Como de costume, a contribuição de segunda-feira para o dinheirovivo, desta vez sobre como a complexidade das e introduzida pelas medidas que se vão adoptando constitui ela própria uma das tais “gorduras” do Estado que se quer (?) eliminar: aqui
A complexidade (como “gordura” do Estado)
A contrapor aos sucessivos aumentos de impostos que têm sido anunciados, o Governo apresenta a ideia de “transformação estrutural”, expressão presente em documentos recentes e invocada publicamente pelo Ministro das Finanças.
A propósito dessa “transformação estrutural” tenho um pequeno pedido a fazer – que se combata a atracção pela complexidade, complexidade de regras, complexidade de sistemas, complexidade em quase tudo.
A atracção pela complexidade é um dos travões de funcionamento da sociedade portuguesa e da sua economia, por acréscimo. E preocupa-me que algumas das medidas anunciadas pelo Governo tenham níveis crescentes de complexidade.
Nos passes sociais, decide-se aumentar os seus preços, mas quem fizer prova de baixos rendimentos tem um subsídio adicional (sim, mesmo aos novos preços, haverá que realizar transferências futuras do orçamento do estado); aparentemente, na saúde prepara-se para taxas moderadoras diferenciadas de acordo com o nível de rendimento, e não apenas em termos de isenção ou não. Uma vez mais será preciso fazer prova da condição. E as situações em que é necessário fazer prova de recursos aumentam quase todos os dias.
Esta abordagem significa que as pessoas que têm direito a usufruir destes apoios terão que apresentar informação pessoal a muitas outras, trabalhadores dos vários serviços, que validarão o seu acesso às condições especiais. E quem quiser aproveitar mesmo sem preencher as condições de acesso terá oportunidade de tentar em vários pontos do sistema.
Em termos de apoio social, seria muito mais simples ter um único ponto de avaliação, e se se tende dar apoio para quase todo às mesmas pessoas, mais fácil seria aumentar as prestações sociais directas, em vez de dar descontos em muitos e variados pontos.
O argumento de que nesse caso se estaria a aumentar despesa é simplesmente errado, já que todos os preços especiais em serviços e bens acabarão de qualquer forma por ser pagos pelo mesmo Estado que pagaria o apoio social. Reduzir receita é equivalente a aumentar despesa. Devia-se procurar o sistema que tivesse menor complexidade de entendimento, menor complexidade de gestão, menor complexidade de verificação. A complexidade desnecessária é classificável como “gordura do Estado”. E é aproveitada para uso indevido dos recursos disponíveis. Talvez assim haja a vontade de também a cortar.
