Em dois posts anteriores, tratei do argumento “viver acima das possibilidades” do ponto de vista das familias e do ponto de vista do estado.
Em qualquer dos casos, um aspecto crucial foi a falta de crescimento económico. E é esse tema que é necessário tratar, para fechar este trio de comentários sobre “viver acima das possibilidades”.
A pergunta base é porque não cresceu a economia portuguesa na última década de acordo com as expectativas geradas?
A resposta não é simples, nem é simples alterar a situação. Há duas partes nessa resposta. A primeira é se as expectativas de crescimento que houve no seguimento dos primeiros 15 anos de CEE (depois União Europeia) eram justificadas. Nesses primeiros anos depois da adesão houve de facto maior crescimento económico, e houve aumentos de produtividade. Porém, esses aumentos de produtividade resultaram mais de se fazer o mesmo mas com menos trabalhadores, o que se traduziu num aumento de produtividade mas não num salto generalizado de qualidade ou valor do que é produzido em Portugal.
Se houve ganhos de produtividade em vários sectores por redução de trabalhadores e não houve nessa altura um aumento maciço de desemprego, o que sucedeu? Houve uma expansão de outros sectores, sobretudo ligados aos bens não transaccionáveis (obras públicas, sectores regulados, instituições no âmbito da administração regional e local, mas também pequenos negócios de restauração e outras actividades de proximidade e intensivas na utilização de trabalhadores).
Os sectores de actividade para se efectuou essa transferência de trabalhadores não têm, muitas vezes pela sua própria natureza, a capacidade de ter grandes ganhos de produtividade, pelo que lentamente, ao longo do tempo, se foi perdendo o crescimento da produtividade. Adicionalmente, vários dos grandes grupos económicos portugueses viram nas relações com o estado uma possibilidade de negócio estável, e os bancos consideraram ser essa uma forma mais segura de utilizarem os seus fundos, pelo que tudo se foi conjugando. Este aspecto é um dos nós górdios da actual situação económica e política portuguesa apontados por Vitor Bento num dos seus livros. O problema central é que foram desviados recursos e talento empresarial para sectores onde a capacidade de negociar com o estado é a competência essencial em vez de ser a capacidade de sobreviver num ambiente de concorrência.
A inversão para uma economia mais baseada em sectores com potencial de crescimento está a ser complicada de realizar, uma vez que os lucros garantidos na relação com o estado continuam a fazer com que seja melhor essa relação como estratégia empresarial do que operar num mercado internacional competitivo. E para muitas pequenas empresas que directamente ou indirectamente dependem dos contratos do estado, a capacidade de mudar de agulha para funcionar num espaço geográfico mais alargado não é grande.
Sendo este o problema fundamental de crescimento a prazo da economia portuguesa, como revelado nos últimos dez anos, a gestão habitual de procura interna ou a despesa pública por despesa pública, só iria atrasar esse processo. A questão é saber qual o trajecto e o custo desse trajecto e suas alternativas para atingir uma diferente estrutura produtiva. Também por isto é ilusório pensar que estar fora do euro ajudaria apenas por se poder desvalorizar a moeda.
Não é também uma questão de horas trabalhadas, uma vez que em Portugal já se trabalha mais horas face a outros países, como a Alemanha, por exemplo. É uma questão do que fazemos com as horas com que trabalhamos.
Ou seja, o “viver acima das possibilidades” também tem muito a ver com não termos conseguido aumentar as “possibilidades”, isto é a produtividade, de forma sensível.
No fim destes três posts, creio que fica claro que para mim o discurso de “viver acima das possibilidades” é muito pouco útil, e não ataca nenhum dos problemas sérios que tem impedido um ciclo de crescimento na economia portuguesa.
Pingback: Viver acima das possibilidades | Mãos Visíveis
15 \15\+00:00 Novembro \15\+00:00 2012 às 12:26
O problema central é que foram desviados recursos e talento empresarial para sectores onde a capacidade de negociar com o estado é a competência essencial em vez de ser a capacidade de sobreviver num ambiente de concorrência.
Absolutamente de acordo. Mas este problema extendeu-se por outros sectores. Grande parte das profissões antes ditas liberais têm vindo também a acolher-se no chapeu Estado. Médicos, Enfermeiros, Advogados (oficiosas, consultoduria) , Académicos, Investigadores, Professores,…..
António Alvim
GostarGostar