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Gabinete de crise, rádio observador, e o “puxão de orelhas”

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Como de costume a versão gravada está disponível aqui, na Rádio Observador. Já levamos muitos meses de acompanhamento da pandemia, e infelizmente ainda estamos longe do seu fim. Esta semana, mais uma vez, os habituais elementos da minha discussão surgem nas próximas linhas.

Número da semana:  10 – de 10 dias de quarentena para os doentes assintomáticos ligeiros, na nova norma da DGS. Já usada noutros países, adapta as medidas ao conhecimento que se vai gerando, embora tenho potencial para gerar confusão – primeiro, num contexto de pressão geral e novas medidas mais restritivas, ter uma medida de alívio (ou que pode ser percebida desse modo), segundo, quem estiver menos atento pode pensar que é para todos os casos. É uma alteração que facilita a vida às pessoas, no retomar de vida normal, mas também reduz as necessidades de acompanhamento por parte dos médicos de família.

Análise da semana:

Portugal acompanha a Europa no crescimento de novos casos, crescimento de internamentos, crescimento de óbitos. Algum desvalorizar coletivo global de algumas semanas atrás está agora a ter as consequências.

Ainda vai levar algum tempo a que os novos comportamentos e as novas medidas tenham efeitos.

A mudança de tom político está a ir a reboque desta evolução, com as declarações do primeiro ministro sobre ser “preciso haver um abanão na sociedade”, tem a preocupação – adequada – de procurar medidas com pouco impacto no emprego, nas empresas e nos rendimentos. Curiosamente, a segunda metade de Setembro já teve uma quebra bastante assinalável na mobilidade das pessoas, nomeadamente para áreas de recreio e lazer. Mas pode ter sido já tarde para conter os ritmos de contágio que foram lançados – é muito fácil crescer rapidamente os contágios, mas muito difícil voltar a colocar o “génio” dentro da garrafa.

Mas a ideia de instalação da aplicação stayaway covid ser obrigatória (mesmo que em contextos específicos) está a ser um problema político e era previsível que assim fosse. Na semana passada, numa outra intervenção pública, falei em 10 desafios para o SNS e o primeiro era sobre o cansaço da população. Falei explicitamente em “Saber lidar com o cansaço das pessoas quanto às regras a seguir, sem cair em tiques de autoritarismo que facilmente levam a reações contrárias às pretendidas é um desafio imediato”, e nem de propósito começa-se a falar em medidas que têm precisamente esse cheiro a autoritarismo. Até o presidente do Conselho Nacional de Saúde veio a público ter uma reação forte contra as medidas repressivas (termo dele). Ter o Governo a perder tempo, e talvez credibilidade, da sua liderança nestes tempos com problemas perfeitamente antecipáveis não é certamente boa ideia.

Ainda em termos de ambiente politico, também uma menção rápida para entrevista da ministra da saúde na quarta-feira, onde esteve em geral bem, embora com alguma crispação quando se falou da carta aberta dos bastonários da Ordem dos Médicos – que tocaram em preocupações partilhadas por todos.

No caso da aplicação stayaway covid, talvez se pudesse ter encontrado forma de perguntar às pessoas que condições ou regras a aplicação precisa de cumprir para que estejam dispostas a instalar? E depois verificar se essas condições estão lá e então divulgar? (por exemplo, a aplicação não precisa de saber onde estive e com quem, e não recebe essa informação, apenas “sabe” que estive mais de 15 minutos próximo de uma outra pessoa – não interessa onde, e não se saber nomes ou identificações, mas apenas códigos gerados que informam da proximidade mas não dizem quem – se for conhecido que a aplicação funciona desta forma será mais fácil haver instalação, suponho).

O que sabemos?  Como é visto em geral usar os telemóveis para seguimento das pessoas, por um lado, e numa estratégia muito mais concreta do desconfinamento? Novamente com dados de inquérito internacional, aos 6 países que se cobriu em inquéritos anteriores, e realizado em Setembro de 2020. Para Portugal, sobre apoio dado a uma política de utilização de aplicação em telemóveis para seguir e avisar dos riscos de contágio, a favor 56%, contra 22,5%, indiferentes 21,5%. Quando olhamos para cerca de 10% que têm a stayaway covid instalada neste momento, não sabemos se é inércia na instalação ou se cresceram as opiniões desfavoráveis. Sabemos que não é muito diferente nos outros países: contra, na Alemanha 30%, Reino Unido 19%, Dinamarca 26%, Holanda 35%, França 38%, Itália, 27%; mas a favor Alemanha 38%, Reino Unido 53%, Dinamarca 54%, Holanda 32%, França 31% (maioria contra), Itália 51%.

E se formos mesmo para a obrigação de colocar a aplicação como parte da estratégia de saída do desconfinamento, em Portugal tivemos nas respostas 15% contra 64% a favor. Alemanha: 30% contra, 38% a favor, Dinamarca, 19 contra 59% a favor, Reino Unido, 16% contra e 58% a favor, França 31% contra, 35% a favor, Itália 16% contra, 49% a favor, Holanda 36% contra, 32% a favor.

Em Portugal, sabemos que as mulheres são mais favoráveis ao uso dos telemóveis para este fim, mas não há diferenças sistemáticas importantes de acordo com a idade ou com o nível de rendimento ou com o nível de educação. Por isso, a menos de informação que seja detalhada por parte do Governo para justificar a sua proposta, não parece imediato que a discriminação de obrigatoriedade de usar a aplicação seja justificada. Mas na obrigatoriedade como parte de uma estratégia global não há diferenças sistemáticas que permitam identificar grupos mais renitentes.
Em termos de desigualdades, também se coloca de quem não tem telemóvel adequado ficar de fora deste seguimento, dos benefícios que possa ter (argumento diferente de querer obrigar alguém a comprar ou ter telefone que consiga ter a aplicação desenvolvida). Logo, esta obrigação parece ter realmente uma conotação mais punitiva

É também preciso ter em mente que as medidas de intervenção sobre o comportamento em sociedade sempre foram ditas terem como papel abrandar a difusão do vírus. Não são a forma de o controlar no longo prazo, para isso teremos de conjugar vacinas com tratamentos, tudo ainda em fase de progresso. 

Média de novos casos diários por semana (semana “Gabinete de crise”, de 6ª a 5ª seguinte)

 Lisboa e Vale do TejoResto do PaísTotal nacional
8 a 14 de maio119110229
15 a 21 de maio15969228
24 de julho a 30 de julho15558213
31 de julho a 6 de agosto11159170
7 de agosto a 13 de agosto13280212
14 de agosto a 20 de agosto11581196
21 de agosto a 27 de agosto125115240
28 de agosto a 3 de setembro154185340
4 de setembro a 10 de setembro198241439
11 de setembro a 17 de setembro308302610
18 de setembro a 24 de setembro348332680
25 de setembro a 01 de outubro387362749
02 de outubro a 08 de outubro371505876
09 de outubro a 16 de outubro5449921537

Nota: valores arredondados à unidade

Média de valores diários por semana (semana “Gabinete de crise”, de 6ª a 5ª seguinte)

 ÓbitosInternadosInternados em UCI
8 a 14 de maio11763114
15 a 21 de maio13636104
24 de julho a 31 de julho340846
31 de julho a 6 de agosto238241
7 de agosto a 13 de agosto436335
14 de agosto a 20 de agosto333238
21 de agosto a 27 de agosto331841
28 de agosto a 3 de setembro333841
4 de setembro a 10 de setembro337347
11 de setembro a 17 de setembro545959
18 de setembro a 24 de setembro652868
25 de setembro a 01 de outubro764996
02 de outubro a 08 de outubro10718106
09 de outubro a 16 de outubro11890129

Nota: valores arredondados à unidade

Alerta/mito: o comportamento do Presidente Trump dá usualmente matéria para alertas ou mitos. Para esta semana escolhi o mito de haver cura para a COVID-19. Não é verdade que haja cura atualmente. Há medicamentos que são usados para combater a COVID-19, e tem-se vindo a melhorar o conhecimento neste aspeto. Mas ainda não é para a semana que se vai ter uma solução terapêutica que assegure a cura. 

Nota de esperança: a de que os cuidados redobrados nos contactos que temos para evitar contágios de COVID-19 resulte também em queda da gripe sazonal. No meio da evolução negativa da semana, a esperança numa mudança de comportamento que mitigue também outros problemas de saúde que costumam surgir no início do Outono e passagem para o Inverno.

Autor: Pedro Pita Barros, professor na Nova SBE

Professor de Economia da Universidade Nova de Lisboa

One thought on “Gabinete de crise, rádio observador, e o “puxão de orelhas”

  1. KEY SOLUTION (half solution) – Queda da gripe sazonal 2021. Mas também algum medo. Por isso tantas pressões no sentido de amedrontar e provocar comportamentos de confinamento ativo qb.

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