 meses de uma transferência de verbas que praticamente permitiu levar a zero as dívidas e os pagamentos em atraso, e num contexto de crescimento do orçamento do SNS para 2025, não deixa de ser surpreendente.

A figura abaixo mostra como o último número corresponde a um salto muito claro nos pagamentos em atraso. Nos últimos anos, este incremento mensal ocorreu normalmente no final do ano, e imediatamente antes das transferências extraordinárias de final do ano. O facto de ocorrer a meio do ano, sem motivo aparente, sugere que a despesa das ULS (hospitais) não deve estar a ser acompanhada (consequência de se ter entrado em período eleitoral há uns meses?).

De qualquer modo, esta evolução coloca a necessidade de se exercer, desde já, um acompanhamento sério, por parte do Ministério da Saúde e do Ministério das Finanças, do que possa estar por detrás deste acelerar, perceber se será permanente e generalizado (ou concentrado em algumas poucas ULS). Pretender que tudo está bem, e os fundos do PRR servem para amortecer qualquer derrapagem orçamental, só levará a que “se bata contra a parede” mais à frente.

Como a esta despesa em franco crescimento não parece estar a corresponder uma melhoria dos serviços de saúde prestados pelo SNS, deve-se colocar a questão de saber se são apenas efeitos preço (fazer o mesmo ou menos a preços/custos mais elevados) ou se há também desperdício e intervenções de baixo valor e elevado custo a serem realizadas.

Faltando ainda vários meses para a habitual extraordinária transferência de verbas no final do ano, cabe ao Ministério das Finanças perguntar ao Ministério da Saúde o que justifica esta evolução, cabe ao Ministério da Saúde perguntar à gestão do SNS (ACSS e DE-SNS em articulação) o que justifica esta evolução, cabe às ULS explicarem à gestão do SNS o que se está a passar. De preferência, a tempo de haver alguma ação que não seja “despejar” mais dinheiro no final do ano como transferência extraordinária.

Desconhecida's avatar

Autor: Pedro Pita Barros, professor na Nova SBE

Professor de Economia da Universidade Nova de Lisboa.

5 thoughts on “Observatório da dívida dos hospitais EPE, segundo a execução orçamental (nº 85, junho de 2025)

  1. Desconhecida's avatar

    Boa noite!

    Ficar-lhe-ia muito grato se explicasse a metodologia específica que explica o sistema de codificação numérica.

    Obrigado

    Daniel

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  2. mestradiologia's avatar

    Boa noite!

    Ficar-lhe-ia muito grato se explicasse a metodologia específica que explica o sistema de codificação numérica.

    Obrigado

    Daniel

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    • Pedro Pita Barros, professor na Nova SBE's avatar

      Bom dia,
      Vamos a isso, os detalhes da metodologia e dos códigos ficaram perdidos na sucessão de posts de vários anos.
      Os dados são retirados dos boletins da direção geral do orçamento, valores mensais dos pagamentos em atraso (entidades EPE da saúde).

      utilizo análise de regressão simples para calcular as taxas médias de crescimento dos pagamentos em atraso em cada período entre transferências extraordinárias de verbas. Cada início de período é dado por uma queda abrupta na evolução dos pagamentos em atraso (em termos técnicos, uma quebra de estrutura da série). Sempre que há uma quebra de estrutura / regularização, na análise de regressão, é considerado um novo termo constante e uma nova tendência. Ao fim de uns meses, testo se a tendência observada é igual a alguma já existente num período passado e em caso afirmativo esses períodos são tratados de forma integrada.
      Daqui resulta a codificação tend seguida de um número, que corresponde a um período de tempo. Por exemplo, tend1 corresponde à tendência do primeiro período, tend2 à segundo período, etc. Quando uso tend1_2 significa que a tendência dos períodos 1 e 2 é similar e foi considerada conjuntamente. Na informação acima inclui apenas as tendências e não reportei os termos constantes que variam entre períodos (se tiver interesse poderei remeter a informação completa).
      Agora a legenda de cada tendência:
      tend1: dezembro 2011 a maio 2012
      tend2: junho 2012 a novembro 2012
      tend3: dezembro 2012 a outubro 2013
      tend4: dezembro 2013 a agosto 2014
      tend5: setembro 2014 a novembro 2014
      tend6: dezembro 2014 a fevereiro 2015
      tend7: março 2015 a agosto 2015
      tend8: setembro 2015 a novembro 2016
      tend9: dezembro 2016 a novembro 2017
      tend10: dezembro 2017 a fevereiro 2018
      tend11: abril 2018 a novembro 2018
      tend12: dezembro 2018 a maio 2019
      tend13: junho 2019 a novembro 2019
      tend14: dezembro 2019 a fevereiro 2020
      tend15: março 2020 a abril 2020
      tend16: maio 2020 a novembro 2020
      tend17: dezembro 2020 a julho 2021
      tend18: agosto 2021 a novembro 2021
      tend19: dezembro 2021 a julho 2022
      tend20: agosto 2022 a novembro 2022
      tend21: dezembro 2022 a novembro 2023
      tend22: dezembro 2023 a fevereiro 2024
      tend23: março 2024 a novembro 2024
      tend24: novembro 2024 a maio 2025

      e na lista acima:
      tend1_17_19_20_21 = dezembro 2011 a maio 2012 + dezembro 2020 a julho 2021 + dezembro 2021 a novembro 2023
      tend3_6_11 = dezembro 2014 a fevereiro 2015 + abril 2018 a novembro 2018
      tend4_8_12 = setembro 2015 a novembro 2016 + dezembro 2018 a maio 2019
      tend57 = setembro 2014 a novembro 2014 + março 2015 a agosto 2015
      tend9_15 = dezembro 2016 a novembro 2017 + março 2020 a abril 2020
      tend10_18 = dezembro 2017 a fevereiro 2018 + agosto 2021 a novembro 2021
      tend13_14 = junho 2019 a fevereiro 2020
      tend16_23 = maio 2020 a novembro 2020 + março 2024 a novembro 2024

      Há dois meses que não se encontram incluídos em qualquer tendência pois são pontualmente diferentes da evolução antes e depois desse mês, o que é capturado por valores constantes próprios na regressão (é uma forma automática de os excluir das tendências).
      Os momentos de mudança de tendência são determinados pela evolução da série e frequentemente correspondem a momentos políticos, em duplo sentido, de mudança: nuns casos, injeções de verbas extraordinárias (policies) e noutros casos, alterações no governo (politics).

      Se tiver interesse, para replicar e fazer as suas próprias análises, poderei facultar o código stata que faz os cálculos a partir da informação contida numa folha excel.

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      • mestradiologia's avatar

        Caro Professor,

        Agradeço a pronta e detalhada resposta.

        Ficar-lhe-ia muito grato pelo envio dos dados. Sou atualmente aluno do Programa Doutoral em Ciencias Economicas e Empresariais da Universidade de Aveiro e estou a trabalhar o tema do papel dos dados na implementação de mecanismos de value based healthcare em sistemas de saúde beveridgeanos.

        O endereço de e-mail é o seguinte:

        dpolonia@ua.pt

        Grato pela atenção

        Daniel Polónia

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  3. Desconhecida's avatar

    o problema do SNS é não termos verdadeiros gestores.

    Estes gestores com cartão do partido não têm respeito pelo dinheiro dos nossos impostos.

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