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Gabinete de Crise, Rádio Observador, a vacina que veio (?) do frio

1 Comentário

A habitual discussão do Gabinete de Crise na Rádio Observador foi centrada, esta semana, na vacina anunciada pela Rússia e sobre se será sobretudo um instrumento de propaganda, ou não.

Número da semana: 300 milhões – o número de doses pré-compradas pela União Europeia, à AstraZeneca, com opção de mais 100 milhões (a União Europeia a 27 tem 447 milhões de habitantes). Estão também em negociação com outras companhias que estão a procurar encontrar uma vacina. É uma iniciativa europeia que dá a cada país uma segurança sobre aceder à vacina e sobre o preço a que o irá fazer. Além da segurança que possa transmitir, é um exemplo de como a coordenação a nível europeu pode ser útil para cada país. Além disso, é intenção fazer chegar parte das vacinas a países em desenvolvimento. Para Portugal, virão, desta aquisição 6,9 milhões e 20 milhões de euros (resolução de ontem do Conselho de Ministros, e sendo parte ou a totalidade recuperada pelo REACT-EU (Recovery Assistance for Cohesion and the Territories of Europe)). A União Europeia tem feito vários acordos destes, ajudando na tomada de riscos por parte das empresas que estão a desenvolver as vacinas. Claro que a aquisição só tem lugar se a vacina for eficaz e segura, o que só se saberá no final do ano.

Esta atuação da União Europeia é também importante num contexto em que a procura de vacina se tornou uma corrida de prestígio “geo-politico” entre Europa, Estados Unidos, China e Rússia. Esta última procurou colocar-se à frente, anunciando uma vacina ainda antes dos testes mais amplos na população. É uma jogada de risco – se a vacina for boa, a Rússia ficará com os louros de ter sido a primeira, se não for boa, terão que “disfarçar” de algum modo. Além do dinheiro que possa estar envolvido nas vendas de uma nova vacina, o prestígio científico dos países parece estar também a ser jogado.

Havendo várias vacinas concorrentes a serem testadas, usando caminhos alternativos para procurar criar imunidade, é natural que daqui a algum tempo haja várias vacinas, que poderão ter diferentes níveis de eficácia, e que poderão ter diferentes preços. Veremos depois como os elementos de eficácia, custo e geopolítica das vacinas irão interagir.

Análise da semana – esta semana, em média, foi melhor que a semana passada, sobretudo à conta de uma evolução positiva em Lisboa. Nos óbitos e internados em UCI tem existido nas últimas semanas alguma estabilidade, só o número de internados continua numa rampa descendente. 

Esta evolução, de uma pequena rampa descendente, é mais favorável do que temos assistido noutros países europeus, nomeadamente os do Sul da Europa, para quem o turismo é também uma atividade económica importante. Portugal tem estado a contra-ciclo de vários outros países europeus – enquanto houve uma quebra acentuada em vários deles, Portugal tinha uma “rampinha ascendente”, mas depois passamos a “rampinha a descer” enquanto esses outros países entraram num “elevador a subir”.

Há uma informação essencial que não temos publicamente – quantos dos casos surgidos dizem respeito a cadeias de transmissão conhecidas? É que surtos com 70 ou 80 casos num lar fazem subir os novos casos, mas permitem parar mais facilmente a transmissão do que esse mesmo número de casos que tivesse resultado de contágio em transportes públicos ou em restaurantes, por exemplo. E é neste contexto que vemos Portugal a passar a integrar o “corredor aéreo” inglês para turismo, e a saída de países como a França (que criou uma corrida ao regresso).

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Média de novos casos diários por semana (semana “Gabinete de crise”, de 6ª a 5ª seguinte)

 Lisboa e Vale do TejoResto do PaísTotal nacional
8 a 14 de maio119110229
15 a 21 de maio15969228
24 de julho a 30 de julho15558213
31 de julho a 6 de agosto11159170
7 de agosto a 13 de agosto13280212
14 de agosto a 21 de agosto11581196

Nota: valores arredondados à unidade

Média de valores diários por semana (semana “Gabinete de crise”, de 6ª a 5ª seguinte)

 ÓbitosInternadosInternados em UCI
8 a 14 de maio11763114
15 a 21 de maio13636104
24 de julho a 31 de julho340846
31 de julho a 6 de agosto238241
7 de agosto a 13 de agosto436335
14 de agosto a 21 de agosto333238

Nota: valores arredondados à unidade

Mito: as verificações de temperatura, feitas nalguns locais como aeroportos ou restaurantes, não são um teste à COVID-19. Detetam apenas se a pessoa tem febre, temperatura elevada, o que pode ser devido a várias causas. E há pessoas que têm COVID-19 sem terem febre. Por isso, são quando muito um sinal imperfeito sobre a COVID-19, permitindo apenas encontrar os casos suficientemente graves para terem febre. A sua facilidade e baixo custo de aplicação justificam que se use em locais de circulação em massa, mas sabendo-se que vão existir erros (pessoas não detetadas, e algumas com febre não terão COVID-19). Mais cedo ou mais tarde, estas verificações de temperatura serão provavelmente substituídas por testes com mais precisão.

Esperança da semana: a aprovação pelas autoridades americanas (FDA) de um teste para a presença da COVID-19, baseado na saliva, que custa cerca de 10 USD, segundo as estimativas que têm sido dadas, e que não exige nenhum produto ou processo difícil de obter. Este teste foi desenvolvido pela Yale School of Public Health, e promete dar um resultado em pouco tempo (menos de três horas, segundo as notícias que saíram). Embora já existam outros testes baseados em saliva, este tem a vantagem de usar materiais que existem com abundância (e logo de muito mais baixo custo). Um teste rápido e barato permite testar muito mais e com isso fazer uma identificação mais rápida de quem está doente, para ser separado e tratado. Mesmo sem termos uma vacina, um teste destes pode fazer muito para se retomar uma maior normalidade na vida diária. Se conseguirem baixar o tempo de realização do teste para 15 ou 20 minutos, pode-se passar a fazer testes antes de sair para a escola ou para o trabalho, antes de ir a um filme ou teatro ou fazer uma viagem. Permite testar as pessoas antes de um concerto ou de uma reunião de trabalho. Será um passo importante para um novo normal mais próximo do antigo normal do que a vida que experimentamos nos últimos meses.

Autor: Pedro Pita Barros, professor na Nova SBE

Professor de Economia da Universidade Nova de Lisboa

One thought on “Gabinete de Crise, Rádio Observador, a vacina que veio (?) do frio

  1. Muito interessante o jogo político; a UE de qualquer forma a sair a ganhar, ao conseguir uma intervenção conjunta para garantir o futuro acesso à vacinação em massa dos cidadãos deste espaço gelo-político

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