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horas extraordinárias e ideias novas para reduzir custos na saúde

6 comentários

As despesas com horas extraordinárias ganharam ao longo dos anos grande espaço no total das despesas com pessoal dos hospitais, e torna-se necessário pensar em novas formas de organização para controlar o seu crescimento. O método tradicional do sector público, e o SNS não fugiu a isso, é a redução de preços administrativamente decretada – redução do valor pago. Mas noutros lados procuram-se soluções diferentes – uma proposta curiosa está no trabalho – A New Paradigm to Reduce Nursing Rate Impact on Health Service Organizations (HSOs) Through Hedging, por Deisell Martinez, em que basicamente se procura contratar fora do hospital recursos humanos mas num sistema com pagamento em duas partes – uma fixa, de garantia de disponibilidade de recursos humanos (no caso, enfermeiros) caso sejam necessários, e um salário, previamente acordado, por cada hora usada quando for necessária. Este sistema basicamente cria uma bolsa de enfermeiros a que diferentes entidades podem recorrer, desde que não o façam todas ao mesmo tempo. Se os picos de necessidade são diferentes de instituição para instituição, este sistema permite organizar o trabalho, no caso de enfermagem, com menores custos do que recorrer a horas extraordinárias. Será pelo menos uma ideia a inspirar adaptação à realidade nacional, e que só é possível nas zonas geográficas onde estejam presentes várias instituições que utilizem serviços de enfermagem. É também preciso resolver pensar como é que o próprio sistema altera as decisões de gestão dentro das organizações. Mas é um ponto de partida interessante, que poderia ser explorado.

Autor: Pedro Pita Barros, professor na Nova SBE

Professor de Economia da Universidade Nova de Lisboa.

6 thoughts on “horas extraordinárias e ideias novas para reduzir custos na saúde

  1. cá em Portugal já tens as empresas de trabalho temporário a fazerem isto. aliás, parte da despesa em remunerações desaparece à custa do aumento das despesas em “serviços”…

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  2. Só até certo ponto, do que consegui perceber, porque a ideia é valorizar o pagamento da disponibilidade de acordo com o risco de recorrer a esse serviço, fazendo um equilíbrio mais previsível entre valor fixo e valor variável. Num dos extremos está o pagamento por hora utilizada sem mais, por parte da instituição de saúde; no outro extremo, está o pagamento fixo por ano, podendo utilizar o número de horas que quiser. Nem um nem outro extremo são especialmente interessantes (aliás, no segundo caso, o valor fixo a ser pedido teria que ser exorbitante para cobrir o risco de utilização desregrada), mas determinar o ponto interior é o problema – com maior componente de pagamento fixo tem-se mais certeza de despesa que é feita, mas tem-se que pagar mais para cobrir o problema de moral hazard, para além de ter de se caracterizar a incerteza associada com a procura destes serviços.

    No fundo, é saber se com sistemas de pagamento deste tipo de serviços mais sofisticados se consegue baixar a factura global e ao mesmo tempo induzir maior eficiência nas organizações.

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  3. Esse sistema não é necessário em Portugal, pois o famosa banco de horas é já há muito aplicado em Enfermagem (é realizado mensalmente o saldo entre horas a realizar e as realizadas e as horas realizadas a mais não são pagas, transitam para os meses seguintes sendo pagas em folgas quando possível).
    O problema são as horas extra dos médicos, pois não são pagas de forma extra-ordinária (quando fizessem mais horas do que as devidas por mês), mas sim de forma programada, sendo pagas todas as horas de trabalho médico nos serviços de urgência em horas extra… Imaginem o custo!

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  4. Essa mobilidade não terá custos em termos de qualidade e segurança para o utente/doente?

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  5. Este sistema já foi adoptado nalgumas instituições há muitos anos, por exemplo nas escalas de evacuação de doentes em que os enfermeiros ficavam de prevenção a ganhar a metade do preço/hora e em preço de hora extra desde que fossem chamados. Recentemente o processo foi alterado e quando é necessário acompanhar/transportar algum doente fora da instituição retira-se um enfermeiro dos que estão escalados a trabalhar….e pronto: mais barato…O sistema de classificação de doentes, também em vigor há muito tempo, permitiria fazer este tipo de gestão se realmente fossem ajustadas as horas de cuidados necessárias com as calculadas mas isso não é feito porque sabem que os serviços trabalham com centenas de horas negativas.
    o referido estudo é americano e a realidade é completamente diferente. Como alguem já disse acima os enfermeiros são obrigados a fazer horas que são pagas em tempo, quando o serviço o permitir. As horas extra dos médicos são programadas, regateadas e distribuídas equitativamente por todos, num esquema considerado normal de forma a permitir compor o vencimento mensal. Todos sabemos isso e certamente o Dr. Pita Barros também sabe.

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  6. Agradeço os vários comentários. Creio que vale a pena esclarecer alguns pontos.

    1) os bancos de horas ou pagamento de disponibilidade dentro da mesma entidade é uma forma de partilha de risco da necessidade de trabalho extra. Esse risco pode ser partilhado de várias formas – ter recursos humanos para fazer face ao máximo de procura que possa surgir. Só que na maior parte do tempo estarão desocupados embora tenham que ser pagos. O custo do risco é suportado pela entidade. No extremo oposto estaria a situação em que os trabalhadores estariam à espera de serem chamados para trabalhar no pico de actividade, e seriam neste caso os trabalhadores a suportar o custo dessa incerteza. Com um pagamento por disponibilidade procura-se uma situação intermédia. Só que os trabalhadores pertencem à instituição, e o risco da actividade tem que ser partilhado entre os dois.

    2) A existência de uma empresa de gestão de procura, que é o que aqui estará em causa, permite fazer a partilha desse risco entre instituições – nem todas terão pico de actividade ao mesmo tempo, e os recursos humanos podem ser afectos a uma instituição numa altura, e a outra instituição noutra. Basta as actividades entre instituições não estarem perfeitamente correlacionadas para haver vantagem nessa partilha. Esta partilha sendo diferente do banco de horas dentro de cada empresa, permite que a compensação paga seja menor. Mas implica descrever bem a variabilidade da actividade, para que se possa determinar como deve ser feito o preço de disponibilidade e por hora. É aqui que reside a vantagem e a diferença face às situações de banco de horas dentro da mesma entidade. O recolher esta vantagem implica saber caracterizar muito bem a incerteza presente e usar um modelo de valorização adequado.

    3) A utilização do pagamento de horas extra aos médicos, como forma de compor o vencimento mensal é uma situação que exige um outro tipo de solução, revendo a tabela salarial e o que é exigido de acordo com essa tabela. É um aspecto completamente distinto.

    4) Será que esta “partilha” tem custos de qualidade e segurança para o utente? Estando os mecanismos montados para a sua utilização, esses riscos não têm que estar presentes, pois estes recursos humanos mais móveis podem substituir recursos humanos internos em tarefas mais standard, e os recursos humanos internos dedicarem-se aos casos de maior complexidade. Por outro lado, não há nada que indique que os casos de actividade anormais sejam obrigatoriamente mais exigentes.

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