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Michael Porter em Lisboa, para falar de saúde (3)

2 comentários

Depois da apresentação da sua proposta para conceito base (vamos chamar assim), valor para o doente, Porter elabora sobre os princípios da prestação de cuidados de saúde que decorrem desse conceito:

–       a melhor forma de controlar custos é a melhoria da qualidade, pois uma melhor saúde é inerentemente menos custosa que má saúde da população

–       a saúde é o objectivo e não o tratamento

–       para se criar um sistema de prestação de cuidados de saúde baseados no valor para o doente, é fundamental re-estruturar a forma de prestação dos cuidados

–       há que reorganizar (será melhor usar o termo refundar?) tendo em consideração as novas mobilidades dos doentes, e as novas formas de combinar as diferentes profissões de saúde – não é uma questão de remendar o sistema, mas de pensar de forma diferente

–       implica ter a ousadia de mudar

–       é necessário criar a forma adequada de concorrência, pois a escolha por parte dos doentes e a concorrência são uma força importante para levar a que seja produzido valor. Argumenta Porter que a concorrência que se observa em geral nos actuais sistemas de saúde não está alinhada com a ideia de valor para o doente. O sucesso financeiro para os participantes no sistema não é o mesmo que o sucesso para os doentes.

 

É nesta altura que Porter tem uma das suas afirmações que receberam mais eco na comunicação social: copagamentos mais elevados não aumentam o valor, fazem simplesmente uma mudança do ponto do sistema onde há custos.

É natural que esta frase tenha captado a atenção, como crítica às taxas moderadoras.

É natural que Porter a tenha usado conscientemente para chamar a atenção.

Mas não esclareceu a aparente contradição entre essa afirmação, a defesa do princípio do valor para o doente e o exemplo que deu de com a mesma qualidade e menos custos se poderem tratar problemas nos cuidados de saúde primários que hoje chegam às urgências hospitalares.

Há o mérito de Porter ter-se informado sobre o sistema de saúde português, e o papel do recurso às urgências nos hospitais do Serviço Nacional de Saúde. Só que usando o princípio de valor para o doente, se o tratamento leva ao mesmo resultado de saúde, então terá maior valor para o doente aquele tratamento que tiver menor custo. Se é nos cuidados de saúde primários que tem menor custo, então direcionar os doentes para aí é procurar o maior valor para o doente. Não é apenas uma mudança do ponto do sistema onde há custos (pressupõe-se que os mesmos custos na afirmação).

Há, obviamente, um sentido em que a afirmação é perfeitamente válida – as taxas moderadoras não são a solução dos custos crescentes com cuidados de saúde, o que tem sido aliás amplamente reconhecido e creio que interiorizado (não vale a pena estar aqui a repetir todos os argumentos).

Mas não deixam de criar valor no sentido que Michael Porter propõe se fizerem um redireccionamento da “procura” para a obtenção do mesmo resultado de saúde com menores recursos usados.

Desconhecida's avatar

Autor: Pedro Pita Barros, professor na Nova SBE

Professor de Economia da Universidade Nova de Lisboa.

2 thoughts on “Michael Porter em Lisboa, para falar de saúde (3)

  1. Pedro Pita Barros, professor na Nova SBE's avatar

    Dois comentários recebidos via LinkedIn

    [1] Criará valor uma sub-especialidade/competência (o que seja) chamada Diabetologia ? É que, de acordo com o observatório nacional, 38% da população portuguesa entre os 20-79 anos têm diabetes ou pré-diabetes.

    [2] Como refere a Declaração de Jacarta 1997 “A saúde é um direito fundamental e essencial para o desenvolvimento social e económico”.

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  2. Pedro Pais's avatar

    Apesar da questão dos co-pagamentos ter sido uma das que levantaram mais eco na comunicação social, arriscaria dizer que a principal questão levantada do ponto de vista financeiro prende-se com a efectiva monitorização do custo de cada doente.

    Creio não estar errado ao dizer que hoje não é possível na maioria dos casos avaliar o custo real dos tratamentos para o doente X. Digo isto com a ressalva que não será necessário identificar o doente X por nome de forma pública. Não sugiro comparar o custo de tratamento desse doente com as suas contribuições sociais, mas sim conseguir comparar o custo do doente X – com a sua doença e método de tratamento – versus o custo do doente Y. Isto vai além de conseguir avaliar o custo de um determinado internamento ou tratamento (que nem sei se é hoje possível avaliar realmente na maioria dos prestadores de cuidados de saúde) mas sim conseguir ter um valor real para o custo total de cuidados prestados.

    Este custo poderia ser utilizado de duas formas:
    1 – Para consciencialização do doente do custo que o sistema tem no seu tratamento, de forma a que haja uma melhor percepção do mesmo e até mesmo algum efeito psicológico de moderação no recurso a alguns pontos de acesso ao sistema.
    2 – Para comparação da entidade gestora do sistema da dispersão de custos para doenças comparáveis. Esta dispersão será aceitável até certo ponto mas terá de ser analizada se for demasiado grande.

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