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gabinete de crise, radio observador – vivendo com o coronavirus (46)

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Depois de algum tempo de ausência, o habitual resumo da contribuição para o gabinete de crise na rádio observador, nesta semana sobre a preparação para o próximo Outono/Inverno. E logo depois os resumos das duas semanas anteriores a esta.

Semana terminada a 24 de Julho.

Número da semana: 30% – queda no número de casos da semana passada para esta semana. Seja em Lisboa seja no resto do país, esta última semana esteve finalmente associada a uma redução importante nos novos casos. Aliás, nesta última semana todos os indicadores habituais evoluíram de forma positiva – baixou, pela segunda semana seguida, o número médio por dia de novos casos diários em Lisboa, e no total do país, baixou o número internados e o número de óbitos. Tal como tivemos um planalto com uma ligeira inclinação positiva até à semana passada, parece que vamos passar para um planalto com uma ligeira inclinação negativa. Tendo-se começado a receber turistas, aberta a fronteira com Espanha, e entrada em período de férias, veremos se é possível manter esta situação, que é a evolução desejada.

Estamos a ver noutros países europeus a dificuldade em controlar surtos, e embora não haja grande informação sobre como se está a fazer o trabalho de seguir as linhas de transmissão da doença nos vários locais desses países, o dito “planalto” em Portugal parece estar a comportar-se melhor (no sentido de menos “saltos bruscos” para cima) quando comparamos com outros países.

Um outro sinal positivo desta semana foi começar-se a falar da preparação do Outono. Para essa preparação funcionar, há quatro aspetos essenciais (pelo menos quatro): 1) o treino e número suficiente de médicos de saúde pública para reagirem rapidamente ao surgimento de surtos (e contê-los antes que avancem); 2) a preparação dos médicos de família, se mais de 97% dos casos foram seguidos e acompanhados pelos médicos de família nesta primeira vaga da epidemia, é de esperar que algo de similar suceda no Outono se houver um aumento de casos – saber aprender da experiência destes últimos meses para fazer ainda melhor se houver segunda vaga; 3) preparação dos hospitais para terem “dupla face” – covid-19 e todas as outras coisas; 4) preparação da população – com informação segura sobre as ações que serão tomadas pelas autoridades de saúde em casos detetados de contágio, de forma a que seja claro e rápido o entendimento das pessoas, e que estas próprias possam antecipar o que pode suceder e até adotar comportamentos e decisões que evitem os piores efeitos da pandemia. 

Média de novos casos diários por semana (semana “Gabinete de crise”, de 6ª a 5ª seguinte)

 Lisboa e Vale do TejoResto do PaísTotal nacional
8 a 14 de maio119110229
15 a 21 de maio15969228
22 a 28 de maio20635241
29 maio a 4 junho25926285
5 de junho a 11 de junho28942331
12 de junho a 18 de junho25952311
19 de junho a 25 de junho25775332
26 de junho a 2 de julho28768355
3 de julho a 9 de julho28781368
10 de julho a 17 de julho25572327
18 de julho a 23 de julho18447231

Nota: valores arredondados à unidade

Média de valores diários por semana (semana “Gabinete de crise”, de 6ª a 5ª seguinte)

 ÓbitosInternadosInternados em UCI
8 a 14 de maio11763114
15 a 21 de maio13636104
22 a 28 de maio1353373
29 maio a 4 junho1247061
5 de junho a 11 de junho740462
12 de junho a 18 de junho342772
19 de junho a 25 de junho442670
26 de junho a 2 de julho547873
3 de julho a 9 de julho850173
10 de julho a 17 de julho546967
18 de julho a 23 de julho444362

Nota: valores arredondados à unidade

Mito: O vírus vai desaparecer um dia destes? Não. É um mito associado sobretudo declarações do Presidente dos Estados Unidos, mas o conhecimento que temos ganho sobre o vírus revela duas coisas: é muito fácil ser transmitido; e tem um leque muito grande de gravidade nas suas consequências, desde quem não tem qualquer sintoma nem nota que teve a doença até ser letal. Estas duas características vão fazer com que venha a ser muito difícil eliminar completamente o vírus no futuro, e certamente não vai desaparecer por si só. Esperança da semana: começou-se a falar da preparação do próximo Inverno, pelo Ministério da Saúde mas também fora dele. A preparação do primeiro impacto, em março 2020, com base no que estava a acontecer noutros países, foi parte importante do sucesso de Portugal com o primeiro embate da transmissão do vírus. Por isso, ter-se sentido a necessidade de começar a falar nesta preparação é um passo importante para que se consiga passar melhor pelos períodos mais críticos (que ainda não vão ser a tempo de ter uma vacina). E fazer esta preparação sem alarmismo, com preocupação atenta (uma expressão que já usamos aqui no gabinete de crise no passado).

Gabinete de crise na rádio observador – semana terminada a 17 de julho

Número da semana: 76% – proporção de pessoas que num inquérito em 6 países europeus no início de Junho declarou confiar na OMS, valor que era 81% dois meses antes, nas primeiras semanas de Abril de 2020.

A confiança nos governos nacionais caiu de 81% para 75%, e curiosamente a confiança na União Europeia manteve-se nos 62% (e foi sempre mais baixa)z<<<. E foi um movimento comum a todos os países europeus. Uma certa quebra de confiança nas instituições, para a qual se tem que procurar alguma forma de retomar, uma vez que iremos continuar a precisar de liderança reconhecida como credível durante ainda meses. 

São efeitos ainda pequenos e seria bom que não se confirmasse esta tendência.

A evolução desta semana teve uma melhoria face à semana passada – baixou o número médio de casos diários quer em Lisboa quer no resto do país. A revisão dos valores que houve significa também que tinha piorado mais antes do que estava refletido nos valores, mas em termos de média semanal de casos diários, essa correção não altera o sentimento geral de uma “rampazinha” com inclinação positiva, pequena mas que tem estado persistente desde o inicio do processo de desconfinamento. Também os valores referentes aos internamentos e óbitos traduziram uma melhor semana. A tendência de alguma estabilização é partilhada por Itália e França, mas em Espanha houve um certo reacender de casos. 

O período que se aproxima, de férias para a maioria da população e até de algum turismo, trará os seus riscos, que teremos de manter controlados, como tem sido feito até aqui. 

Tem havido um notável espírito de cooperação na utilização das praias, no que era certamente uma preocupação não expressa das autoridades de saúde – não só apenas pelo risco de contágio (que se espera à partida ser pequeno – ar livre, vento, prática do distanciamento físico) mas talvez sobretudo pelo potencial de tensão social que pudesse criar. Não houve notícias de surtos centrados em praia. A gestão das idas à praia é um exemplo da utilização do sistema de semáforos, com apoio em meios eletrónicos (uma app) para passar a informação quase em tempo real.

Mito: as máscaras usadas em condições normais reduzem a capacidade de respirar e receber oxigénio? Não! Têm existido vários exemplos de “fake news” a dizerem que a utilização das máscaras pode criar problemas de saúde por cortar o oxigénio. É preciso ter a noção de que tal não é verdade, e que deve sempre procurar fontes de informação sérias quando há notícias “exageradas” seja no sentido positivo seja no sentido negativo. 

Esperança da semana: voltou-se a falar de vacinas na semana que passou, com os bons resultados de uma das vacinas que está a ser desenvolvida nos Estados Unidos. Por enquanto, a vacina foi apenas testada em 45 pessoas, dos 18 aos 55 anos, divididos em três grupos com doses diferentes. Tiveram alguns efeitos adversos mas criaram resposta de imunidade em todos os participantes. E os efeitos adversos não foram suficientemente fortes para interromper o ensaio.Não será ainda a tempo deste Inverno. Mas são progressos importantes. Há sempre o risco de mais tarde não se confirmarem estes bons resultados, mas felizmente por enquanto tem havido boas notícias.

Gabinete de crise na rádio observador – semana terminada em 10 de julho

Número da semana: 46% – percentagem de portugueses que desaprova a abertura de fronteiras (responderam no período 9 a 19 de junho, inquérito europeu da Nova SBE, em conjunto com a Universidade de Hamburgo, a Universidade Erasmus de Roterdão e Universidade Bocconi de Milão). Menos favoráveis, só os ingleses, com 47% a serem contra a abertura de fronteiras. Os mais favoráveis são os italianos, com 47% a favor de abrir, e 22% indiferentes, logo seguidos dos alemães e holandeses. A polarização em cada país é também muito diferente – as opiniões muito fortes a favor ou contra a abertura têm valores substancialmente distintos. Fortemente contra, o Reino Unido lidera com 21% das pessoas a dizer, logo seguido da França com 15%, em Portugal apenas 9%, e a Itália é onde há menos oposição forte (8%). Na aprovação forte, 13% na Alemanha, 9% no Reino Unido, França e Itália, 5% em Portugal, o país onde há menos apoio forte. Significa que a abertura de fronteiras, no espaço da União Europeia, está longe de ser um assunto pacífico. E que se economicamente levantou alguma discussão por causa do turismo, não é claro que a população portuguesa esteja assim tão fortemente apoiante dessa abertura: 35% contra, 46% a favor, 18% indiferentes. 

Mito da semana: Portugal hoje em dia é um destino turístico perigoso para os outros europeus. É falso, como argumenta com números o trabalho de Vasco Peixoto e Alexandre Abrantes, porque embora globalmente haja um número de casos novos por 100,000 habitantes mais elevado do que noutros países, a comparação direta só deste valor não traduz o risco efetivo de contágio para quem se desloque sobretudo no circuito turístico. As zonas com surtos e com medidas de restrição adicionais estão fora dos roteiros de turismo do sul do país e da Madeira e dão mais segurança que muitas zonas dos países de origem dos principais fluxos de turistas, nomeadamente os ingleses.

Esperança da semana: a informação, transmitida no que pode ter sido a última reunião no Infarmed, de que apesar do aumento global de casos, a situação nas zonas mais complicadas à volta de Lisboa, e que tiveram maiores restrições nas duas últimas semanas, estará a melhorar. Ainda não encontramos essa melhoria nos números globais, mas fica a esperança de que a informação destes peritos corresponda realmente a uma melhoria, com redução de casos de contágio.

Autor: Pedro Pita Barros, professor na Nova SBE

Professor de Economia da Universidade Nova de Lisboa

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