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Medicamentos: proteção a idosos com CSI vs despesa evitável no SNS

Uma das primeiras medidas, no campo das políticas sociais da saúde, do primeiro governo de Luis Montenegro foi a comparticipação a 100% de medicamentos prescritos a beneficiários do complemento solidário para idosos (CSI).

Para início de junho de 2024, procedeu-se à substituição da frase “a) Participação financeira em 50% da parcela do preço dos medicamentos não comparticipada pelo Estado” (original no Decreto-Lei nº 252/2007, de 5 de Julho) por “a) Participação financeira em 100 % da parcela do preço dos medicamentos não comparticipada pelo Estado;” (original noDecreto-Lei nº 37/2024, de 28 de maio).

Num artigo recente, Fernanda Câncio, no Diário de Notícias, procura perceber melhor o que está aqui envolvido em termos de despesa, e uma reportagem da TVI (e CNN Portugal) leva a discussão mais longe. Como resultado (aparentemente), a regra de comparticipação virá a ser alterada. A notícia da TVI refere “O Governo prepara-se para corrigir uma gafe que pode ter custado milhões de euros aos contribuintes. Em causa está o facto de não ter ficado escrito no decreto-lei que o pagamento dos medicamentos pelo SNS no âmbito do complemento solidário para os idosos estava sujeito ao preço de referência. Sem esta expressão-chave, a maioria dos idosos passou a escolher os medicamentos de marca em detrimento dos genéricos mais baratos”, e na CNN Portugal, “O governo vai alterar a legislação que alargou de 50% para 100% a comparticipação dos medicamentos aos beneficiários do complemento solidário para idosos (…) o Exclusivo da TVI recebeu relatos de farmacêuticos surpreendidos com a dificuldade que têm para convencer muitos idosos a levar medicamentos mais baratos com a mesma substância activa – nomeadamente genéricos. (…) O Infarmed confirma que está a estudar a possibilidade de aplicar um preço de referência, mas fonte do Ministério da Saúde adianta ao Exclusivo da TVI que a regra do preço de referência vai mesmo avançar para poupar dinheiro aos contribuintes, com garantia de que os idosos serão, igualmente, protegidos.”

É útil, neste contexto, perceber os fundamentos e as implicações económicas das opções disponíveis, incluindo a opção de nada alterar. Ou seja, porque é que a denominada “gafe” afinal poderá não o ser, mesmo que pareça ser um “erro” numa primeira leitura da situação. E de caminho ajudar a que as decisões de comparticipação tenham uma maior fundamentação técnica e baseada em princípios e valores que sejam explicitados. 

Tomando o ponto de partida como sendo o momento anterior à decisão de 2024 de comparticipação a 100%, os beneficiários do CSI tinham uma redução de 50% no que pagavam em medicamentos.

Devido à existência de um modelo de comparticipação baseado em preços de referência, o pagamento que é pedido ao cidadão depende do preço do medicamento e do preço de referência de um modo específico. Se p for o preço do medicamento e pr for o preço de referência, o cidadão paga (p-pr)(1 – c) pr, em que c é a proporção do preço de referência pago pelo SNS.

Quando se dá um beneficio (percentual) b de proteção extra, o cidadão paga (1-b) (p-pr + (1-cpr) em que b = 0,5 = 50% antes de 2024 e b = 1= 100% depois de 2024, em que resulta um pagamento nulo por parte do beneficiário do CSI.

O que parece ser a nova intenção é fazer (procurando adivinhar) o pagamento do beneficiário do CSI:

(1-b0) (p-pr) + (1- b1) (1-cpr

com b1 = 1 (cobertura total, a 100% da parte associada com o preço de referência), e b0 = 0,5, ou seja, repor o pagamento de quem beneficia do CSI nos 50% na parte do preço acima do preço de referência.

A tabela seguinte dá um exemplo, construido usando um medicamento e os valores respetivos disponibilizados no site do Infarmed, e apenas para efeito de ilustração.

Produto: Sinvastatina, Comprimido revestido por película, 20 mg, Blister – 60 unidade(s).
Preço do medicamento Zocor (p): €13,65
Preço do medicamento mais barato (Sinvastatina Teva): €4,43
Preço de referência (pr): €4,66
Preço máximo: (data de início 01/01/2025)€13,65
Comparticipação do SNS (1-c):37%
Parte do preço pelo SNS em valor absoluto = 37% x €4,66 = €1,72
Pagamento do utente se comprar Zocor: (€13,65-€4,43) + (1-0,37)*€4,43 = €11,93
Pagamento do utente se comprar ao preço de referência: €4,66 – €1,72 = €2,94
Pagamento de um beneficiário do CSI comprar Zocor 
 no sistema atual: €0,00
 no sistema anterior: 50%x€11,93=€5,97
 num sistema com 100% de cobertura no preço de referência e 0% na diferença entre preço do medicamento e preço de referência: €8,66
 num sistema com 100% de cobertura no preço de referência e 50% na diferença entre do medicamento e preço de referência: €4,33
Fonte: informação recolhida no site infomed, a 22 de fevereiro de 2026.

Para discutir se esta mudança é desejável, ou não, há que atender aos objetivos que se tenham (todos os objetivos, e não apenas aqueles que em cada momento ganham saliência mediática), bem como identificar todos os efeitos que estejam associados com estas mudanças e que afetem os objetivos relevantes.

A forma de comparticipação funciona como um duplo instrumento. Por um lado, é um instrumento de redistribuição, pois divide a despesa entre doentes e o Serviço Nacional de Saúde. Por um outro lado, é um instrumento de influência sobre a procura e a concorrência no mercado. Tem o papel de conduzir indiretamente as decisões de doentes (escolha entre o medicamento com o preço p e o medicamento com o preço pr, ou até não comprar por falta de capacidade financeira), de farmácias (que medicamentos têm imediatamente disponíveis em stock, e que respostas dão a perguntas dos doentes que os auxiliem nas suas escolhas – e aqui há a assinalar, na peça da TVI, o esforço dos farmacêuticos em promover o uso de genéricos) e de companhias farmacêuticas (que preços estabelecem, desde que dentro dos limites de preços máximos aprovados).

Do ponto de vista da política pública, o que estará aqui em causa será dar proteção financeira aos cidadãos beneficiários do CSI, ao menor custo possivel para o SNS de dar essa proteção e desde que não force resultados negativos na dispensa de medicamentos às farmácias e às empresas farmacêuticas (ou seja, sem lhes impor reduções de preços nestas vendas especificas).

O pagamento feito pelos doentes tem duas partes. Uma delas, a proporção do preço de referência que cabe ao utente, é inevitável. A outra, a diferença entre o preço do medicamento escolhido e o preço de referência, é evitável se o doente escolher um medicamento genérico com o preço de referência. A mudança de regras em maio de 2024, aplicada a partir de junho de 2024, dá proteção total ao doente, qualquer que seja a sua escolha. 

Mas ao dar essa proteção total, cria três efeitos de aumento da despesa total com medicamentos por parte destes abertos. 

Primeiro, ao isolar totalmente o doente do pagamento, faz com que deixem de existir situações em não adquiriam medicamentos prescritos. A maior proteção aumenta a despesa por esta via, e ainda bem (se os medicamentos foram prescritos e não eram adquiridos haveria necessidades não satisfeitas). Mas também leva a que o doente deixe de ter a preocupação de para o mesmo efeito adquirir o medicamento de preço mais baixo (o medicamento genérico com o preço de referência), o que é uma decisão legítima. Pode ainda levar a que o doente tenha menos cuidado com a gestão dos medicamentos e mais frequentemente peça nova medicação por perda da anterior (plausível no caso de medicação crónica), que procure mais medicação ou até que procure adquirir medicação que depois cede a outros doentes que não beneficiam de acesso gratuito (no que será um uso abusivo). Desconheço se há alguma quantificação destes efeitos, embora seja possivel realizar uma estimativa com base nas faturas das dispensas associadas com as prescrições (a informação está algures num servidor e numa base de dados do SNS).

O segundo efeito está associado com as farmácias eventualmente favorecerem, ainda que indiretamente, a escolha do doente pelo medicamento de maior preço. Não tendo as farmácias os genéricos de preço mais baixo em stock imediato, mesmo que garantam a sua disponibilidade em 24h ou menos, o doente não tendo custo adicional para si de escolher o medicamento de preço mais elevado irá optar, em geral e de forma natural, por evitar mais uma deslocação. Leva então o medicamento mais caro. Também pode suceder que o doente tenha uma preferências intrínseca pelo medicamento de maior preço, reforçada, eventualmente, pela sua experiência de uso.

Em terceiro lugar, havendo insensibilidade das decisões destes doentes ao preço dos medicamentos, as companhias farmacêuticas poderão ser tentadas a subir preços, se estes estiverem abaixo dos preços máximos regulamentados e se esta procura for uma parte suficientemente importante da sua procura global. Também esta evolução de preços é fácil de analisar com a informação disponivel nos sistemas informáticos do SNS. No caso do quadro acima, o medicamento original tem já o preço igual ao valor máximos, e alguns dos restantes genéricos têm preços mais baixos, mas não muito mais baixos, face a esse preço máximo (informação consultada no site do Infarmed, 22 de fevereiro de 2026).

Assim, dado o efeito cumulativo destes vários elementos, era expectável que a despesa total por beneficiário do CSI em medicamentos aumentasse, e se apenas aumentasse por efeito de maior acesso a medicação prescrita mas não adquirida seria um “bom” aumento da despesa, a adicionar ao efeito positivo de maior proteção financeira na despesa que já era realizada.

A preocupação que surge agora associada às noticias mais recentes é poder-se alcançar os mesmos resultados de proteção financeira com menor gasto para o SNS. No modelo de comparticipação descrito anteriormente corresponde a fazer b0 = 0,5 mantendo b1 = 1. Se os doentes passarem todos a escolher o medicamento com o preço de referência, consegue-se alcançar esse objetivo sem sacrificar o objetivo de proteção financeira dos beneficiários de CSI (estes últimos nada pagarão se escolherem adquirir o genérico de preço mais baixo, ou vendido ao preço de referência).

Contudo, se houver beneficiários do CSI que continuem a escolher o medicamento de preço mais elevado (por preferência intrinseca, por decorrência de hábito de uso, ou por outro motivo), então passarão a ter de novo uma despesa com medicamentos (ainda que evitável se fizessem outra escolha).

E é aqui, face a esta possibilidade, que surge o dilema de escolha social. Se for considerado como princípio primeiro e valor central a proteção contra a despesa financeira, então os 100% de proteção como existe atualmente é a forma de a garantir de forma inequívoca.

Se, por outro lado, for tido como princípio e valor central que a despesa adicional tida por escolha, para efeito clínico igual, deve ser responsabilidade individual de quem faz essa escolha, então deve-se fazer a alteração. É aqui importante recordar que as verbas usadas na proteção adicional a 100%, e que serão parcialmente poupadas com uma alteração da regra de comparticipação para os beneficiários do CSI, poderão ter outro destino dentro do SNS, ou dentro da despesa pública como um todo.

Não há apenas uma questão aritmética de despesa. Há também uma valorização implícita sobre a despesa evitável por escolha dos doentes, quando optam por medicamentos com preços acima do preço de referência. Se essa escolha dos beneficiários do CSI for ditada por motivos válidos e valorizados socialmente e se o custo da despesa (adicional) recair sobre os beneficiários de CSI for socialmente mais valorizada do que o aumento da despesa do SNS (mesmo que seja despesa “ineficiente”, desnecessária), então a opção de maio de 2024 permanece correcta.

Se for considerado que o excesso de despesa, evitável, gerado por decisões feitas de forma livre pelos beneficiários do CSI, não deve ser pago pelo resto da população (ou por quem não beneficia do que seria o uso alternativo dessa despesa noutro ponto do Serviço Nacional de Saúde), então a mudança deve ser concretizada e ser reintroduzido o pagamento do beneficiário do CSI de 50% da diferença entre o preço do medicamento e o preço de referência (admitindo que o argumento de proteção financeira que estava presente implicitamente antes da mudança em 2024 se mantém).

Há ainda uma outra possibilidade, que é os doentes passarem a pagar na integra o valor da diferença entre o preço do medicamento e o preço de referência (isto é, b= 0, com b= 1  no modelo de comparticipação simples descrito acima). 

Contudo, esta mudança poderia gerar situações em que a proteção financeira acabaria por ficar abaixo da proteção que era dada antes da alteração ocorrida em 2024, o que não parece ser um objetivo (ver quadro acima).

Há, então, um conjunto de perguntas que devemos colocar (e obter as respostas) como preparação de uma alteração neste regime:

  1. qual a importância relativa da proteção financeira dada aos beneficiários do CSI face ao aumento da despesa pública do SNS? essa importância relativa é condicional às escolhas voluntárias de despesa evitável por parte dos beneficiários do CSI?
  2. Qual a magnitude, no aumento de despesa que esteve associada com maior acesso a uso necessário que não tinha lugar e como compara com o aumento de despesa desnecessária que esteve presente?
  3. no aumento de despesa desnecessária, qual o papel relativo da escolha dos doentes face a outros fatores?

Com as respostas a estas questões será mais fácil decidir qual o melhor modelo de comparticipação para os beneficiários do CSI do ponto de vista dos valores da sociedade portuguesa, que tem de encontrar um equilíbrio entre proteção financeira (adicional) dos beneficiários do CSI e despesa adicional desnecessária para o SNS. Intuitivamente, rever a decisão de 2024 parece evidente, embora seja bom conhecer, antecipar e valorizar (do ponto de vista de política social) todos os efeitos presentes antes de introduzir alterações.

(imagem criada com recurso a inteligência artificial)


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Ozempic, comparticipação, diabetes e obesidade

Recentemente, no início de fevereiro de 2026, o Infarmed tornou pública uma decisão: “O medicamento Ozempic (semaglutido) obteve autorização de comparticipação na indicação: tratamento de adultos com diabetes mellitus tipo 2, insuficientemente controlada, com IMC igual ou superior a 30kg/m2 ou risco elevado de doença cardiovascular, como adjuvante à dieta e exercício, em adição a outros medicamentos para o tratamento da diabetes, para ser utilizada em 2ª e 3ª linhas terapêuticas”.

Alarga-se deste modo o uso comparticipado do medicamento, baixando o limiar de massa corporal para o efeito, e passando a contemplar o risco de doença cardiovascular. Além disso, o uso deste medicamento deve ser complementar a dieta e exercício, o que depende de comportamentos individuais dos doentes e do seu acompanhamento por profissionais de saúde.

Umas semanas antes, o Infarmed tinha concluído um trabalho prévio de quantificação sobre o uso deste medicamento para o tratamento da obesidade, “Análise de impacto da comparticipação de medicamentos para a obesidade” (Infarmed, dezembro de 2025), que na versão mais favorável colocava a despesa em cerca de 1190 milhões de euros no primeiro ano (comparticipação a 37%, apenas metade da população previsivelmente abrangida incluída) e na versão menos favorável 5400 milhões de euros no primeiro ano (comparticipação a 90%, introdução total no primeiro) (fonte: Infarmed, 2025, Tabela 8).

Este novo tipo de medicamentos revelou-se bastante eficaz na gestão da diabetes e também como forma de controlar peso (e na gestão das situações de obesidade). O Ozempic é o nome mais conhecido. 

Uma das questões, em termos de sistema de saúde, que se coloca é se parte do benefício destes medicamentos está em reduzir outras despesas, abrindo espaço orçamental para uma sua utilização alargada, isto é, se o impacto previsto no trabalho do Infarmed pode ser mitigado com redução de outras despesas. 

Esta é uma discussão que não está no âmbito dos ensaios clínicos que levam à aprovação dos medicamentos mas que do ponto de vista de gestão do sistema de saúde é relevante para as entidades que têm de pagar a sua utilização (seja o Serviço Nacional de Saúde – SNS –, sejam companhias de seguros que os incluam na sua cobertura). 

Num trabalho recente, Wing, Cai, Sacks e Simon, 2026 (janeiro9, Do GLP-1 medications pay for themselves, NBER working paper 34678, olham para o argumento de uma maior despesa nesta classe de medicamentos vir a ser compensar por uma menor despesa noutras áreas da saúde. Esta previsão de menores custos foi sugerida em alguns trabalhos, como consequência de menor risco de problemas vasculares previsto nos ensaios clínicos associados com estes medicamentos. A principal conclusão, usando dados de mais de meio milhão de doentes dos Estados Unidos, seguidos ao longo de vários anos, no período 2016-2023, é a ausência de evidência de redução de outras despesas em cuidados de saúde (pelo menos nos primeiros cinco anos de utilização). 

Ainda assim, é relevante perceber que esta ausência de efeito sobre a outra despesa em cuidados de saúde decorre da soma de dois efeitos de sinal contrário. Por um lado, a utilização destes medicamentos reduz a despesa com outros medicamentos prescritos a doentes com diabetes. Por outro lado, há despesas que aumentam, nomeadamente as associadas com a monitorização e controlo de efeitos secundários. Também neste contexto é importante reconhecer a necessidade de toma continuada destes medicamentos, dado que os efeitos parecem reverter-se quando se pára de tomar a medicação. De acordo com a análise destes autores, o principal fator associado com o aumento da despesa nos doentes medicados com os novos produtos surgiu do maior número de consultas que tiveram lugar para acompanhar o seu uso.

Ou seja, a utilização destes medicamentos altera o padrão de uso de recursos e serviços de saúde embora não de uma forma que se traduza em menor despesa.

A transposição destes resultados para Portugal é imediata, pois os preços dos medicamentos e os custos dos outros serviços de saúde considerados não é o mesmo dos Estados Unidos, e essas diferenças podem levar a resultados distintos.

Se esta é a situação dos dados no diz respeito ao tratamento da diabetes, passando para o tratamento da obesidade de uma forma ampla na sociedade, é de pressupor que o mesmo tipo de efeitos possa estar presente, e provavelmente no sentido de aumento de outras despesas. A redução de despesa em medicamentos tomados para a obesidade será muito pequena se estes medicamentos forem disponibilizados à “população com obesidade (28,7% da população 25-74 anos)” (Infarmed, 2025). E a necessidade de acompanhamento irá fazer crescer o número de consultas, o que aumentará custos (ou por necessidade de pagar aos profissionais de saúde, ou por se deixarem de fazer outras consultas, ou por não se fazer o acompanhamento da toma destes medicamentos). Os valores apresentados pelo Infarmed são provavelmente um limiar inferior aos verdadeiros custos de uma generalização do uso destes medicamentos.

A pressão para comparticipar o uso destes medicamentos para o tratamento da obesidade será crescente, até porque a Organização Mundial de Saúde emitiu no início de dezembro de 2025 uma orientação (guideline)sobre este assunto. Dessa orientação, resulta a preocupação com a obesidade enquanto problema de saúde, sendo os medicamentos um dos vários “instrumentos” de atuação possíveis. A base de evidência para recomendações mais fortes ainda está em construção. 

Não resulta desta orientação a comparticipação imediata e generalizada destes medicamentos. 

A posição prudente que se está a adotar em Portugal é por isso justificada, sendo que deverá construir-se uma base de conhecimento a partir dos doentes a quem sejam prescritos estes medicamentos para controlo da obesidade, registando os seus progressos. 

Nos doentes com diabetes, a quem são prescritos estes medicamentos, também é relevante conhecer além dos efeitos sobre a sua saúde, saber o que sucede em termos de utilização de cuidados de saúde, de modo mais geral. 

O debate sobre o alargamento do uso de medicamentos como o Ozempic vai muito além da eficácia clínica que tenham. Coloca uma questão central sobre o equilíbrio entre benefícios individuais e custos para o sistema de saúde (Serviço Nacional de Saúde, enquanto principal entidade de proteção contra as consequências financeiras da necessidade de apoio de cuidados de saúde). 

Os dados mais recentes mostram que estes tratamentos mudam a forma como os doentes usam os serviços de saúde, mas não garantem poupanças noutras áreas. Perante a possibilidade de a despesa crescer de forma significativa, a estratégia prudente seguida em Portugal, a envolver a recolha de dados e avaliação de impactos, parece ser o caminho mais sensato. Só a partir desse acompanhamento contínuo, e não aos solavancos da atenção da opinião pública, será possível decidir como estes medicamentos podem ser integrados da melhor forma na resolução do problema crescente da obesidade e da gestão da diabetes.

As recomendações da Organização Mundial de Saúde, tal como estão escritas, são 

“Good practice statement

Obesity is a chronic complex disease that requires lifelong care beginning with clinical assessment and early diagnosis. Once diagnosed, individuals should have access to comprehensive chronic care programmes offering sustained behavioural and lifestyle interventions. When appropriate, pharmacological, surgical or other therapeutic options may be used to support effective disease management. In parallel, care should address the prevention and treatment of obesity-related complications

and comorbidities.

(…)

Conditional recommendation for, Moderate certainty evidence: In adults living with obesity, GLP-1 receptor agonists or GIP/GLP-1 dual agonists may be used as long-term treatment for obesity. 

(…)

Good practice statement

People living with obesity should receive context-appropriate counselling on behavioural and lifestyle changes – including, but not limited to, physical activity and healthy dietary practices – as an initial step toward more structured behavioural interventions. For individuals who are prescribed GLP-1 receptor agonists or GIP/GLP-1 dual agonists, counselling on behavioural and lifestyle changes should be provided as a first step to intensive behavioural therapy to amplify and support optimal health outcomes.

(…)

Conditional recommendation for, Low certainty evidence

In adults living with obesity who are prescribed GLP-1 receptor agonists or GIP/GLP-1 dual agonists, intensive behavioural therapy may be provided as a co-intervention within a comprehensive multimodal clinical algorithm.”

(nota: imagem construida com uso de ferramenta de inteligência artificial)
(nota: imagem construida com uso de ferramenta de inteligência artificial)