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Relatório da Primavera 2012 (11)

8 comentários

Sobre as questões de acesso, o relatório de primavera há um conjunto de observações relevantes, produzidas segundo se percebe de acordo com informação reunida de várias fontes. Faltou contudo uma discussão da sua representatividade, essencial para generalizar, bem como de explicações alternativas para as observações.

Não basta em geral dizer que determinada observação é consistente com a interpretação que o autor ache mais adequada, sempre que possível é necessário despistar outras interpretações que sejam igualmente possíveis e razoáveis.

Por exemplo, intui-se da forma como o texto do relatório de primavera está escrito que a redução no número de consultas é uma perda de acesso. Mas noutro ponto do relatório foi dito que a literacia em saúde é relevante para a boa utilização do sistema de saúde, e que essa literacia é baixa (segundo a opinião do OPSS), pelo que não haverá uma boa utilização do sistema de saúde. Se parte das falhas de utilização do serviço nacional de saúde por falta de literacia em saúde for o recurso excessivo a consultas, então a redução de consultas não seria necessariamente um mau sinal para o serviço nacional de saúde. Não estou a afirmar que esta explicação alternativa é a verdadeira, apenas que deverá haver o cuidado suficiente para discriminar entre as alternativas de interpretação, o que não foi feito.

De modo similar, a mera referência a pessoas que não aviam completamente as receitas nas farmácias pode reflectir um problema mas não necessariamente um agravar desse problema – e aqui bastaria ir comparar os resultados obtidos no inquérito realizado com os resultados passados que se encontram publicados em trabalhos de Manuel Villaverde Cabral e Pedro Alcantara da Silva.

Estes cuidados metodológicos reforçariam a argumentação apresentada.

De evitar apenas o recurso a informação jornalística que pode ser imprecisa, mais facilmente manipulável pelas fontes e frequentemente baseada em poucas observações (por exemplo, uma corporação de bombeiros pode dizer que não transporta doentes por falta de verba e que está à beira da ruptura financeira, e que isso prejudica fortemente os idosos da sua localidade, que dificilmente o jornalista terá capacidade de verificar as contas da associação de bombeiros, ou fazer uma avaliação da actividade de transportes realizada). Uma vez mais não significa que as conclusões retiradas sejam erradas, não são é fiáveis dada a base de informação usada.

Sendo plausível que as actuais circunstâncias levem a maiores dificuldades de acesso a cuidados de saúde, não é lícito recolher informação dispersa e desorganizada apenas porque é consistente com essa visão.

Autor: Pedro Pita Barros, professor na Nova SBE

Professor de Economia da Universidade Nova de Lisboa

8 thoughts on “Relatório da Primavera 2012 (11)

  1. Até que enfim que se aborda o rigor jornalistico no tratamento de assuntos de saude, porque algumas peças jornalisticas são verdadeiros mitos urbanos ou liçoes de senso comum…

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  2. Caro Duarte Nuno,
    não é apenas uma questão de rigor jornalístico. É sobretudo uma questão de utilização da informação jornalística. A notícia de jornal baseia-se na lógica de excepcionalidade – é notícia o que é diferente, não o que é a norma. As decisões dos agentes políticos devem basear-se nas regularidades e não nas excepções. A lógica é por isso completamente diferente. Daí que seja potencialmente enganador passar da excepção que faz a notícia para a regularidade que deveria informar a decisão.

    Claro que pode suceder que a notícia chame a atenção para uma regularidade que ainda não tivesse sido evidenciada. E não podemos excluir que em alguns casos assim seja. Mas há que ter um cuidado de verificação da regularidade subjacente face a uma qualquer notícia no jornal.

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  3. Notícia é a quebra de padrão. Representa o que é novo (aconteceu agora ou soube-se agora), que é importante e que é próximo.
    O Observatório Português dos Sistemas de Saúde tem a chamada “boa imprensa”. Quero com isto dizer que beneficia de uma cobertura forte e relevante com um marcador positivo do seu trabalho.
    E porque acontece isto?
    Primeiro porque o jornalismo faz-se com recurso a fontes. E o Observatório é constituido por fontes muito importantes. Pessoas que sabem, que interpretam, expicam e até prevêem o curso da saúde em Portugal.
    Não preciso de explicar que alguém como o Professor Constantino Sakelarides tem uma aura e um valor iconográfico vital para o jornalismo moderno.
    Mais um comentário: as notícias são retratos perceptivos da realidade. Não são a realidade ela própria. As notícias não são um acto científico. São uma espécie de rumor público. Uma discussão. Um palco.
    Nesse palco entram todos: cientistas, políticos, pessoas, comuns, opinião pública.
    Finalmente: O observatório aponta um foco de luz às zonas que os “poderes” tentam esconder ou disfarçar.

    NOTA: Sou jornalista especializado em saúde e fiz notícia de todos os relatórios do observatório da saúde desde o seu inicio.

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  4. Pedro
    Não há nada de novo nestes tema.Se me permites o desabafo.Convem é que chamadas de atenção como as que fizeste se repitam.
    A ileteracia em Saúde (como de resto noutros temas especializados como é o caso do Sistema Financeiro…) de muitos meios de comunicação social (isto é, alguns dos seus actores).é conhecida e não só entre nós.A par do que se passa entre autarcas e outros stakeholders do tema, para além do comum cidadão “que está ou pode ficar doente”
    Mas em Portugal, com as singularidades do fenómeno do eco, uma primeira página de um diário sobre saúde, tem pelo menos o mérito de provocar a discussão entre muita “elite de leitura de contracapas de livros”.sobre o que afinal é mais verdade do que grito histérico.
    Do teu post, e da leitura do livro do Pedro Alcantara e Silva (bem elaborado) cruzada com o comentário adequado do Jorge Correia, deveria surgir no observatório da próxima Primavera, um capitulo sobre o tema. e com o titulo:o que se diz e escreve sobre saúde face às evidencias dos estudos empiricos que foram feitos.
    🙂
    Abraço Saudável
    Francisco

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