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as previsões do crescimento para 2013

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têm sido objecto de debate aceso por vários comentadores e actores políticos.

A primeira linha de comentários tem sido sobre se as previsões apresentadas nos documentos do Orçamento do Estado de 2013 são credíveis.

A segunda linha de observações foca no novo “menino querido” da discussão, o “multiplicador” – isto é, quanto é que da contracção da despesa pública se traduz em contracção da economia.

A terceira linha foca nos sinais positivos vindos das contas com o exterior, com a redução do défice comercial, sobretudo com redução das importações, ainda que haja um aumento das exportações.

A minha dúvida, ao juntar estas três frentes de observações e comentários, é como tudo se torna coerente. Em particular, e em termos técnicos, a minha dúvida é saber se o tal dito “multiplicador” é algo estável e fiável nestes momentos. Porquê esta dúvida? o que observamos de contracção da economia portuguesa parece-me estar associado com uma reacção de ajustamento do consumo mais forte do que antecipado, e que tem incidido sobretudo sobre os bens de duradouros, mas não sobre os consumos alimentares (não significa que esteja tudo bem, há certamente faixas da população com dificuldades também nessas despesas), conforme se consegue ir vendo dos números publicados no site conheceracrise.com. Esse ajustamento mais forte gerou também a redução das importações (sobretudo de bens duradouros), e a queda da receita fiscal por redução de consumo. É o ajustamento que tinha sido pedido à população portuguesa, deixar de consumir acima das possibilidades. Como foi mais rápido do que antecipado, parece que o tal de multiplicador falhou fortemente. A questão que coloco é saber se o ajustamento da economia nestes consumos pode continuar a ser a este ritmo – suponhamos que a população ajustou num ano o que se previa que ajustaria em dois anos, então no segundo ano o que vamos observar é um menor ajustamento do que no primeiro – já se cortaram os consumos que se podiam cortar.

O crescimento / contracção da economia não depende apenas do volume de despesa pública e numa relação mecânica. E a discussão à volta do valor do “multiplicador” parece estar a esquecer isso. Há, por isso, mais a conhecer do que apenas o valor de um “multiplicador”, até porque o seu valor exacto não será independente das políticas usadas, das expectativas da população e das decisões que se tomem quanto a consumo e poupança.

Daqui para as previsões de crescimento, o que será implicação? que a aplicação directa do dito multiplicador medido pelo FMI pode ser excessiva se a maior parte do ajustamento do consumo da população portuguesa já tiver ocorrido; que a estimativa do Governo continua a parecer muito optimista. Enfim, vejamos se a discussão técnica sobre o cenário macroeconómico apresentado com o orçamento permite perceber como tudo isto se compatibiliza.

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Autor: Pedro Pita Barros, professor na Nova SBE

Professor de Economia da Universidade Nova de Lisboa.

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