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Idas às urgências, 2025 vs 2024 –

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Com base em dados (provisórios) da ACSS, o Público noticiou uma redução de cerca de 7,2% menos do que em 2024. Comentários da Direção-Executiva do SNS e do Bastonário da Ordem dos Médicos olham para esta evolução com bons olhos. E é possível dar um pouco mais de informação sobre se esta redução do uso de urgências foi resultado do programa “Ligue Antes Salve Vidas” e se traduz menor acesso a cuidados de saúde necessários. As respostas são: sim, o programa “Ligue Antes Salve Vidas” contribuiu; e não, não há redução de acesso. Estas duas perguntas têm resposta no Relatório de Acesso a Cuidados de Saúde recentemente disponibilizado. Nem sempre é bom reagir imediatamente ao que se passa no espaço mediático. Neste caso, como há informação disponível, é simples fazê-lo.

No relatório “Acesso a Cuidados de Saúde, 2025” encontra-se uma análise do programa destinado a reduzir a ida às urgências, com base evolução da intensidade da ida às urgências nas ULS com o programa, comparando com a evolução nas unidades que não têm ainda o programa em funcionamento, e na forma como as pessoas olham para este programa, e não nas chamadas telefónicas feitas. A estimativa apresentada, para o período janeiro 2024 a setembro de 2025 foi de redução média de 5,5% das urgências evitáveis, sendo o efeito maior ao final de 6 meses (embora com grande diversidade entre ULS), e é certamente compatível com a redução de 7,2% de todas as urgências (valor que inclui as idas às urgências em unidades que não têm o programa em ação, e todos os episódios de urgência) (tabela 9 e Figura 51 do relatório, para quem quiser ir ver os detalhes). Haverá certamente outros fatores que contribuíram para redução da ida às urgências, o programa “Ligue Antes Salve Vidas” terá tido um contributo importante. Haverá certamente vários elementos de melhoria a introduzir neste programa, mas claramente a “obrigação” de usar a linha SNS24 antes de ir à urgência, de forma a obter o melhor encaminhamento para a situação que a pessoa tenha, contribui para esta evolução (a versão inicial testada de apenas “persuasão” não gerou resultados visíveis). 

Igualmente crucial é perceber se houve dificuldades acrescidas de acesso necessário. Também neste aspeto o Relatório de Acesso a Cuidados de Saúde permite avançar com a resposta negativa indicada. A figura abaixo reproduz a tabela relevante, que tem as respostas das pessoas inquiridas quanto ao ponto de contacto no sistema de saúde que escolheram quando se sentiram doentes e decidiram procurar ajuda (não se refere apenas a situações de idas à urgência). Os pontos centrais são, na comparação entre 2025 e 2023, a redução esperada na ida à urgência do hospital público, o aumento do uso da linha SNS 24, um ligeiro aumento na ida aos cuidados de saúde primários do Serviço Nacional de Saúde. Não houve um aumento do recurso às urgências dos hospitais privados. Houve um aumento da ida a consultórios privados, não sendo serviço de urgência. Não há por isso qualquer sinal de ida às urgências no sector privado por dificuldade de acesso às urgências no sector público. Igualmente relevante é perceber se quando não recorreram a um serviço de saúde num primeiro momento, as pessoas tiveram agravamento da sua situação. Não há evidência nesse sentido. Este quadro global, em comparação com 2023 ou com 2019, como ano antes da pandemia, não mostra mais dificuldades no acesso a cuidados de saúde, e há o (desejado) reforço no uso dos cuidados de saúde primários.

Para continuar este caminho no sentido de um menor uso (desnecessário) de serviços de urgência, será essencial continuar a reforçar os cuidados de saúde primários, como tem sido repetidamente afirmado por sucessivos governos das últimas décadas.

Referência: Barros, P., & Santos, C. (2025). Acesso a Cuidados de Saúde 2025. Nova School of Business and Economics.  https://doi.org/10.34619/sxve-zeke (a descrição metodológica da população inquirida pode ser encontrada no relatório)

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Autor: Pedro Pita Barros, professor na Nova SBE

Professor de Economia da Universidade Nova de Lisboa.

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