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combate de blogs: os ricos que paguem a crise?

Ontem participei no programa Combate de Blogs, com o tema dos impostos sobre os “ricos”.

A respeito deste tema, para além do que tem vindo nos media, é importar responder a algumas questões, antes de tomar uma decisão:

a) saber os efeitos em termos de eficiência, equidade e capacidade de execução, desse tipo de imposto. Note-se que as estimativas de receita indicam valores reduzidos se for um imposto baseado no IRS, e tanto mais que nesse caso dificilmente teria capacidade de abarcar as chamadas “grandes fortunas”. Sobre as dificuldades de tributação do património em geral, e das grandes fortunas em particular, bem como dos efeitos sobre a eficiência no funcionamento da economia, vale a pena recordar o seguinte relatório (sempre são mais de 800 páginas sobre estes temas, e não vale a pena estar sempre a re-inventar a roda):

MINISTÉRIO DAS FINANÇAS E DA ADMINISTRAÇÃO PÚBLICA SECRETARIA DE ESTADO DOS ASSUNTOS FISCAIS – RELATÓRIO DO GRUPO PARA O ESTUDO DA POLÍTICA FISCAL – COMPETITIVIDADE, EFICIÊNCIA E JUSTIÇA DO SISTEMA FISCAL

Coordenação Geral: António Carlos dos Santos António M. Ferreira Martins

Data: 3 de Outubro de 2009

 

b) o tempo que se passa a gastar em discutir e argumentar sobre um imposto que poderá dar pequeno valor de receita seria melhor gasto a ser usado para pensar em reduções de despesa – enquanto houver fontes de receita fiscal, porque irá o estado reduzir a despesa?

c) os princípios de equidade que parecem estar subjacentes a este tipo de propostas não são evidentes para mim –  é um problema do sistema fiscal que não é suficiente progressivo? é que actualmente quem tem mais rendimento já contribui mais (proporcionalmente ao seu rendimento) para a recolha de impostos, se estivermos a pensar no IRS. O problema é que alguns rendimentos não são suficientemente tributados, ou que certos patrimónios não são tributados? então há que perceber quais são os “buracos” do sistema, ou o motivo pelo qual essa tributação foi estabelecida do modo que vemos. Combater a “fuga” ainda que legal à tributação é algo muito diferente de aumentar impostos.

A capacidade de execução não pode ser esquecida. Por exemplo, não adianta tentar tributar obras de arte e jóias, uma vez que não há qualquer inventário generalizado da propriedade das mesmas. Mas mesmo noutros tipos de património, dado que existem vários impostos, surge facilmente o problema de falta de equidade na dupla tributação.

d) É necessário não esquecer que a tributação sobre recursos ou factores móveis internacionalmente está naturalmente limitada. Por isso, anunciar que se vai tributar não pode deixar de ter em conta o ajustamento respectivo (basta lembrar o que se passou com os dividendos de algumas empresas num passado muito recente). E propostas de tributação sobre o rendimento para valores na ordem dos 60% também poderá ter efeitos no mercado de trabalho.

Neste sentido a proposta de Miguel Cadilhe de tributar com base numa situação de património registado numa data passada é inteligente por não haver já ajustamento possível.

e) o sinal de que tributar as grandes fortunas é um sinal de solidariedade é pouco interessante – se contribuem pouco para a receita, que sinal de facto transmite? É preferível apertar as regras fiscais do que criar novas complexidades no sistema (por exemplo, pensar a sério numa pequena taxa nas transferências para off-shores é provavelmente mais efectivo).

f) caso se queira vir a alterar o sistema fiscal, seria importante que se fizesse uso de toda a informação disponível e recolhida nos vários pontos do sistema, e em que o papel do cidadão fosse de maior responsabilidade (e não o de tentar fugir, legal ou ilegalmente, a uma tributação que considerada pesada e injusta).

 


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imposto sobre o património, mas como?

De repente ficou na ordem do dia mais um imposto, desta vez sobre os ricos. Muito se irá escrever, dizer e comentar. Sobre as falhas do sistema para identificar os “ricos”, sobre o que significa ser “rico” em Portugal, sobre se deve ser usado o rendimento ou o património.

A propósito destas discussões, lembrei-me de uma ideia que um amigo e colega, que veio depois a ter responsabilidades oficiais, que me parece curiosa, não sei se realizável, mas que pelo menos deveria ser pensada seriamente.

O principal problema do imposto sobre o património, enquanto indicador de riqueza, é a dificuldade em identificar o património móvel, por um lado, e o valor do património imobiliário, por outro lado.

Para este último, a proposta, se bem recordo, era a de tributar todo o imobiliário (pois frequentemente os “ricos” têm o imobiliário em nomes de empresas), e o valor do imóvel seria declarado pelo próprio dono do mesmo, com a seguinte condição: todos os valores seriam publicitados, jornal local, afixar na repartição de finanças e internet, e se aparecer alguém disposto a pagar o dobro do valor declarado, a venda seria obrigatória. Eventualmente com excepções de não venda se se comprovasse ter sido declarado um valor próximo do de mercado, ou outras que se considerem adequadas. Mas o elemento central é criar um mecanismo para que a declaração “deturpada” tivesse o risco de uma penalização forte, mas sem a fiscalização do Estado.

Provavelmente, nunca será aplicável, mas o caminho é interessante – pensar em mecanismos que levem os cidadãos a declarar de forma mais verdadeira o valor dos imóveis e tributar com base nessa declaração, como forma de evitar uma verificação nacional do valor de todos os imóveis.