Momentos económicos… e não só

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voltando às entradas em Medicina (2)

Tinha ficado prometido voltar à segunda parte da questão levantado pelo Miguel Leite, neste caso sobre a procura induzida – rendimento alvo. Parte da resposta está já dada neste post, em resposta a um outro comentário de Paulo Varela.

Mas rendimento alvo não é exactamente a mesma coisa que procura induzida – nas teorias sobre rendimento alvo, parte-se do princípio que os médicos pretendem alcançar um determinado rendimento e gerarão os serviços necessários para atingir esse valor – a indução de procura resulta aqui de se procurar alcançar um determinado valor de rendimento e não como resultado dos benefícios e custos da indução de procura.

Uma vez mais, o grande travão ao exercício de indução de procura é o enquadramento da actividade do médico – a procura de rendimento alvo terá que ser feita sobretudo nas relações doente privado – consultório privado, o que duvido tenha capacidade de suster esses objectivos de rendimento alvo. Não só esses médicos têm que competir no mercado privado – privado com outros médicos que trabalham no sector público como os doentes têm igualmente a opção do sector público, ou convencionado, ou em contrato de seguro de saúde, que coloca um limite superior ao que possa ser a indução via número de consultas ou aumento de rendimento via aumento de preço por consulta. Acresce que os efeitos de reputação são frequentemente mediados pelo envolvimento no sector público, o que dificultaria ainda mais as opções destes médicos para alcançarem o seu rendimento alvo.


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voltando às entradas em medicina (1)

Recebi num comentário mais um desafio para continuar a discussão das entradas em medicina (obrigado Miguel Leite);

“Gostaria, se fosse possível, que harmonizasse ainda a sua argumentação com a teoria do monopólio crescente nos centros urbanos (onde, habitualmente, se concentrariam esses graduados) e mesmo com a procura induzida/rendimento-alvo também pelos “desempregados” (visto que, mesmo não estando no SNS, poderiam sempre ter um consultório privado).
E, sem querer abusar, se tem conhecimento de países onde esse aumento de graduados/médicos tenha conduzido a diminuição de preços, e fundamentalmente, a ganhos em saúde. (ouvi algo sobre a Holanda, mas não tenho a certeza). Itália é o exemplo mais repetido do inverso.”

Hoje, trato apenas da teoria do monopólio crescente – esta teoria baseia-se na lógica de transmissão de informação – de uma forma simples, quando há mais médicos numa cidade (ou zona geográfica), a informação que cada pessoa / doente tem e transmite sobre um médico é menor do que quando há menos médicos, daí que cada doente se torne menos sensível a mudar de médico para uma mesma diferença de preços das consultas (ou actos) entre médicos. Tecnicamente, a elasticidade da procura ao preço será menor, fazendo com que os preços praticados possam ser superiores. Corresponde a uma resultado em que à entrada de mais profissionais no mercado, por motivos de informação, aumentam os preços (e não uma diminuição como normalmente se considera quando há um aumento de oferta). A despesa total em consultas e cuidados de saúde pode então aumentar quando aumento o número de prestadores.

A questão colocada é saber se este mecanismo pode ser argumento para que se limite o número de entradas nas faculdades de medicina, conforme me parece ser a ideia implícita na questão colocada. (Se assim não for, agradeço a clarificação).

Como primeiro comentário, este mecanismo do monopólio crescente não é directamente aplicável aos cuidados de saúde cobertos e prestados directamente pelo Serviço Nacional de Saúde, nem aos cuidados de saúde cobertos por algum outro mecanismo de seguro, como os subsistemas ou os seguros de saúde privados. Nestes mecanismos de seguro, o doente está já em grande medida isolado do efeito preço, por um lado, e a remuneração do médico, por seu lado, está dependente da negociação que estabelecer com os “seguradores” (em sentido lato), ou seja, do salário que tiver no SNS, do pagamento que receber das seguradoras e do acordo que tiver com os subsistemas.

O papel puro de transmissão de informação como factor de redução da elasticidade procura preço e como tal de aumento de preços ficará apenas para as relações que podemos chamar de privado – privado, isto é, doentes privados que vão ao consultório privado, e que pagam por inteiro a consulta ou o tratamento em causa. Este efeito tenderá a ser relativamente menor no sistema português, e apesar de não haver nenhuma estimativa para o seu papel no sistema português de saúde, conjecturo que dificilmente terá uma magnitude que justifique uma restrição das entradas nas faculdades de medicina. Para se poder usar esse argumento, ter-se-ia que mostrar que o número adicional de médicos formados implicaria um acréscimo muito significativo da despesa com cuidados de saúde por subida de preços – note-se que o que importa é o efeito adicional de “monopólio crescente” atribuível às vagas de entrada adicionais que tenham existido no passado recente.

Depois da Páscoa, tratarei do argumento de rendimento – alvo / procura induzida.


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A nova medicina por JLA (2)

ImageComo seria de esperar, João Lobo Antunes introduz várias ideias desafiadoras do status quo. Uma delas é a reacção (?) ao uso da tecnologia pela tecnologia, “na Nova Medicina a imagem quase aboliu a narrativa da doença, em parte porque o médico tem menos tempo para ouvir (há um estudo que revela que o médico tende a interromper o discurso do doente em média dezoito segundos depois de ele começar!),” em que o doente também acredita mais na imagem do que na narrativa. 

Olhando com as lentes dos óculos de economista, a produção de imagem para diagnóstico e o tempo dedicado pelo médico a ouvir o doente são “factores produtivos” substitutos, a partir de um mínimo de cada um, para se alcançar um objectivo. A maior intensidade de utilização de um ou de outro depende da contribuição relativa de cada um, bem como do seu custo relativo. No caso da tecnologia de imagem, assistimos a evoluções que permitem melhores imagens e a tecnologia vai diminuindo de custo depois de introduzida. Em termos relativos, tornou-se muito mais barato ter diagnóstico de imagem de qualidade face ao tempo  usado pelo médico. E o custo não é apenas o custo monetário do salário médico, é o custo de oportunidade de o tempo gasto com um doente não ser gasto com outro quando há escassez de médicos. Quando há muitos doentes em espera para serem vistos, a pressão é para o médico usar menos tempo a ouvir cada um, para os poder ouvir a todos. Por vezes, o próprio enquadramento remuneratório pode levar a decisões de utilização de tempo versus tecnologia diferentes consoante esse enquadramento. Por exemplo, se a modalidade de pagamento for por consulta realizada, do ponto de vista do médico a informação implícita transmitida pelo sistema de pagamento é para aumentar o número de consultas, o que para um tempo total disponível constante do médico só é possível com redução do tempo por consulta, o que pode ser conseguido com um aumento do recurso a pedidos de utilização de tecnologia para diagnóstico (o que poderá ainda aumentar o número de consultas futuras para avaliação dos exames pedidos). Os efeitos podem ser mais complexos se adicionarmos outros elementos, mas o essencial é que esta escolha entre “narrativa” e “tecnologia” é sensível a forças económicas.

Não espanta então a evolução registada, com a diminuição da importância da narrativa da doença. Para perceber que tipo de evolução futura se vai ter, há que olhar para estes factores económicos – contribuição de cada acto adicional para o estabelecimento do diagnóstico, e o custo relativo de cada alternativa.


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“A nova medicina” por João Lobo Antunes

Interessante e de rápida leitura o novo livro de João Lobo Antunes sobre medicina, editado pela Fundação Francisco Manuel dos Santos. Há semelhança de outros livros, farei nos próximos textos uma leitura comentada.

O primeiro capítulo é de introdução, mas tem desde logo algumas entradas importantes. Desde logo nas páginas iniciais, João Lobo Antunes (JLA) refere as exigências crescentes “de uma população cada vez mais informada sobre o poder da arte médica. Não é por acaso que – muito contra meu gosto – se dá hoje preferência a termos como clientes, utentes ou consumidores, em desfavor da designação tradicional de doentes.

Duas observações me surgem – por um lado, a precisão que se pode fazer de população com mais acesso a informação, face a população mais informada – não é exactamente a mesma coisa, pois é preciso conhecimento para lidar com a informação: perceber qual é a informação relevante, e qual a implicação que se retira dessa informação. Se a população estivesse mais informada poderia ter um diálogo mais frutuoso com o médico, mas se tem apenas mais informação, o médico poderá ter que explicar porque e quando é a informação relevante ou irrelevante. Em qualquer dos casos, antes de chegar directamente ao papel de decisor, o médico passa a ter um maior papel de descodificador, de explicador da situação. Adicionalmente, há o problema de o que esta informação faz em termos de expectativas da população, e dos enviesamentos que esta tem a ler a informação. Não me espantaria que perante uma condição clínica e uma intervenção que a resolve apenas 1 vez em cada 100 casos, o “doente” a quisesse tentar na expectativa de que será esse caso em cada 100. E se não resultar a culpa será do médico. Lidar com a incerteza não é fácil. Mais do que o papel do médico, está aqui em questão o comportamento do cidadão.

A segunda observação é a utilização de outros termos para “doente”, em que parte vem de nem sempre o cidadão estar doente quando deve de contactar o sistema de saúde – por exemplo, grávidas, vacinação, rotinas – e parte de uma maior participação de outras profissões na discussão sobre o sector da saúde, que trazem esses termos para designar o mesmo “agente” (palavra tipicamente importada do léxico da economia).


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colecção de notícias

Noticia nº1: “o Executivo e a EDP, que é a companhia que tem mais clientes domésticos de eletricidade, já chegaram a um consenso num dos pontos mais relevantes de todas estas negociações: o aumento do preço da luz para os consumidores a partir de 2013. (…)” (Dinheirovivo.pt, 30.03.2012)

Notícia nº2: “Decreto-Lei nº 75/2012, de 26 de Março

(…)

Artigo 2

Extinção das tarifas reguladas

1 — As tarifas reguladas de venda de eletricidade a clientes finais com consumos em BTN são extintas:

a) A partir de 1 de julho de 2012, para os clientes com potência contratada superior ou igual a 10,35 kVA;

b) A partir de 1 de janeiro de 2013, para os clientes com potência contratada inferior a 10,35 kVA.

2 — A partir das datas previstas no número anterior, os novos contratos de venda de eletricidade a clientes finais são obrigatoriamente celebrados em regime de preços livres, sem prejuízo do estabelecido no número seguinte.

(…)

Artigo 4

Tarifas transitórias 

1 — Sem prejuízo da extinção antecipada das tarifas reguladas nos termos e nas datas previstas no artigo 2, os comercializadores de último recurso devem continuar a fornecer eletricidade a clientes finais com consumos em BTN que não exerçam o direito de mudança para um comercializador de mercado livre, de acordo com os seguintes termos:

a) Para os clientes finais com potência contratada compreendida entre 10,35 kVA, inclusive, e 41,4 kVA, inclu- sive, até 31 de dezembro de 2014;

b) Para os clientes finais com potência contratada inferior a 10,35 kVA, até 31 de dezembro de 2015;

c) Para os clientes finais economicamente vulneráveis que assim optarem, nos termos a estabelecer por diploma legal.

(…)

3 — Compete à ERSE fixar as tarifas transitórias de venda de eletricidade em BTN, as quais são determinadas pela soma das tarifas de energia, de acesso às redes e de comercialização, acrescidas de um montante resultante da aplicação de um fator de agravamento, o qual visa induzir a adesão gradual às formas de contratação oferecidas no mercado. ” (26.03.2012, ênfase adicionado)

Notícia nº3: “ERSE continuará a fixar tarifas bi-horárias e tri-horárias durante os próximos três anos ” (aqui) (ERSE, 18.01.2012)

Resumindo, Governo (decreto-lei) e ERSE dizem que as tarifas de electricidade são fixadas pela ERSE.

Resumindo, Governo e EDP têm um consenso sobre o aumento da luz. Não há referência à ERSE.

Concluindo, ou existem tarifas de luz em Portugal que não são fixadas pela ERSE, ou isto preciso que me expliquem melhor quem fixa o quê…

A ver, se a EDP fixa por consenso com o Governo tarifas num mercado liberalizado, será que a Autoridade da Concorrência pode condenar os dois por cartelização? ou fixam num mercado (ainda) regulado, e o regulador não foi chamado?


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sobre a gestão de expectativas, no dinheirovivo.pt

 

Gestão de expectativas

02/04/2012 | 03:06 | Dinheiro Vivo

De há uns anos a esta parte, a gestão de expectativas passou a integrar o discurso político dos governos e a prática dos bancos centrais. Normalmente, no campo político, reflecte-se na tentativa de ter uma visão optimista do futuro e mais recentemente pela versão “falar verdade”.

Os agentes económicos não são um grupo homogéneo, havendo diferentes interesses, motivações e processos de formação de expectativas.

Num canto, temos os investidores em capacidade produtiva, que procuram um ambiente estável, em termos fiscais, legais e laborais. As expectativas relevantes destes são quanto à estabilidade e segurança do quadro legal e económico. No caso de investimentos produtivos que tenham nas exportações um dos seus objectivos principais, o crescimento do mercado interno português é pouco relevante face às dinâmicas internacionais de crescimento. Ganha importância a evolução previsível dos custos, incluindo os laborais.

Noutro canto, temos os consumidores, os residentes no país. Para estes, a expectativa fundamental é sobre o seu nível de rendimento futuro. Quanto mais elevada for essa expectativa, maior será o consumo hoje. Quando essa expectativa de maior rendimento futuro não se concretiza, o consumo terá de se ajustar aos valores reais de rendimento. O aspecto mais importante para a formação das expectativas dos consumidores é a evolução da economia nacional, e em particular o crescimento da produtividade, factor determinante do aumento dos salários a prazo.

Num terceiro canto, temos as expectativas dos investidores financeiros internacionais, que são influenciadas pela actividade das agências de rating enquanto agregadoras de informação sobre os países. Dentro dos investidores financeiros, há dois grupos distintos. Há aqueles que olham para o investimento financeiro no médio e longo prazo. Para estes, a formação de expectativas é determinada pela evolução da capacidade de pagamento, que está ligada à capacidade de crescimento da economia. E há também os investidores financeiros de curto prazo, para os quais parte substancial do que podem ganhar está associada ao que os outros investidores fazem.

As expectativas mais relevantes para estes investidores são sobre o que os outros investidores e agentes de curto prazo fazem e quais as expectativas que possuem. Para este último grupo de investidores, as condições da economia são apenas relevantes na medida em que ajudam a prever as expectativas uns dos outros. O processo de formação das suas expectativas e o uso que lhes é dado é diferente do que se passa com os outros agentes económicos, e vivem num ambiente de decisões de curto prazo (ou mesmo de muito curto prazo). Até rumores podem ser o gatilho de novas expectativas, fundadas ou não, até porque mudam com rapidez.

Face a estas diferenças, é difícil ter uma gestão de expectativas por parte dos Governos que seja eficaz simultaneamente em todos os grupos.

Numa visão de longo prazo, é sobretudo relevante o que se passa com o investimento produtivo, enquanto o curto prazo é facilmente dominado pelos investidores financeiros. A proeminência recentes destes últimos surgiu das dificuldades de colocação de dívida pública em mercados internacionais. Mas para que se criem as condições de um crescimento económico futuro da economia são cruciais as expectativas dos investidores a longo prazo.

Para estas, é necessário reafirmar e cumprir a cada momento a estabilidade dos ambiente legal, fiscal e laboral. Deve-se evitar na medida do possível focar excessivamente nas incertezas de curto prazo. Daí que seja mais útil, para a gestão das expectativas dos diferentes grupos, assegurar um rumo de actuação do que discutir a eventualidade e os termos de um novo resgate financeiro daqui a ano e meio ou dois anos. Até porque nessa altura as expectativas dos investidores financeiros de curto prazo serão outras!


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de onde vieram os leitores do blog no último mês

o wordpress, onde o blog está alojado, agora fornece estatísticas sobre a proveniências dos leitores – aqui fica por curiosidade o mapa do último mês, seguido do top 20 de países de origem