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Gabinete de crise, rádio observador – semana de algum desencanto

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A semana que passou, em termos de evolução da pandemia, trouxe algum desencanto com a manutenção da evolução negativa da situação, ainda que sem levar à necessidade de alarme. O tema desta semana foi o excesso de mortalidade, e o programa está disponível aqui, para ser ouvido.

Número da semana: 4624 – óbitos em excesso, sem considerar os casos de óbitos com COVID-19, desde 16 de março até à semana que passou, utilizando um forma conservadora de cálculo – só existem óbitos excessivos se a mortalidade observada estiver com um desvio significativo acima da média dos últimos 11 anos (tecnicamente, desvio de dois desvios padrão, em que estes são calculados dia a dia por bootstrapping). Há outras estimativas e vão todas no mesmo sentido. A parte misteriosa destes valores é que a maioria destas mortes não surgiu no momento alto da pandemia (o que poderia ser resultado de pessoas com covid-19 não tratadas) e sim no período do Verão (julho até meados de agosto; baixou até final de agosto, voltou a subir até meados de setembro, voltou a descer até agora), deixando a possibilidade de ter sido casos adiados pela COVID-19 que só tiveram consequências mais tarde, ou ter havido outra razão que não é evidente. O padrão de acumulação em algumas semanas é um puzzle para o qual ainda não temos uma boa resposta. Só daqui a alguns meses, quando estiverem codificadas completamente as causas de morte. 

Análise da semana:

O número de novos casos diários de pessoas com COVID-19 continuou a subir mas com uma desaceleração por comparação com o crescimento entre o final de agosto e a terceira semana de setembro.

Nos casos de doentes internados, normais e em UCI, voltamos a valores da terceira semana de maio. 

Não é uma boa situação, mas pode-se ficar com a esperança de descida em duas a três semanas se continuar este processo. Vai exigir um esforço coletivo, que parece ser em Portugal mais sólido do que vemos noutros países europeus. 

A qualidade dos números apresentados deve ser sempre questionada, como forma de garantir que se tem essa qualidade. Não há neste momento qualquer motivo para pensar que os números que têm sido produzidos estão errados. 

Desfasamento entre novos casos e pressão nos hospitais, mas não podemos esquecer a pressão imediata sobre os médicos de família, sobre os cuidados de saúde primários de forma mais geral, e sobre os médicos de saúde pública que têm de ganhar o conhecimento das cadeias de transmissão.

Temos o plano Outono-Inverno a necessitar de passar rapidamente a ser aplicado, se que é que já não está em marcha. No atual plano, duas sugestões – uma parte destinada aos cidadãos e uma parte dedicada ao acompanhamento nas escolas.

Alerta/mito – não sei onde colocar – é sobre a comparação da COVID-19 com a gripe sazonal. Regressa aos poucos a ideia de que a COVID-19 não é pior que a gripe sazonal. Ora, embora não haja ainda valores definitivos para a taxa de mortalidade da COVID-19, esta tem sido, de acordo os números mais fiáveis, bastante pior que a gripe, até porque para a gripe existem vacinas e alguma imunidade adquirida por contacto anterior. Com a COVID-19 é tudo (ainda) novo. De momento, com a informação disponível, dizer que a COVID-19 é similar à gripe cai na categoria do mito (o que é também um alerta para que se continuem com os cuidados recomendados).

Nota de esperança: as máscaras ajudam mesmo a reduzir a transmissão da COVID-19. Um estudo feito na Alemanha comparou regiões que adotaram em datas diferentes a obrigatoriedade de usar máscara nos transportes públicos e em lojas, o que permite ver o que acontece nessas áreas. A utilização de máscaras reduziu o número de novos casos de COVID-19, num período de 20 dias, entre 15 a 75%, conforme as zonas, e com um valor médio de redução de transmissão de 45%. Assim, vai-se construindo um grupo de análises que indicam que a utilização de máscaras quando se tem espaços fechados e proximidade entre pessoas tem um efeito importante na redução da COVID-19. (Referência: Face Masks Considerably Reduce Covid-19 Cases in Germany – A Synthetic Control Method Approach; CESifo Working Paper No. 8479)

Autor: Pedro Pita Barros, professor na Nova SBE

Professor de Economia da Universidade Nova de Lisboa

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