Continuando, após uns dias de pausa, a leitura do documento de estratégia orçamental.
É curioso que se avance o “congelamento dos salários no sector público, em termos nominais, naqueles anos, bem como o impedimento, a qualquer título, de consequências financeiras associadas a promoções e progressões” (p.39), a comparar com “Implementação de modelos de governação e organização funcional que promovam a flexibilidade de gestão, o envolvimento, motivação e desenvolvimento pessoal dos funcionários e a responsabilidade individual e coletiva pelos resultados alcançados” (p. 36). Não estou mesmo a ver como isto se faz, e a preocupação com a poupança imediata (congelando tudo o que seja despesa adicional de pessoa) pode criar situações curiosas – por exemplo, que interesse terá um director de um serviço público em sugerir uma alteração que permita reduzir a despesa global do serviço, fazendo o mesmo ou mais com menos pessoas, mas pagando mais a cada uma delas? como deixou de ter este último instrumento, dificilmente terá margem de gestão para fazer a proposta.
Sobre os números apresentados, não deixa de ser curioso como a forma de apresentação dos números continua a fazer diferença e a iludir – de acordo com o quadro, os grandes ministérios gastadores em pessoal são o ministério da administração interna e o ministério da educação e ciência. O ministério da saúde gasta menos em pessoal do que o ministério da defesa nacional e do que o ministério da justiça. Mas então a saúde não é onde gasta muito? e grande parte da despesa está em pessoas? a resposta é sim a ambas as perguntas, e razão pela qual as despesas com pessoal não aparecem aqui é porque para estas classificações, a transferência para o Serviço Nacional de Saúde é a fonte de pagamento dos salários do pessoa que trabalha no sector público da saúde, mas não aparece aqui porque é uma transferência; de modo similar, quando nas unidades de cuidados de saúde se paga a empresas que fornecem trabalho, a despesa não aparece em custos com pessoal, e sim em fornecimentos. Quando se fala em contenção das despesas com salários está-se a pensar apenas nas despesas com pessoal que integram o queadro III.5 deste documento de estratégia orçamental, ou em todas? se é em todas, não deviam ser apresentados os seus valores actuais e alvo para o futuro?
6 \06\+00:00 Setembro \06\+00:00 2011 às 09:51
Pedro, ler as tuas analises so’ me deixa ainda mais apreensiva em relacao ao futuro.
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6 \06\+00:00 Setembro \06\+00:00 2011 às 10:00
Bom, para ajudar a melhorar tenho que focar no que pode ser melhorado. Treino de profissão de procurar os pontos fracos dos documentos, acho eu…
O documento tem coisas boas, vou tentar de futuro dar-lhes também mais destaque.
Os congelamentos são sempre uma medida “muito cega”, e pode-se normalmente encontrar excepções. A questão é que essas excepções quando existem devem-se mais à capacidade de persuasão de quem argumento do que ao valor da situação (quem não reclamar pela excepção não a terá certamente). O congelamento soa sempre a uma “medida desesperada”.
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6 \06\+00:00 Setembro \06\+00:00 2011 às 11:29
Vejo que a contaminação do viés jornalístico de observar apenas as coisa más de um documento que até tem “coisas boas” também contagia economistas.
Fico feliz.
Fora de brincadeiras: grande análise. ponto final.
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6 \06\+00:00 Setembro \06\+00:00 2011 às 11:36
Jorge,
é mesmo mais do que viés jornalístico 🙂
o progresso da “ciência” baseia-se em descobrir as falhas das análises anteriores, e avançar ou melhores teorias ou melhor evidência, ou ambas…
a crítica (feroz) é o que leva (ajuda?) os autores a procurarem fazer melhor. Mas não se esta é a melhor forma de olhar para estes documentos, mas lá está, a deformação profissional acaba por se impor.
Fora de brincadeiras: não estou a procurar ocupar o seu espaço de trabalho :).
Ainda fora de brincadeiras: obrigado pelas palavras amáveis, contrariando o viés jornalístico 😉
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