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virus, frio e mortalidade

5 comentários

(post gémeo com o blog estado vigil)

nas últimas semanas ganhou grande destaque uma anormal mortalidade, que foi desde logo associada por alguns comentadores à subida das taxas moderadoras, que teriam sido barreira decisiva para o acesso a cuidados de saúde; acrescentam nalguns casos que o recurso às urgências hospitalares se reduziu, confirmando os efeitos apontados às taxas moderadoras.

Tenho alguma dificuldade em seguir esses argumentos se não lhes for dada alguma substância estatística. Não consegui encontrar informação sobre quem deixou de ir às urgências, mas quando se fala que há um excesso de recurso à urgência hospitalar, uma sua redução pode ser um bom sinal, ou um mau sinal, consoante os motivos. Antes de se tomarem visões definitivas, talvez fosse útil ter mais conhecimento.

Mais interessante é a discussão da mortalidade, porque há informação aqui, dada pelo INSA, e a qual parece passar despercebida a quem comenta de rajada.

Especialmente útil é a página 8 do Boletim de Vigilância Epidemiológica, que reproduzo abaixo: mostra que em 2012 tal como em 2009, o A(H3) provoca picos de mortalidade anormal, acima do intervalo de confiança da linha base. O pico em 2012 parece ter sido mais acentuado, mas também caiu mais rapidamente. Em acumulado mensal sobre dois meses, não é claro que seja muito diferente, uma vez que em 2009 caiu menos rapidamente. Por outro lado, o aumento das taxas moderadoras foi um efeito permanente desde o início do ano, e por si só não provocaria um pico de mortalidade – a existir uma relação de causalidade entre taxas moderadoras e aumento da mortalidade esse deveria ser um efeito mais permanente e não restrito a umas semanas.

Em 2007 o surto do A(H3) foi menor e também gerou um desvio extraordinário menor do que em 2009 e em 2012.

Não vejo por isso que seja óbvia ou directa a ligação entre as taxas moderadoras e o pico de mortalidade observado.

De qualquer modo, como a mortalidade parece estar a descer do seu pico, quando voltar ao ponto de normalidade, espero que os mesmos comentadores enderecem os parabéns ao Ministério da Saúde por ter conseguido actuar de forma a ultrapassar os problemas criados pelas taxas moderadoras. Só assim serão coerentes com as afirmações feitas de que o pico de mortalidade se deveu às taxas moderadoras. Em alternativa, poderão reconhecer que fizeram afirmações apressadas.

Por fim, é de reconhecer o trabalho de informação que é prestado pelo INSA, e que deverá ser lido mais vezes.

Desconhecida's avatar

Autor: Pedro Pita Barros, professor na Nova SBE

Professor de Economia da Universidade Nova de Lisboa.

5 thoughts on “virus, frio e mortalidade

  1. Ana Paula Martins's avatar

    Pedro não posso estar mais de acordo contigo. A abordagem que fazes parece-me totalmente correcta. Só acrescentaria um outro aspecto à análise que me parece pertinente. Em cada período analizado as necessidades em saúde são uma variável para a qual é preciso fazer algum ajustamento. Clarificando: a comparação que fazes no periodo para o qual as taxas moderadoras já tinham sido alteradas deve ter também o ajustamento relativo aos eventos agudos ( a gripe é apenas um deles). Porque é nestas alturas de maior necessidade em saúde que seria anormal as pessoas acorrerem à urgência. E a questão é: há menor frequência na utilização da urgência comparativamente a períodos semelhantes homólogos?

    Gosto muito da tua abordagem porque temos de exigir que se façam criticas com base na evidência. Em matérias tão sensíveis convêm não sermos apressados de facto. Até porque esta questão das taxas moderadoras é de uma enorme sensibilidade politica.

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  2. Pedro Pita Barros, professor na Nova SBE's avatar

    Paula, obrigado pelo teu comentário – será interessante cruzar esta informação com as urgências hospitalares e com o recurso aos cuidados de saúde primários – pode ter havido desvio de um lado para outro, e também gostaria de juntar a temperatura média nas duas / três semanas anteriores a cada ponto de observação, bem como a despesa em electricidade (como proxy para dificuldades económicas gerais), se possível numa base regional. Mas ser perfeito aqui deve ser perto de impossível 😀

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  3. Jorge Bravo's avatar

    Mas não tenho duvida que vai tentar! 😉
    Estes seus posts do nosso sistema de saude são excepcionais!

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  4. Pedro Pita Barros, professor na Nova SBE's avatar

    Jorge, Obrigado pelo reforço positivo 🙂 !

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  5. Pedro Pita Barros, professor na Nova SBE's avatar

    Comentário recebido por email, que agradeço:

    Concordo com o que dizes sobre mortalidade, ainda para aí muita demagogia e wishful thinking à mistura. Até porque agora, com a mortalidade a chegar à normalidade, não existem problemas de acesso (afinal taxas moderadoras são excelentes) e acabou a crise.

    Somente uma nota suplementar, o trabalho do INSA, embora interessante e importante, devia ter a mortalidade esperada ajustada pelo risco e evitava-se ou pelo menos tentava-se prevenir os devaneios ideológicos.

    Comentário ao comentário:

    Ter a mortalidade esperada ajustada pelo risco seria melhor, e ajudava a melhor discussão. O problema deve estar em prever qual o virus que em cada ano será o “de serviço”. Mas ainda assim só os gráficos são já esclarecedores.

    Sobre as taxas moderadoras, o efeito valor (aumento para o dobro) tem que ser comparado com o efeito isenção (aumento para cerca de 70% da população isenta). Sem medir, não se pode ter uma posição final sobre se gerou problemas de acesso importantes ou não.

    Misturar as duas coisas – picos de mortalidade e taxas moderadoras – é que parece pouco razoável.

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