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concursos, médicos e enfermeiros

16 comentários

Os últimos dias foram férteis na discussão sobre dois concursos públicos de aquisição de serviços de médicos e de enfermeiros. No caso dos médicos, a escolha pelo preço mais baixo criou enorme contestação, e no caso dos enfermeiros o valor apresentado para concurso foi visto como sendo indigno.

As reacções geradas tiveram uma componente de defesa da dignidade profissional muito forte, e que é perfeitamente compreensível e partilhável. A forma de contestação envolveu também argumentos do tipo “que qualidade de cuidados pode ser esperada para preços deste nível”.

Primeiro, há que estabelecer desde já que a maior parte, a esmagadora maioria, dos médicos e enfermeiros não são contratados desta forma nem pagos por estes valores. Este tipo de contratação é normalmente feito para colmatar faltas de recursos pontuais, e não traduzem a generalidade das situações. Ou seja, é alarmismo falar em quebra de qualidade generalizada no serviço nacional de saúde mesmo que os concursos fossem realizados desta forma, e aparentemente não o serão. Estabelecido este ponto prévio podemos passar à discussão de aspectos mais técnicos.

Há porém uma questão que julgo ser relevante responder – é adequado o uso de concursos de aquisição para este tipo de serviços? Se os termos de qualidade do serviço prestado forem facilmente observáveis e especificados no contrato, então um concurso de aquisição que foque apenas no preço mais baixo corresponde a um procedimento adequado. A forma exacta do concurso poderá ter variações. Existe uma larga literatura económica sobre o tema, detalhando as vantagens e desvantagens de cada alternativa e as circunstâncias em que uma possibilidade domina, ou não, as restantes. Quem quiser aprofundar poderá ver o trabalho de Paul Klemperer.

Tomando o caso dos enfermeiros e médicos, e olhando para a natureza dos serviços que prestam, é aceitável considerar-se que a “qualidade” do serviço depende do empenho e motivação que os profissionais de saúde coloquem na sua actividade, dois aspectos que não são integráveis como requisito de um concurso de aquisição de serviços.

De um ponto de vista técnico, interessa então saber se aspectos de qualidade não observáveis devem levar  a um desenho diferente do processo de concurso de aquisição de serviços.

Também para este caso tem sido desenvolvida teoria económica. Um exemplo é dado por Pierre-Henri Morand e Lionel Thomas, “Efficient procurement with quality concerns”.

A forma de estabelecer o concurso torna-se mais complexa de definir. O problema central é que maior eficiência estás associada com menor custo, e escolher pelo preço apresentado mais baixo favorece esse elemento, mas maior qualidade estará associada com custo mais elevado, e logo preço apresentado mais elevado. Assim, o preço apresentado a concurso torna-se menos informativo como critério de selecção.

A forma mais habitual é então o de desenhar um processo de decisão para o concurso em que as duas dimensões, preço (eficiência) e qualidade, são reduzidas a uma única dimensão por via de sistema de ponderação.

Há várias formas de incorporar a preocupação com a qualidade do serviço. Uma será a utilização de informação de aquisições passadas. Criar um sistema de reputação do serviço prestado, que seja utilizado como informação em processos concursais posteriores.

Outra alternativa é dar a capacidade a quem adquire o serviço de rejeitar a aquisição (ou exigir a substituição do profissional) se observar uma má qualidade.

A divisão do serviço em diferentes componentes que sejam asseguradas por empresas diferentes e que serão comparadas entre si é outro mecanismo auxiliar possível. Pode ainda argumentar-se a favor de uma complexidade adicional – a qualidade só é verdadeiramente observável depois do serviço prestado.

Neste caso, e dependendo da importância dada ao elemento de qualidade, pode ser preferível adoptar outro sistema de escolha – negociação com um (ou vários) prestador(es).

A mensagem principal da teoria económica neste campo é que processos concursais baseados numa única dimensão, o preço mais baixo, terão maus resultados se houver uma dimensão de qualidade não observável e que não é passível de ser incluída como requisito objectivo do concurso.

A melhor solução dependerá das características da dimensão de qualidade relevante.

É, por tudo isto, boa a notícia de que o Ministério da Saúde irá repensar o formato destes concursos. Esperemos que para melhor e incorporando o que sobre eles sabemos em termos de propriedades.

Desconhecida's avatar

Autor: Pedro Pita Barros, professor na Nova SBE

Professor de Economia da Universidade Nova de Lisboa.

16 thoughts on “concursos, médicos e enfermeiros

  1. Duarte Nuno's avatar

    Faço uma pergunta,…
    se este tipo de contrataçao é residual, porque os jornalistas em geral nao sao imparciais a apresentar os dados e factos deste tipo de contratação?
    Isto so prova os tabus que existem na Saude durante estas 2 decadas, e tambem a pouca precisao do tratamento da informaçao sobre saude por parte dos jornalistas (estes preferem juntar ao tratamento a sua opiniao ou senso comum)…
    Todo este artigo encerra uma discussao economica sobre a eficiencia e custo do Serviço de Saude, mas será que o sistema de saude, nao dominado por economistas, esta interessado?
    Como se sabe, ha boas teorias sobre custos e eficiencia, mas o que temos visto é a sua nao-aplicabilidade e claro o surgimento de alternativas privadas (que comprovam essas mesmas teorias)

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  2. Duarte Nuno's avatar

    A questao até é outra na Saude,…
    qual o incentivo que ha para cuidar dos bens comuns da sociedade (Saude), quando temos o diabo ao lado (iniciativa privada)?
    Ate falo de uma coisa simples, siglas,
    a fonetica até igual mas UHC é diferente HUC….
    no entanto dá jeito á iniciativa privada ser confundida, para canibalizar pacientes… Porque nao se protegeu esta sigla?

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  3. Pedro Pita Barros, professor na Nova SBE's avatar

    Duarte: pode ser residual em números, não é residual em simbolismo; para além disso, em termos de desennho do processo, mesmo residual em termos de emprego total de profissionais de saúde, sempre é dinheiro público, e convém ser aplicado adequadamente.
    Sobre mecanismos de concurso de aquisição em alguns outros países europeus, sugiro a leitura do artigo de Panos Kanavos e Sorenson,
    http://www.sciencedirect.com/science/article/pii/S0168851010002253.

    A questão da prestação pública vs privada leva-nos para outros campos, demasiado vastos para tratar neste comentários, aos poucos iremos falando disso também. A contratação por via de concurso como é o caso destes é uma forma de relação público – privado. Por exemplo, a alternativa seria contratar tantos médicos e enfermeiros quanto necessário para cobrir o máximo de actividade possível mesmo que na maior parte do tempo se ficasse com excesso de profissionais. Só que esta alternativa tem também os seus custos (financeiros e de motivação de quem não teria actividade durante grande parte do tempo).

    Protecção de HUC face a HCU, não sei responder.

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  4. Duarte Nuno's avatar

    Esta alternativa «seria contratar tantos médicos e enfermeiros quanto necessário para cobrir o máximo de actividade possível mesmo que na maior parte do tempo se ficasse com excesso de profissionais.» faz sentido se se esta a racionalizar os serviços de saude e urgencia?
    É que tambem ha capacidade de resposta de serviços privados (com taxas de serviço de urgencia mais baixas), e as economias de escalas estao a desaparecer para os hospitais publicos..

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  5. Desconhecida's avatar

    Sigo com atenção estes momentos económicos, mas neste caso considero que não foram considerados um conjuntos de aspetos fundamentais. Em primeiro lugar importa informar que este tipo de contratos está a ser utilizado de forma indiscriminada para responder a necessidades permanentes de cuidados de enfermagem obviando um constrangimento – a necessidade de autorização prévia do Ministro da Saúde para contratar recursos humanos. Portanto ACES e Hospitais recorrem a esta estratégia para contratar profissionais, reduzir os custos, maquilhar resultados. Ou seja, mesmo que esta forma de contratação de enfermeiros fosse aceitável deveria ser utilizada para resolver situações pontuais e não é isso que está acontecer. Enfermeiros não são executores de tarefas, não são profissionais indiferenciados, devem permanecer no mesmo serviço por períodos que permitam estabilidade, período de integração, apropriação das especificidades do mesmo a bem da segurança dos utentes e da qualidade dos cuidados disponibilizados.

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  6. Duarte Nuno's avatar

    E para o Estado e Profissionais de Saude, faz sentido contratar atraves de um intermediario/empresa/prestadores de serviços?
    É que o intermediario tambem pode ter problemas de liquidez e demorar a pagar aos medicos e outros profissionais,.. e isso reflecte-se na motivação…
    OBS: Para alem de que em Portugal há muitas empresas de contratação a ser «apanhadas» em fraudes fiscais, o passado comprova-o…

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  7. Pedro Pita Barros, professor na Nova SBE's avatar

    Maria,
    Obrigado pelo seu comentário.
    De acordo a utilização deste instrumento de contratação deveria ser apenas para necessidades pontuais.
    O que pretendi evidenciar é que mesmo no caso de necessidades pontuais, a importância de conseguir, ou não, especificar os elementos de “qualidade” relevantes afecta a forma como se deve organizar o concurso, ou mesmo se se deve organizar concurso ou utilizar outra forma de contratação. Sem entrar ainda com outros efeitos e motivações.

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  8. Angelo Abel's avatar

    Creio que o problema gira mesmo em torno da utilização deste instrumento de contratação, dado que aparentemente poderá pretende-se fazer dele regra e não a excepção e aí a situação ganhará com boa probabilidade, contornos de alarmismo, na minha opinião.

    Tal poderá levar a um decréscimo da qualidade dos serviços prestados por inúmeras razões entre as quais:

    o aumento do número de horas trabalhadas por cada profissional para “compor” o seu vencimento mensal, dado que este será o mais prejudicado nesta relação laboral tripartida (o exemplo dos enfermeiros em que o valor avançado pela ARS às empresas de prestação seria de 1150 euros por enfermeiro, recebendo o enfermeiro aproximadamente 300-350 euros pós descontos), levando a um aumento do número de erros no local de trabalho por burn out, com consequências mais ou menos graves para a saúde dos utentes;

    Por outro lado, devido a este aumento do número de horas trabalhado, o dispêndio de horas necessário para actualização de conhecimentos será manifestamente insuficiente bem como para a formação de novos profissionais, pois tal como um doutorando necessita de um orientador que o guie num fio condutor, também um profissional de Saúde, médico ou enfermeiro necessita de um ensino tutorado antes de ser autónomo.

    Não existindo esta formação, por ausência de condições físicas (local de trabalho fixo por determinado tempo) ou por ausência de recursos humanos (a título de exemplo de 1 tutor de urologia para 8 internos de urologia durante o mesmo período de tempo, sendo que estes realizam um número de cirurgias inferior ao número mínimo necessário para que se considere um profissional apto), a qualidade técnica do profissional formado será provavelmente menor que a de profissionais formados em gerações anteriores.

    Outro factor que se coloca é a motivação e empenho dos profissionais que será reduzida ao considerarem que não vêm reconhecido a sua formação profissional e o grau de complexidade inerente às suas funções, quando compararem o trabalho desenvolvido com os dos seus pares nas mesmas funções e locais de trabalho.

    A questão da continuidade dos cuidados, especialmente no sector dos cuidados de saúde primários é de extrema relevância quer para utentes quer para profissionais de saúde, porque permite que o utente se sinta identificado com o profissional através da relação médico / enfermeiro /utente, levando a que esta ferramente “humana” possa auxiliar no controlo da acessibilidade, do regime terapêutico, da prevenção , do seguimento de doenças crónicas, entre outras situações.
    Não creio que um utente se sinta confortável tendo uma cara nova e uma personalidade diferente interagindo consigo em cada consulta, levando a que o mesmo sinta que os cuidados deixaram de ser personalizados e antes passassem a ser descaracterizados e impessoais.

    Ou que uma equipa de urgência hospitalar seja formada por elementos novos a cada 3 meses por exemplo, onde os elementos não se conheçam. Não entrando em comparações futebolísticas que não podem ser feitas aqui, mas o F.C. Porto não seria campeão inúmeras vezes mudando a sua estrutura directiva e jogadores a cada meia volta do campeonato.

    Finalmente, a questão dos concursos: veio a público que foram aceites para a prestação das 2,5 milhões de horas de prestação de cuidados médicos, 5 empresas. Porquê somente 5 empresas? Porque não foi o concurso aberto a mais empresas, dado que o critério de adjudicação era o mesmo, menor valor hora como se pode ver no ponto 12?

    Click to access 406088555.pdf

    Por outro lado porque recuou o governo procurando reformular a proposta, referindo que agora somente seriam necessárias 2 milhões de horas, o número de empresas seria alargado a 20 e agora contaria uma ponderação de 80% para valor hora mais baixo e 20% para o CV técnico do profissional?

    Quais foram as bases científicas usadas para o governo que provem que este conjunto de regras seria o que contribuiria com maior eficiência e maior qualidade? Existiu algum programa piloto prévio que em menor escala tivesse provado que tal era possível e desejável? Ou que tenham sido equacionadas e testadas outras opções?

    Concluindo:
    E se este tipo de contratação deixar de ser feito para colmatar faltas de recursos pontuais e passar a ser a regra? Será motivo de preocupação (alarmismo)?

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  9. Desconhecida's avatar

    Sigo assiduamente e com muito interesse este blogue. Desta vez atrevo-me a acrescentar/corrigir alguns comentários:
    As contratações em questão são, na generalidade, para responder a necessidades permanentes dos serviços na área dos cuidados primarios. Para estas necessidades não vejo razão para as ARSs recorrerem a intermediarios, afinal verdadeiros ‘negreiros’. Na pratica os enf em RCTFP que saiem para a Aposentação são substituidos por enf em RCIT. Ainda não é a generalidade como afirma PPB, mas para lá caminham se estas incursões forem bem sucedidas.
    Aceito que para necessidades pontuais isso possa ocorrer, embora haja a possibilidade legal de fazer CIT por 3 e 6 meses e/ou por uma razão especifica, os quais terminam com o fim dessa razão.
    Este é um ex. de que com certos governantes, o Estado não é pessoa de bem. Existem 2 carreiras em DL, 247/2009 e 248/2009 publicadas pelo Governo, que consagram a subordinação hierarquica e que se destinam ao SPA e ao SPE e nas parcerias em saude, as quais estabelecem os requisitos tecnicos e os percursos de progressão e diferenciação.
    No minimo, estes mecanismos servem para embaratecer os custos com algum pessoal, custe o que custar, e para enviesar as contas do SNS. A subcontratação entra em verbas de prestação de serviços e não na rubrica despesas com pessoal.
    Dispenso-me de acrescentar porque é impropria essa modalidade de contratação para a especificidades da Enfermagem no SNS tendo em conta a singularidade do seu contributo, a continuidade dos cuidados e a indispensavel motivação e empenho profissional para a garantia da qualidade e segurança dos utentes.
    O medo e a mediocridade cultivado por estes ‘serviçais’ nas relações de trabalho é o oposto do que deve ser feito para cuidar das motivações e aspirações de quem trabalha.

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  10. Sampaio's avatar

    Acrescento ainda que admitindo o concurso à subcontratação, nos criterios do concurso poderia estabelecer-se o respeito pelo valor/hora atribuido aos enf no SPA, na base da Carreira. Não é verdade que para outras ‘compras’ existe um preço minimo de referência? Justamente porque se considera que tem que haver uma relação contratual justa e porque abaixo de dados preços nunca será possivel assegurar o cumprimento do contrato. Quantas empreitadas não foram abandonadas, com prejuizo para o interesse publico, por não se conseguir suportar as condições do contrato, ainda que livremente estabelecido. Vejam o que se passa com as Farmacias de funcionamento permanente criadas junto aos hospitals no Governo anterior.

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  11. Desconhecida's avatar

    Boa noite, sou pediatra e desde o dia em que conquistei o título de especialista em Pediatria, exerço as minhas funções em exclusivo em unidades privadas, sendo “gestor” de uma. Abandonei assim o famoso SNS, o qual tem muitas virtudes, mas necessariamente muitos custos. É evidente que a remuneração e a dignificação das profissões são algo de natural e que se compreende (não me esqueço dos Juízes, nem dos pilotos da TAP – têm a vida de muitas pessoas nas mãos como os profissionais de saúde, mas nem de perto nem de longe remunerações semelhantes aos meus colegas). Ainda não são a maioria das contratações, mas caminha se para lá e como o povo diz “tal dinheirito, tal trabalhito”. Não falta trabalho nesse Mundo fora e os nossos profissionais são reconhecidos internacionalmente e dada a nossa característica única de adaptação, lá vamos nós perder os melhores. E o SNS, não tenham dúvidas, tem um imenso défice de profissionais médicos e de enfermeiros, que se não fosse a dedicação de quem lá trabalha, já teria estourado há muito e isto mantém se ainda, muito à custa de internos de especialidade e de enfermeiros em CIT. Quanto à Qualidade, não será que esta depende de inúmeras variáveis que se calhar não estão na dependência directa do profissional, por exemplo quando estava como interno de especialidade, trabalhava 16 horas consecutivas no Serviço de Urgência, numa sala não arejada e onde uma equipa de três médicos e duas enfermeiras, viam 180 doentes em 24horas, quem avalia isto … As direcções não nos pedem para fazer uma Consulta, pedem nos para despachar os doentes, quando nos colocam uma triagem de Manchester (as pulseiras coloridas), temos tempos a respeitar e é impossível, se a Qualidade for vista como respeitar esses tempos. Quanto à exigência para entrar na faculdade, é legitimo, não quero pensar num sistema que faz médias e premeia os medíocres (tenho 20 de média e o outro tem 10, a média é 15, conhece aquela alegoria do professor sobre o comunismo). A contratação através de empresas penso eu de que (aqui vêm a minha simpatia clubistica), tem a ver com redução de custos não pagam subs de férias, nem de natal, nem IRS, nem seg social – não estou a dizer que é legitimo. Quanto ao preço oferecido, peço só que quando forem reparar o vosso carro, pensem no custo hora da oficina …
    Já agora se um filho meu pensasse em ir para Medicina, tentaria por todos os meios contraria lo (e não, não estou desiludido com a minha carreira, enm tenho razões de queixas, mas pesando os Prós e os Contras).
    Aproveito para dizer ao Prof Pita Barros, que gostei muito do que li, concordando ou não, e que tentarei aprender todos os dias, um pouco mais.
    Obrigado

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  12. Pedro Pacheco's avatar

    Saúdo o espirito científico do autor e a sua base de sustentação académica. 3 Alertas no entanto: a) Na sua teoria histórica ignora a base de argumentação teórica que está na base da criação de um SNS tendencialmente universal e gratuito, ou seja, a “nacionalização” de um sector em prol do bem comunitário só aconteceu mediante contrapartidas ao sector ( e em sector incluem-se médicos e enfermeiros e não gestores, privados ou ETTs), esses foram um ajustamento dos seus honários em actividade liberal em equilibrio com oportunidades de formação, de organização, de carreiras, de hierarquização, de estabilidade profissional , etc- sugiro a leitura do “Relatório Sobre as carreiras Médicas”. b) As Teorias de Economia per si não têm qualquer validade no sector da saúde enquanto os seus agentes admnistradores não souberem classificar as variáveis correctamente. A própria Medicina evoluiu em termos de paradigma científico para a “Medicina baseada na evidência” e por isso se diz que é uma Arte e não uma ciência- A arte da probabilidade, posso acrescentar. Não se pode reduzir eficiência ao custo de aquisição de serviços, tampouco à poupança de determinados recursos. Exemplifico coeste mesmo Governo cujas primeiras medidas em pose do Ministério de Saúde foram de retirar a comparticipação na pílula e nos fármacos broncodilatadores. Ora o que aparentemente poupava milhões em teoria, revelar-se-ia financeiramente ruinoso mesmo a curto prazo, num país que financia abortos e tratamentos a mal asmático em unidades de cuidados intensivos que podem ascender a 3000€/doente/dia. Da mesma forma um gestor, ou o autor, desconhece terminologias como NNT ( número necessário tratar, com determinado fármaco profilático para que se justifique o seu uso). Em suma, as políticas de saúde não se podem dissociar da evolução e do estado da arte e não se coadunam com situacionismos económico-financeiros ou teorias económicas sem substracto médico-científico, ou estarão condenadas ao fracasso, inclusivé ao fracasso económico-financeiro c) A pespectiva económica sobre a saúde está naturalmente inviesada e o tempo vem demonstrando a falta de preparação teórica dos pretensos ( e pretensiosos) gestores em interpretar as suas variáveis intrínsecas. Em tudo isto há uma cegueira orgulhosa e uma teimosia inexplicável em aceitar a autoridade dos Médicos e da medicina baseada na evidência, que tem produzido ao longo de décadas estudos observacionais, parametrizados, retrospectivos e prospectivos, muitos deles internacionais e multicêntricos com o intuito economicamente desinteressado de melhorar o estado da arte e a eficiência das suas práticas. Tivesse a ciência política , ou económica, igual fervor pelo aperfeiçoamento e igual rigor nos seus métodos de melhoria da eficiência ( e eficácia!) e esta discussão teria lugar em sedes próprias e com intervenientes de reconhecida Autoridade.
    Tenho alguns economistas como familiares e assisto diversas vezes às suas hipóteses gestionárias e frequentemente lhes consigo apontar uma série de viéses de raciocínio próprios de quem desconhece em absoluto os terrenos que pisa e até as variáveis em jogo. Em analogia, uma equação é simples, mas num sistema complexo de equações existe uma relatividade que não permite abordagens redutoras e lineares, sob o risco de tomarmos a floresta pela àrvore, ou vice- versa. Daí que a Saúde só tem vindo a perder, Internacionalmente, com o afastamento dos médicos do centro de decisão e do delineamento das suas políticas- Existem disciplinas de conhecimento médico que abordam estas questões e sugerem linhas de orientação ( saúde pública, epidemiologia, etc..). Concluo com uma hipótese: Serão variáveis responsaveis pela perda de eficiência na Saúde a sobreposição de interesses de agentes externos ecómico-financeiros e políticos? Tudo leva a crer que sim. Já temos dados retrospectivos e multicêntricos, mas podemos inicar um estudo prospectivo desde aqui.

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  13. Pedro Pita Barros, professor na Nova SBE's avatar

    Agradeço os vossos comentários, e clarifico alguns aspectos:
    1. É conhecido o argumento de usar concursos para contratar empresas de serviços para “deslocar” despesas de pessoal de um lado para o outro nas contas, mas em que assim se parece estar a reduzir as despesas com pessoal sem que na verdade não seja esse caso.
    2. Desconheço se há algum propósito geral de fazer com que a contratação de recursos humanos na saúde se passe a fazer por via de concursos para prestação de serviços. Não será certamente uma solução desejável de forma generalizada. É uma forma útil, entre outras possibilidades que existem, de cobrir a incerteza quanto ao volume de actividade, e é aqui que entra o sentido de “actividade marginal” – actividade adicional que não é possível prever exactamente.
    3. Não era o propósito do meu comentário discutir o porquê do uso dos concursos para prestação de serviços (ou venda de equipamentos e dispositivos), e sim discutir como este instrumento deve ser encarado quando existem dimensões de qualidade dificilmente observáveis.
    4. A utilização de concursos públicos como forma de aquisição está grandemente estudada na teoria económica, e com muitas situações reais, antes e depois do desenvolvimento dessa teoria, a demonstrar as suas vantagens e os seus fracassos.
    5. Sobre médicos e gestores e médicos-gestores, o que vamos sabendo hoje sobre o tema vem sobretudo de Inglaterra (trabalho de Bloom, Propper, Seiler e van Reenen: disponível em http://spiralbib.lib.ic.ac.uk/bitstream/10044/2/188750/1/Propper%202010-09.pdf), em os médicos com treino de gestão, ou os gestores com apoio de medicos nas equipas de gestão, conseguem melhores resultados. Para Portugal, recomendo o trabalho de Vitor Raposo na Universidade de Coimbra. Seria interessante replicar em Portugal o trabalho feito para Inglaterra. Há toda a capacidade para o fazer, custa é dinheiro e hoje em dia… Nem sempre é fácil fazer “economia baseada na evidência”. De qualquer forma, o comentário do Pedro Pacheco tem certamente algum fundo de verdade, mas não generalizava inteiramente. Tenho que defender que há trabalhos de economia quantitativos, prospectivos e retrospectivos, usando grupos de controle e de tratamento, procurando controlar para aspectos de heterogeneidade não observada e de selecção na amostra disponível. Mas afastamo-nos do tema que eu pretendi tratar.
    6. Eficiência não é apenas custo mais baixo, há várias noções de eficiência em economia, pretendi apenas assinalar que argumentos de custo mais baixo têm que cair dentro da classe de preocupações com eficiência. E que se adicionarmos outras preocupações, outras dimensões, então “custo mais baixo” não será representativo de todas elas.
    7. Ufff, escrevi mais do que pensava fazer, mas a isso fui levado pelo desafio dos vossos comentários. Voltem sempre.

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  14. Tereza's avatar

    Nem vou discutir o princípio da contratação por intermediários ETT que me parece desajustada, apenas pergunto se mais de 2 milhões de horas são necessidades pontuais?

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  15. Pedro Pita Barros, professor na Nova SBE's avatar

    Tereza: parece de facto um valor muito grande, mas como é para um ano, se dividirmos 2 milhões de horas por 365 dias, por 8 horas, por 18 distritos (grosso modo, uma vez que o concurso não é para uma instituição em particular), dá 38 enfermeiros por distrito ao longo do ano.
    O melhor ponto de comparação seria o número total de horas de enfermeiro ano em Portugal Continental, mas não consegui encontrar esse número numa busca rápida.

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