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Relatório de Primavera 2012 (19)

3 comentários

E chego ao capitulo final, 5 Considerações Finais. À partida, tinha alguma expectativa sobre o tom e como seria integrada toda a informação, de diferente natureza, utilizada no relatório.

Infelizmente, não é feita uma organização das conclusões que tenha em conta o grau de confiança da informação utilizada e as incertezas que daí decorrem. Algumas das considerações parecem claramente destinadas a ressoar na comunicação social mais do que reflectir de forma tecnicamente correcta a informação reportada.

Quando se escreve “O país está em sofrimento. A crise financeira, económica e social é patente. Os reflexos sobre o sistema de saúde igualmente evidentes.” o destinário é a comunicação social. Note-se que se o país não estivesse em sofrimento, e houve prosperidade económica também existiriam reflexos evidentes sobre o sistema de saúde. Esta frase deixa a que cada leitor leia o que entender para poder concordar com uma visão negativa do que se está a passar.

Também quando se diz “O MdE inclui um conjunto de medidas específicas para a saúde. A maior parte destas medidas são úteis e necessárias. Muitas foram já identificadas há muito, mas nunca foram implementadas. No entanto, o calendário extremamente exíguo do MdE tem muitas consequências indesejáveis “, que recupera nas conclusões a afirmação já antes feita no texto, não se fica a saber quais medidas caiem dentro da “maior parte”, nem quais as que têm “muitas consequências indesejáveis”, nem qual o mapa das medidas para as consequências, e o seu prazo. Não há ao longo do relatório uma análise sistemática que permita retirar esta conclusão, mesmo que ela corresponda a uma percepção geralmente partilhada (eu próprio já usei essa expressão da “maior parte das medidas já tinham concordância” ou similar, mas não fiz a divisão entre o que cai aí dentro e o que cai fora, mea culpa, mas também não escrevi um relatório de primavera).

As considerações finais centram-se de forma acentuada nos aspectos de troika, aliás de uma forma desproporcionada face ao que foi a discussão no corpo do relatório.

Apesar disso, consegue retomar o que julgo ser a principal falha apontada – a necessidade de pensamento estratégico, e não confundir objectivos com restrições, guiar o sistema de saúde pelos resultados assistenciais dados os condicionalismos financeiros e não guiar o sistema de saúde em função dos resultados financeiros.

A insistência nas taxas moderadoras mantém o tema numa saliência de agenda que não corresponde ao seu peso efectivo nos cuidados de saúde prestados, embora aqui só com uma definição de informação de monitorização adequada e sua publicação regular se poderá aferir dos argumentos apresentados, e deixar de fazer deste aspecto um ponto de discussão desproporcionado face ao seu impacto na saúde da população.

E chegando ao final, sente-se a falta de alguns temas: cuidados de saúde continuados é provavelmente a maior falha, mas também as PPP, a mobilidade internacional de doentes e o que possa implicar, seguros de saúde, sector privado e as alterações fiscais ocorridas em sede de IRS (num sentido de exaustividade). Pelo seu lado, o relatório de primavera de 2011 prometia uma perspectiva prospectiva que aparentemente não foi possível continuar neste relatório.

Em termos de estilo, não fiquei fascinado com a ideia da TVI e da imprensa serem fontes de informação e âncoras para a análise, seria de esperar o contrário, que fosse a capacidade de ir procurar de forma mais profunda informação que permitisse fazer a notícia.

Também considero cansativo a repetição dos mesmos quadros e números em vários pontos do texto, a maior parte das pessoas não vai ler apenas este ou aquele capítulo. A revisão de texto final falhou na detecção de inúmeras gralhas ao longo do texto, aconselhando mais cuidado em edições futuras.

Ainda assim, o texto é de fácil leitura, e constitui a manutenção de um esforço importante de contribuição cívica na área da saúde.

Desconhecida's avatar

Autor: Pedro Pita Barros, professor na Nova SBE

Professor de Economia da Universidade Nova de Lisboa.

3 thoughts on “Relatório de Primavera 2012 (19)

  1. Francisco Velez Roxo's avatar

    Pedro:excelente post.Subscrevo com tinta roxa.
    E acrescento apenas um pequeno comentário porque já quase nao vejo televisão: mediatismos a parte este foi dos Relatórios Primaveris que menos me seduziu, atendendo ao peso que este Documento tem tido ao longo dos anos na analise da evolucao da Saude em Portugal e num contexto internacional pressionante.Fiquei com impressão de Relatorio Outonal e mais próximo das vindimas políticas do que da Praia de Investigadores que o teem produzido e debatido.:))
    Abraço
    Francisco

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  2. Pedro Pita Barros, professor na Nova SBE's avatar

    Obrigado Francisco.
    Assim terminei a leitura comentada do Relatório do OPSS :D.
    Acabou por demorar mais e ter mais posts do que esperava.
    abraço

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  3. Francisco's avatar

    Pedro
    O teu meritório trabalho,no todo, merece um Bem Haja.Pela Objectividade, clareza,diplomacia na critica e frontalidade nas sugestões.
    Eu que agora tenho menos tempo, gostaria de fazer um pouco mais de analise e comentário em geral e especializado.
    Mas desde sexta-feira, após a Auditoria da JCI, temos pelo menos mais um Hospital Português Acreditado. O de Leiria.
    Aguardamos o email final de Chicago.Para tambem eu poder começar a escrever sobre as vantagens e limitações das Acreditações face às mudanças do SNS.
    Um Abraço e Obrigado pelo teu trabalho de leitura guiada “sem pés de Barro”. 🙂
    Francisco

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