Momentos económicos… e não só

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tempo de ser mais exigente com os “estudos” – vivendo com o coronavirus (28)

1 Comentário

A pandemia da COVID-19 alterou atividades profissionais, um pouco por todo o lado. As universidades não foram excepção. Embora a parte de ensino seja a mais conhecida, também a investigação se alterou, não só nos processos como nos temas. De repente, passamos a ter um redirecionamento de todo o pensamento e análise para temas de COVID-19. Na parte ligada às ciências da vida, com a motivação de encontrar uma solução, seja um tratamento (medicamento) seja uma vacina.

Mas também em muitas outras disciplinas isso sucedeu, com a procura de ideias para mecanismos, coletivos e individuais, que permitam lidar com a pandemia e as suas consequências, e com as consequências das consequências (ou seja, consequências das medidas adoptadas pelas autoridades públicas).

A necessidade de rapidez de reação tem ditado a produção de muitos documentos a partir das universidades e dos investigadores. Num primeiro momento, essa necessidade de rapidez teve, e até certo ponto ainda tem, primazia sobre tudo o que faz parte do processo de produção cientifica – em particular, generalizou-se a disponibilização de documentos, estudos, relatórios, etc., que sendo preliminares são frequentemente tomados como verdades definitivas por parte de quem os divulga (incluindo com alguma frequência os seus autores). Ora, o processo de produção cientifica é assente na replicação e avaliação por outros cientistas quanto à validade dos métodos usados e da capacidade desses métodos originarem resultados relevantes, e quanto à interpretação dos resultados.

A vontade de saltar etapas, seja para encontrar uma solução para algum problema criado pela pandemia seja para projeção pessoal, acabará por ter custos, expressos num primeiro momento por decisões erradas, e depois custos associados com as consequências dessas decisões.

O exemplo mais óbvio deste problema criado pela “pressa dos investigadores” foi o potencial da hidroxocloroquina como medicamento para tratar a COVID-19. A partir de um primeiro “estudo” criou-se uma onda a favor da sua utilização, que estudos (agora sem aspas) posteriores vieram desmentir, incluindo apontando efeitos adversos graves. Mas também encontramos essa tentação em quase todos os documentos que vão sendo disponibilizados na internet, onde a falta de verificação e avaliação leva frequentemente a conclusões que não é licito retirar, ou retirar implicações de políticas de saúde, políticas económicas ou outras que não é licito retirar. No contexto de incerteza global criada pela COVID-19, uma das “vitimas” tem sido a capacidade critica.

É por isso necessário reintroduzir um espirito critico, não pela vontade de destruir o trabalho de outros, mas sim como forma de dar passos sérios no conhecimento e melhorar os processos de decisão associados com as respostas à COVID-19.

Esta reflexão foi motivada, no imediato, pelas informações que têm saído, em Portugal e noutros países, sobre os resultados de testes para saber quantas pessoas terão tido já contacto com a COVID-19 e possam estar com algum tipo de imunidade. Exemplos, nacionais e internacionais, são a) testes feitos em localidades onde houve grande número de casos – não se pode extrapolar para a população como um todo; b) testes feitos a grupos profissionais que estiveram e estão particularmente expostos; c) testes feitos a pessoas que por terem tido, ou terem presentemente, sintomas procuram saber se estão ou estiveram infectadas com COVID-19 – há um efeito de seleção, e mais uma vez não se pode inferir para a população; d) utilização de amostras muito particulares como sendo representativas da população; etc.

Noutros casos, documenta-se com dados recentes, procurando tirar conclusões que esses dados não podem realmente dar. Uma vez mais a preocupação com reduzir a incerteza prevalece sobre os cuidados a ter na interpretação. Claro que toda a informação que é recolhida é útil, mas manter um sentido critico na sua utilização tem que voltar a estar no papel das universidades e dos seus investigadores.

E para os “consumidores” de informação é essencial que procurem perceber melhor o que realmente se pode concluir de cada documento. Sobretudo evitar olhar apenas para os resultados ou os “estudos” que mais estão de acordo ou que confirmam o que cada um gostaria que fosse a realidade.

Deixo aqui várias sugestões de leituras, no site da Associação Portuguesa de Economia da Saúde dedicado à COVID-19, que chamam a atenção para a necessidade de maior rigor no que é feito e na forma como é lido o que é feito:

Manuel Gomes, Problemas de seleção amostral e o impacto na caracterização da COVID-19 – e como o célebre modelo do Imperial College também é afectado por este problema

Luis Silva Miguel, COVID-19, números, hipóteses e a sua interpretação, sobre como as hipóteses usadas mudam a “realidade” (ou pelo menos a forma como se transmite o que se pensa ser a realidade)

Rita Santos, COVID-19 e o triângulo dos números: casos suspeitos, confirmados e mortalidade

Pedro Pita Barros, A “batalha” dos números– e desde então (31 de março) só cresceu a minha necessidade de verificação, replicação, discussão de hipóteses das várias análises.

 

Autor: Pedro Pita Barros, professor na Nova SBE

Professor de Economia da Universidade Nova de Lisboa

One thought on “tempo de ser mais exigente com os “estudos” – vivendo com o coronavirus (28)

  1. nice article, Pedro! (with a little help from Google translate)…it was not planned, but we have a blog in AES that argues very similar things! And I agree, we need to be “exigente” with the evidence…

    http://www.aes.es/blog/2020/05/16/la-volatilidad-del-conocimiento-cientifico-en-tiempos-de-la-covid-19/

    Gostar

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