A atenção dedicada pelo OPSS aos hospitais é demasiado escassa, e sobretudo foge ao problema central, que qualquer dos documentos referenciados para consulta não trata de forma profunda: a dívida hospitalar e os processos da sua criação.
Há, realmente, dois problemas a resolver. Um fácil conceptualmente, difícil materialmente. Outro cuja própria definição de solução não é simples.
O primeiro problema é o stock de dívida gerado. Conceptualmente, basta encontrar dinheiro, o que será materialmente difícil. Aparentemente a solução preconizada é pagar cerca de metade até ao final do ano corrente, e o resto renegociar descontos e esperar que sejam libertados fundos para o pagamento. A maior parte da dívida hospitalar encontra-se junto da indústria farmacêutica.
O segundo problema, mais complicado, é evitar que a criação de nova dívida no futuro. Para evitar essa criação de dívida futura, é necessário compreender os mecanismos que a geram. E há três observações a ter em conta na formulação da solução:
a) o deixar de pagar à indústria farmacêutica é uma solução “fácil” para a gestão hospitalar, com o argumento de que a indústria tem capacidade financeira para esperar pelo pagamento, e com a popularidade de fazer da indústria o “vilão” se não fornecer medicamentos; constitui uma óbvia “válvula de escape”, mas com elevados custos – os preços dos medicamentos já certamente incorporam a expectativa de um prazo de pagamento dilatado, mas também em termos de desresponsabilização da gestão, uma vez que a solução vem sempre ” de cima”
b) a criação de um ambiente em que quem mais gasta e menos paga a fornecedores não tem qualquer interesse em fazer diferente, com uma clara desresponsabilização da gestão
c) a falta de uma relação financeira séria dentro do serviço nacional de saúde, na definição do financiamento hospitalar e no cumprimento das regras acordadas para esse financiamento, de preferência com um base plurianual (três anos, por exemplo), para permitir verdadeiramente uma gestão da actividade; esta falta de relação financeira séria “empurra” facilmente as gestões hospitalares para as observações a) e b) anteriores.
Há que procurar resolver este problema de criação de dívida, e a falta de contribuição do OPSS para esta discussão é uma omissão penalizadora do relatório.
Uma ideia, que proponho para discussão, é fazer uma ligação entre as alterações que decorram da nova carta hospitalar em termos de encerramentos de serviços e o desempenho de gestão, incluindo nesse desempenho com grande destaque a situação da dívida – ou mais claramente, em igualdade de circunstâncias ou quase igualade, encerrar serviços nos hospitais que demonstraram menor capacidade própria de conter o crescimento da dívida a fornecedores.
26 \26\+00:00 Junho \26\+00:00 2012 às 10:52
Pedro
No intervalo para beber um café, cá está o comentário ao teu post 10 sobre o Relatório da Primavera (agora que já estamos no Verão e com tempo quente).
Concordo com a tua chamada de atenção para a “lacuna” no documento acerca dos hospitais.Em especial acerca da questão da divida.Porque é uma grande “divida” deste Relatório 🙂
Fiquei, como tu, também perplexo, na medida em que sendo o tema critico e sendo as medidas tomadas para o resolver “muito de emergência” ,há que ser mais do que só “generalista do curto prazo qualitativo”
A tua alínea c) sendo clara para mim, deixa-me no entanto com os olhos turvos porque, afinal, sendo a plurianualidade uma solução tão simples em termos de gestão de qualquer Organização (com e sem fins lucrativos) na Saúde não tem sido implementada com a justificação de que a Saúde “é um mundo à parte”.
Sabendo que é, na verdade “um pouco um mundo à parte” por razões que nem sempre são “saudáveis”, acredito que só com a contratualização mudada em 180º e a 3 anos se poderá dar o primeiro passo.
E para isso terá que a ACSS ter um papel mais interventor, ter maiores competencias técnicas e melhores SI (na sua qualidade de Banco Central da Saúde) e terem as ARS menor dimensão burocrática e mais “on the job”.Até porque a maioria vive próxima do campo e com boas vias de comunicação.
Já viste também como era simples se os sites dos Hospitais (linkados aos das ARS e organizados da mesma forma) fossem todos “sistematizados” com os mesmos campos de dados e informação sintetica e comparável sobre o passado, presente e previsões para o futuro?
Um ranking dos Hospitais tendo em conta os dados da divida e do prazo médio de pagamentos, deveria ser como o ranking dos “Países no clube da bancarrota”.Todos os dias vai mudando mas a médio prazo não engana.
Aguardemos pelo OE 2013 e pela estabilidade da ACSS e das ARS (depois de um ano de novo Governo) para ver se lá para a PRIMAVERA 2013 podemos estar mais animados.Pelo menos com a leitura de um texto OPSS diferente do deste ano (sobre a divida dos hospitais) menos leve e com uma análise temporal que permita dizer :”isto não é mais do mesmo”.
Abraço
Francisco
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