Momentos económicos… e não só

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coisas que me espantam – 1

Decidi iniciar uma série temática sobre coisas que me espantam, para ir registando.

A “coisa que me espanta” hoje foi ter descoberto a publicação recente (1 de fevereiro de 2013) de uma portaria, que vem estabelecer em 2013 os preços a pagar em 2012 por serviços prestados à rede de cuidados continuados e que são iguais aos preços de 2011, sendo copiada integralmente a mesma tabela que já tinha sido publicada em 2011.

Pensei que em 2013 faria sentido estabelecer os preços para 2014, com antecedência. E que se é para manter iguais, bastaria uma linha a dizer isso mesmo. Mas deve haver uma imperiosa razão jurídica para isto tudo ser assim…


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a contribuição da semana para o dinheirovivo.pt

desta vez um pouco mais tarde do que o habitual, como a crónica é sobre pressas e urgências de iniciar reformas, é quase irónico, mas podem ler aqui o texto.


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Conferência sobre reforma do sector público

na Fundação Calouste Gulbenkian, que decorreu no final de Janeiro, tem agora disponível os videos das sessões, para se poder ver ou rever o que mais interessar, aqui


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carnaval ou 1 de Abril antecipado?

Por vezes fico mesmo sem perceber o que se passa. Em geral, diria que não vale a pena criar imposições legais que não se podem verificar. Ou toda a gente concorda com elas, e não é preciso impor, ou temos interesse em não as cumprir e nesse caso se não se pode verificar a adesão, o desrespeito da norma só servirá para enfraquecer o ambiente geral de cumprimento de regras.

Vem isto a propósito da possibilidade do cidadão ser multado se não pedir factura. Não percebo mesmo como faz sentido ser monitorizado. Não pode haver obrigatoriedade de guardar todas as facturas. E mesmo que houvesse, a verificação será complicada. Será preciso observar o cidadão a consumir / adquirir bens ou serviços, e depois segui-lo para lhe pedir a factura e verificar item a item, não fosse a factura de um almoço dizer unicamente um café e ter o valor correspondente. Pelos vistos, os fiscais andam por aí (aqui e aqui) Nesse caso, se fosse preciso observar o cidadão no ponto de consumo, seria mais simples fiscalizar o vendedor do que o comprador.

Em alternativa, em bens ou serviços que não sejam de consumo imediato, pensa-se perguntar ao comprador pela factura? Que terá então de ser guardada? Seremos inquiridos na rua com perguntas do género, “que linda camisa azul, por acaso tem aí a facturinha da compra?” (certamente que o delicado fiscal de impostos perguntaria pela facturinha…)

Claro que podemos tornar o sistema mais sofisticado, e fazer de cada português um fiscal dos outros, mas com os incentivos certos – sempre que reportar um outro cidadão que não tenha pedido factura, posso deduzir nos meus impostos 5% do IVA que ele teria pago até ao máximo de 250 euros – cada café teria o sabor adicionar de “espiar” quem pediu ou não factura. Mas ainda assim, fica um problema – como provar que ele não pediu factura?

Bom, se mesmo assim é difícil, talvez se possa criar uma lei que obrigue a ter em cada local uma câmara de filmar que registe as transacções realizadas e permita verificar se foi passada ou não factura – cada vez que um cidadão sair de uma loja com um embrulho ou saco teria de mostrar a factura da compra à câmara; mas se fizer mais do que uma compra? e quando há consumo imediato?

Já agora, um pouco de efeito de demonstração seria interessante – ver a pilha de todas as facturas pedidas pelos membros do governo durante uma semana, incluindo cafés!

Compreendo a intenção de combater a economia informal, e o precedente que existiu em Itália. Não será é fácil manter uma pressão fiscalizadora sobre a população tal que não gere animosidade e que gere suficientemente duradoura para criar uma cultura permanente de exigência de factura pelo consumidor final.

Mas claro que tudo isto pode ser apenas brincadeira de carnaval, ou preparação para o 1 de Abril.


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preparação para mais uma visita da troika

Aproxima-se o momento em que as equipas de visita da troika voltarão a aterrar em Portugal, para mais uma revisão do progresso realizado. Antecipando o que tem sido a evolução da economia portuguesa em algumas áreas tocadas pelo Memorando de Entendimento assinado com a troika, realiza-se uma pequena conferência, organizada pela nova geração de economistas a sair da Faculdade de Economia da Universidade Nova de Lisboa. O programa está disponível aqui.

É importante que haja um maior escrutínio da sociedade, e da academia, do que são os resultados das opções tomadas, e que procurem ir além do toque imediato do jornalismo, onde a atenção é mais para a mudança brusca do que para a tendência de médio e longo prazo. Para discutir com a troika, e apresentar opções, é preciso fazer o trabalho de perceber o que está e não está a mudar, e perceber que alternativas se podem considerar, com base no conhecimento e informação existentes.

É igualmente importante que as novas gerações sejam chamadas a reflectir sobre o seu futuro colectivo. Afinal, como se começa a ver, as opções tomadas durante este período de resgate financeiro podem moldar, para o bem e para o mal, o que será a economia portuguesa na próxima década e as relações económicas entre os cidadãos (por exemplo, o chamado conflito de gerações e as suas implicações para o sistema de pensões).


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correspondência sobre ADSE

A vantagem dos tempos modernos da internet é a facilidade com se pode contactar os outros. Exemplo disso os vários comentários que recebi a propósito da ADSE. Dessa correspondência, e com autorização da pessoa em causa, transponho uma posição que tem sido expressa por diversas vezes.

 

Perguntas e comentários [via email]:

Tenho visto as suas intervenções publicas sobre o fim da ADSE. Só gostaria que reflectisse sobre o seguinte: Trabalhei 46 anos. Estou reformada há ano e meio. A minha utilização da ADSE foi mínima, talvez porque tendo sido uma pessoa saudável. Agora perto dos 70 anos, vão tirar-me o tapete?

O desconto (actualmente de 1,5%) foi-me sempre imposto. Também pago IRS. Como é agora?

Tenho uma solução. Exijo que me façam as contas, é fácil, sabem o que paguei e o que que recebi em comparticipações. Vou receber uns milhares. Quando os contratos acabam o que se faz no mínimo é saldar as contas!

– Um aspecto importante, que nunca vi ser abordado é o seguinte. As empresas publicas subsidiadas pelo Estado, atribuem aos seus empregados e até aos seus reformados seguros de saúde privados. Ou seja, o Estado está a contribuir para a ADSE e a contribuir para seguros de saúde privados

Seria interessante que o Sr. Prof. se informe sobre isto e nas suas análise  tivesse em conta esta situação.

 

Resposta:

Obrigado pela sua mensagem e considerações.

Dois comentários breves. Primeiro, os descontos passados cobriram a possibilidade de utilização passada. O facto de ter tido utilização mínima é de saudar, pela boa saúde que revela. A ADSE não constrói uma conta poupança saúde para cada pessoa. É sim um mecanismo de redistribuição, dos saudáveis em cada momento para os menos saudáveis, e dos com maiores rendimentos para os que têm menores rendimentos. Esse papel é também assumido pelo Serviço Nacional de Saúde, que nasceu muito depois da ADSE, e funciona com prestação directa em vez de convencionados e regime livre (como a ADSE faz). Mas essa foi uma escolha feita em 1979, onde se poderia ter criado um SNS à semelhança da ADSE com base no exercício da medicina privada. Opção aliás defendida na altura pela Ordem dos Médicos, quando foi Bastonário o Prof Gentil Martins (se não estou em erro).

De qualquer modo, o que a meu ver faz sentido é retirar a situação de dupla cobertura. Até se poderá manter a ADSE para si, na forma como a usa e beneficia. Bastará que o Serviço Nacional de Saúde faça um pagamento fixo por ano, para cobrir as suas despesas esperadas, e que quando for utilizar cuidados de saúde vá aos prestadores que tenham acordo com a ADSE, incluindo todos os hospitais e centros de saúde públicos. Esta é uma das três soluções que me parecem passíveis de serem usadas.

Segundo aspecto, as empresas públicas subsidiadas pelo Estado. Na medida em que esses seguros privados constituem uma cobertura adicional de seguro face ao Serviço Nacional de Saúde que é paga por transferências públicas, tenho exactamente a mesma posição. Tal como no caso da ADSE, não deveria ser facultada essa dupla cobertura se paga, em última instância, por receitas gerais do Estado.

Creia-me que compreendo as ansiedades e expectativas geradas quanto ao papel da ADSE. Acredito porém que as soluções a encontrar devem respeitar princípios de boa organização do Estado.

 

Resposta:

Obrigado pela sua resposta.

Compreendo perfeitamente a situação, mas agradeço-lhe que quando falar ou escrever sobre este assunto, não se esqueça dos seguros privados das empresas públicas, tema que nunca vi ser abordado. É funcionário público como eu fui, e estou cansada de tanto denegrirem a imagem do funcionalismo público (calões, absorvedores do dinheiro dos contribuintes, etc, etc.)  e quanto às empresas públicas parecem que tudo funciona na perfeição. Mas isto seria outro tema … do qual muito haveria a dizer.

 


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Conferência “um estado para a sociedade” (4)

A conferência dedicou um espaço de discussão à educação. As conclusões apresentadas levam-me a algumas perguntas. A primeira é desde logo qual é o objectivo da escola? corrigir desigualdades de oportunidades que existam fora dela? garantir a todos igualdade de oportunidades de aprendizagem? garantir igualdade de competências à saída da escola, ou apenas garantir que todos poderão ter essa igualdade se realizarem idêntico esforço de aprendizagem? e neste último caso, como acomodar a heterogeneidade natural de capacidades dos alunos? como avaliar que o objectivo da escola se encontra atingido?

Depois de estabelecido o objectivo, cumpre procurar qual o melhor instrumento para o alcançar, dentro das restrições de recursos existentes.

Para o instrumento, há claramente uma opção por “fomento da concorrência entre escolas”. É uma visão demasiado centrada na escola, prefiro “fomento da escolha informada dos encarregados de educação entre escolas”, a mudança de nome de concorrência para escolha informada foca no que me parece dever ser o eixo da mudança – o cidadão e a sua escolha, não a escola a determinar o que o cidadão deve escolher.

Como forma de garantir essa escolha (concorrência nos termos do texto das conclusões), é referida a “definição de um novo modelo de financiamento da educação com base numa fórmula simples e transparente”.

Sobre a utilização da fórmula, três observações:

1) a fórmula deve ser cumprida se o estado quiser ter a confiança das escolas e da sociedade (nota: já existiu uma fórmula de financiamento do ensino superior que nunca foi cumprida pelo estado, pelo que a dúvida se cumpriria em geral com todas as escolas é perfeitamente legitima; aqui, se tivesse a responsabilidade de dirigir uma escola, gostaria de ter um contrato legalmente tão forte como o das PPP, não apenas portarias ou despachos ou decretos-lei do governo).

2) como evitar que os elementos da fórmula sejam “manipulados” pelas escolas, o “gaming” contra a fórmula deve ser assumido como uma reacção natural das escolas; por exemplo, os aspectos que não constassem na fórmula seriam facilmente negligenciados a favor dos que contribuam para um maior pagamento pela fórmula.

3) como lidar com uma escola que por estar situada numa zona de maiores rendimentos das famílias consegue mais fundos e com isso oferece oportunidades de desenvolvimento diferentes aos alunos, seja dentro do sistema público ou na rede privada de escolas?

4) como lidar com cada escola ter a capacidade de explorar as suas especificidades locais e vantagens comparativas (por exemplo, proximidade da Assembleia da República para escolas em Lisboa, proximidade da agricultura para escolas no interior do país).


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Conferência “um estado para a sociedade” (3)

A “recuperação da confiança” no estado é outra conclusão genérica da conferência, sendo difícil discordar dela. O importante é saber como é que o estado pode (re)construir essa confiança, sobretudo depois de decisões sucessivas que justificam essa desconfiança e que não se encontram ligadas a este ou aquele governo. A principal forma de reganhar confiança é o estado cumprir as suas decisões, responsabilizando quem as tomou quando se revelarem um erro técnico evitável com o melhor conhecimento disponível no momento da decisão, e divulgar toda a informação que tenha sobre o contexto e justificação de decisão, sobretudo quando estiverem em causa montantes de despesa pública significativos. Existem mecanismos que procuram ajudar nessa produção de decisão, nomeadamente quando se está a falar de produção jurídica. A sugestão é que sejam levados a sério.

O medo do confronto político ou mediático nas decisões que se tomam não se pode sobrepor à necessidade de ganhar a confiança da sociedade em que essas decisões são tomadas no melhor interesse geral. E simples afirmar que cada decisão é tomada no melhor interesse da sociedade não é informativo – mesmo que não o seja, será sempre dominante dizer-se que a decisão cumpre o objectivo do interesse social.

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… o desafio foi não ter equações, modelos estatísticos ou gráficos… tem um par de números, ainda assim…
Mrec_SNS


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Conferência “um estado para a sociedade” (2)

Uma outra conclusão genérica da conferência foi o princípio de ter uma “separação clara dos modelos de financiamento” de modo a que os impostos cubram as funções de soberania e as taxas o “financiamento de atividades de natureza diversa” e dirigidas a clientes.

Essencialmente, pretende-se que as taxas cubram o custo de serviços prestados. Apesar do princípio geral, é bom ser um pouco mais sofisticado na análise e compreender que taxas significam pagamento no momento de utilização, sendo que então é necessário saber em que condições faz sentido ter pagamento no momento de utilização e em que condições a prestação do serviço corresponde na verdade ao exercício de um seguro. No caso de presença de incerteza relevante, a “taxa” neste sentido que lhe está a ser dado deve ser paga no momento em que o “serviço” é prestado, ou seja, quando se constitui o seguro, e que será diferente do momento de utilização.

A analogia com o seguro automóvel é fácil – o serviço que é prestado não é apenas a reparação automóvel em caso de acidente, é a protecção contra o custo incerto que essa reparação poderá vir a ter caso ocorra um acidente. Quando se paga um prémio de seguro e não se usa, não significa que o serviço de protecção não tenha sido prestado. E sendo um serviço de protecção não deve ser pago apenas quando há acidente.

Nos serviços prestados pelo estado em que haja esse tipo de incerteza, então o pagamento deverá ser feito como um seguro e não no momento de utilização do que é suposto estar debaixo da protecção de seguro. Assim, o princípio enunciado de taxas versus impostos tem que ser tratado de uma forma um pouco mais cuidada, sob pena de impedir toda a criação de valor social que lhe pode estar associado.