Momentos económicos… e não só

About economics in general, health economics most of the time


Deixe um comentário

segunda revisão do MoU – saúde (parte 2 / taxas moderadoras)

As medidas referentes às taxas moderadoras não sofreram alteração com a revisão do Memorando de Entendimento, tendo-se porém adicionado dois aspectos:

a) reconhecer que as medidas foram aprovadas, mas que ainda não estavam publicadas oficialmente à data da revisão do Memorando de Entendimento. Encontram-se neste momento publicadas.

b) estabelecem-se metas quantitativas para as poupanças desejadas nesta área, ao contrário do que sucedia na versão inicial do MoU, fixando as receitas adicionais para 2012 em 150 milhões de euros, e mais 50 milhões de euros em 2013.

Sendo os valores das taxas e as isenções alteradas com as novas medidas, o valor de mais 50 milhões em 2013 só pode surgir com base numa actualização de valores e/ou revisão de isenções e/ou alteração dos serviços sobre os quais incidem as taxas moderadoras e/ou maior utilização dos serviços. Não é claro o factor que está na base do acréscimo de receita das taxas moderadoras em 2013.

Desapareceu contudo a referência à actualização de acordo com a inflação, o que está de acordo com a publicação legal entretanto ocorrida, mas não com o Memorando de Entendimento inicial, o que abre a dúvida sobre se pretende actualizar a valores inferiores ou superiores à inflação nos próximos anos. Dados os valores assumidos na actualização, torna-se difícil considerar que sejam feitas actualizações sistemáticas superiores à inflação.

Curiosamente, logo a seguir às taxas moderadoras na versão anterior do MoU vinha a referência às deduções fiscais, que deixaram de ser referidas neste ponto, surgindo unicamente na secção destinada à política fiscal.


3 comentários

Segunda revisão do MoU – saúde (parte 1)

Nos objectivos estabelecidos no Memorando de Entendimento para a despesa pública com medicamentos (despesa em ambulatório + despesa hospitalar) mantiveram-se os objectivos de 1,25% do PIB para 2012 e 1% do PIB para 2013, desaparecendo contudo as referências à média da União Europeia.

Essa referência à média europeia era factor de confusão, devido a questões de comparabilidade internacional de despesa pública em medicamentos e a que países eram ou deveriam ser incluídos nessa comparação.

Mas se esse aspecto tornou menos ambíguo o objectivo, subsiste a questão de saber se deverá ser o objectivo alterado se o crescimento do PIB for diferente, para menor, do que está previsto. É de notar que aqui se está a ter em conta o PIB nominal, pelo que mesmo uma contracção real não necessita de se reflectir numa redução da despesa com medicamentos, dependendo do valor que a inflação venha a assumir.


1 Comentário

Memorando de Entendimento, segunda revisão: subsistemas de saúde e poupanças globais

No ponto 1.8, v) continua a vir referida a necessidade de reduzir o custo para o Orçamento do Estado dos subsistemas públicos ADSE, ADM e SAD – mas desapareceu face à versão anterior do Memorando de Entendimento o objectivo quantitativo de poupança de 100 milhões de euros, desconhecendo-se a razão de deixar cair uma meta quantitativa.

Em contrapartida, no ponto 1.10, é estabelecido um novo objectivo de poupanças no sector da saúde na ordem dos 1000 milhões de euros (quando na versão anterior o objectivo era de 550 milhões de euros).

Em termos de receita fiscal (deduções) associadas com o sector da saúde, o ponto 1.20 continua a prever no ponto i. a redução substancial (2/3) das deduções fiscais, mas o ponto iv. actualiza, face à versão anterior, para a medida adoptada pelo actual Governo da ausência de deduções fiscais relacionadas com saúde nos dois escalões de rendimento mais elevados.

Estes objectivos fiscais para a área da saúde serão certamente detalhados mais à frente, mas torna-se claro que estas alterações são decorrente das intenções do Governo e não do MoU inicialmente assinado.


2 comentários

andar em frente…(?)

(post gémeo com o blog No Reino da Dinamarca)

O tema do dia é naturalmente o acordo de concertação social. Não li o texto do acordo (provavelmente só será público depois de assinado), e como tal as impressões são baseadas no que foi relatado pelos meios de comunicação social e no que foi a entrevista de Álvaro Santos Pereira ontem à TVI.

Há no acordo certamente pontos que constituem um aumento da contribuição dos trabalhadores para a mesma retribuição. Alguns pontos poderão reduzir aspectos actuais susceptíveis de abuso. Outros contribuirão para baixar o custo por unidade produzida, e logo susceptíveis de gerar preços mais baixos e maior capacidade de colocar produtos nos mercados internacionais (mas também nacionais).

Primeiro ponto, e comum a quase todos os comentadores, é bom que haja um acordo. Sobretudo para permitir focar no que é preciso fazer para recuperar a actividade económica.

Segundo ponto, sendo um acordo vai ser necessário passar a legislação o que foi acordado. E pelos detalhes dessa legislação, pela demora que possa ter e não ter, poderá ocorrer ou não um desvirtuar do acordo. Segundo João Proença, citado num orgão de comunicação social, “a proposta de lei do Governo não introduzirá qualquer matéria nova sem primeiro ir a concertação social”. Veremos se serão invocadas condições excepcionais para não respeitar este compromisso, ou se será de facto cumprido.

Terceiro, o acordo deve tornar a sociedade portuguesa mais exigente para com as empresas e a gestão destas, o que significa uma maior agilidade do sistema judiciário. E não é por um motivo de equilíbrio de forças entre trabalho e capital, como se poderia eventualmente pensar. É que se estão reunidas as condições para facilitar a criação de empresas e a criação de emprego por se reduzir o custo de terminar relações laborais, é natural que aumentem quer os fluxos de entrada quer os fluxos de saída de empresas. O sistema judicial tem que estar preparado para dar resposta às necessidades de resolver conflitos que daí resultem.

Quarto, o acordo deve tornar a sociedade portuguesa mais exigente para com o Governo em termos de cumprimento das matérias acordadas, nomeadamente celeridade na resolução do que dele Governo depende.

Quinto, toda a legislação que seja derivada deste acordo deverá ser sujeita a um acompanhamento cuidado nos seus efeitos. As sucessivas alterações das leis laborais têm-se revelado incapazes de cumprir os objectivos de ajudar a relançar a actividade económica. Confiar que desta vez é que é parece perigoso, e há que publicamente seguir a elaboração, aplicação e efeitos da lei.

Sexto, dado que o acordo se aplicará a todas as entidades empregadoras, reduzindo os custos de produção por unidade produzida dos sectores de bens não transaccionáveis, que ajustamento de preços será exigido a esses sectores por forma a que as novas regras laborais sejam neutrais em termos de “rendas económicas” garantidas desses sectores? (ou se as novas regras não têm valor económico para essas empresas, será de supor que aceitem manter por acordo específico com os seus trabalhadores as condições actuais?)

Ou dito de outro modo, como é que o acordo actual altera a posição relativa do sector de bens não transaccionáveis vs o sector de bens transaccionáveis?

 


2 comentários

The Economic Adjustment Program for Portugal – Second Review (parte 13)

Para além da avaliação da Comissão Europeia, está também disponível a avaliação do FMI, que usa termos diferentes, e frequentemente mais duros, para caracterizar o progresso realizado (ou a falta dele).

Um exemplo:

“Competitiveness indicators have stabilized but no significant improvement is yet apparent. Collective wage agreements concluded through mid-year have shown moderation in the growth of private sector nominal wages (about 1.3 percent). However, with a decline in per-worker productivity, ULCs relative to average European levels have not improved materially. ”

Ou seja, na substância que interessa, aumento da capacidade de estar nos mercados internacionais a vender produtos portugueses, não estamos a conseguir ainda fazer reflectir resultados do processo de ajustamento. Na verdade, mais do que no plano formal do acordo, é nesta substância que se vai jogar de facto o futuro da economia portuguesa nas próximas décadas. É necessário verificar com atenção a evolução, sendo sobretudo preocupante a redução da produtividade por trabalhador. Os problemas existentes não se resumem ao sector financeiro, e é preciso que a acção não se fique pelo sector financeiro da economia.


2 comentários

pastel de nata no dinheirovivo.pt

a semana passada poderia ficar conhecida como a semana do pastel de nata do Álvaro, mas mais do que ideia lançada, é reveladora a reacção observada, como tento argumentar no dinheirovivo.pt desta semana:

Pastel de nata

16/01/2012 | 00:00 | Dinheiro Vivo

Esta semana que passou teve como ponto alto mediático o pastel de nata. Ganhou esse destaque por via do Ministro da Economia, da sugestão da sua exportação via cadeia de franchising. O ruído mediático que se seguiu, aproveitado em diversos comentários políticos é sintomático de uma atitude geral portuguesa.

Por um lado, vai-se usando a retórica da necessidade da inovação e de pensar “out-of-the-box”, no sentido de explorar caminhos inesperados. Mas quando alguém sugere algo nessa direção, a reação é adversa, não se aceita explorar novas ideias para verificar se fazem ou não sentido. Com uma certa preguiça mental, descarta-se imediatamente a nova ideia, se possível com uma dose de humor corrosivo para acentuar a rejeição.

Pensemos, porém, um pouco mais na ideia do pastel de nata e na sua exportação. Existem curiosamente algumas tentativas de fazer essa exportação. De o fabricar e vender noutros países, embora com sucesso limitado. Melhor nuns casos, pior noutros.

Um exemplo de sucesso limitado ocorreu num país asiático, de grande população e baixo-médio rendimento. Três problemas se colocaram na venda em cadeia de lojas de pastel de nata. Primeiro, conseguir posicionar o produto no segmento premium. Para o efeito, a sua confecção tem que ser adequada. Segundo, gerar o reconhecimento do produto como sendo europeu. Infelizmente, o reconhecimento de ser um produto português era basicamente irrelevante no país em causa. Terceiro, assegurar as condições de produção. Neste último caso, as necessidades de precisão no tempo e temperatura exigiam uma qualidade de mão de obra que não existia ou era demasiado onerosa.

Face aos custos de produção envolvidos, nomeadamente em termos de produto rejeitado por não preencher as condições de qualidade de um produto premium, a sua produção acabou por ser descontinuada.

Se este esforço e esta experiência estivessem inseridas numa rede mais vasta, poderia ter surgido a ideia de solicitar à engenharia portuguesa, às universidades, o desenvolvimento de tecnologia que permitisse ultrapassar as limitações de mão de obra local.

Será destas situações, de procura de soluções, que os empresários poderão estimular inovação que seja útil. Mas o primeiro passo é mesmo aceitar explorar ideias, mesmo que à primeira vista a reação seja de estranheza.

Independentemente da ideia do pastel de nata já ter sido tentada e não ter vingado de modo generalizado, não deixa de ser preocupante a reação gerada. Exigir que cada ideia tenha a visão e a profundidade de um produto revolucionário é a forma segura de nada desenvolver.

 

Rápida lista de alguns links sobre as reacções ao pastel de nata

dinheirovivo.pt

rtp

aventar

e numa busca via google

aquiaqui, aqui e aqui  e muitos mais comentários haverá certamente.


Deixe um comentário

The Economic Adjustment Program for Portugal – Second Review (parte 12)

Sobre a reforma da administração pública, é referido (p.29) que a redução das posições de gestão e de unidades administrativas em 27% e 40%, respectivamente, foi significativamente além do que estava previsto no programa inicial em que se apontava para pelo menos 15%.

Aceitando que estas reduções são possíveis de facto, duas notas:

– será de verificar que a qualidade dos serviços prestados à população nas diferentes áreas onde se verificaram estas reduções não foi também ela significativamente afectada (ou se foi, se poderão ser esses serviços afectados ser considerados acessórios ou desnecessários);

– a atenção à gestão dentro da administração pública não se pode limitar ao esforço de redução; na linha da nota anterior, importa não descurar a qualidade da gestão que é feita pela administração pública em toda a linha, onde tenham e não tenham surgido cortes.

Deverá ser mantida aqui uma atenção permanente, já que haverá provavelmente a tentação de criar novos postos e organismos para substituir os que desapareceram.


Deixe um comentário

The Economic Adjustment Program for Portugal – Second Review (parte 11)

Um tema que esteve em destaque na campanha eleitoral das eleições legislativas de Junho de 2011, e depois esmoreceu (literalmente atirada para debaixo de uma montanha de papéis), é o da desvalorização fiscal, ou ganho de competitividade por redução dos custos de trabalho.

O argumento formal apresentado para não ser considerada esta possibilidade no Orçamento do Estado para 2012 foi o da introdução de riscos substanciais que lhe estarão associados num ano de forte consolidação orçamental, em termos de implementação e planeamento orçamental.

Contudo, é dito que “Depending on developments in the economy, the issue of fiscal devaluation might need to be revisited in the context of the 2013 budget” (p.22)

Esta afirmação pode ser apenas “prémio de consolação”, para não se dizer que foi completamente abandonada a ideia, OU pode constituir uma reserva de actuação que é encarada como uma real possibilidade pela actual equipa governativa. Neste último caso, conviria ser claro sobre quais os critérios de desenvolvimento da economia que poderão justificar revisitar a medida.

Ainda a respeito deste tema, é relevante observar o que é dito pelo FMI na sua avaliação:

“the decision not to implement a fiscal devaluation opens up a considerable gap in the structural reform agenda under the program. In particular, additional measures are needed to ensure a relative price adjustment, through more determined efforts to put downward pressure on non-tradable prices, both through a moderation in the cost of labor and through a reduction in the profit margin in largely uncontested industries.”


2 comentários

The Economic Adjustment Program for Portugal – Second Review (parte 10)

A propósito da agenda de reformas estruturais, ou transformação estrutural como termo adoptado pelo actual Governo, a Comissão Europeia escreve “Noticeable progress has been made in the area of structural reforms but deadlines have not always been met (…) reforms in the energy, transport and service sectors are proceeding at a more uneven pace and in a number of cases deadlines in the Memorandum of Understanding have been extended”.

Ou seja, nesta área não se está a conseguir cumprir o plano estabelecido, e tem havido uma visão benevolente da avaliação para com esses atrasos nalgumas áreas (felizmente, não tem sido assim em todas). Há que revisitar essas áreas e registar-se um compromisso político reforçado do Governo no seu cumprimento.

A energia e os transportes prometem ser particularmente complicados, por diversos motivos, incluindo os interesses existentes, e a blindagem legal que possam ter conseguido para as suas posições. Nestas áreas, a força política do Governo para levar a cabo as medidas terá que se afirmar (e quanto mais cedo melhor, pois conforme nos aproximemos de momentos de eleições mais difícil será).


Deixe um comentário

The Economic Adjustment Program for Portugal – Second Review (parte 9)

Na análise macroeconómica da Comissão Europeia é dado realce ao problema criado pelo acelerar do endividamento junto da banca das empresas públicas, cortando o crédito ao sector privado produtivo. Esta questão assume especial importância porque quem externamente poderia emprestar “não quer aumentar a sua exposição a Portugal em termos nominais”, ou seja, tem medo de não ser pago, não tendo essas entidades externas aparentemente capacidade para discriminar entre bons e maus projectos nacionais.

Esta questão é diferente de um “credit crunch”, situação que é explicitamente afastada como estando presente.

O problema existente parece-se por isso ser uma questão de para onde direccionar o crédito, se para as pequenas e médias empresas produtivas se para as empresas públicas. Na medida em que estas últimas têm uma baixa taxa de retorno no investimento que fazem (aliás, os empréstimos destinam-se a financiar o seu funcionamento normal em grande medida, ou mesmo pagar encargos financeiros), por comparação com as primeiras, está-se a colocar em risco as possibilidades de crescimento futuro da economia.

As implicações para a re-estruturação dos sectores públicos que fazem esta drenagem de recursos não tem unicamente a ver com os seus custos, mas sim com o custo de oportunidade, em termos dos outros sectores que deixam de ser financiados, de lhes dar financiamento que não pode ser canalizado para fins produtivos.